{"id":7033,"date":"2019-09-22T20:18:52","date_gmt":"2019-09-22T23:18:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7033"},"modified":"2019-09-29T23:45:31","modified_gmt":"2019-09-30T02:45:31","slug":"porque-a-meritocracia-e-um-discurso-de-odio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/09\/porque-a-meritocracia-e-um-discurso-de-odio\/","title":{"rendered":"Porque a meritocracia \u00e9 um discurso de \u00f3dio"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil simpatizar com aqueles que vivem no ponto mais baixo da escala social: eles tem uma apar\u00eancia diferente da sua, eles fedem, eles costumam ter v\u00edcios, eles s\u00e3o muitas vezes hostis a voc\u00ea e muitos realmente n\u00e3o parecem dispostos a fazer nada por si mesmos. Simpatizar com essas pessoas \u00e9, portanto, um sinal de maturidade moral que \u00e9 alcan\u00e7ado por poucos indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser ego\u00edsta \u00e9 muito mais f\u00e1cil, basta voc\u00ea desumanizar essas pessoas e considerar que elas s\u00e3o as \u00fanicas culpadas por seu sofrimento e voc\u00ea magicamente se desvincula e n\u00e3o precisa sofrer com elas. O ego\u00edsmo, ent\u00e3o, lhe permite usufruir sem culpa da situa\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio em que voc\u00ea se encontra. Mais que isso: n\u00e3o apenas sem responsabilidade (posto que voc\u00ea se convence de que nada do que faz ou apoia contribui para que pessoas sejam reduzidas \u00e0 mis\u00e9ria), mas tamb\u00e9m sem culpa (posto que tamb\u00e9m se convence de que nada do que possa fazer ou apoiar ter\u00e1 o poder de retirar essas pessoas da mis\u00e9ria) e sem compaix\u00e3o \u2014 a capacidade de sofrer \u201cjunto\u201d com algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/los-angeles-transformar-predios-abandonados-apartamentos-minimalistas-sem-teto.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7034\" width=\"360\" height=\"203\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/los-angeles-transformar-predios-abandonados-apartamentos-minimalistas-sem-teto.jpeg 720w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/los-angeles-transformar-predios-abandonados-apartamentos-minimalistas-sem-teto-120x68.jpeg 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/los-angeles-transformar-predios-abandonados-apartamentos-minimalistas-sem-teto-250x141.jpeg 250w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A ideologia predominante em nossa cultura nos estimula a tratar as pessoas conforme seus bens e sua apar\u00eancia e faz com que, muitas vezes, tenhamos mais afeto por nossos bens materiais do que por seres humanos diferentes de n\u00f3s. \u201cMeritocracia\u201d \u00e9 uma palavra bonita para essa estrat\u00e9gia de dissocia\u00e7\u00e3o cognitiva entre n\u00f3s e nossos semelhantes menos afortunados. Afinal, como teria dito um famoso personagem<em>, por acaso sou o guarda de meu irm\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos aspectos do ego\u00edsmo, traduzido na \u201cmeritocracia\u201d, \u00e9 julgar as escolhas das pessoas a partir das condi\u00e7\u00f5es de que <em>n\u00f3s<\/em> partimos quando fizemos as <em>nossas<\/em> escolhas. Assim, uma pessoa branca dir\u00e1 que a reclama\u00e7\u00e3o dos negros sobre discrimina\u00e7\u00e3o racial \u00e9 \u201cmimimi\u201d porque as empresas fazem processos de sele\u00e7\u00e3o transparentes, segundo crit\u00e9rios cient\u00edficos, e que, portanto, as opini\u00f5es pessoais dos selecionadores n\u00e3o influenciam na contrata\u00e7\u00e3o. Essa pessoa tem a percep\u00e7\u00e3o de que o processo \u00e9 transparente e cient\u00edfico porque recebeu os <em>feedbacks<\/em> devidos e p\u00f4de construir sua carreira em cima deles. Para uma pessoa negra, os <em>feedbacks<\/em> podem n\u00e3o existir, ou podem ser opacos, impedindo que ela evolua entre as entrevistas, desenvolvendo-se no sentido desejado pelo mercado. A opacidade do <em>feedback<\/em> decorre do simples fato de que n\u00e3o \u00e9 socialmente aceit\u00e1vel deixar de contratar algu\u00e9m por ser negro, ent\u00e3o, quando o selecionador n\u00e3o contrata o jovem negro, ele d\u00e1 uma desculpa que pode ser totalmente falsa ou exagerando a import\u00e2ncia de um crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o no qual o jovem negro foi mal. Isto faz com que na entrevista seguinte o jovem negro procurem melhorar em aspectos que n\u00e3o foram os respons\u00e1veis por seu preterimento anterior\u2014afastando-o cada vez mais do perfil desejado pelo mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 apenas um exemplo de como as condi\u00e7\u00f5es podem ser aparentemente id\u00eanticas, mas essencialmente diferentes. Um exemplo didaticamente simples.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem, por\u00e9m, in\u00fameras vari\u00e1veis envolvidas nas escolhas dispon\u00edveis para cada um de n\u00f3s. Alguns de n\u00f3s tiveram excelente educa\u00e7\u00e3o e estar\u00e3o necessariamente entre os melhores perfis em cada oportunidade. Isso n\u00e3o \u00e9 m\u00e9rito pessoal, mas resulta do privil\u00e9gio econ\u00f4mico proporcionado por sua fam\u00edlia. Alguns de n\u00f3s tivemos que conciliar educa\u00e7\u00e3o e trabalho, prejudicando a qualidade de nossos estudos e a nossa pr\u00f3pria sa\u00fade, fazendo com que cheg\u00e1ssemos \u00e0 mesma entrevista com uma forma\u00e7\u00e3o pior e com uma apar\u00eancia \u201cderrotada\u201d (na verdade, o cansa\u00e7o acumulado de meses e anos). Alguns de n\u00f3s tiveram indica\u00e7\u00f5es de amigos para empregos, atrav\u00e9s dos quais adquiriram experi\u00eancia pr\u00e9via. Outros n\u00e3o puderam nem estagiar durante a forma\u00e7\u00e3o, porque precisavam trabalhar em outra coisa enquanto estudavam e assim, quando se formaram, n\u00e3o tinham a experi\u00eancia necess\u00e1ria para conseguir dar o salto para a nova carreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso se estende a aspectos mais b\u00e1sicos na forma\u00e7\u00e3o da pessoa. M\u00e1 qualidade de sono durante a inf\u00e2ncia \u00e9 um fator que comprovadamente prejudica a intelig\u00eancia do adulto porque afeta a capacidade de aten\u00e7\u00e3o em geral e prejudica sua cultura, porque quem dorme menos tem deficit de aten\u00e7\u00e3o nos estudos e menos paci\u00eancia para consumir produtos culturais. Desnutri\u00e7\u00e3o na inf\u00e2ncia pode resultar em um adulto fisicamente mais fr\u00e1gil, que pode, muitas vezes, padecer de dores musculares ou \u00f3sseas resultantes de les\u00f5es causadas pelo esfor\u00e7o do trabalho pesado em um corpo despreparado para isso. <\/p>\n\n\n\n<p>Uma evid\u00eancia aned\u00f3tica disso: um conhecido meu (adivinha a cor de sua pele) conviveu por anos com a pecha de \u201cruim de servi\u00e7o\u201d, pregui\u00e7oso e aproveitador. Sempre teve muita dificuldade para conseguir empregos e foi muito humilhado por trabalhar menos que outros. Segundo a tese da meritocracia, ele merecia ganhar menos porque se esfor\u00e7ava menos. A essa altura voc\u00ea j\u00e1 deve ter adivinhado, ent\u00e3o j\u00e1 posso dizer que ele era chamado de \u201cnegro ruim\u201d e at\u00e9 sua mulher era humilhada por ter \u201csobrado para um negro ruim\u201d. Pois bem, esse homem um dia teve um mal s\u00fabito durante o servi\u00e7o e morreu. Para escapar de um processo judicial, seu patr\u00e3o pagou por uma aut\u00f3psia e ent\u00e3o se descobriu que aquele \u201cnegro ruim\u201d tinha uma m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita de seu cora\u00e7\u00e3o, que lhe afetava a resist\u00eancia f\u00edsica e a capacidade aer\u00f3bica de longo prazo. Ele morreu porque n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de trabalhar bra\u00e7almente dias inteiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem pensa segundo a \u201cmeritocracia\u201d, casos assim n\u00e3o devem ser levados em conta porque s\u00e3o raros. Pois bem, os sem-teto tamb\u00e9m s\u00e3o raros: menos de 200 mil pessoas no Brasil, ou seja, menos de um mil\u00e9simo da popula\u00e7\u00e3o. Adivinha quem s\u00e3o essas pessoas? Felizmente, n\u00e3o temos que adivinhar, podemos saber. A Prefeitura de S\u00e3o Paulo fez, em 2011, um recenseamento da sua popula\u00e7\u00e3o de rua.  <\/p>\n\n\n\n<p>Esse recenseamento nos mostra que 77% das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua s\u00e3o homens, 62% s\u00e3o adultos (exceto idosos), sem um recorte predominante de ra\u00e7a (embora o segundo grupo mais numeroso dentre os que se identificaram racialmente sejam os negros, com 21%). Cerca de 83% desses moradores vivem sozinhos. Rar\u00edssimos s\u00e3o estrangeiros (29 entre 6765) e 53% s\u00e3o do pr\u00f3prio estado de S\u00e3o Paulo. <\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o, portanto, principalmente homens pobres que n\u00e3o t\u00eam apoio familiar ou que o perderam. S\u00e3o adultos que n\u00e3o tem ou n\u00e3o buscam trabalho. N\u00e3o s\u00e3o de nenhum grupo racial particular (embora os negros estejam super-representados) e n\u00e3o s\u00e3o necessariamente gente que veio de longe \u201cemporcalhar\u201d a cidade. S\u00e3o, principalmente, pessoas que j\u00e1 come\u00e7aram muito debaixo e n\u00e3o puderam subir, sequer se manter, devido aos azares da vida. Portanto: ser adepto da ideologia da meritocracia, em um pa\u00eds t\u00e3o desigual como o nosso, \u00e9 ser mau-car\u00e1ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as causas que levaram essas pessoas \u00e0 rua,  o uso de drogas ou \u00e1lcool ocorreu em apenas 35% dos casos. Se lembrarmos que pessoas ricas, quando padecem dos mesmos problemas, n\u00e3o sofrem de abandono familiar ou t\u00eam, pelo menos, condi\u00e7\u00f5es de tratar-se em cl\u00ednicas, vemos que n\u00e3o \u00e9 um problema moral que leva essas pessoas \u00e0 rua. Cerca de 30% dos moradores de rua perderam o emprego e n\u00e3o conseguiram mais pagar aluguel e outros 30% tiveram algum tipo de conflito familiar e foram expulsos pelo c\u00f4njuge (com ou sem interven\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia). Mais uma vez, s\u00e3o fatores ligados \u00e0 pobreza, n\u00e3o a moralidade. Pessoas de classe m\u00e9dia alta e alta n\u00e3o v\u00e3o para a rua durante uma fase de desemprego porque a fam\u00edlia tem condi\u00e7\u00f5es de apoiar a transi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o ficam na rua em raz\u00e3o de conflitos familiares porque t\u00eam outras moradias ou apoio familiar. Somente uma minoria muito pequena (menos de 10% diz que prefere viver na rua).<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, essas pessoas na rua n\u00e3o s\u00e3o somente drogados e pedintes. Ali\u00e1s, somente uma minoria o \u00e9. Mais de 70% dos moradores de rua ainda continuam trabalhando, e trabalhando duro, tentando sair da rua. 71% deles t\u00eam renda e 58% t\u00eam uma profiss\u00e3o formal\u2014embora muitas vezes sejam profiss\u00f5es que est\u00e3o na base da pir\u00e2mide social: catadores, flanelinhas, guardadores, prostitutas, biscateiros, trabalhadores de constru\u00e7\u00e3o civil, jardineiros etc. A mendic\u00e2ncia, para essas pessoas, \u00e9 um <em>complemento de renda<\/em>, n\u00e3o a pr\u00f3pria renda.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de trabalharem, essas pessoas n\u00e3o conseguem economizar porque n\u00e3o t\u00eam como poupar. Os bancos exigem comprovantes de endere\u00e7o para a abertura de contas. Isto quer dizer que essas pessoas t\u00eam de guardar suas economias consigo mesmas \u2014 e por isso n\u00e3o conseguem sair da rua. Al\u00e9m disso, perversidade das perversidades, \u00e9 muito frequente que a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia durante sua remo\u00e7\u00e3o resulte na perda de suas economias ou dos parcos bens que tinham adquirido, isso quando a pol\u00edcia simplesmente n\u00e3o os destr\u00f3i ou rouba, como j\u00e1 houve den\u00fancias isoladas. Antes que voc\u00ea pergunte, o \u201cconfisco\u201d de carrinhos e cobertores de moradores de rua \u00e9 roubo, sim, e o \u00fanico motivo pelo qual n\u00e3o \u00e9 visto desta forma \u00e9 porque o respeito \u00e0 propriedade privada no Brasil tem um recorte de classe e de cor.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo: a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua s\u00e3o aquelas pessoas que n\u00e3o deram sorte nenhuma na loteria da vida e n\u00e3o puderam conseguir nem o m\u00ednimo para se manterem com um teto sobre a cabe\u00e7a. Alguns possivelmente ficaram reduzidos a essa situa\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o se esfor\u00e7aram ou porque fizeram escolhas erradas, mas mesmo essas escolhas n\u00e3o teriam destru\u00eddo a vida de algu\u00e9m que tivesse come\u00e7ado em situa\u00e7\u00e3o menos vulner\u00e1vel. Um ator branco e famoso pode ser dar ao luxo de ser viciado e passar por diversos div\u00f3rcios complicados e ainda ter a simpatia da popula\u00e7\u00e3o e algum dinheiro no banco, enquanto um trabalhador pobre, talvez negro, que teve menos experi\u00eancia de v\u00edcios e nem foi t\u00e3o prom\u00edscuo simplesmente est\u00e1 liso e n\u00e3o conta nem mesmo com a simpatia da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A possibilidade dessa simpatia fica ainda mais remota quando se difunde entre n\u00f3s a ideia da meritocracia, esse conforto espiritual para os privilegiados que n\u00e3o admitem que poderiam, pelo menos, tentar fazer algo pelas pessoas que nada t\u00eam. Quando analisado de perto, o neoliberalismo, especialmente a sua parte \u201cmeritocr\u00e1tica\u201d, \u00e9 apenas um discurso de \u00f3dio generalizado contra o pobre, visto como uma peste que suja o mundo por onde passeiam os ricos, que estragam com sua simples exist\u00eancia a vis\u00e3o de um capitalismo perfeito e natural. Portanto, esses desvalidos precisam ser culpados de n\u00e3o terem sido admitidos ao para\u00edso capitalista, nem mesmo na condi\u00e7\u00e3o de servi\u00e7ais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil simpatizar com aqueles que vivem no ponto mais baixo da escala social: eles tem uma apar\u00eancia diferente da sua, eles fedem, eles costumam ter v\u00edcios, eles s\u00e3o muitas vezes hostis a voc\u00ea e muitos realmente n\u00e3o parecem dispostos a fazer nada por si mesmos. Simpatizar com essas pessoas \u00e9, portanto, um sinal de maturidade moral que \u00e9 alcan\u00e7ado por poucos indiv\u00edduos. 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