{"id":6588,"date":"2019-06-01T09:16:51","date_gmt":"2019-06-01T12:16:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6588"},"modified":"2020-08-23T16:45:36","modified_gmt":"2020-08-23T19:45:36","slug":"um-faroeste-farofeiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/06\/um-faroeste-farofeiro\/","title":{"rendered":"Um Faroeste Farofeiro"},"content":{"rendered":"\n<p>Francamente,  eu poderia escrever uma resposta inteira s\u00f3 a respeito de letras ruins da Legi\u00e3o  Urbana, um grupo que transformou a sua maior fraqueza (a l\u00edrica) na  suposta marca maior de sua qualidade (Renato Russo, \u201co poeta do rock\u201d). Poderei, se algum dia me pedirem, por hoje eu me limito a <em>Faroeste Caboclo<\/em>, o &#8220;hino&#8221; de uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sabia muito bem o que seria um hino.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" width=\"620\" height=\"465\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/faroestecaboclo2_620x465.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6589\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/faroestecaboclo2_620x465.jpg 620w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/faroestecaboclo2_620x465-120x90.jpg 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/faroestecaboclo2_620x465-250x188.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Eu poderia come\u00e7ar falando das rimas pobres, das estruturas sint\u00e1ticas for\u00e7adas a marteladas e  das constru\u00e7\u00f5es que n\u00e3o soam naturais, mas isso seria t\u00e9cnico demais. Meu objetivo aqui \u00e9 mais simples: explicar como nada  funciona, nada faz sentido e nada \u00e9 gratificante nesta letra absurda  que s\u00f3 consegue agradar a quem \u00e9 distra\u00eddo. Se voc\u00ea analisa a  letra, v\u00ea que ela n\u00e3o liga l\u00e9 com cr\u00e9 e se contradiz o tempo todo. Logo  no come\u00e7o a letra deixa claro que Jo\u00e3o de Santo Cristo nunca foi flor  que se devesse cheirar:<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Deixou pra tr\u00e1s todo o marasmo da fazenda<br \/>S\u00f3  pra sentir no seu sangue o \u00f3dio que Jesus lhe deu<br \/>Quando crian\u00e7a s\u00f3  pensava em ser bandido<br \/>Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai  morreu <br \/>Era o terror da sertania onde morava <br \/>E na escola at\u00e9 o  professor com ele aprendeu<br \/>Ia pra igreja s\u00f3 pra roubar o dinheiro<br \/>Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar<br \/>Sentia mesmo que era  mesmo diferente<br \/>Sentia que aquilo ali n\u00e3o era o seu lugar.<\/pre>\n\n\n\n<p>Com  esse tipo de comportamento e ainda mais por ser um predador sexual  precoce, Jo\u00e3o de Santo Cristo foi parar no \u00fanico lugar adequado para um  peste como esse: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Comia todas as menininhas da cidade<br \/>De tanto brincar  de m\u00e9dico, aos doze era professor<br \/>Aos quinze, foi mandado pro o  reformat\u00f3rio<br \/>Onde aumentou seu \u00f3dio diante de tanto terror.<\/pre>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea  at\u00e9 pode discutir se o reformat\u00f3rio teria sucesso em reform\u00e1-lo ou se a  melhor coisa a fazer com um psicopata juvenil \u00e9 mand\u00e1-lo para l\u00e1, mas  n\u00e3o pode negar que, no contexto da can\u00e7\u00e3o, Jo\u00e3o de Santo Cristo teve  exatamente o que mereceu. Mas  o letrista parece achar que Jo\u00e3o era um excelente rapaz, uma v\u00edtima  inocente da sociedade: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">N\u00e3o entendia como a vida funcionava <br \/>Discrimina\u00e7\u00e3o por causa da sua classe e sua cor.<\/pre>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, sua besta! A  discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o era nem racial e nem de classe \u2014 por mais que estas  tamb\u00e9m existam! Pelo pr\u00f3prio contexto da letra, \u00e9 mais prov\u00e1vel que pessoas evitavam Jo\u00e3o de Santo Cristo porque ele era  um predador sexual juvenil, cheio de \u00f3dio no cora\u00e7\u00e3o, que sonhava em ser  bandido, que era filho de um homem (possivelmente bandido) que tinha  sido morto pela pol\u00edcia, que j\u00e1 havia cometido viol\u00eancia contra o  professor na escola e que tinha um hist\u00f3rico de furtos contra a igreja  local. Com essa reputa\u00e7\u00e3o, Jo\u00e3o de Santo Cristo poderia ser louro como  um island\u00eas e ainda seria visto com horror. Com essa fama, por mais  que fosse de classe alta, as pessoas teriam medo dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a vida dele tem uma reviravolta necess\u00e1ria quando ele, por algum motivo, abandona sua cidadezinha e vai para Salvador. Quando  Jo\u00e3o de Santo Cristo chega a Salvador, ele n\u00e3o tinha a menor ideia de  onde ir. Foi parar em Bras\u00edlia por puro acaso: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">E encontrou um boiadeiro  com quem foi falar<br \/>E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a  viagem<br \/>Mas Jo\u00e3o foi lhe salvar\u201d. <\/pre>\n\n\n\n<p>Ou seja: um sujeito que ia perder o  \u00f4nibus lhe vendeu a passagem e assim o nosso her\u00f3i vai para Bras\u00edlia em  vez de qualquer outro lugar. <strong>Tome nota desta informa\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para  um sujeito que era cheio de \u00f3dio no cora\u00e7\u00e3o e que s\u00f3 pensava em ser  bandido, ver as luzes de Natal em Bras\u00edlia teve o curioso efeito de  convert\u00ea-lo em um jovem trabalhador:<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Meu Deus, mas que cidade linda<br \/>No Ano Novo eu come\u00e7o a trabalhar<br \/>Cortar madeira, aprendiz de  carpinteiro<br \/>Ganhava cem mil por m\u00eas em Taguatinga.<\/pre>\n\n\n\n<p>Coisa mais  estranha um rapaz com o hist\u00f3rico de Jo\u00e3o de Santo Cristo procurar e  achar trabalho t\u00e3o facilmente, ainda mais porque ele n\u00e3o tinha qualquer  forma\u00e7\u00e3o anterior. Aparentemente, em Taguatinga, tudo que voc\u00ea precisa  para conseguir uma vaga de aprendiz \u00e9 descer de um \u00f4nibus vindo de  Salvador com uma p\u00e9ssima reputa\u00e7\u00e3o nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o  somente Jo\u00e3o se converteu em \u201crapaz trabalhador\u201d (que a letra faz  quest\u00e3o de enfatizar) como deixa de \u201ccomer as menininhas\u201d e passa a  procurar as \u201cprimas\u201d: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Na sexta-feira ia pra zona da cidade<br \/>Gastar  todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador.<\/pre>\n\n\n\n<p>Aparentemente, Jo\u00e3o de Santo  Cristo n\u00e3o entendia muito bem como funciona o dinheiro, pois<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">At\u00e9 a  morte trabalhava<br \/>Mas o dinheiro n\u00e3o dava pra ele se alimentar. <\/pre>\n\n\n\n<p>Qualquer pessoa com intelig\u00eancia normal concluiria que se deixasse de  gastar \u201ctodo o seu dinheiro\u201d na \u201czona da cidade\u201d sobraria mais para a  alimenta\u00e7\u00e3o e outras necessidades. N\u00e3o o Jo\u00e3o \u2014 ou pelo menos n\u00e3o o  letrista \u201ctravado\u201d que escreveu essa can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Frequentando  um lugar t\u00e3o baixo moralmente, \u00e9 natural que ali Jo\u00e3o de Santo Cristo  s\u00f3 encontrasse boas refer\u00eancias, como o seu primo bastardo peruano que  vivia na Bol\u00edvia (gente, qual a chance de tal parentesco para um sujeito  pobre vindo de um cu-de-judas do interior da Bahia?). Gra\u00e7as a \u201cPablo\u201d o Jo\u00e3o  desiste de sua convers\u00e3o ao trabalho duro e resolve virar traficante de  drogas: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Elaborou mais uma vez seu plano santo<br \/>E sem ser crucificado, a  planta\u00e7\u00e3o foi come\u00e7ar<br \/>Logo logo os maluco da cidade souberam da  novidade<br \/>\"Tem bagulho bom ai!\"<\/pre>\n\n\n\n<p>Como\n Jo\u00e3o n\u00e3o era nenhum santo, \u201cficou rico e acabou com todos os \ntraficantes dali\u201d. Ou seja: aqui ele comete os seus primeiros \nassassinatos em uma disputa por pontos de venda de drogas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o o letrista se esquece de que Jo\u00e3o adolescente j\u00e1 roubava a caixinha do altar e resolve transform\u00e1-lo em um <em>bon sauvage <\/em>corrompido  pela imoralidade da vida urbana: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Mas de repente sob uma m\u00e1 influ\u00eancia <br \/>dos boyzinhos da cidade come\u00e7ou a roubar.<\/pre>\n\n\n\n<p>Como assim, \u201ccome\u00e7ou a  roubar\u201d? Ele j\u00e1 n\u00e3o roubava o dinheiro que as velhinhas colocavam na caixinha do altar? E ele n\u00e3o estava, afinal, vendendo drogas para esses boyzinhos,  que tinham de sustentar seu v\u00edcio? Quem \u00e9 a m\u00e1 influ\u00eancia de quem aqui?<\/p>\n\n\n\n<p>Aparentemente,  vender drogas n\u00e3o era problema, mas roubar era:<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">J\u00e1 no primeiro roubo  ele dan\u00e7ou<br \/>E pro inferno ele foi pela primeira vez.<\/pre>\n\n\n\n<p>Como assim? \u201cPela  primeira vez?\u201d E o reformat\u00f3rio onde foi trancafiado na adolesc\u00eancia? L\u00e1 era o para\u00edso?<\/p>\n\n\n\n<p>O  letrista tem outro ataque de amn\u00e9sia e esquece as atrocidades do Jo\u00e3o  menino: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Agora o Santo Cristo era bandido<br \/>Destemido e temido no  Distrito Federal<br \/>N\u00e3o tinha nenhum medo de pol\u00edcia<br \/>Capit\u00e3o ou  traficante, playboy ou general.<\/pre>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea at\u00e9 se esquece de que ele n\u00e3o  tinha medo desde crian\u00e7a, que sonhava em ser bandido, que tinha o  cora\u00e7\u00e3o cheio de \u00f3dio e que desde a adolesc\u00eancia ele comia as menininhas  da cidade. <em>Agora<\/em> \u00e9 que ele era bandido. Antes ele era o que? Apenas um jovem rebelde?<\/p>\n\n\n\n<p>E  o letrista tem outro ataque de amn\u00e9sia logo em seguida:<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Foi quando  conheceu uma menina<br \/>E de todos os seus pecados ele se arrependeu.<\/pre>\n\n\n\n<p>Como assim um predador sexual precoce com um hist\u00f3rico de frequentar o  putel da cidade vai subitamente se apaixonar por uma mo\u00e7a aleat\u00f3ria e  sofrer uma convers\u00e3o moral mais brusca que a do fac\u00ednora que finge  aceitar Jesus?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas  isso n\u00e3o \u00e9 o mais dif\u00edcil, n\u00e3o! \u201cEle dizia que queria se casar \/ E  carpinteiro ele voltou a ser.\u201d Se ele era um bandido destemido e temido  no Distrito Federal, como ele conseguiu repentinamente voltar a ser um  simples carpinteiro? Os outros bandidos n\u00e3o foram \u00e0 forra? A pol\u00edcia n\u00e3o  o foi prender? Quem daria servi\u00e7o de carpinteiro a um bandido not\u00f3rio? E  se ele fizesse os m\u00f3veis tortos, voc\u00ea teria coragem de reclamar? <\/p>\n\n\n\n<p>A  visita do senhor de alta classe \u00e9 outro momento completamente sem  sentido. Como algu\u00e9m envolvido em conspira\u00e7\u00f5es militares procuraria um  bandido conhecido e sem nenhuma forma\u00e7\u00e3o adequada para botar bomba em  banca de jornal ou em col\u00e9gio de crian\u00e7a? Ainda mais <em>depois <\/em>que  esse bandido supostamente se regenerou! Mas o mais incr\u00edvel \u00e9 Jo\u00e3o de  Santo Cristo \u2014 que j\u00e1 roubou, estuprou, traficou e matou \u2014 d\u00e1 uma de  santo na hora de recusar, em vez de simplesmente dizer \u201cn\u00e3o, obrigado\u201d:  <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">N\u00e3o boto bomba em banca de jornal<br \/>Nem em col\u00e9gio de crian\u00e7a isso eu  n\u00e3o fa\u00e7o n\u00e3o<br \/>E n\u00e3o protejo general de dez estrelas<br \/>Que fica atr\u00e1s da  mesa com o cu na m\u00e3o.<\/pre>\n\n\n\n<p>Claro que ficar com o \u201ccu\u201d na m\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel,  isso s\u00f3 foi escrito para manter o ritmo, o que \u00e9 marca registrada de  composi\u00e7\u00e3o tosca.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois  de humilhar desnecessariamente o senhor de alta classe e de se gabar de  ser um peixes com ascendente em escorpi\u00e3o, Santo Cristo resolveu se  acovardar. Com medo da amea\u00e7a do homem, <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Se embebedou e no meio da  bebedeira<br \/>Descobriu que tinha outro trabalhando em seu lugar.<\/pre>\n\n\n\n<p>A\u00ed  temos o confronto inicial de Jo\u00e3o de Santo Cristo com o traficante  Jeremias, que o Jo\u00e3o define em termos assim: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Jeremias, maconheiro  sem-vergonha<br \/>Organizou a Rockonha e fez todo mundo dan\u00e7ar<br \/>Desvirginava mocinhas inocentes<br \/>E dizia que era crente mas n\u00e3o sabia  rezar.<\/pre>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabemos se Jo\u00e3o tamb\u00e9m usava maconha, mas ele tamb\u00e9m ia a  festas de rock (como a \u201crockonha\u201d) para traficar (e certamente dan\u00e7ar).  Jo\u00e3o tamb\u00e9m tinha sua cota de desvirginar mocinhas inocentes (eu acho  dif\u00edcil crer que ele subitamente parou, s\u00f3 por Maria L\u00facia, j\u00e1 que,  apesar de Maria L\u00facia, ele abandonara o emprego e voltara a ser  traficante). Em suma, Jo\u00e3o e Jeremias s\u00e3o moralmente equivalentes, mas o  letrista quer que consideremos um deles como nosso her\u00f3i e o outro como  um bandido do mal.<\/p>\n\n\n\n<p>Se  a estrofe seguinte n\u00e3o fosse escrita por algu\u00e9m nascido em Bras\u00edlia eu  diria que ela prova que o letrista escrevia sobre um lugar que n\u00e3o  conhecia: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">E Santo Cristo h\u00e1 muito n\u00e3o ia pra casa<br \/>E a saudade come\u00e7ou  a apertar<br \/>Eu vou me embora, eu vou ver Maria L\u00facia<br \/>J\u00e1 't\u00e1 em tempo  de a gente se casar.\u201d<\/pre>\n\n\n\n<p>Como assim, \u201ch\u00e1 muito n\u00e3o ia para casa\u201d? O  Distrito Federal n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande a ponto de ser imposs\u00edvel os dois se  verem quando quisessem. Se ele n\u00e3o visitou Maria L\u00facia foi porque n\u00e3o  quis, porque estava ocupado traficando (e talvez desvirginando mocinhas  inocentes). Subitamente ele se lembra que ficou \u201cmuito tempo\u201d sem ver o  suposto amor de sua vida e resolve procur\u00e1-la para se casar \u2014 o que me  soa a um comportamento muito amea\u00e7ador. Imagina um traficante que voc\u00ea  n\u00e3o v\u00ea h\u00e1 meses ou anos aparecer de repente querendo se casar com voc\u00ea,  como se a rela\u00e7\u00e3o tivesse sido interrompida ontem?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o  tem uma tremenda dor de corno quando descobre que <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Com Maria L\u00facia  Jeremias se casou<br \/>E um filho nela ele fez.<\/pre>\n\n\n\n<p>Basicamente: como Jo\u00e3o  tinha sumido sem dar not\u00edcias, apareceu um cara (coincidentemente o  Jeremias) que flertou com Maria L\u00facia, pediu-a em casamento, casou-se  com ela e a engravidou. Dificilmente essa sequencia de eventos teria  acontecido em menos de um ano.<\/p>\n\n\n\n<p>A  rea\u00e7\u00e3o seguinte de Jo\u00e3o \u00e9 a de uma \u201cdrama queen\u201d: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Santo Cristo era s\u00f3  \u00f3dio por dentro <br \/>E ent\u00e3o o Jeremias pra um duelo ele chamou.<\/pre>\n\n\n\n<p> O  espantoso \u00e9 que Jeremias aceitou! Mas o car\u00e1ter do  \u201cbonzinho\u201d Jo\u00e3o se revela quando ele se prop\u00f5e a matar tamb\u00e9m Maria  L\u00facia, cujo \u00fanico pecado (al\u00e9m de ter um tremendo \u201cdedo podre\u201d para  escolher homem) foi ter decidido seguir com a vida depois que Jo\u00e3o ficou  meses ou anos sumido.<\/p>\n\n\n\n<p>A  sequ\u00eancia de absurdos continua: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">E o Santo Cristo n\u00e3o sabia o que fazer<br \/>Quando viu o rep\u00f3rter da televis\u00e3o<br \/>Que deu not\u00edcia do duelo na TV<br \/>Dizendo a hora e o local e a raz\u00e3o.<\/pre>\n\n\n\n<p>Como que uma rixa entre dois  traficantes p\u00e9-de-chul\u00e9 foi parar no notici\u00e1rio da tev\u00ea? Mas a not\u00edcia  dar no telejornal n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o absurda quanto o que vemos nas estrofes  seguintes:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>A pol\u00edcia n\u00e3o apareceu para averiguar a presen\u00e7a \nconfirmada em dia, hor\u00e1rio e local, de dois dos maiores traficantes de drogas do distrito federal, sendo que um deles estava jurado de morte pela pr\u00f3pria pol\u00edcia.<\/li><li>Teve um bando de malucos que foi assistir o duelo. Isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o absurdo porque gente desocupada assiste at\u00e9 parto de rato no esgoto.<\/li><li>O homem que atirava pelas costas poderia ser facilmente um pol\u00edcia, cumprindo a amea\u00e7a do homem de alta classe.<\/li><li>Haviam instalado bandeirinhas no local, como se fosse uma quermesse.<\/li><li>O povo aplaudiu, como se fosse um espet\u00e1culo circense.<\/li><li>Havia at\u00e9 sorveteiro.<\/li><li>E a televis\u00e3o filmando.<\/li><li>Mas n\u00e3o havia pol\u00edcia.<\/li><li>Depois que o sol cegou seus olhos ele reconheceu Maria L\u00facia. Era ela mesma?<\/li><li>A arma que ela trouxe, aparentemente, era a mesma arma que o primo Pablo dera a Jo\u00e3o (como ela a conseguiu?) porque s\u00f3 havia uma Winchester-22 em todo o D. F.<\/li><li>N\u00e3o, o homem que atirava pelas costas n\u00e3o era um P-2, era o Jeremias mesmo. Ou seja, o senhor de alta classe n\u00e3o cumpriu sua amea\u00e7a e Jo\u00e3o abandonara sua vida regenerada por puro caga\u00e7o.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o  volta a se sentir superior a Jeremias, apesar de ambos cometerem os  mesmos tipos de crimes:<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Jeremias, eu sou homem, coisa que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9.<\/pre>\n\n\n\n<p>Mas  olha que fineza a estrofe seguinte: <\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">E Santo Cristo com a Winchester-22<br \/>Deu cinco tiros no bandido traidor<br \/>Maria L\u00facia se arrependeu depois <br \/>E morreu junto com Jo\u00e3o, seu protetor.<\/pre>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 que Jo\u00e3o, j\u00e1 tendo  tomado um tiro nas costas, conseguiu fazer discurso, chamar Jeremias e  ainda lhe dar cinco tiros sem que o Jeremias lhe desse o de  miseric\u00f3rdia. E como foi que Maria L\u00facia morreu? Ela se suicidou,  deixando \u00f3rf\u00e3o de pai e m\u00e3e o seu filho? Ou estava gr\u00e1vida? Ou ser\u00e1 que  Jo\u00e3o tamb\u00e9m a matou, como prometera? Simplesmente dizer que Maria L\u00facia  \u201cmorreu\u201d nada explica. Mas, principalmente, ela se arrependeu do que?  Que crime cometeu a Maria L\u00facia Dedo-Podre Jeremias? E de que maneira Jo\u00e3o &#8220;protegeu&#8221; Maria L\u00facia?<\/p>\n\n\n\n<p>A\n \u00fanica coisa que faz sentido na letra \u00e9 o povo achar que Jo\u00e3o de Santo \nCristo era santo porque sabia morrer. O povo brasileiro \u00e9 perverso e \nchama de santo quem faz todo tipo de portento, mas acha que quem comete \natos semelhantes aos de Jesus \u00e9 um bandido \u2014 vide caso J\u00falio Lancelotti.<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, sim, o caso todo passou na televis\u00e3o. Porque, afinal, n\u00e3o havia censura pr\u00e9via na televis\u00e3o brasileira no come\u00e7o dos anos 1980, quando essa can\u00e7\u00e3o foi composta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas  a cereja do bolo \u00e9 a estrofe final, que joga no lixo toda a hist\u00f3ria de  vida de Jo\u00e3o de Santo Cristo, at\u00e9 aqui narrada em idas e vindas e  contradi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">E Jo\u00e3o n\u00e3o conseguiu o que queria<br \/>Quando veio pra  Bras\u00edlia, com o diabo ter<br \/>Ele queria era falar pro presidente<br \/>Pra  ajudar toda essa gente que s\u00f3 faz sofrer.<\/pre>\n\n\n\n<p>N\u00e3o! Jo\u00e3o de Santo Cristo fugiu de sua cidade porque todo mundo estava  com medo dele por causa de seu hist\u00f3rico pessoal e familiar,  possivelmente fugiu das amea\u00e7as do pai de alguma das menininhas que ele  comeu. Ele viera de Salvador a Bras\u00edlia por puro acaso, comprando uma  passagem de um viajante aleat\u00f3rio e o que pensou ao chegar n\u00e3o foi em  procurar o presidente para uma conversa, mas arranjar um emprego.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma: esta letra \u00e9 completamente sem p\u00e9 e nem cabe\u00e7a e ocupa cabulosos oito minutos da vida de quem n\u00e3o desvie dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Renato Russo era o poeta do rock e essa minha cr\u00edtica, claro, \u00e9 porque eu sou um ressentido e n\u00e3o consigo fazer melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francamente, eu poderia escrever uma resposta inteira s\u00f3 a respeito de letras ruins da Legi\u00e3o Urbana, um grupo que transformou a sua maior fraqueza (a l\u00edrica) na suposta marca maior de sua qualidade (Renato Russo, \u201co poeta do rock\u201d). Poderei, se algum dia me pedirem, por hoje eu me limito a Faroeste Caboclo, o &#8220;hino&#8221; de uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sabia muito bem o que seria um hino. Eu poderia come\u00e7ar falando das rimas pobres, das estruturas sint\u00e1ticas for\u00e7adas a marteladas e das constru\u00e7\u00f5es que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6589,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[183],"tags":[20,194,201,27,26],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6588"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6588"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6588\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7308,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6588\/revisions\/7308"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6589"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6588"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6588"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6588"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}