{"id":7199,"date":"2020-05-28T22:12:49","date_gmt":"2020-05-29T01:12:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7199"},"modified":"2020-05-28T22:12:52","modified_gmt":"2020-05-29T01:12:52","slug":"os-cabecas-chatas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/05\/os-cabecas-chatas\/","title":{"rendered":"Os Cabe\u00e7as Chatas"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma das coisas mais curiosas das \u00faltimas d\u00e9cadas foi a difus\u00e3o do terraplanismo, a cren\u00e7a est\u00fapida de que o mundo seria plano. Acompanha-o de perto outra ideia, menos est\u00fapida, por\u00e9m n\u00e3o menos incorreta, segundo a qual os povos antigos todos creriam em um mundo literalmente chato.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"alignright size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"350\" height=\"245\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/fig6.gif\" alt=\"\" class=\"wp-image-7200\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Muitos povos antigos realmente acreditavam que o mundo era uma grande bandeja, com uma c\u00fapula por cima e repousando sobre diversos tipos de suportes. Termos como \u201cfirmamento\u201d e \u201cpilares da terra\u201d entraram na linguagem liter\u00e1ria exatamente porque os antigos tinham dessas cren\u00e7as. Mas isso n\u00e3o quer dizer que todos os antigos pensaram assim: houve uma n\u00edtida evolu\u00e7\u00e3o do pensamento humano desde a \u00e9poca em que as pessoas acreditavam que o mundo existia sobre as costas de uma tartaruga. H\u00e1 uma dist\u00e2ncia apreci\u00e1vel entre o homem neol\u00edtico, que mal conhecia o mundo al\u00e9m de umas dezenas de quil\u00f4metros, e um fil\u00f3sofo j\u00e1 bem adiantado como o grego Erat\u00f3stenes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/surreal_turtle_at_sea_by_35_elissandro-damlp6k-800x533.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7201\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/surreal_turtle_at_sea_by_35_elissandro-damlp6k-800x533.jpg 800w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/surreal_turtle_at_sea_by_35_elissandro-damlp6k-250x167.jpg 250w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/surreal_turtle_at_sea_by_35_elissandro-damlp6k-120x80.jpg 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/surreal_turtle_at_sea_by_35_elissandro-damlp6k-768x512.jpg 768w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/surreal_turtle_at_sea_by_35_elissandro-damlp6k.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Imagem criada por <a href=\"https:\/\/www.deviantart.com\/35-elissandro\/art\/Surreal-Turtle-At-Sea-642625724\">Elissandro Pinto<\/a>.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Gradualmente se espalhou a ideia de que o mundo seria uma bola, ou poderia ser. Aonde quer que chegasse essa ideia, por mais que tivesse resist\u00eancia inicial, ela triunfava porque a esfericidade da terra resolve uma s\u00e9rie de problemas, mesmo de ordem pr\u00e1tica e imediata. A esfericidade da terra explica o mundo de uma maneira que mesmo antigamente os povos conseguiam entender e aceitar. Afinal, os antigos n\u00e3o eram est\u00fapidos, eram apenas antigos. O que lhes faltava n\u00e3o era intelig\u00eancia, mas ac\u00famulo de conhecimento e de t\u00e9cnica. De certa forma, eles eram <em>mais inteligentes e habilidosos do que n\u00f3s,<\/em> porque tinham de fazer as coisas com menos recursos e menos op\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez, por\u00e9m, j\u00e1 n\u00e3o exista mais esse ser humano que sobrevivia pela intelig\u00eancia, pela rapidez de racioc\u00ednio e pela adaptabilidade a um mundo perigoso e desconhecido. O terraplanismo pode ser um dos sintomas disso. O cinismo da modernidade nos faz desconfiar do conhecimento difundido, ao mesmo tempo em que nossa desconex\u00e3o dos processos naturais da vida nos torna incapazes de exercer nossa faculdade de observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O terraplanismo se baseia na crescente desconex\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es atuais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza. Como sempre, a arte nos ajuda a entender isso. Em seu romance &#8220;Funda\u00e7\u00e3o&#8221; o escritor Isaac Asimov nos apresenta o planeta Tr\u00e1ntor, localizado no &#8220;Centro Gal\u00e1tico&#8221; (a regi\u00e3o habit\u00e1vel de maior densidade estelar em todo o universo). Ali em Tr\u00e1ntor se localizava uma ecumen\u00f3pole<a href=\"#ecumenopole\">*<\/a> que era a capital do Imp\u00e9rio Gal\u00e1tico. Ao falar de Tr\u00e1ntor, Asimov nos d\u00e1, sem querer, um vislumbre do terraplanismo que ainda nem era comum quando ele escreveu.<\/p>\n\n\n\n<p>Os habitantes de Tr\u00e1ntor passavam suas vidas inteiras em espa\u00e7os fechados. Como o planeta n\u00e3o tinha mais uma biosfera para preservar a sua atmosfera respir\u00e1vel, a pouca atividade &#8220;agropecu\u00e1ria&#8221; l\u00e1 existente se dava em subterr\u00e2neos e todos os espa\u00e7os abertos eram selados para evitar que o ar respir\u00e1vel escapasse. Nos subterr\u00e2neos tamb\u00e9m ficavam as f\u00e1bricas que continuamente reciclavam o ar. Tudo isto \u00e9 apenas aludido de maneira vaga, mas uma coisa \u00e9 dita de forma clara\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Como os habitantes de Tr\u00e1ntor viviam sempre com um teto acima de suas cabe\u00e7as e sempre tinham paredes a no m\u00e1ximo algumas dezenas de metros (lindo lugar para viver se voc\u00ea \u00e9 claustrof\u00f3bico), n\u00e3o tinham ideia de dire\u00e7\u00f5es e nem de dist\u00e2ncias. Haviam se tornado todos m\u00edopes e desorientados. Somente atrav\u00e9s de aux\u00edlios eletr\u00f4nicos eles conseguiam encontrar seus caminhos pelo planeta. Como n\u00e3o havia atmosfera acima dos \u00faltimos andares dos pr\u00e9dios, era dif\u00edcil (ou pelo menos muito caro) viajar de avi\u00e3o (ou por qualquer meio voador, exceto foguete) e as naves espaciais eram grandes (e perigosas) para serem usadas t\u00e3o perto de estruturas habitadas, a maioria das viagens era por uma esp\u00e9cie de metr\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso limitava bastante a extens\u00e3o das viagens que as pessoas comuns podiam fazer. Imagine um mundo onde s\u00f3 fosse poss\u00edvel viajar de metr\u00f4 ou por foguetes suborbitais. P\u00e9riplos internacionais seriam mais dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, os habitantes de Tr\u00e1ntor ainda poderiam, em certas situa\u00e7\u00f5es, ter que sair do planeta para executar miss\u00f5es militares ou diplom\u00e1ticas em planetas onde ainda houvesse espa\u00e7os abertos. Por isso, era lei que todo cidad\u00e3o tinha de, pelo menos uma vez por ano, passar uma hora em um mirante alto, acima da linha m\u00e9dia dos pr\u00e9dios, contemplando a dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os habitantes de Tr\u00e1ntor, esse momento que passavam ali, for\u00e7ados a olhar para a dist\u00e2ncia com seus olhos m\u00edopes, era uma coisa pavorosa, uma tortura terr\u00edvel. Seria o equivalente a pegar uma pessoa comum, colocar de p\u00e9 no alto de uma torre de energia, a mais de 200 metros do ch\u00e3o no alto de um morro, sem qualquer equipamento de prote\u00e7\u00e3o. Uma pessoa comum facilmente surtaria em tal situa\u00e7\u00e3o, teria tonturas e vertigens, talvez vomitasse, entraria em p\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns de Tr\u00e1ntor conseguiam dominar esse medo e assim se capacitavam para as referidas miss\u00f5es. Em sua maioria, por\u00e9m, sucumbiam a ele e tinham de receber dispensa m\u00e9dica e deixar de ir. Alguns chegavam mesmo a morrer de p\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Asimov n\u00e3o nos diz que a gente de Tr\u00e1ntor poderia ser terraplanista, mas \u00e9 razo\u00e1vel supor que muitos n\u00e3o teriam no\u00e7\u00e3o de que o planeta seria esf\u00e9rico \u2014 ainda mais que Tr\u00e1ntor \u00e9 descrito como maior que a Terra em volume, o que significa que sua curvatura seria mais dif\u00edcil ainda de discernir, mesmo por quem estivesse em um mirante alt\u00edssimo e diante de um horizonte quase plano.<\/p>\n\n\n\n<p>Como os habitantes de Tr\u00e1ntor na fic\u00e7\u00e3o, os habitantes da Terra de hoje est\u00e3o piorando de vis\u00e3o por passarem a maior parte do tempo olhando para perto, atrav\u00e9s de telas de computador. A ideia de que no passado se fazia astronomia a olho nu nos parece absurda. Como os habitantes de Tr\u00e1ntor, muitos de n\u00f3s perdemos a capacidade de orienta\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica (pelo sol, pelas estrelas ou por marcos locais). N\u00e3o sabemos encontrar caminho pelas estradas, ou n\u00e3o temos paci\u00eancia, ent\u00e3o precisamos da ajuda de aplicativos. Temos dificuldade para caminhar longas dist\u00e2ncias &#8212; a tal ponto que fizemos da caminhada um esporte, que nem todos praticam. Embora alguns ocasionalmente fa\u00e7am longas viagens, muitos passam a vida inteira circunscritos a regi\u00f5es pequenas, em que se deslocam a p\u00e9 ou de carro. <\/p>\n\n\n\n<p>Como a gente de Tr\u00e1ntor, nos deslocamos orientados por guias eletr\u00f4nicos que nos parecem bastante planos nas telas. Mesmo os modelos mentais atrav\u00e9s dos quais organizamos os aspectos abstratos do mundo s\u00e3o bidimensionais:<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/qph.fs.quoracdn.net\/main-qimg-753e35994d89a4383541d926dccb907c\" alt=\"\" width=\"291\" height=\"292\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Os diagramas de orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como este da esquerda, organizam o mundo em duas dimens\u00f5es.  A informa\u00e7\u00e3o da esfericidade do planeta, que foi percebida como concreta e evidente pelos povos da Antiguidade, vem se tornando um dado abstrato e cada vez mais question\u00e1vel porque n\u00e3o \u00e9 mais algo que podemos experimentar, \u00e9 algo em que temos de acreditar conforme a palavra de algu\u00e9m que nos ensino. Adicione a isso o cinismo de uma gera\u00e7\u00e3o que progressivamente perde a f\u00e9, eis que temos agora a d\u00favida razo\u00e1vel de que o mundo n\u00e3o seja uma grande pizza.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a limita\u00e7\u00e3o de nossas experi\u00eancias sensoriais que transforma em quest\u00e3o de cren\u00e7a aquilo que antes era tido como fato quotidiano. Haver\u00e1 um momento no futuro em que outros aspectos hoje evidentes ser\u00e3o tamb\u00e9m considerados controversos. Chegar\u00e1 o dia, talvez, em que as pessoas tamb\u00e9m se questionar\u00e3o se a Lua e as estrelas existem \u2014 para isso basta que a terra venha a ser envolta em uma cobertura semipermanente de nuvens por algum cataclismo. Talvez haja nesse mesmo momento comunidades isoladas no interior que duvidem que o mar exista porque nunca puderam v\u00ea-lo a n\u00e3o ser na televis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de conhecimento do mundo faz com que duvidemos de tudo aquilo que nos ensinam sobre ele. Em geral, medimos o mundo pela r\u00e9gua de nossa ignor\u00e2ncia e somente os mais imaginativos conseguem conceber que a realidade continua a existir al\u00e9m do horizonte. O terraplanismo \u00e9 a coisa mais parecida com materialismo que uma pessoa ignorante consegue conceber.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"footnote\"><p><a name=\"ecumenopole\">*<\/a> Uma cidade que abrange todo um planeta.<\/p><p><\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das coisas mais curiosas das \u00faltimas d\u00e9cadas foi a difus\u00e3o do terraplanismo, a cren\u00e7a est\u00fapida de que o mundo seria plano. Acompanha-o de perto outra ideia, menos est\u00fapida, por\u00e9m n\u00e3o menos incorreta, segundo a qual os povos antigos todos creriam em um mundo literalmente chato. Muitos povos antigos realmente acreditavam que o mundo era uma grande bandeja, com uma c\u00fapula por cima e repousando sobre diversos tipos de suportes. 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