{"id":7009,"date":"2019-09-05T12:38:53","date_gmt":"2019-09-05T15:38:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7009"},"modified":"2019-09-17T22:51:21","modified_gmt":"2019-09-18T01:51:21","slug":"o-regionalismo-brasileiro-tera-sido-reduzido-a-uma-estetica-de-exotismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/09\/o-regionalismo-brasileiro-tera-sido-reduzido-a-uma-estetica-de-exotismo\/","title":{"rendered":"O Regionalismo Ter\u00e1 Sido Reduzido a uma Est\u00e9tica de Exotismo?"},"content":{"rendered":"\n<p>Estou retornando ao Medium, depois de muito tempo, porque aqui me encontrei com uma pol\u00eamica muito importante, que merece ser levada adiante. \u00c9 algo sobre o que j\u00e1 escrevi no passado, mas que sempre vale a pena repisar, porque o futuro ainda est\u00e1 em aberto e se trata, neste momento, de uma luta pela alma do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Refiro-me ao movimento intitulado \u201ccyberagreste\u201d (sic), criado a partir de uma s\u00e9rie de ilustra\u00e7\u00f5es feitas por um ga\u00facho, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/wiedergrunart\/\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\">V\u00edtor Wiedergr\u00fcn<\/a>, e que resultou em obras escritas por autores do sudeste, do sul e do pr\u00f3prio nordeste, reimaginando um Nordeste mitol\u00f3gico transferido para um mundo <em>cyberpunk<\/em> do futuro, devidamente adicionado de todos os elementos identit\u00e1rios tornados obrigat\u00f3rios para a constru\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria da obra.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento parece que ser\u00e1 bem  recebido nos meios liter\u00e1rios, e j\u00e1 podemos encontrar cita\u00e7\u00f5es positivas dele na internet, como os ensaios <a href=\"https:\/\/lidiazuin.blogosfera.uol.com.br\/2019\/09\/02\/amazofuturismo-e-cyberagreste-por-uma-nova-ficcao-cientifica-brasileira\/\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\"><em>Amazofuturismo e Cyberagreste: Por uma Nova Fic\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica Brasileira<\/em><\/a>, de L\u00eddia Zuin, e <a href=\"https:\/\/medium.com\/cordel-sideral\/o-cyberagreste-de-vitor-wiedergr%C3%BCn-11809baffa33\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>O Cyberagreste de V\u00edtor Wiedergr\u00fcn<\/em><\/a>, de Eduardo Furbino, e os tu\u00edtes da <em>thread<\/em> intitulada <a href=\"https:\/\/threadreaderapp.com\/thread\/1169051477081567235.html?fbclid=IwAR2fnO855nBwYeZpsqGNR_7SKo0AaQ6vJPQE2GOkSA7lkJrJgYGt_lOoMQ4\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\"><em>Escrevendo o Cyberagreste<\/em><\/a><em>, <\/em>de Laisa Couto.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 alguns autores propriamente nordestinos perceberam uma trampa envolvida no movimento, como Alan de S\u00e1, que escreveu o importante ensaio <a href=\"https:\/\/medium.com\/alan-de-s%C3%A1\/est%C3%A3o-inventando-o-nordeste-de-novo-808943b6a759\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Est\u00e3o Inventando o Nordeste de Novo<\/em><\/a><em>, <\/em>e Alec Silva, que tem criticado muito o tema em sua comunidade do Facebook, ironicamente intitulada <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/quevergonhaescritor\/\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\">\u201cA Literatura Nacional Tem que Acabar\u201d<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto o movimento de apoio quanto o de cr\u00edtica ainda s\u00e3o incipientes, ent\u00e3o ainda h\u00e1 muito espa\u00e7o para se discutir o tema antes que ele definitivamente embique para equ\u00edvocos e discuss\u00f5es vazias. Pretendo deixar aqui a minha contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>A literatura brasileira sofre, desde 1965, um processo longo de descaracteriza\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o, motivado por uma pol\u00edtica deliberada pela ditadura e nunca contestada na pr\u00e1tica pelos governos democr\u00e1ticos desde 1985. Esse processo foi pensado com o objetivo de negar espa\u00e7o aos produtores nacionais de conte\u00fado, para que n\u00e3o adquirissem estatura cultural e n\u00e3o pudessem, a partir desta, insurgir-se como cr\u00edticos do projeto antinacional encarnado pela ditadura. Esse processo teve quatro frentes:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>Facilita\u00e7\u00e3o da entrada de conte\u00fado estrangeiro traduzido, inundando o mercado editorial com os tais <em>best-sellers<\/em>, que passaram a competir com o produto nacional.<\/li><li>Sufocamento do mercado editorial, especialmente das editoras de pequeno porte, atrav\u00e9s da facilita\u00e7\u00e3o das fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es entre as grandes empresas do ramo\u200a\u2014\u200ade que resultou algumas empresas deterem grande poder no mercado, obrigando as pequenas editoras a trabalharem com margens menores, mas, principalmente, diminuindo sua possibilidade de crescimento ao empared\u00e1-las em nichos de mercado.<\/li><li>Entrada de empresas estrangeiras no setor editorial, sem qualquer restri\u00e7\u00e3o, com o que as prateleiras das livrarias ficaram inundadas de t\u00edtulos publicados por empresas como Leya, Santillana, Planeta, De Agostini, Panini e outras. Essas empresas, por sua vez, preferiram, sempre, republicar no Brasil as mesmas obras de que j\u00e1 tinham os direitos em outros pa\u00edses, aumentando suas margens de lucro e diminuindo seu risco\u200a\u2014\u200apois os <em>best-sellers<\/em> j\u00e1 passaram no teste do gosto do p\u00fablico quando publicados originalmente.<\/li><li>Simbiose entre o cinema estrangeiro (cuja entrada no Brasil n\u00e3o sofre quaisquer restri\u00e7\u00f5es) e o mercado editorial, publicando as \u201cnoveliza\u00e7\u00f5es\u201d de roteiros ou os <em>spin-offs<\/em> que atendem ao gosto do p\u00fablico. O sucesso de um filme, que sempre atinge mais pessoas, puxa as vendas das obras que s\u00e3o lan\u00e7adas em sua esteira\u200a\u2014\u200ae estas competem com a literatura propriamente dita, especialmente a literatura <em>original, <\/em>isto \u00e9, aquela que n\u00e3o est\u00e1 associada a produtos audiovisuais.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Resultante desse processo ocorreu uma fragmenta\u00e7\u00e3o do mercado cultural nacional, algo an\u00e1loga ao que ocorria no per\u00edodo colonial. Cada uma das regi\u00f5es do pa\u00eds consome produtos audiovisuais (m\u00fasica, cinema, televis\u00e3o) e editoriais (<em>best-sellers<\/em>) diretamente de sua fonte estrangeira (na ampla maioria dos casos, os EEUU), mas n\u00e3o consome produtos audiovisuais e editoriais de outras regi\u00f5es do Brasil, ou n\u00e3o os consome com a mesma profundidade e frequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os leitores do sudeste n\u00e3o leem os autores do nordeste. Os do sul n\u00e3o leem os do centro-oeste. Os do norte n\u00e3o leem os do sul. Isso se estende aos demais produtos culturais: depois de uma breve fase em que a m\u00fasica pop origin\u00e1ria da Bahia, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul penetrava no mercado nacional, vivemos hoje uma hegemonia do eixo Rio-S\u00e3o Paulo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00fanico elemento nacional unificador costumava ser a televis\u00e3o aberta, mas esta j\u00e1 deixou de s\u00ea-lo h\u00e1 bastante tempo, com a infec\u00e7\u00e3o da maioria dos canais por programa\u00e7\u00e3o paga por igrejas evang\u00e9licas (que apelam ao seu pr\u00f3prio nicho e subcultura) e outros conte\u00fados promocionais (telejogos, televendas etc.). Fatores culturais (a progressiva convers\u00e3o pol\u00edtica e religiosa do pa\u00eds) tamb\u00e9m cortaram o acesso dos canais mais vistos (Globo e SBT) ao imagin\u00e1rio popular, sem que o novo concorrente (Record) conseguisse ter impacto equivalente. Por fim, a televis\u00e3o fechada roubou a maior parte da audi\u00eancia da televis\u00e3o aberta e agora a internet agrava isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Consolida-se, portanto, esta situa\u00e7\u00e3o em que cada regi\u00e3o enxerga com clareza e instantaneamente os EEUU, mas somente enxerga o resto do pa\u00eds de uma forma lenta ou emba\u00e7ada. Esse \u00e9 o cen\u00e1rio em que o \u201ccyberagreste\u201d surgir\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, isto quer dizer que a vis\u00e3o do Brasil no imagin\u00e1rio dos produtores de conte\u00fado cultural, exceto os mais intelectualizados e com viv\u00eancia de mundo, \u00e9 distorcida e desatualizada, al\u00e9m de muito filtrada (ou seja, indireta). Cada produtor de cultura enxerga e compreende a <em>sua<\/em> regi\u00e3o imediata, mas enxerga mal as outras, quando as enxerga, e n\u00e3o as compreende bem, quando sequer possui alguma compreens\u00e3o delas.<\/p>\n\n\n\n<p>No filme <em>Bye Bye Brasil, <\/em>de 1979, Cac\u00e1 Diegues nos mostra esse conflito entre um pa\u00eds novo que surgia, por obra e gra\u00e7a da televis\u00e3o, e um pa\u00eds antigo que ficava atirado \u00e0 margem da estrada. A entrada da televis\u00e3o e da modernidade descaracterizou as regionalidades do Brasil (que eram, tamb\u00e9m, em grande parte idealizadas pela literatura, pelo cinema, pela m\u00fasica e pelo imagin\u00e1rio popular, <em>\u00e9 claro<\/em>), mas n\u00e3o as removeu da percep\u00e7\u00e3o dos habitantes de outras regi\u00f5es. Assim, quando as diversas regi\u00f5es somem da televis\u00e3o, a sua imagem n\u00e3o \u00e9 atualizada na percep\u00e7\u00e3o dos que vivem em outros lugares e perpetua-se a imagem anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que essas imagens regionais do Brasil foram constru\u00eddas pelo Estado Novo, h\u00e1 mais de setenta anos. Basearam-se em elementos preexistentes, claro. Continuaram a ser utilizadas posteriormente, por pelo menos um tempo, claro. Essencialmente, por\u00e9m, o Brasil regional que a maior parte dos brasileiros conhece \u00e9 o pa\u00eds imaginado pelo samba-exalta\u00e7\u00e3o, pela utopia do \u201ccadinho de ra\u00e7as\u201d e do \u201cpa\u00eds do futuro\u201d. Todas essas utopias foram pensadas antes de 1965 e j\u00e1 estavam em processo de questionamento quando veio a ditadura para, entre outras coisas, <em>impedir esse amadurecimento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esse bruto corte do processo de amadurecimento da identidade nacional perpetuou estere\u00f3tipos regionais que ainda podem ser vistos na televis\u00e3o, na m\u00fasica e, principalmente, no humor, que \u00e9 a arte que utiliza os arqu\u00e9tipos mais profundos de uma cultura e que, por conseguinte, manipula os elementos mais resistentes desta. Entre esses estere\u00f3tipos, n\u00e3o suficientemente atualizados pela invisibiliza\u00e7\u00e3o das regionalidades causada pela coloniza\u00e7\u00e3o cultural do pa\u00eds pelos EEUU, temos:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>O mineiro de botas, desdentado e falando um dialeto caricato;<\/li><li>O pantaneiro vaqueiro violeiro de chap\u00e9u grande;<\/li><li>O ga\u00facho de bombachas e bigod\u00f5es;<\/li><li>O povo da Amaz\u00f4nia limitado a \u00edndios e ribeirinhos;<\/li><li>O nordestino cangaceiro ou retirante da seca;<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Algumas imagens regionais foram atualizadas, notadamente as do eixo Rio-S\u00e3o Paulo, por efeito da televis\u00e3o. O Rio de Janeiro substituiu a figura do malandro malemolente pela do favelado funkeiro. S\u00e3o Paulo substituiu a figura do caipira violeiro pela do urban\u00f3ide estressado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"AQUARELA do BRASIL (ary barroso)\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Who9nyCTD_I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption>\u201cAquarela do Brasil\u201d, de Ary Barroso, um \u201cresum\u00e3o\u201d das identidades regionais brasileiras, ainda \u00e9 a refer\u00eancia de cultura brasileira a que recorrem, <strong>sem perceber<\/strong><em>, muitos jovens de hoje.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Quando um autor brasileiro tenta imaginar o Brasil como cen\u00e1rio de sua obra, existe uma grande tend\u00eancia inercial para que ele o fa\u00e7a conforme essa imagem tradicional e desatualizada. Isso n\u00e3o \u00e9 porque o autor tenha m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o ou queira caricaturar outras regi\u00f5es\u200a\u2014\u200aele o faz porque sinceramente cr\u00ea que a sua concep\u00e7\u00e3o reflete, de alguma forma, \u201cvalores culturais\u201d da regi\u00e3o que ele reimagina.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos dizer, aqui, que o Brasil ficou reduzido a um elemento ex\u00f3tico, a que os produtores de conte\u00fado recorrem para dar uma cor local em suas obras, quando acham que isso as valorizar\u00e1 esteticamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O exotismo (ou seja, \u201ca vis\u00e3o de quem est\u00e1 de fora\u201d) \u00e9 uma forma de apropria\u00e7\u00e3o cultural \u00e0 revelia dos elementos culturais apropriados. Ele pode ser respeitoso, como a \u00f3pera <em>Carmem, <\/em>escrita pelo franc\u00eas Georges Bizet, \u00e9 respeitosa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Espanha, ou pode ser rasa, caricatural e racista, como a \u00f3pera <em>Madame Butterfly<\/em>, de Giacomo Puccini, em rela\u00e7\u00e3o ao Jap\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o do autor com o cen\u00e1rio ex\u00f3tico a que recorre depende, portanto, de seu respeito e de seu entendimento desse cen\u00e1rio. Ela pode resultar em uma obra que ser\u00e1 aceita ou rejeitada pelo povo \u201chomenageado\u201d. A rela\u00e7\u00e3o dos espanh\u00f3is com a \u00f3pera de Bizet \u00e9 muito diferente da rela\u00e7\u00e3o dos japoneses com a \u00f3pera de Puccini.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez V\u00edtor Wiedergr\u00fcnd se sinta perplexo, talvez at\u00e9 ofendido, quando souber que h\u00e1 nordestinos que detestaram sua concep\u00e7\u00e3o do futurismo nordestino do \u201ccyberagreste\u201d. Em algum momento ele talvez se pergunte qual a vantagem de querer valorizar a \u201ccultura nacional\u201d se o brasileiro \u00e9 t\u00e3o \u201cingrato\u201d com quem o tenta. Pode ser at\u00e9 que ele resolva n\u00e3o mais tentar: \u201cVou escrever e desenhar coisas estrangeiras, ent\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Essa seria, por\u00e9m, uma atitude t\u00edpica de quem encara o elemento regional como um adere\u00e7o ex\u00f3tico. Se o elemento regional fosse mais que isso, seria parte integrante da identidade do criador, n\u00e3o algo de que ele pudesse facilmente se desfazer.<\/p>\n\n\n\n<p>O ex\u00f3tico necessariamente pertence ao \u201coutro\u201d e a uma disposi\u00e7\u00e3o para abandon\u00e1-lo\u200a\u2014\u200ase n\u00e3o for bem recebido\u200a\u2014\u200a\u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o clara de que n\u00e3o houve nem mesmo uma identifica\u00e7\u00e3o de n\u00edvel b\u00e1sico, apenas uma incorpora\u00e7\u00e3o est\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns desses autores que escreveram \u201ccyberagreste\u201d tamb\u00e9m ficar\u00e3o ofendidos, alguns at\u00e9 v\u00e3o pegar os seus bonitos diplomas e os seus muitos outros livros publicados e v\u00e3o tentar esfreg\u00e1-los no meu nariz (e nos dos nordestinos que ficarem insatisfeitos).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A menos que tenham um s\u00fabito acesso de humildade e se perguntem se n\u00e3o houve, realmente, um equ\u00edvoco.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 porque eu pretendo homenagear algu\u00e9m que esta pessoa tem de se sentir homenageada. Se a minha homenagem \u00e9 unilateral, baseada no meu desejo de a fazer e na minha concep\u00e7\u00e3o de como ela deve ser feita, ent\u00e3o o meu trabalho n\u00e3o homenageia a quem eu quero valorizar, mas somente \u00e0s minhas boas inten\u00e7\u00f5es. \u00c9 como a esmola que o crist\u00e3o d\u00e1 ao mendigo <em>pensando em comprar uma passagem para o c\u00e9u <\/em>em vez de aliviar a fome do necessitado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estas homenagens unilaterais presumem que o homenageado est\u00e1 em um estado de mendic\u00e2ncia metaf\u00f3rica e, portanto, n\u00e3o tem o direito de escolher como quer ser visto e como ser\u00e1 homenageado.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto mineiro, \u201cda borda do queijo\u201d (a Zona da Mata), eu n\u00e3o me sinto nada homenageado pela Filomena, da Gorete Milagres, nem pelo N\u00e9rso da Capitinga, do Pedro Bismarck. O fato de terem sido perpetrados por mineiros n\u00e3o d\u00e1 a esses personagens nenhuma dignidade adicional <em>porque foram concebidos e reimaginados para atender \u00e0s expectativas de um p\u00fablico que n\u00e3o conhece Minas Gerais em primeira m\u00e3o e que ainda v\u00ea o estado de uma maneira pejorativa e idealizada. <\/em>Na verdade \u00e9 bastante comum que essas caricaturas recorram a atores ou autores da pr\u00f3pria regi\u00e3o, o que \u00e9 uma forma adicional de se violentar a identidade cultural de um povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa experi\u00eancia de frustra\u00e7\u00e3o que tive (e muitos conhecidos meus t\u00eam) ao se verem assim representados na televis\u00e3o, me ajuda a compreender perfeitamente como os nordestinos podem se sentir diante de uma est\u00e9tica e movimento criados por gente que ainda v\u00ea em sua regi\u00e3o um conjunto de refer\u00eancias pol\u00edticas, sociais e culturais que pertence aos dec\u00eanios entre 1930\u20131960.<\/p>\n\n\n\n<p>Utilizando uma refer\u00eancia cultural norte-americana, que, provavelmente, ser\u00e1 melhor entendida por certos leitores meus do que qualquer outra que eu fa\u00e7a recorrendo \u00e0 nossa cultura, a cria\u00e7\u00e3o de um movimento ou de uma est\u00e9tica por gente de fora, sem cuidado com uma representa\u00e7\u00e3o fiel do representado, \u00e9 bastante parecida com isto aqui:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/cdn-images-1.medium.com\/max\/800\/1*rLgyFZGfN7t58DmzQJwDLA.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption>O <strong><em>Blackface<\/em><\/strong> era um g\u00eanero teatral americano em que atores brancos se pintavam de preto e interpretavam quadros em que eram ridicularizados todos os aspectos da identidade negra, de seu sotaque \u00e0s suas cren\u00e7as, passando pelas suas car\u00eancias e pela sua opress\u00e3o. Hoje universalmente visto como uma coisa abomin\u00e1vel, ele chegou a ser considerado um elemento important\u00edssimo da cultura pop americana.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Revoltar-se com a reclama\u00e7\u00e3o dos que n\u00e3o se sentem homenageados \u00e9 uma atitude que reflete falta de humildade, como se voc\u00ea se arrogasse mais entendimento da cultura do outro do que ele pr\u00f3prio. Uma atitude que s\u00f3 piora se voc\u00ea usar um diploma para acenar contra a percep\u00e7\u00e3o do outro de sua pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O nordestino tem o direito de se incomodar com a persist\u00eancia da representa\u00e7\u00e3o de sua cultura como a de um povo eternamente morto de fome e envolvido em viol\u00eancia e banditismo, assim como o mineiro tem o direito de se incomodar com a representa\u00e7\u00e3o da sua como uma gente feia e desdentada que usa botinas e fala errado.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Quando tentamos apropriar a cultura do outro a partir de nossa \u00f3tica, o primeiro p\u00fablico a que realmente atingimos somos n\u00f3s mesmos. Se eventualmente atingimos outros p\u00fablicos, mas n\u00e3o atingimos ao p\u00fablico que quisemos apropriar, o que acabamos por fazer \u00e9 algo monstruoso: roubar de um povo a ag\u00eancia e a efic\u00e1cia em construir e reimaginar sua pr\u00f3pria identidade cultural.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto, o movimento do \u201ccyberagreste\u201d, da maneira como \u00e9 apresentado, independente das inten\u00e7\u00f5es boas de quem o concebeu, corre o risco de sobrepor ao Nordeste real uma vis\u00e3o ultrapassada e caricata, <em>que criar\u00e1 dificuldades para que os autores da regi\u00e3o cheguem a p\u00fablicos de outras partes com obras suas, nas quais a identidade regional \u00e9 representada de forma mais fiel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja: quando triunfa a imagem ex\u00f3tica do Nordeste, o nordestino se v\u00ea escanteado e pode ser obrigado a aderir a essa representa\u00e7\u00e3o absurda de si mesmo para poder atingir a p\u00fablicos externos. Na pr\u00e1tica, o movimento \u201ccyberagreste\u201d se arrisca a abortar no nascedouro uma reimagina\u00e7\u00e3o do nordeste feita pelos pr\u00f3prios nordestinos e que contempla a evolu\u00e7\u00e3o social, cultural, pol\u00edtica e econ\u00f4mica da regi\u00e3o desde a \u00e9poca em que Luiz Gonzaga, para atingir ao p\u00fablico do sudeste, precisou se fantasiar de cangaceiro.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"739\" height=\"640\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Luiz_Gonzaga_Foto_Luis_Gonzaga-739x640.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7012\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Luiz_Gonzaga_Foto_Luis_Gonzaga-739x640.jpg 739w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Luiz_Gonzaga_Foto_Luis_Gonzaga-120x104.jpg 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Luiz_Gonzaga_Foto_Luis_Gonzaga-250x216.jpg 250w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Luiz_Gonzaga_Foto_Luis_Gonzaga-768x665.jpg 768w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Luiz_Gonzaga_Foto_Luis_Gonzaga.jpg 1488w\" sizes=\"(max-width: 739px) 100vw, 739px\" \/><figcaption>Esta n\u00e3o \u00e9 a imagem de Luiz Gonzaga que voc\u00ea conhece. Por que ser\u00e1?<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>O objetivo deste texto n\u00e3o \u00e9 desestimular as pessoas que querem reimaginar literariamente o pa\u00eds. \u00c9 muito positivo que exista esta inten\u00e7\u00e3o e ela deve ser cultivada, mas <em>ela n\u00e3o pode ser cultivada unilateralmente<\/em>. N\u00e3o podemos tratar as identidades regionais do Brasil como <em>carentes de aten\u00e7\u00e3o <\/em>e, portanto, obrigadas a aceitar a esmola que nos propomos a dar em forma de refer\u00eancia em nossas obras.<\/p>\n\n\n\n<p>Gostaria que os autores que sentem falta de mais brasilidade em nossa literatura tentassem se aproximar dos autores que praticam essa brasilidade e que se localizam nos espa\u00e7os regionais. Ou que, alternativamente, adquiram viv\u00eancia desses espa\u00e7os para escreverem sobre eles, como Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa fez, convivendo com vaqueiros do norte de Minas Gerais por um longo tempo a fim de adquirir elementos para a escrita de suas hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem essa rela\u00e7\u00e3o interativa com as culturais regionais, o que se produzir\u00e1 n\u00e3o ter\u00e1 uma brasilidade real, mas uma est\u00e9tica superficial apenas. Mais que isso, sem essa rela\u00e7\u00e3o interativa n\u00e3o haver\u00e1 espa\u00e7o para resgatar do interior e das diversas regi\u00f5es os autores que ali militam e que propriamente possuem a prerrogativa do \u201clugar de fala\u201d sobre elas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendo que os nordestinos n\u00e3o queiram ser ensinados a ser nordestinos por um ga\u00facho e uma mineira, porque n\u00e3o preciso e n\u00e3o quero e n\u00e3o aceito que um paulista ou um cearense venham me ensinar a ser mineiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou retornando ao Medium, depois de muito tempo, porque aqui me encontrei com uma pol\u00eamica muito importante, que merece ser levada adiante. \u00c9 algo sobre o que j\u00e1 escrevi no passado, mas que sempre vale a pena repisar, porque o futuro ainda est\u00e1 em aberto e se trata, neste momento, de uma luta pela alma do Brasil. Refiro-me ao movimento intitulado \u201ccyberagreste\u201d (sic), criado a partir de uma s\u00e9rie de ilustra\u00e7\u00f5es feitas por um ga\u00facho, V\u00edtor Wiedergr\u00fcn, e que resultou em obras escritas por autores [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7012,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[13,20,76,225,298,229,85],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7009"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7009"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7009\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7029,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7009\/revisions\/7029"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7012"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7009"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7009"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7009"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}