{"id":7211,"date":"2020-05-31T23:36:24","date_gmt":"2020-06-01T02:36:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7211"},"modified":"2020-05-31T23:36:26","modified_gmt":"2020-06-01T02:36:26","slug":"o-valor-do-subjetivo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/05\/o-valor-do-subjetivo\/","title":{"rendered":"O Valor do Subjetivo"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma das consequ\u00eancias nefastas da digitiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de consumo foi a transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de consumo cultural, diminuindo a percep\u00e7\u00e3o do valor da arte. Tudo agora \u00e9 digital, pode ser infinitamente copiado, pode ser rapidamente transacionado e somente existe de maneira virtual, como uma sequ\u00eancia de zeros e uns armazenada em algum meio eletr\u00f4nico. Se antes o objetivo da ind\u00fastria cultural era replicar, ao m\u00e1ximo, objetos como livros e discos a fim de vend\u00ea-los e obter lucro, agora o objetivo a ind\u00fastria cultural \u00e9 impedir ao m\u00e1ximo tais c\u00f3pias, evitando vend\u00ea-los, mantendo controle sobre a fonte a fim de &#8220;alugar&#8221; a experi\u00eancia do conte\u00fado. A ind\u00fastria cultural deixou de ser divulgadora para ser controladora.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/spotify-update-support-new-idevice-display-1-800x450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7214\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/spotify-update-support-new-idevice-display-1-800x450.jpg 800w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/spotify-update-support-new-idevice-display-1-250x141.jpg 250w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/spotify-update-support-new-idevice-display-1-120x68.jpg 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/spotify-update-support-new-idevice-display-1-768x432.jpg 768w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/spotify-update-support-new-idevice-display-1.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Os arquivos n\u00e3o est\u00e3o com voc\u00ea. Voc\u00ea os ouve, mas n\u00e3o os possui.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Isso destruiu a cadeia de valor da ind\u00fastria como antes a conhec\u00edamos. A mudan\u00e7a mais vis\u00edvel foi na ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, a que teve o maior impacto cultural. Mas nem por isso a ind\u00fastria editorial ficou imune. O livro, enquanto objeto f\u00edsico, tornou-se um item de consumo diferenciado, n\u00e3o mais <em>o meio<\/em> de difus\u00e3o do texto, mas uma forma elitizada de sua experi\u00eancia. Para a ampla maioria da popula\u00e7\u00e3o, a leitura agora \u00e9 digital.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente h\u00e1 mais pessoas lendo, mas essas pessoas talvez n\u00e3o leiam tanto, ou talvez leiam de maneira diferente. O que me importa mais, no entanto, \u00e9 que essas pessoas n\u00e3o somente <em>leem diferente, mas leem a um pre\u00e7o mais baixo<\/em>. Isso quer dizer que o acr\u00e9scimo ao PIB gerado pela venda de cada leitura em meio digital \u00e9 inferior ao acr\u00e9scimo proporcionado pela mesma leitura em meio f\u00edsico. Se o pre\u00e7o do livro digital \u00e9 inferior ao pre\u00e7o do livro f\u00edsico, tanto a editora quanto os demais integrantes da cadeia do livro <em>ganham menos.<\/em> Portanto, mesmo que mais gente esteja lendo, a receita de vendas do mercado editorial parece tendente a cair.<\/p>\n\n\n\n<p>A isso se somam tr\u00eas fatores: a facilidade para entrar no mercado, o gargalo na distribui\u00e7\u00e3o e a pirataria.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando falo de &#8220;facilidade&#8221; eu quero dizer relativamente, \u00e9 claro. Antigamente as editoras precisavam surgir em grandes centros, logisticamente pr\u00f3ximas \u00e0 ind\u00fastria gr\u00e1fica e preferencialmente pr\u00f3ximas de centros consumidores relevantes, a partir dos quais podiam crescer. N\u00e3o espanta, portanto, que a maior parte da ind\u00fastria editorial tradicional se localizasse no Rio de Janeiro ou S\u00e3o Paulo &#8212; as duas maiores cidades do pa\u00eds &#8212; e em Porto Alegre &#8212; cidade culturalmente rica e com mais cultura letrada que a m\u00e9dia nacional. Fora desse circuito havia poucas editoras, geralmente ligadas ao poder p\u00fablico ou a projetos pessoais de homens poderosos. Hoje em dia, com as facilidades de interc\u00e2mbio de arquivos on-line, praticamente o \u00fanico momento em que a dist\u00e2ncia impacta na log\u00edstica \u00e9 na fase final, de distribui\u00e7\u00e3o do livro pronto.<\/p>\n\n\n\n<p>A facilidade relativamente maior para os novos entrantes aumentou a competi\u00e7\u00e3o. Competi\u00e7\u00e3o reduz margens de lucros.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando falo de gargalo na distribui\u00e7\u00e3o eu me refiro \u00e0 progressiva concentra\u00e7\u00e3o da rede de distribui\u00e7\u00e3o. Algumas poucas cadeias nacionais controlam parte importante do mercado de livraria f\u00edsica &#8212; todas as demais t\u00eam abrang\u00eancia apenas local ou regional. A internet, que prometeu democratizar o acesso a quase tudo, inclusive ao livro, est\u00e1 criando gradualmente um monop\u00f3lio da Amazon. Esse gargalo significa que as editoras t\u00eam menos poder de barganha que os distribuidores porque estas s\u00e3o muitas e estes s\u00e3o poucos &#8212; t\u00eam, portanto, o poder de determinar o que ser\u00e1 distribu\u00eddo, a que pre\u00e7o e sob que condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/img.elo7.com.br\/product\/original\/AFE571\/cadernos-harry-potter-sonserina-caderno-sonserina.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"300\"\/><figcaption>Esses cadernos tamb\u00e9m d\u00e3o lucro aos detentores dos direitos autorais do best-seller que os originou. Voc\u00ea pode <a href=\"https:\/\/www.elo7.com.br\/cadernos-harry-potter-sonserina\/dp\/474B41\">compr\u00e1-los na Elo7<\/a>.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A pirataria de livros se tornou um problema adicional. Grandes empresas como a Amazon se esfor\u00e7am muito pouco para combat\u00ea-la porque, na maioria dos casos, os piratas de livros n\u00e3o os comprariam de outra forma. Para as grandes distribuidoras a pirataria, ao criar uma cultura de leitura, pode at\u00e9 criar demanda. Para a Amazon, qualquer incremento de sua venda de livros eletr\u00f4nicos representa uma receita praticamente sem custo envolvido. Quem se prejudica com a pirataria s\u00e3o os autores e os editores, especial, mas n\u00e3o exclusivamente, os pequenos de ambas as categorias. Para as grandes editoras e os autores de <em>best-sellers<\/em>, a pirataria tem impacto menor porque n\u00e3o ganham dinheiro somente de uma maneira. Um best-seller pode ser licenciado para uma adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, ent\u00e3o a pirataria, ao difundir o conte\u00fado, cria demanda de p\u00fablico para o filme que ser\u00e1 produzido. Pode ser licenciado para a produ\u00e7\u00e3o de lembran\u00e7as diversas (canecas, roupas, quadros, cadernos etc.) que tamb\u00e9m vender\u00e3o mais por causa desse p\u00fablico adicional. Certamente as grandes editoras tamb\u00e9m gostariam que cada pirata comprasse um livro, mas eles realmente n\u00e3o se importam tanto quanto as editoras pequenas, que n\u00e3o t\u00eam seus livros adaptados para o cinema nem transformados em produtos culturais cobi\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p>A pirataria tem outro impacto negativo sobre a cadeia do livro e a cultura que a circunda.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma sociedade capitalista, uma das fun\u00e7\u00f5es do dinheiro \u00e9 emprestar valor subjetivo \u00e0s rela\u00e7\u00f5es culturais. As pessoas valorizam produtos efetivamente sem valor, ou de custo muito menor que o valor de mercado, por causa de seu alto pre\u00e7o e de seu valor subjetivo \u2014 caso do Beaujolais Nouveau e das roubas (sic) Abercrombie &amp; Fitch. <\/p>\n\n\n\n<p>Ao eliminar o valor transacional da aquisi\u00e7\u00e3o de um livro voc\u00ea est\u00e1, essencialmente, dizendo que ele n\u00e3o tem valor algum sen\u00e3o o valor utilit\u00e1rio, que se esgota no mesmo instante em que voc\u00ea o consome. Ele n\u00e3o \u00e9 um item de status, que voc\u00ea adquire para ostentar, como uma roupa de grife que voc\u00ea lava e guarda mesmo depois que j\u00e1 usou para ir a uma festa. Somente o mercado do livro f\u00edsico tem esse poder fetichizante, de transformar a experi\u00eancia de leitura em algo para se p\u00f4r na estante e exibir por tr\u00e1s de si ao aparecer na internet.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"461\" height=\"615\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DSCF0422.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7212\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DSCF0422.jpg 461w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DSCF0422-225x300.jpg 225w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DSCF0422-112x150.jpg 112w\" sizes=\"(max-width: 461px) 100vw, 461px\" \/><figcaption>Uma estante dessas, que sempre foi uma coisa rara nas casas brasileiras, hoje se tornou ainda mais um anacronismo. <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ainda mais, ao obter sem custo, o leitor n\u00e3o se compromete com a leitura com a mesma profundidade. Quem est\u00e1 lendo um livro f\u00edsico no \u00f4nibus investiu nesse gesto. N\u00e3o vai simplesmente abandonar ali o livro, nem vai transportar seu peso em v\u00e3o. O simples fato de t\u00ea-lo \u00e0 m\u00e3o j\u00e1 exige que a escolha seja valorizada, que n\u00e3o tenha sido em v\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas se o livro \u00e9 apenas um arquivo  eletr\u00f4nico entre muitos, que pode ser facilmente descartado, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 investimento nisso. Depois de ler uma p\u00e1gina e n\u00e3o gostar, o leitor n\u00e3o se sente mais obrigado. Essa leitura sem obriga\u00e7\u00e3o faz com que as pessoas n\u00e3o se invistam emocionalmente na leitura e n\u00e3o valorizem o trabalho do autor. Faz, tamb\u00e9m, com que a literatura do passado n\u00e3o tenha mais apelo para o leitor moderno. Quem quer sobreviver nesse novo mundo deve praticar uma nova forma de escrita, que tem de se basear em dar um tapa na cara do leitor a cada &#8220;n&#8221; par\u00e1grafos a fim de mant\u00ea-lo interessado e acordado. &#8220;N&#8221; \u00e9 um valor que muda conforme o nicho de leitura.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem ainda n\u00e3o entendeu isso est\u00e1, como eu, ultrapassado. Sou um escritor que nasceu p\u00f3stumo porque comecei a praticar a literatura, j\u00e1 nos anos 1990, seguindo um paradigma de cinquenta anos antes. Eu comecei datilografando em uma \u00e9poca em que nascia o mundo da inform\u00e1tica. Demorei a entender as regras do jogo, mas entend\u00ea-las n\u00e3o quer dizer que sei jogar com elas. Mas voc\u00ea que est\u00e1 come\u00e7ando agora n\u00e3o precisa ficar para tr\u00e1s. Leia e aprenda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das consequ\u00eancias nefastas da digitiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de consumo foi a transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de consumo cultural, diminuindo a percep\u00e7\u00e3o do valor da arte. Tudo agora \u00e9 digital, pode ser infinitamente copiado, pode ser rapidamente transacionado e somente existe de maneira virtual, como uma sequ\u00eancia de zeros e uns armazenada em algum meio eletr\u00f4nico. 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