{"id":652,"date":"2013-10-30T20:57:12","date_gmt":"2013-10-30T23:57:12","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=652"},"modified":"2017-11-02T14:08:17","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:17","slug":"branca-de-neve-no-seculo-xliv","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/10\/branca-de-neve-no-seculo-xliv\/","title":{"rendered":"Branca de Neve no S\u00e9culo XLIV"},"content":{"rendered":"<p><em>Meu nome ser\u00e1 &#8220;Leon&#8221;. N\u00e3o lhe darei outro. Mais detalhes n\u00e3o importam. O que j\u00e1 vou lhe contar ser\u00e1 suficiente para me causar problemas demais na vida.<\/p>\n<p>De qualquer forma, n\u00e3o \u00e9 muito importante saber quem eu sou. Saiba apenas que eu sou um estudioso de l\u00ednguas antigas. Esta especialidade me levou a trabalhar no Projeto. Precisavam de algu\u00e9m que fosse capaz de interagir com os reanimados.<\/p>\n<p>Formei-me em L\u00ednguas Mortas na Universidade #2, no Continente Ocidental. \u00c9 uma profiss\u00e3o sem prest\u00edgio. L\u00ednguas mortas n\u00e3o s\u00e3o chamadas assim por uma boa raz\u00e3o: n\u00e3o temos mais utilidade para elas neste mundo e a raz\u00e3o de seu estudo \u00e9 puramente acad\u00eamica. Todos os livros antigos est\u00e3o traduzidos para a l\u00edngua moderna e n\u00e3o temos esperan\u00e7a de captar radiotransmiss\u00f5es. Foi ent\u00e3o que surgiu o Projeto e subitamente os professores de L\u00ednguas Mortas se tornaram \u00fateis \u00e0 ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Por isso eu estava l\u00e1 quando voc\u00ea despertou.<\/p>\n<p>Voc\u00ea foi o primeiro caso bem sucedido. Hav\u00edamos perdido tr\u00eas indiv\u00edduos antes por n\u00e3o entendermos corretamente as instru\u00e7\u00f5es. Sua l\u00edngua estava em um est\u00e1gio posterior ao que temos documentado.<\/p>\n<p>No come\u00e7o n\u00e3o sab\u00edamos o que fazer com voc\u00ea. Na verdade, nem os pr\u00f3prios idealizadores do projeto tinham uma finalidade em mente. Fizemos o que fizemos pelo puro e simples interesse cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Mas quer\u00edamos entend\u00ea-la, n\u00e3o quer\u00edamos contamin\u00e1-la com nossas ideias e conceitos. Foi por isso que a mantivemos isolada tanto tempo. Perdoe-me por isso. Se a tiv\u00e9ssemos instru\u00eddo em nossos costumes desde o in\u00edcio, hoje voc\u00ea saberia como sobreviver nas adversidades.<\/em><\/p>\n<div style=\"text-align: right; font-style: italic\">Da &#8220;Autobiografia&#8221; de Leon Lages, PhD, CSV e MPP:<\/div>\n<p><center>***<\/center><\/p>\n<p>\u2014 Com quem ele estava falando?<\/p>\n<p>\u2014 Ora, voc\u00eas j\u00e1 sabem.<\/p>\n<p>\u2014 Conte de novo a hist\u00f3ria, papai.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem, mas depois voc\u00eas duas fa\u00e7am o favor de sossegarem porque a noite j\u00e1 \u00e9 velha e precisam dormir.<\/p>\n<p><center>***<\/center><\/p>\n<p>Minutos antes, &#8220;Leon&#8221; assistira a desconhecida comer avidamente os nacos da ra\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Muito, muito obrigado, meu pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>Encarou-a obliquamente, como se n\u00e3o conhecesse o sentido da frase. Mas logo se lembrou e deu a resposta que deveria ser a adequada.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 de que.<\/p>\n<p>\u2014 Qual \u00e9 o seu nome, meu pr\u00edncipe?<\/p>\n<p>Cobriu a etiqueta no uniforme em um gesto reflexo, mas logo recordou que a desconhecida n\u00e3o saberia ler os caracteres modernos.<\/p>\n<p>\u2014 Meu nome ser\u00e1 Leon.<\/p>\n<p>Ela pareceu compreender o significado da frase:<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem, &#8220;Leon&#8221;. Estou em suas m\u00e3os. Dependo de voc\u00ea at\u00e9 mesmo para o de comer. Quanto tempo permanecerei assim?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>\u2014 Precisa pensar nisso. N\u00e3o pode me manter aqui para sempre.<\/p>\n<p>\u2014 Trouxe muita comida, \u00e1gua, armas para autodefesa, roupas limpas, alguns produtos de higiene. Voc\u00ea n\u00e3o depender\u00e1 de minha vinda di\u00e1ria. Esta caverna \u00e9 segura.<\/p>\n<p>\u2014 Trouxe-me comida que eu nem sei desembalar, armas que eu nem sei segurar, produtos de higiene que n\u00e3o sei usar. Esses objetos n\u00e3o t\u00eam significado para mim. Precisa me ensinar.<\/p>\n<p>&#8220;Leon&#8221; se lembrou, ent\u00e3o, do quanto lhe era dif\u00edcil ensinar qualquer coisa a algu\u00e9m. Crian\u00e7a, gostaria de ser professor quando crescesse. Crescido, dedicara duas d\u00e9cadas de estudos para se livrar da obriga\u00e7\u00e3o de lecionar. Mas tinha de tentar. Como dizia o velho livro, &#8220;tu te tornas eternamente respons\u00e1vel por aquele que cativas&#8221;. Tinha trazido a desconhecida \u00e0quele lugar, tornara-a sua cativa, mais do que a cativara. Era respons\u00e1vel por ela, n\u00e3o podia deixar que morresse.<\/p>\n<p>\u2014 Esta \u00e9 uma embalagem de ra\u00e7\u00e3o integral. O gosto n\u00e3o \u00e9 bom, mas ela cont\u00e9m todos os nutrientes. Cada envelope fornece 110% dos valores m\u00ednimos di\u00e1rios para um adulto do sexo feminino com um metro e oitenta de altura. Preferi trazer uma caixa disso do que ocupar espa\u00e7o com comida in\u00fatil. Abre-se assim.<\/p>\n<p>Ele fez o gesto, mas n\u00e3o abriu mesmo a embalagem. N\u00e3o queria estragar um envelope. Mas ela, esfaimada ainda, imitou sua indica\u00e7\u00e3o e conseguiu rasgar o lacre inviol\u00e1vel.<\/p>\n<p>A desconhecida ent\u00e3o pegou a arma.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! Est\u00e1 ao contr\u00e1rio. Assim atirar\u00e1 no pr\u00f3prio rosto!<\/p>\n<p>Ela mirou num cacto e atirou. Acertou uma pedra que estava meio metro \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>\u2014 Preciso praticar. Nunca fui boa nisso.<\/p>\n<p>\u2014 A arma recarrega com energia solar. Uma hora de carga para obter dez disparos. \u00c9 um laser fraco, mas suficiente para matar pequenos animais. Pode ser \u00fatil para ca\u00e7ar.<\/p>\n<p>A imagem mental da desconhecida matando um pequeno animal e devorando-o parecia de um primitivismo asqueroso. Mas at\u00e9 os mais civilizados cidad\u00e3os sabiam que, em certos tipos de emerg\u00eancias, era uma forma adequada de obter os nutrientes essenciais.<\/p>\n<p>\u2014 O fio dental eu conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>Depois de ensinar a desconhecida a usar o resto do conjunto de primeiros socorros e higiene pessoal, &#8220;Leon&#8221; completou as \u00faltimas instru\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o saia ao sol quando a estrela azul estiver vis\u00edvel. Vou tentar conseguir para voc\u00ea um traje diurno, mas mesmo quando o tiver, use-o somente para pequenas caminhadas, quando for muito necess\u00e1rio. Mantenha-se nas sombras, mova-se \u00e0 noite. O sol laranja, uma an\u00e3 vermelha, estar\u00e1 sempre vis\u00edvel no c\u00e9u neste hemisf\u00e9rio. Ele oferece ilumina\u00e7\u00e3o suficiente. N\u00e3o h\u00e1 perigo: estamos numa zona desabitada e semides\u00e9rtica.<\/p>\n<p>\u2014 Nenhum animal pe\u00e7onhento?<\/p>\n<p>\u2014 Poucos. Preocupe-se mais com as plantas. Use as botas.<\/p>\n<p>&#8220;Leon&#8221; ent\u00e3o come\u00e7ou a colocar o capacete. A desconhecida o pegou pelo bra\u00e7o, como se tentasse impedir sua partida:<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, n\u00e3o v\u00e1 ainda. H\u00e1 tanta coisa que eu quero saber. De voc\u00ea, de mim, deste lugar onde estamos.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho pouco tempo. Preciso chegar ao alojamento comunit\u00e1rio antes da ceia coletiva.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto tempo?<\/p>\n<p>\u2014 O sol azul vir\u00e1 nascer\u00e1 para voc\u00ea dentro de seis horas. Quanto isto acontecer ser\u00e3o setenta e seis horas em Lospar. A viagem dura tr\u00eas horas, o que significa que tenho menos de tr\u00eas horas para chegar \u00e0 cidade e cumprir todas as obriga\u00e7\u00f5es antes da ceia.<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00eas horas s\u00e3o mais que suficientes para um banho, uma muda de roupa e uma consulta ao notici\u00e1rio. Ent\u00e3o voc\u00ea pode gastar meia hora comigo e me explicar alguma coisa. Desde quando voc\u00ea me deixou aqui, fiquei sozinha e sem nenhuma no\u00e7\u00e3o de nada. Voc\u00ea poderia pelo menos me explicar\u2026<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso \u2014 interrompeu ele. N\u00e3o posso revelar\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem \u2014 disse a desconhecida.<\/p>\n<p>Mas disse-o com um olhar daqueles que &#8220;Leon&#8221; nunca vira em mulher alguma de Lospar. Um olhar positivamente irracional, e lindo. Por fim ele suspirou e admitiu:<\/p>\n<p>\u2014 Creio que posso lhe dizer alguma coisa. O que quer saber?<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 voc\u00ea? Onde estou? Por que voc\u00ea me tirou daquele lugar? O que vai acontecer comigo?<\/p>\n<p>&#8220;Leon&#8221; suspirou. Lembrou-se<\/p>\n<p>\u2014 Leon. Me diga. Com sinceridade: iam me matar?<\/p>\n<p>\u2014 Houve um momento em que esta decis\u00e3o chegou a ser tomada. Foi quando todos ficaram muito assustados com as rea\u00e7\u00f5es do quinto indiv\u00edduo. Ele tamb\u00e9m parecia d\u00f3cil no come\u00e7o. Mas, logo que teve oportunidade, desarmou um guarda e come\u00e7ou a atirar em tudo o que via. Revimos a filmagem muitas vezes, depois que a seguran\u00e7a o executou. Conseguimos traduzir o que dizia, e isso nos preocupou.<\/p>\n<p>\u2014 Mas mudaram a decis\u00e3o, ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Racionalmente falando, matar algu\u00e9m por causa de atos que pode vir a cometer \u00e9 injustific\u00e1vel. O indiv\u00edduo n\u00famero cinco foi morto em leg\u00edtima defesa, porque uma abordagem n\u00e3o violenta permitiria que ele matasse mais de n\u00f3s. Mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa matar\u2026 algu\u00e9m como voc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 mais racional fazer com algu\u00e9m como eu?<\/p>\n<p>&#8220;Leon&#8221; pensou, envergonhado, que o plano alternativo fora o de n\u00e3o reanimar nenhum dos ainda suspensos, mantendo-os assim pelos s\u00e9culos afora. Quanto tempo durariam os sarc\u00f3fagos? Quanto tempo teriam durado at\u00e9 ent\u00e3o? O espa\u00e7o \u00e9 t\u00e3o incompreens\u00edvel!<\/p>\n<p>Mas que realmente envergonhava &#8220;Leon&#8221; era pensar que a alternativa para o \u00fanico indiv\u00edduo reanimado e vivo seria tentar recoloc\u00e1-lo em anima\u00e7\u00e3o suspensa.<\/p>\n<p>\u2014 Queriam mant\u00ea-la presa para sempre.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 mentindo, &#8220;Leon&#8221;. Mas n\u00e3o precisa me contar a verdade, se acha que n\u00e3o deve.<\/p>\n<p>\u2014 Eu lhe tirei daquela pris\u00e3o, e a trouxe para o deserto, onde poder\u00e1 ser livre.<\/p>\n<p>\u2014 Por quanto tempo, meu pr\u00edncipe? Por quanto tempo?<\/p>\n<p>\u2014 Se voc\u00ea e eu formos espertos, por muito tempo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vir\u00e3o atr\u00e1s de n\u00f3s?<\/p>\n<p>\u2014 Dif\u00edcil. Ningu\u00e9m se aventura no deserto. Temem o brilho da estrela laranja. Ele pode ser letal. Por isso\u2026<\/p>\n<p>A frase de &#8220;Leon&#8221; foi interrompida pelo assobio fino de uma propuls\u00e3o i\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u2014 Algu\u00e9m veio, meu pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>&#8220;Leon&#8221; ficou paralisado pelo terror. Contrariamente \u00e0s suas expectativas a fuga n\u00e3o fora percebida como algo sem import\u00e2ncia. Algu\u00e9m se importara o suficiente para vir atr\u00e1s dele.<\/p>\n<p>\u2014 O que vamos fazer? Este \u00e9 o seu mundo. Aqui eu n\u00e3o sei nem escovar os meus dentes.<\/p>\n<p>Mas ele sabia ainda menos. Nunca em toda a sua vida estivera diante da possibilidade real de ser preso. Nunca cometera qualquer ato irracional. Mesmo quando dera fuga \u00e0 desconhecida ele conseguira uma justificativa perfeitamente aceit\u00e1vel em um interrogat\u00f3rio: fora tomada uma decis\u00e3o precipitada, sem o devido consenso cient\u00edfico, e o cumprimento da ordem dada amea\u00e7aria a continuidade das pesquisas. O medo ao desconhecido \u00e9 irracional. Sua coragem, mesmo transgressora, fora um ato perfeitamente racional.<\/p>\n<p>Repetia-se mentalmente esta afirma\u00e7\u00e3o, apesar do estranho aperto no peito, uma dor, uma afli\u00e7\u00e3o sem nome.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o acha que dev\u00edamos fugir?<\/p>\n<p>Fugir? Fugir para onde? Para ainda mais longe deserto adentro, expondo-a mais ainda \u00e0s radia\u00e7\u00f5es nocivas da an\u00e3 vermelha? Levando-a para mais longe de seu alcance?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Devem ter visto a motojato.<\/p>\n<p>O assobio da propuls\u00e3o n\u00e3o se afastou. Permaneceu pr\u00f3ximo durante algumas dezenas de segundos e ent\u00e3o come\u00e7ou a morrer. Haviam desligado o ve\u00edculo. Haviam parado.<\/p>\n<p>A desconhecida o agarrou pelo bra\u00e7o:<\/p>\n<p>\u2014 Vamos sair daqui!<\/p>\n<p>Arrastou-o caverna adentro enquanto ele parecia desligado da realidade.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o adianta.<\/p>\n<p>\u2014 Adianta muito menos ficar \u00e0 espera de que nos peguem.<\/p>\n<p>A caverna tinha um declive impercept\u00edvel, devia ser imensamente profunda e longa. Havia lugar suficiente para esconder um ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>A desabalada corrida foi interrompida por um trope\u00e7\u00e3o no escuro. Ca\u00edram os dois estatelados contra um ch\u00e3o empoeirado.<\/p>\n<p>Quando seus olhos se acostumaram \u00e0 escurid\u00e3o, a desconhecida percebeu que no imenso sal\u00e3o em que se encontravam, as paredes eram cortadas na rocha em tra\u00e7os retos, e imensas pilhas de caixas se estendiam a perder de vista.<\/p>\n<p>\u2014 Que lugar \u00e9 este, meu pr\u00edncipe?<\/p>\n<p>Ainda esfregando a canela, onde haveria em breve um rox\u00edssimo hematoma, &#8220;Leon&#8221; ergueu os olhos e nada viu. S\u00e9culos acostumados \u00e0 proximidade de um astro t\u00e3o luminoso como a estrela azul haviam incapacitado seu povo para a vis\u00e3o noturna. Mas a desconhecida conseguia divisar perfeitamente as formas, mesmo n\u00e3o enxergando cores nem detalhes.<\/p>\n<p>\u2014 Parece um tipo de dep\u00f3sito. Voc\u00ea poderia me dizer o que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8220;Dep\u00f3sito, dep\u00f3sito&#8221;. &#8220;Leon&#8221; tentava puxar da mem\u00f3ria alguma informa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tinha conhecimento de que jamais tivessem existido dep\u00f3sitos no hemisf\u00e9rio interno.<\/p>\n<p>Ao tentar se levantar, percebeu fachos de luz que se aproximavam, vindos da mesma dire\u00e7\u00e3o de onde haviam fugido. Como n\u00e3o conseguia enxergar na escurid\u00e3o, n\u00e3o tinha como saber se havia um caminho ainda. Sentia-se acuado. Haviam sido pegos.<\/p>\n<p>Logo um facho acertou-o no olho, trazendo a doce sensa\u00e7\u00e3o de uma tarde luminosa. A desconhecida, por\u00e9m, tentou proteger os olhos. Eram cinco lanternas. Uma voz calma articulou uma frase de gram\u00e1tica rigorosamente correta, mas marcada pelo estilo seco dos burocratas de mais alto escal\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fujam. N\u00e3o h\u00e1 para onde. Venham. N\u00e3o h\u00e1 porque temer.<\/p>\n<p>&#8220;Leon&#8221; obedeceu instintivamente, pondo-se de p\u00e9. A desconhecida ainda tentou resistir, mas assustou-se com um ru\u00eddo met\u00e1lico qualquer e fez uma pose de rendi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos portadores de lanternas afastou-se do grupo, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda, e acionou algum tipo de mecanismo. Logo uma luz macia e uniforme inundou o sal\u00e3o. Ficou ent\u00e3o evidente que aquele lugar n\u00e3o era mesmo uma caverna natural. E o que pareciam caixas eram, de fato, os intestinos de algum mecanismo gerador de energia solar, cuja antena deveria ter existido um dia acima da superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o &#8220;Leon&#8221; se lembrou dos prim\u00f3rdios da coloniza\u00e7\u00e3o, quando tais geradores primitivos haviam sido empregados para captar energia da an\u00e3 vermelha e direcionar para as primeiras cidades, fundadas bem pr\u00f3ximo da linha fixa do crep\u00fasculo, para baratear a transmiss\u00e3o. Aqueles geradores tinham estado desligados por pelo menos quatrocentos anos. Sua opera\u00e7\u00e3o se tornara antiecon\u00f4mica.<\/p>\n<p>Entre os cinco que o haviam seguido, &#8220;Leon&#8221; encontrou somente uma face familiar, a de seu superior imediato, Iair L.<\/p>\n<p>\u2014 O que est\u00e1 fazendo, Sr. Lages? Sua atitude nos parece t\u00e3o, t\u00e3o antiquada!<\/p>\n<p>O discurso de autodefesa foi instantaneamente ativado:<\/p>\n<p>\u2014 Minha a\u00e7\u00e3o foi totalmente de acordo com o interesse cient\u00edfico. N\u00e3o era racional expor o indiv\u00edduo Alice Marins a um procedimento que ainda n\u00e3o dominamos. Poder\u00edamos causar a sua perda, com grande preju\u00edzo para a obten\u00e7\u00e3o de conhecimento sobre suas origens e motiva\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Sabemos disso, Sr. Lages. A determina\u00e7\u00e3o de suspender o indiv\u00edduo Alice Marins j\u00e1 foi revertida. Inclusive o Coronel Lin M. j\u00e1 est\u00e1 sendo avaliado por esta decis\u00e3o. Aparentemente ele perdeu o controle de sua racionalidade e agiu motivado pelo puro medo ao desconhecido. Na verdade, o que nos intriga \u00e9 o seu envolvimento com o indiv\u00edduo reanimado.<\/p>\n<p>Nada desta conversa era compreendido por Alice, a desconhecida, que n\u00e3o sabia da l\u00edngua moderna mais do que algumas palavras e poucas frases rudimentares.<\/p>\n<p>\u2014 O que v\u00e3o fazer?<\/p>\n<p>\u2014 Volte conosco, Sr. Lages. N\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o de puni\u00e7\u00e3o para o seu ato. E a sua preocupa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com o indiv\u00edduo reanimado n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria. N\u00f3s o manteremos em seguran\u00e7a para estudos.<\/p>\n<p>\u2014 E eu tenho op\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Se preferir, podemos simplesmente dizer que n\u00e3o os encontramos no deserto e que provavelmente est\u00e3o mortos. Claro que esta op\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe permitir\u00e1 voltar periodicamente para comprar comida e rem\u00e9dios, ou ser\u00e3o descobertos.<\/p>\n<p>&#8220;Leon&#8221; deu de ombros, conformado, e tratou de convencer Alice de que n\u00e3o havia perigo. O que ele tratou de fazer na l\u00edngua antiga, que alguns de seus captores conheciam.<\/p>\n<p>\u2014 De qualquer forma, a alternativa \u00e9 ficar \u00e0 m\u00edngua no deserto. Temos de ir. Enfrentar as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Enquanto sa\u00edam da caverna, em passos lentos, como os de quem segue para um calv\u00e1rio, Alice teve uma ideia. Deixou que os homens de lanterna se distanciassem e interpelou &#8220;Leon&#8221; em uma l\u00edngua antiga pouco conhecida, mas que tinha uma vaga semelhan\u00e7a com o que ele chamava de &#8220;l\u00edngua moderna&#8221;:<\/p>\n<p>\u2014 Vi amas min?<\/p>\n<p>\u00c0 parte um voc\u00e1bulo desconhecido, a frase era gramaticalmente correta mesmo tantos s\u00e9culos depois. &#8220;Leon&#8221; a compreendeu. Inclusive compreendeu o conceito, usado t\u00e3o frequentemente para traduzir palavras de l\u00ednguas mortas.<\/p>\n<p>\u2014 Ni ne scias kio amo estas \u2014 ele respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Jes. Vi far.  \u011ci estas nur vorto por vi<\/p>\n<p>\u2014 Amo estas malracia.<\/p>\n<p>\u2014 \u0108io estas in ordo kum iom de malracieco.<\/p>\n<p>\u2014 Do diris la serpenton en Edeno.*<\/p>\n<p><center>***<\/center><\/p>\n<p>E o Dr. Leon Lages \u00e9 lembrado naquele busto com a metade branca e a metade vermelha. A metade branca comemora as grandes descobertas que ele possibilitou a respeito da velha Terra. Gra\u00e7as a ele que pudemos entender os Mensageiros da Morte e evitar que tivessem sucesso. A outra metade \u00e9 lembran\u00e7a consternada de ele ter sido o primeiro entre os habitantes de Nod a exibir estranhos comportamentos irracionais, que aos poucos se difundiram pela sociedade do planeta, corrompendo a juventude e causando indevidos questionamentos dos valores da a sociedade.<\/p>\n<p>\u2014 Quando crescer, papai, eu quero ser como o Dr. Leon.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o durma para crescer r\u00e1pido, minha filha.<\/p>\n<p><center>***<\/center><\/p>\n<p>Com as meninas ca\u00eddas no sono, o fazendeiro Lamir Lages suspirou contrariado. &#8220;A juventude est\u00e1 se perdendo\u2026&#8221; Mas o que esperar, se eles eram descendentes do pr\u00f3prio homem que trouxera a ru\u00edna aos valores comunit\u00e1rios?<\/p>\n<p>Lembrou-se de que os antigos valores n\u00e3o permitiriam que sua mulher levasse uma gravidez no ventre, nem que as crian\u00e7as nascidas fossem criadas daquela forma. Mas o mundo j\u00e1 n\u00e3o era t\u00e3o r\u00edgido, e em algumas pequenas cidades j\u00e1 era poss\u00edvel viver como os velhos livros diziam que fora na Terra de mil\u00eanios passados.<\/p>\n<p>&#8220;A juventude est\u00e1 se perdendo\u2026&#8221;<\/p>\n<p>E o velhor Lamir Lages foi se deitar ao lado da esposa, obedecendo a um ritual que n\u00e3o fazia sentido.<\/p>\n<div style=\"magin-top: 12ex; border-top: 1px solid black; font-style: oblique\">\n<p>* O di\u00e1logo reproduzido est\u00e1 em esperanto, e deveria poder ser traduzido mais ou menos assim:<\/p>\n<p>&mdash; Tu me amas?<\/p>\n<p>&mdash; Eu n\u00e3o sei o que \u00e9 amor<\/p>\n<p>&mdash; Sim. Eu sei. \u00c9 s\u00f3 uma palavra para voc\u00ea.<\/p>\n<p>&mdash; Amor \u00e9 irracional.<\/p>\n<p>&mdash; \u00c9 bom que haja um pouco de irracionalidade.<\/p>\n<p>&mdash; Assim disse a serpente do \u00c9den.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu nome ser\u00e1 &#8220;Leon&#8221;. N\u00e3o lhe darei outro. Mais detalhes n\u00e3o importam. O que j\u00e1 vou lhe contar ser\u00e1 suficiente para me causar problemas demais na vida. De qualquer forma, n\u00e3o \u00e9 muito importante saber quem eu sou. Saiba apenas que eu sou um estudioso de l\u00ednguas antigas. Esta especialidade me levou a trabalhar no Projeto. Precisavam de algu\u00e9m que fosse capaz de interagir com os reanimados. Formei-me em L\u00ednguas Mortas na Universidade #2, no Continente Ocidental. \u00c9 uma profiss\u00e3o sem prest\u00edgio. L\u00ednguas mortas n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[22,109,32],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/652"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=652"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/652\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4744,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/652\/revisions\/4744"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}