{"id":7278,"date":"2020-08-15T00:51:37","date_gmt":"2020-08-15T03:51:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7278"},"modified":"2020-08-15T00:51:40","modified_gmt":"2020-08-15T03:51:40","slug":"o-que-e-necessario-para-que-uma-cancao-tenha-qualidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/08\/o-que-e-necessario-para-que-uma-cancao-tenha-qualidade\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 necess\u00e1rio para que uma can\u00e7\u00e3o tenha qualidade?"},"content":{"rendered":"\n<p>Comecemos por tirar o bode da sala. FUNK N\u00c3O \u00c9 RUIM. O que \u00e9 ruim \u00e9 a qualidade dos artistas que o produzem (dos compositores aos produtores, passando pelos, assim digamos, &#8220;int\u00e9rpretes&#8221;).<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea perguntou especificamente sobre o que deve haver na <em>composi\u00e7\u00e3o, <\/em>mas eu preciso tamb\u00e9m lhe contar que muitas vezes o que torna uma obra musicalmente interessante \u00e9 o que vem depois da composi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Maria Beth\u00e2nia   Carcar\u00e1 1965)\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Mw6uxqmHBNY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Em termos de composi\u00e7\u00e3o, &#8220;Carcar\u00e1&#8221; \u00e9 uma obra de uma pobreza l\u00edrica que chega a ser rid\u00edcula e que, sim, foi realmente criada por um analfabeto de pai e m\u00e3e, sem nenhuma cultura liter\u00e1ria. Eu tenho medo de pensar na tosqueira que essa composi\u00e7\u00e3o era na voz e no viol\u00e3o de seu compositor original.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas em 1965 havia um interesse de parte da intelligentsia brasileira em recuperar a &#8220;arte popular&#8221; e ressignific\u00e1-la. Isso deu a &#8220;Carcar\u00e1&#8221; um arranjo mais elaborado e a p\u00f4s em um show m\u00edtico, na voz de Maria Beth\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, uma composi\u00e7\u00e3o absolutamente ruim se tornou um cl\u00e1ssico de nossa MPB. Um cl\u00e1ssico que cont\u00e9m met\u00e1foras absurdas como &#8220;um bicho que avoa que nem um avi\u00e3o&#8221; (estamos falando aqui de uma ave de rapina), &#8220;tem o bico volteado que nem gavi\u00e3o&#8221; (&#8220;carcar\u00e1&#8221; \u00e9 literalmente um nome regional para a ave que em outros lugares do Brasil \u00e9 chamada de\u2026 rufem os tambores\u2026 gavi\u00e3o\u2026).<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, meu amigo, eu sinto lhe dizer que na m\u00fasica popular (essa que depende de letra, melodia e ritmo), a composi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mais importante. Importa \u00e9 a m\u00e3o que pega a obra e lhe d\u00e1 forma, como no caso acima.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, n\u00e3o s\u00f3 na m\u00fasica popular. Se voc\u00ea acha o funk obsceno e pensa que o mundo se tornou absurdo e nojento por ter m\u00fasica assim\u2026.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Mozart - &quot;Leck mich im Arsch&quot; - Canon in B flat for 6 Voices, K. 231 \/ K. 382c\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/C78HBp-Youk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea ficaria chocado com a letra desse funk de 1782 composto pelo MC Mozart\u2026 que tem basicamente a repeti\u00e7\u00e3o da frase &#8220;leck mich im Arsch geschwindig!&#8221; Sugiro que voc\u00ea <a href=\"https:\/\/translate.google.com\/#view%3Dhome%26op%3Dtranslate%26sl%3Dde%26tl%3Dpt%26text%3DLeck%20mich%20im%20Arsch%20geschwindig\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">veja no Google Translate<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>o que esses vetustos cantores est\u00e3o dizendo.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00fanica coisa que realmente mudou \u00e9 que hoje essas coisas circulam em massa. Antigamente elas circulavam em pequenos espa\u00e7os: cada lugar tinha sua deprava\u00e7\u00e3o regional, em vez de termos uma deprava\u00e7\u00e3o universal. Ningu\u00e9m no Brasil ouviria os meninos cantores de Viena cantarem Leck Mich Im Arsch, mas n\u00f3s ter\u00edamos as nossas pr\u00f3prias indec\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eu quero dizer com isso que uma letra profunda n\u00e3o tem valor. Tem, claro. Para mim tem valor para cara\u2026. quer dizer, leck mich im arsch se eu n\u00e3o der valor a quem escreve uma letra como &#8220;Met\u00e1fora&#8221;, do Gilberto Gil:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"GILBERTO GIL MET\u00c1FORA\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/h-mpzCNiCHU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas essa letra s\u00f3 tem valor porque est\u00e1 num disco do Gil. Se eu escrever algo semelhante, mas n\u00e3o tiver quem componha melodia, produza e grave\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>A qualidade s\u00f3 existe porque se transforma em obra. E a obra pode ser feita de partes ruins.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tenho a humildade de n\u00e3o achar que tenho gosto superior por gostar de uma m\u00fasica mais elaborada, mas exijo meu direito de abominar certos g\u00eaneros inteiros como se fossem pouco mais que urros de neandertais. Respeito a voc\u00ea meu camarada, mas prefiro ouvir um c\u00e3o latir do que cinco segundos disso que voc\u00ea est\u00e1 ouvindo. Gosto de voc\u00ea, mas prefiro que voc\u00ea fique longe, porque voc\u00ea vem sempre me invadindo com seu som e eu aprecio meu sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio n\u00e3o ofende a ningu\u00e9m, mas at\u00e9 m\u00fasica boa pode ofender\u2026<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Jair Rodrigues - DISPARADA - Geraldo Vandr\u00e9 e Th\u00e9o de Barros - ano de 1966\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bDvgZLs9mKw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>A letra de &#8220;Disparada&#8221; ofendeu a ditadura militar de um jeito tal que eles precisaram destruir o Geraldo Vandr\u00e9, um dos maiores compositores do Brasil naquela \u00e9poca\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Pensando bem, falar de bunda \u00e9 bem menos perigoso nos dias de hoje\u2026 Leck mich im Arsch geschwindig!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comecemos por tirar o bode da sala. FUNK N\u00c3O \u00c9 RUIM. O que \u00e9 ruim \u00e9 a qualidade dos artistas que o produzem (dos compositores aos produtores, passando pelos, assim digamos, &#8220;int\u00e9rpretes&#8221;). Voc\u00ea perguntou especificamente sobre o que deve haver na composi\u00e7\u00e3o, mas eu preciso tamb\u00e9m lhe contar que muitas vezes o que torna uma obra musicalmente interessante \u00e9 o que vem depois da composi\u00e7\u00e3o: Em termos de composi\u00e7\u00e3o, &#8220;Carcar\u00e1&#8221; \u00e9 uma obra de uma pobreza l\u00edrica que chega a ser rid\u00edcula e que, sim, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7044,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[186],"tags":[27,26,57,222],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7278"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7278"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7278\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7279,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7278\/revisions\/7279"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7044"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}