{"id":7151,"date":"2020-04-24T19:17:42","date_gmt":"2020-04-24T22:17:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7151"},"modified":"2020-04-24T19:17:43","modified_gmt":"2020-04-24T22:17:43","slug":"a-verdade-antiga","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/04\/a-verdade-antiga\/","title":{"rendered":"A Verdade Antiga"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 uma cren\u00e7a muito difundida segundo a qual os antigos conheceram a verdade e a transmitiram at\u00e9 n\u00f3s. Por isso os livros antigos s\u00e3o \u201csagrados\u201d e os tempos de antigamente s\u00e3o idealizados por quase todas as religi\u00f5es. No m\u00ednimo o fazem porque, sem a afirma\u00e7\u00e3o de que eram tempos perfeitos seria imposs\u00edvel dizerem que seus livros e profetas seriam correspondentemente perfeitos. Uma religi\u00e3o que afirme que o futuro ser\u00e1 melhor do que o passado \u00e9 uma religi\u00e3o que programa a pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio que a transmiss\u00e3o da verdade n\u00e3o \u00e9 como a brincadeira de \u201ctelefone sem fio\u201d. N\u00e3o podemos acreditar que humanidade estava mais perto da verdade nos tempos antigos porque isso equivale a dizer que a verdade existia antigamente.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"336\" height=\"348\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/maledicc3aancia4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7152\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/maledicc3aancia4.jpg 336w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/maledicc3aancia4-250x259.jpg 250w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/maledicc3aancia4-120x124.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A ideia de que os antigos eram mais s\u00e1bios porque eram antigos \u00e9 uma fal\u00e1cia l\u00f3gica conhecida como <em>Argumentum ad antiquitatem <\/em>(&#8220;argumento atrav\u00e9s da antiguidade&#8221;, em uma tradu\u00e7\u00e3o literal). Considera-se fal\u00e1cia (ou seja, um erro l\u00f3gico) porque embute a cren\u00e7a de que a verdade e a sabedoria estavam presentes no passado. Como n\u00e3o foi demonstrado que a verdade tenha um dia existido como uma coisa palp\u00e1vel e acess\u00edvel, crer que os antigos estavam mais perto dela \u00e9 il\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>A brincadeira do &#8220;telefone sem fio&#8221; \u00e9 apenas uma brincadeira. Quando muito, ela pode ser usada para demonstrar que uma falha de comunica\u00e7\u00e3o pode surgir da necessidade de falar baixo e disfar\u00e7adamente e pela impossibilidade do ouvinte recorrer \u00e0 leitura labial. Demonstra, tamb\u00e9m, de maneira simpl\u00f3ria, o conceito de entropia: os erros criados pela troca sucessiva de mensagens sempre se acumulam e nunca s\u00e3o corrigidos porque mesmo as tentativas de corrigir se baseiam no entendimento do ouvinte do que deveria ter sido a mensagem original. Ou seja: o ouvinte &#8220;corrige&#8221; o que n\u00e3o lhe parece fazer sentido, mas a sua corre\u00e7\u00e3o n\u00e3o reflete o modelo original, mas a sua concep\u00e7\u00e3o do que seria o modelo original.<\/p>\n\n\n\n<p>Replicando isso para o contexto em que voc\u00ea citou, como n\u00f3s n\u00e3o temos acesso direto \u00e0s primeiras civiliza\u00e7\u00f5es, a mensagem que temos delas reflete a corre\u00e7\u00e3o que n\u00f3s fazemos, preenchendo lacunas e tentando solucionar contradi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o estamos restabelecendo a verdade, mas imaginando uma solu\u00e7\u00e3o para as contradi\u00e7\u00f5es da mensagem que recebemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na brincadeira do &#8220;telefone sem fio&#8221; h\u00e1 um momento, no fim da fila, em que o respons\u00e1vel pela mensagem original vem esclarecer o que realmente foi dito. No caso da hist\u00f3ria humana, n\u00e3o haver\u00e1 esse momento porque os povos do passado est\u00e3o extintos e tudo o que sabemos deles s\u00e3o os vest\u00edgios que deixaram. Se estivermos interpretando tudo errado, nunca saberemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso nem \u00e9 tudo. \u00c9 comum na brincadeira que o respons\u00e1vel original pela mensagem crie um enunciado propositalmente complicado, ou que, no fim, o seu &#8220;esclarecimento&#8221; n\u00e3o seja fiel ao que disse, mas influenciado pelas vers\u00f5es que ouviu dos outros. Afinal, o objetivo da brincadeira \u00e9 divertir.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso quer dizer que quem enunciou a mensagem pode ter sido malicioso ao cri\u00e1-la para n\u00e3o ser entendida (&#8220;Manuscrito Voynich&#8221;) ou desonesto para oferecer uma &#8220;vers\u00e3o inicial&#8221; diferente da que efetivamente disse ao primeiro na fila.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que acreditamos que os antigos, mesmo que vivessem mais perto da verdade, seriam honestos ao transmiti-la? Ser\u00e1 que tamb\u00e9m acreditamos que antigamente as pessoas eram mais virtuosas do que hoje? N\u00e3o havia mentiras, trai\u00e7\u00f5es, crimes e dissimula\u00e7\u00f5es naquela \u00e9poca? Ser\u00e1 mesmo? Ou ser\u00e1 que os antigos eram apenas &#8220;antigos&#8221;, em vez de humanos superiores e melhores?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma cren\u00e7a muito difundida segundo a qual os antigos conheceram a verdade e a transmitiram at\u00e9 n\u00f3s. 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