{"id":72,"date":"2013-02-26T20:51:00","date_gmt":"2013-02-26T23:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=72"},"modified":"2017-08-13T01:28:30","modified_gmt":"2017-08-13T04:28:30","slug":"a-gramatica-dos-dialetos-brasileiros-merece-respeito","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/02\/a-gramatica-dos-dialetos-brasileiros-merece-respeito\/","title":{"rendered":"A Gram\u00e1tica dos Dialetos Brasileiros Merece Respeito"},"content":{"rendered":"<p>> We don&#8217;t need no education,<br \/>\n We don&#8217;t need no thought control,<br \/>\n No dark sarcasm there in the classroom.<br \/>\n Teachers, leave them, kids, alone.<br \/>\n Hey, teacher! Leave the kids alone.<br \/>\n All in all it&#8217;s just another brick in the wall.<\/p>\n<p>A leitura de *Preconceito Lingu\u00edstico: o que \u00e9 e como se faz* &#8212; obra seminal de Marcos Bagno &#8212; me abriu os olhos para algo que eu intu\u00eda, mas nunca articulava: o vi\u00e9s de luta de classes que est\u00e1 presente na concep\u00e7\u00e3o da l\u00edngua como algo que precisa ser ensinado ao povo *ignorante*, ao povo que *n\u00e3o sabe falar*. Na vis\u00e3o da gramatiquice tradicional, j\u00e1 devidamente desancada por Monteiro Lobato em sua *Em\u00edlia no Pa\u00eds da Gram\u00e1tica*, o povo \u00e9 uma esp\u00e9cie de primata pelado que n\u00e3o se humaniza, pela linguagem, se n\u00e3o for \u00e0 escola, esse laborat\u00f3rio do saber onde o tosco b\u00edpede \u00e9 amestrado naquilo que serve aos objetivos da sociedade capitalista.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 havia sentido na pele esta situa\u00e7\u00e3o nas vezes em que fora discriminado por falar como um &#8220;roceiro&#8221;, j\u00e1 percebera esta tens\u00e3o na diferen\u00e7a de prest\u00edgio entre o falar de uma regi\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao de outra. Mas Bagno me abriu os olhos tamb\u00e9m para uma outra coisa que eu n\u00e3o tinha ainda percebido: que a l\u00edngua, tal como a falamos, n\u00e3o \u00e9 uma vers\u00e3o bastarda e manca da \u00daltima Flor do L\u00e1cio Inculta e Bela. Em vez disso, \u00e9 um fen\u00f4meno novo, coerente, gramaticaliz\u00e1vel e perfeitamente \u00fatil na boca de quem o usa. A l\u00edngua que a gente fala \u00e9 um dialeto do portugu\u00eas padr\u00e3o, que os gram\u00e1ticos tradicionais querem descongelar da forma em que foi posto ainda no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Estas ideias ficaram voejando em torno de minha cabe\u00e7a durante anos, sem que eu as levasse mais adiante, at\u00e9 o dia em que se acendeu em mim uma centelha de novidade: o dia em que meu interesse por l\u00ednguas artificiais &#8212; eu estudara esperanto ainda na adolesc\u00eancia, embora nunca tivesse aprendido a realmente falar &#8212; se uniu \u00e0s ideias de\u00a0Marcos Bagno e ao meu orgulho mineiro. Isso aconteceu enquanto come\u00e7ava a escrever um romance &#8212; ainda n\u00e3o terminado &#8212; intitulado provisoriamente *Serra da Estrela*.<\/p>\n<p>Enquanto pesquisava para formatar a l\u00edngua &#8220;estropiada&#8221; que os personagens de meu romance falariam, comecei a perceber que n\u00e3o era necess\u00e1ria tanta pesquisa, bastava mapear os metaplasmos, arca\u00edsmos, &#8220;corruptelas&#8221; e outros fen\u00f4menos, fon\u00e9ticos, morfol\u00f3gicos e sint\u00e1ticos, que ocorrem em meu pr\u00f3prio falar quando n\u00e3o me policio para tentar parecer &#8220;educado&#8221;. Esta constata\u00e7\u00e3o foi ainda mais aprofundada quando, ao dialogar com estrangeiros, percebi a facilidade com que eu sa\u00eda do portugu\u00eas casti\u00e7o e reca\u00eda em meu dialeto, inintelig\u00edvel para eles.<\/p>\n<p>O processo de mapeamento destas caracter\u00edsticas me levou, no fim, a perceber que a gram\u00e1tica do portugu\u00eas que tem sido ensinada na escola n\u00e3o \u00e9 realmente a da l\u00edngua que falamos. \u00c9 uma gram\u00e1tica estrangeira para a maioria de n\u00f3s. Nada \u00e9 t\u00e3o alijado do falar do povo quanto uma gram\u00e1tica normativa que ainda emprega segunda pessoa e recomenda a mes\u00f3clise. Se esta l\u00edngua formal est\u00e1 t\u00e3o longe do falar do povo, por que o nosso sistema de ensino n\u00e3o reconhece isso e adota em seu ensino t\u00e9cnicas pedag\u00f3gicas adequadas para o ensino de l\u00ednguas estrangeiras? Seria certamente mais efetivo do que cobrar de pobres crian\u00e7as que assimilem como &#8220;errada&#8221; a l\u00edngua que aprenderam naturalmente e como &#8220;certa&#8221; uma l\u00edngua que lhes \u00e9 imposta pelo sistema de ensino. Crian\u00e7as mais inteligentes e de auto estima mais alta, como eu modestamente me declaro (e voc\u00eas logo entender\u00e3o porque), aprendem eficazmente o portugu\u00eas padr\u00e3o sem abandonar o uso de sua l\u00edngua natural. Crian\u00e7as menos inteligentes, ou menos talentosas para o aprendizado de l\u00ednguas, padecer\u00e3o a vida inteira com a impress\u00e3o de que falharam em aprender a pr\u00f3pria l\u00edngua. Para elas o portugu\u00eas est\u00e1 errado, e \u00e9 uma l\u00edngua dif\u00edcil. Mas elas se enganam: errado est\u00e1 o m\u00e9todo, errada est\u00e1 a escola que finge que o povo fala exatamente como nos livros.<\/p>\n<p>Basta que eu passe a escrever empregando conven\u00e7\u00f5es ortogr\u00e1ficas mais pr\u00f3ximas do coloquial e tolerando os fen\u00f4menos morfol\u00f3gicos e gramaticais caracter\u00edsticos de meu dialeto para que se perceba que n\u00e3o podemos aceitar como dada esta correspond\u00eancia entre a l\u00edngua que se ensina e a que se fala. Afinao, a gente n\u00f5 fala iguao screve. Cada lugar do Brasio tem um jeito seu de falar. N\u00f5 t\u00e1 nem errado e nem certo, \u00e9 s\u00f3 dois jeito diferente de ser e de falar. Na gram\u00e1tica formao tem &#8220;concordan\u00e7a&#8221; do sustantivo com toda as palavra que lig\u00f5 co ele, maes em quaes todo os dialeto do pa\u00eds o plurao fica s\u00f3 no artigo. A diferen\u00e7a entre o L e o U no finao das s\u00edlaba \u00e9 uma coisa que s\u00f3 eziste na gram\u00e1tica e no dicionari, e o povo se entende co isso. As palavra &#8220;proparox\u00edtona&#8221; \u00e9 otro pobrema: pelo menos aqui in Minas Geraes isso quaes n\u00f5 eziste e o povo assimila as duas \u00faltima s\u00edlaba. &#8220;F\u00f3sforo&#8221; vira fosfo, &#8220;m\u00fasica&#8221; vira musca. E quano n\u00f5 d\u00e1 para fazer essa mudan\u00e7a, mudam a palavra: nada fica &#8220;pr\u00f3ximo&#8221;, maes umas coisa fica perto.<\/p>\n<p>Mudan\u00e7as l\u00e9xicas, sem\u00e2nticas, sint\u00e1ticas, fon\u00e9ticas, morfol\u00f3gicas. \u00c0 parte as semelhan\u00e7as restantes, as diferen\u00e7as j\u00e1 acumuladas s\u00e3o suficientes para se afirmar, sem muito medo de errar, que entre os dialetos brasileiros e o portugu\u00eas padr\u00e3o j\u00e1 existe mais diferen\u00e7a do que entre as formas padr\u00e3o do portugu\u00eas e do galego, tidos como l\u00ednguas diferentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero aqui argumentar que devamos sucumbir a estas for\u00e7as (elas vencer\u00e3o de qualquer forma, com o tempo), mas que est\u00e1 mais do que na hora de entendermos que o povo n\u00e3o fala &#8220;errado&#8221;, apenas fala uma variante lingu\u00edstica n\u00e3o padronizada e n\u00e3o gramaticalizada (posto que n\u00e3o h\u00e1 gram\u00e1ticas e nem dicion\u00e1rios desses falares coloquiais). Precisamos respeitar o povo, deixar de vermos nele um primata pelado que precisa &#8220;aprender a falar&#8221; e enxergar nele o que \u00e9, um cidad\u00e3o pleno de direitos, como qualquer outro, que apenas calha de falar diferente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, claro, abolir o ensino do portugu\u00eas padr\u00e3o, como algum bo\u00e7al leitor dir\u00e1 que eu estou defendendo porque n\u00e3o foi letrado o suficiente para ler at\u00e9 aqui, apenas modificar o modo como \u00e9 ensinado, para que deixe de se basear na humilha\u00e7\u00e3o in\u00fatil dos alunos com a imposi\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o artificial como natural. Ensinar o portugu\u00eas padr\u00e3o com a no\u00e7\u00e3o de que ele \u00e9 *diferente *daquela l\u00edngua que o menino fala e que esta l\u00edngua que a escola ensina, apesar de n\u00e3o ser &#8220;melhor&#8221; do que a outra, \u00e9 a l\u00edngua adotada pela na\u00e7\u00e3o, como tra\u00e7o de uni\u00e3o de todos os brasileiros.<\/p>\n<p>Quando se popularizar esta consci\u00eancia de que o portugu\u00eas padr\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno alheio \u00e0 realidade imediata do aluno, ser\u00e1 mais f\u00e1cil ensinar-lhe a gram\u00e1tica p\u00e1tria. N\u00e3o ser\u00e1 preciso, intolerantemente, dizer-lhe que &#8220;assim \u00e9 que \u00e9 certo&#8221;, apenas que *na l\u00edngua padr\u00e3o \u00e9 diferente.* No dia em que n\u00e3o for mais necess\u00e1rio usar a l\u00edngua padr\u00e3o como ferramenta de subjuga\u00e7\u00e3o das identidades regionais ela ser\u00e1 at\u00e9 mais efetiva para unir os diversos povos que formam o povo brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A leitura de *Preconceito Lingu\u00edstico: o que \u00e9 e como se faz* &#8212; obra seminal de Marcos Bagno &#8212; me abriu os olhos para algo que eu intu\u00eda, mas nunca articulava: o vi\u00e9s de luta de classes que est\u00e1 presente na concep\u00e7\u00e3o da l\u00edngua como algo que precisa ser ensinado ao povo *ignorante*, ao povo que *n\u00e3o sabe falar*. Na vis\u00e3o da gramatiquice tradicional, j\u00e1 devidamente desancada por Monteiro Lobato em sua *Em\u00edlia no Pa\u00eds da Gram\u00e1tica*, o povo \u00e9 uma esp\u00e9cie de primata pelado que n\u00e3o se humaniza, pela linguagem, se n\u00e3o for \u00e0 escola, esse laborat\u00f3rio do saber onde o tosco b\u00edpede \u00e9 amestrado naquilo que serve aos objetivos da sociedade capitalista.[&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[72,74,62,73],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4795,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72\/revisions\/4795"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}