{"id":6973,"date":"2019-08-15T21:53:24","date_gmt":"2019-08-16T00:53:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6973"},"modified":"2019-08-15T21:53:26","modified_gmt":"2019-08-16T00:53:26","slug":"o-lugar-da-musica-popularesca-e-do-funk-na-historia-da-musica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/08\/o-lugar-da-musica-popularesca-e-do-funk-na-historia-da-musica\/","title":{"rendered":"O Lugar da M\u00fasica Popularesca (e do <i>funk<\/i>) na Hist\u00f3ria da M\u00fasica"},"content":{"rendered":"\n<p>Acredito que o funk nem \u00e9 m\u00fasica, mas, calma, essa resposta n\u00e3o \u00e9 exatamente o que voc\u00ea est\u00e1 pensando.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje\n mais cedo, enquanto dirigia de volta para casa uns 76 km de estrada \nsinuosa, fiquei pensando assuntos aleat\u00f3rios para manter a mente ocupada\n e combater o sono, ent\u00e3o me deparei com uma conclus\u00e3o interessante: a \nm\u00fasica como n\u00f3s a concebemos j\u00e1 acabou e estamos em uma nova fase.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada\n \u00e9poca da hist\u00f3ria tem uma forma de arte predominante, que reflete os \ngostos, a tecnologia e o desenvolvimento econ\u00f4mico. Por exemplo: o \nromance s\u00f3 se tornou uma forma liter\u00e1ria preponderante quando passou a \nexistir uma popula\u00e7\u00e3o letrada numerosa e com tempo livre suficiente para\n se dedicar \u00e0 leitura de obras com centenas de p\u00e1ginas. Como muitas \ndessas pessoas eram mulheres, havia o subg\u00eanero do romance &#8220;para mo\u00e7as&#8221;.\n Como em geral essas pessoas eram de classe m\u00e9dia ou alta, esses \nromances se baseavam nos costumes e conflitos dessas classes. O romance \nentrou em decad\u00eancia por causa da mecaniza\u00e7\u00e3o do mundo e por causa da \nintrodu\u00e7\u00e3o da inform\u00e1tica, fatores que ocuparam o tempo livre das \npessoas letradas. No s\u00e9culo XIX, se voc\u00ea sabia ler e tinha \ndinheiro,comprar livros e l\u00ea-los era uma das poucas coisas que podia \nfazer, dependendo de onde estivesse. Hoje em dia, ler \u00e9 uma coisa que \ncompete com milhares de outras coisas poss\u00edveis para se fazer, n\u00e3o \nimporta onde voc\u00ea esteja.<\/p>\n\n\n\n<p>Transplantemos esse debate para a m\u00fasica. A hist\u00f3ria da m\u00fasica se divide em quatro momentos:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>Quando a m\u00fasica era uma experi\u00eancia de grupos pequenos e baseada em  tradi\u00e7\u00f5es aprendidas e experimentadas diretamente com os praticantes,  porque n\u00e3o havia nota\u00e7\u00e3o musical. M\u00fasica primitiva. Apogeu da m\u00fasica  &#8220;\u00e9tnica&#8221;. As obras s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es coletivas.<\/li><li>Quando a m\u00fasica continuava sendo uma experi\u00eancia de grupos pequenos,  mas surgiu a nota\u00e7\u00e3o musical, permitindo que as obras escritas por um  determinado praticante fossem difundidas aonde ele nunca iria. M\u00fasica  medieval e barroca. Apogeu da m\u00fasica sacra. As obras s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es  institucionais, no in\u00edcio, mas progressivamente se individualizam.<\/li><li>Quando se generalizou o gosto pela m\u00fasica, com a cria\u00e7\u00e3o de eventos  para grande p\u00fablico, baseados em instrumentos mais evolu\u00eddos e t\u00e9cnicas  vocais aprimoradas. M\u00fasica cl\u00e1ssica, rom\u00e2ntica e neocl\u00e1ssica. Apogeu da  \u00f3pera. Apogeu do compositor.<\/li><li>Quando surgiram instrumentos el\u00e9tricos e meios de grava\u00e7\u00e3o,  permitindo que a m\u00fasica se difundisse sem a necessidade de uma difus\u00e3o  equivalente das performances musicais. M\u00fasica modernista, concreta e  pop. Apogeu do instrumentista e um segundo apogeu do autor.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Acredito\n que estamos vivendo, desde os anos 1990, o in\u00edcio de uma quinta fase da\n hist\u00f3ria da m\u00fasica, agora marcada pelo fim dos instrumentos (tudo hoje \npode ser sintetizado), pela dilui\u00e7\u00e3o da autoria (artistas sampleando-se \nmutuamente e copiando o passado), pelo fim da t\u00e9cnica (qualquer um canta\n se voc\u00ea passar pelo autotune e pelos programas de regulariza\u00e7\u00e3o de \nritmo) e pelo fim da execu\u00e7\u00e3o (o show agora \u00e9 feito por um DJ, que toca \numa m\u00fasica pr\u00e9-gravada).<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios desses fatores j\u00e1 estavam presentes em fases anteriores (mas vamos nos limitar aos que nunca foram abandonados).<\/p>\n\n\n\n<p>Os\n sintetizadores foram inventados h\u00e1 mais de cem anos (o theremin foi o \nprimeiro sintetizador, embora voc\u00ea provavelmente n\u00e3o o veja assim, e a \nguitarra el\u00e9trica \u00e9 um tipo de sintetizador tamb\u00e9m). J\u00e1 nos anos 60 e 70\n (sim, 60!) houve grupos musicais que usaram somente sintetizadores para\n produzir seus sons. Estamos falando de Delia Derbyshire, Silver Apples,\n do White Noise, do Kraftwerk e do Panta Rhei (a banda h\u00fangara de rock \nprogressivo).<\/p>\n\n\n\n<p>O\n desrespeito \u00e0 autoria era corrente desde sempre, mas ficou escancarado \nnos anos 20\u201370, quando grupos e artistas roubavam m\u00fasicas dos outros na \nm\u00e3o grande. O Led Zeppelin, por exemplo, roubou quase metade de seu \nrepert\u00f3rio (sem dar cr\u00e9dito) de bluesmen americanos negros, ou at\u00e9 de \ncantores ingleses menos conhecidos. Mas a novidade dessa nova fase \u00e9 a \nutiliza\u00e7\u00e3o <em>in natura<\/em> das m\u00fasicas gravadas (os samples), o que come\u00e7ou nos anos oitenta, nos EUA, com o movimento hip-hop.<\/p>\n\n\n\n<p>O\n problema da t\u00e9cnica, especialmente a t\u00e9cnica vocal, \u00e9 tamb\u00e9m antigo. \nV\u00e1rios inventos do passado foram acusados de prejudicar a t\u00e9cnica. O \ntenor italiano Enrico Caruso, ao ver o funcionamento dos primitivos \nmicrofones, observou que a t\u00e9cnica permitiria que no futuro pessoas sem \nvoz potente pudessem cantar \u2014 o que se tornou rapidamente verdade. Os \nartistas pr\u00e9-fabricados (que no passado eram apelidados de &#8220;salsichas&#8221;) \ns\u00e3o tamb\u00e9m muito antigos. Em 1965 foram criados os The Monkees, nos EUA,\n com quatro sujeitos que n\u00e3o sabiam tocar nada. Os grupos Mama Lion e \nBlondie empregaram ex-modelos como vocalistas (a bem da verdade esses \ngrupos tinham bons instrumentistas e pelo menos a Debie Harry, do \nBlondie, sabia cantar de verdade).<\/p>\n\n\n\n<p>O  fim da execu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi prenunciado h\u00e1 muito tempo. Desde o s\u00e9culo  XVIII j\u00e1 existiam as pianolas, instrumentos que tocavam uma m\u00fasica  gravada num rolo de tecido perfurado. A m\u00fasica eletr\u00f4nica concreta,  criada em meados do s\u00e9culo XX, era baseada em ru\u00eddos produzidos por  ciclos eletr\u00f4nicos e era program\u00e1vel. J\u00e1 nos anos 1970 o grupo alem\u00e3o  Kraftwerk assombrava os f\u00e3s assistindo da plat\u00e9ia os pr\u00f3prios shows, em  que a apresenta\u00e7\u00e3o era de manequins animados e a m\u00fasica era executada  por primitivos teclados pr\u00e9-programados. Nos anos 80 ficaram famosos os  &#8220;duos&#8221;, grupos de m\u00fasica pop baseados somente em um vocalista e um  tecladista: Yazoo, Erasure, Eurythmics, Desireless\u2026 Em 1990 teve o  esc\u00e2ndalo do Milli Vanilli, um grupo de hip hop cujos membros n\u00e3o  tocavam nem cantavam nada, e o C&amp;C Music Factory, um grupo cujos  integrantes eram os produtores, n\u00e3o os m\u00fasicos. Os mais antenados j\u00e1  estavam denunciando isso h\u00e1 tempos. V\u00e1rias can\u00e7\u00f5es pop engajadas  denunciaram esse &#8220;enlatamento&#8221; da m\u00fasica, como &#8220;Designer Music&#8221;, do  Lipps Inc. e &#8220;Peace and Love Inc.&#8221;, do Information Society. J\u00e1 nessa  \u00e9poca os rappers americanos cantavam suas letras sobre bases eletr\u00f4nicas  que n\u00e3o inclu\u00edam nenhuma harmonia ou melodia, apenas ritmo e &#8220;poesia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/tosquista.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6975\" width=\"301\" height=\"226\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/tosquista.jpg 602w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/tosquista-120x90.jpg 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/tosquista-250x187.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O\n funk carioca \u00e9, portanto, a culmina\u00e7\u00e3o de um longo processo de evolu\u00e7\u00e3o\n tecnol\u00f3gica que possibilitou a destrui\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es que criavam a \noportunidade para a manifesta\u00e7\u00e3o do talento.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando para ser ouvido era preciso soar alto, s\u00f3 os grandes peitos podiam cantar, surgiu a \u00f3pera.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando\n para cantar era preciso manter um ritmo e uma afina\u00e7\u00e3o, somente os \ntalentosos podiam se apresentar sem sofrer abusos, ent\u00e3o surgiu a \ncan\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando\n os sons musicais tinham de ser extra\u00eddos de objetos dif\u00edceis de \nfabricar e operar, somente quem tinha paci\u00eancia, tempo e talento podia \nse tornar um instrumentista.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso\n tornava a m\u00fasica o produto de pessoas talentosas e esfor\u00e7adas, que \nexigiam respeito pelo seu esfor\u00e7o e que tentavam mostrar qualidade e \nvirtuosismo porque havia valor nisso (j\u00e1 que pouca gente sabia mexer em \ninstrumentos ou conseguia cantar).<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje,  em dia, literalmente, quase qualquer bo\u00e7al desbocado que tenha dinheiro  pode pagar a algu\u00e9m para transformar os seus urros animalescos em uma  coisa que parece m\u00fasica, usando programas sofisticados de computador. Claro  que ainda pode acontecer de nenhum programa conseguir consertar, mas  existem exemplos abundantes de produtores &#8220;her\u00f3icos&#8221; que conseguem fazer  isso virar m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o,\n realmente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel comparar o funk (e outros g\u00eaneros \ncontempor\u00e2neos) a qualquer coisa que existiu no passado, assim como n\u00e3o \u00e9\n poss\u00edvel comparar um autom\u00f3vel a uma biga romana ou comparar um um \ncomputador com um \u00e1baco.<\/p>\n\n\n\n<p>A  diferen\u00e7a \u00e9 que normalmente a tecnologia evolui para criar mais  conforto e produzir mais beleza. Um autom\u00f3vel \u00e9 um meio de transporte  muito superior a uma biga, assim como um computador faz mais contas que  um \u00e1baco.<\/p>\n\n\n\n<p>No  caso da m\u00fasica, por\u00e9m, parece ter havido um problema de transfer\u00eancia: o  que est\u00e1 alcan\u00e7ando maior popularidade n\u00e3o \u00e9 o trabalho meticuloso de  quem v\u00ea nas facilidades da tecnologia uma oportunidade para ir al\u00e9m dos  limites f\u00edsicos. O que est\u00e1 na crista da onda \u00e9 o equivalente musical  das pinturas da <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/tosquista.tumblr.com\/\" target=\"_blank\">Galeria Tosquista<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acredito que o funk nem \u00e9 m\u00fasica, mas, calma, essa resposta n\u00e3o \u00e9 exatamente o que voc\u00ea est\u00e1 pensando. 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