{"id":7090,"date":"2020-01-23T00:04:18","date_gmt":"2020-01-23T03:04:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7090"},"modified":"2020-01-23T00:04:20","modified_gmt":"2020-01-23T03:04:20","slug":"uma-fabula-cataguasense","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/01\/uma-fabula-cataguasense\/","title":{"rendered":"Uma F\u00e1bula Cataguasense"},"content":{"rendered":"\n<p>Cataguases de antigamente, cidade que evapora da mem\u00f3ria como chuva no estio. Cidade em que aconteciam coisas estranhas que nossos pais contavam e que agora, idosos, eles ficaram com vergonha de contar, porque o mundo novo admir\u00e1vel gosta de rir das hist\u00f3rias de antigamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia na cidade uma leiteria anexa \u00e0 Cooperativa Agropecu\u00e1ria de Cataguases, hoje extinta. Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o fala da falida empresa, nosso personagem \u00e9 um burrico comum, igual a muitos outros, que puxava a carro\u00e7a do leiteiro todas as manh\u00e3s. Madrugava o leiteiro e buscava o burrico em um pasto na sa\u00edda da cidade, levava-o at\u00e9 o centro, j\u00e1 arreado \u00e0 carro\u00e7a, para recolher o leite do dia anterior, que dormira no refrigerador da CAPEC, e sair pelas ruas em sua carro\u00e7a puxada pelo burro nosso her\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/DSC02728-800x600.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7091\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/DSC02728.jpg 800w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/DSC02728-120x90.jpg 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/DSC02728-250x188.jpg 250w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/DSC02728-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Aquele burrico estava no servi\u00e7o desde que aguentara puxar carga. Haviam-no desmamado a varadas, era isso. Diziam que j\u00e1 era manso, ou pelo menos acostumado. De tanto puxar a carro\u00e7a pelas mesmas ruas poucas de uma cidade pequena de caber numa f\u00e1bula ele j\u00e1 nem precisava de r\u00e9deas. O leiteiro o controlava com assobios, &#8220;eias&#8221; e estalos de l\u00edngua enquanto despejava leite nas canecas do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Crescendo a cidade, a carro\u00e7a come\u00e7ou a ficar pouca para tanta rua e um burro s\u00f3 n\u00e3o dava conta de tanto. O presidente, reunindo uma coleta dos cooperados, prop\u00f4s adquirir uma caminhonete de segunda m\u00e3o para fazer as entregas &#8212; afinal j\u00e1 tinham tanta freguesia para tanto leito que se poderia pagar o \u00f3leo gasto.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ent\u00e3o, votou-se em uma assembleia e aposentaram o burrico, substitu\u00eddo por um Chevrolet. O antigo leiteiro, que n\u00e3o sabia dirigir essas carro\u00e7as barulhentas, agora se limitava a despejar leite &#8212; tinha de ir algu\u00e9m tocando aquele novo tipo de bicho que n\u00e3o conhecia as ruas e que n\u00e3o obedecia a estalos e assobios.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao burrico, bem, j\u00e1 estava bastante velho e imprest\u00e1vel, ent\u00e3o, por piedade ou mero descuido, abandonaram-no em naquele mesmo terreno fora do centro da cidade, o terreno a que ele estava acostumado desde que o haviam comprado para puxar a carro\u00e7a. L\u00e1 havia um farto pasto de capim gordura e ele podia beber da \u00e1gua que corria para as instala\u00e7\u00f5es de pasteuriza\u00e7\u00e3o de leite da Cooperativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de viver seu resto de vida na pasmaceira, o burrico continuou a se levantar todo dia \u00e0s quatro da manh\u00e3, enfiar-se pela cerca bamba que havia na parte alta do terreno e a seguir o caminho conhecido at\u00e9 o centro da cidade. L\u00e1 ele parava \u00e0 porta da Cooperativa e esperava por alguns minutos. Ent\u00e3o, atado mentalmente a uma carro\u00e7a imagin\u00e1ria e obedecendo a assobios e estalos de l\u00edngua feitos por um leiteiro invis\u00edvel, percorria as ruas do centro da cidade em seu passo manso e resignado, parando \u00e0 porta das casas dos fregueses costumeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Se esta \u00e9 uma f\u00e1bula e meus leitores desejam que a moral seja expl\u00edcita, ei-la: mesmo conquistada a liberdade, se esta \u00e9 tardia, continuam os costumes da escravid\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cataguases de antigamente, cidade que evapora da mem\u00f3ria como chuva no estio. Cidade em que aconteciam coisas estranhas que nossos pais contavam e que agora, idosos, eles ficaram com vergonha de contar, porque o mundo novo admir\u00e1vel gosta de rir das hist\u00f3rias de antigamente. 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