{"id":80,"date":"2013-02-03T12:17:00","date_gmt":"2013-02-03T15:17:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=80"},"modified":"2017-04-15T23:38:17","modified_gmt":"2017-04-16T02:38:17","slug":"visita-a-uma-livraria-do-presente-do-indicativo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/02\/visita-a-uma-livraria-do-presente-do-indicativo\/","title":{"rendered":"Visita a uma Livraria do Presente do Indicativo"},"content":{"rendered":"<p>Ontem me dei conta da falta que faz visitar ocasionalmente uma livraria. Estive brevemente na Leitura &#8220;Megastore&#8221; em Juiz de Fora e pude compreender muito daquilo que tenho visto e lido na internet. Algumas conclus\u00f5es foram animadoras, outras terr\u00edveis, a maioria apenas remete a uma neutra mudan\u00e7a de padr\u00f5es, oscila\u00e7\u00f5es de modas que n\u00e3o mudam nada. Mudam-se as palavras, mudam-se os estilos, permanece uma falta de sentido que denuncia os tempos perigosos que vivemos.[^1]<\/p>\n<p>A primeira coisa que notei foi a mudan\u00e7a de foco da literatura de auto ajuda. Ela j\u00e1 n\u00e3o predomina tanto nas prateleiras e parece mais focada em livros baseados em experi\u00eancias reais. Um bom exemplo \u00e9 a autobiografia de Nick Vujici\u0107, da qual havia nada menos que uma pilha de exemplares. Esse tipo de auto ajuda que agora predomina parece explorar a culpa do indiv\u00edduo como um fator motivacional: olha s\u00f3, esse cara t\u00e1 todo fodido e ainda assim realiza mais coisas que voc\u00ea. O nome do site de Vujici\u0107 \u00e9 sugestivo desse apelo: &#8220;From No Limbs to No Limits&#8221; (De Sem-Membros a Sem-Limites) e a sugest\u00e3o \u00e9 &#8220;voc\u00ea, com quatro membros, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o sensacional quanto o Nick&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas conclus\u00f5es que eu tiro disso. A primeira \u00e9 que Paulo Coelho \u00e9 carta fora do baralho agora: o seu estilo de auto ajuda ficcional chupando antigos textos religiosos e lendas orientais n\u00e3o tem o mesmo apelo porque as pessoas est\u00e3o procurando coisas reais, e n\u00e3o inven\u00e7\u00f5es de magos que fazem chover. Azar da Academia que o aceitou pensando em popularizar-se entre seus leitores. A p\u00e1gina de Paulo est\u00e1 sendo virada e dentro de alguns anos ele voltar\u00e1 a ser lembrado apenas como o parceiro de Raul Seixas em algumas de suas melhores composi\u00e7\u00f5es. Por sorte ele aproveitou seus quase vinte anos de berlinda para ganhar dinheiro a rodo e comprar im\u00f3veis em lugares nobres, como o interior da Su\u00ed\u00e7a. Vai ter uma aposentadoria de rei, e morrer\u00e1 se achando um g\u00eanio, enquanto eu vou continuar aqui desconhecido no interior de Minas Gerais, o que, na cabe\u00e7a da maioria do povo, significa que ele \u00e9 um &#8220;sucesso&#8221; e eu, um idiota. Argumentum ad crumenam, mas o povo n\u00e3o liga para fal\u00e1cias, o povo gosta de idolatrar o sucesso, seja qual for. A vida das &#8220;famosidades&#8221; instant\u00e2neas demonstra isso: &#8220;artista&#8221; no Brasil \u00e9 quem aparece na TV.<\/p>\n<p>A segunda conclus\u00e3o \u00e9 que a auto ajuda cada vez mais se afasta do que seria chamado de &#8220;literatura&#8221;. Isso \u00e9 bom para a auto ajuda, porque a literatura est\u00e1 moribunda, e \u00e9 bom tamb\u00e9m para a literatura, porque parte de sua doen\u00e7a esteve relacionada \u00e0 sua contamina\u00e7\u00e3o pela auto ajuda. Separadas, veremos como evoluem.<\/p>\n<p>O sintoma mais forte de que a literatura anda moribunda \u00e9 o sensacionalismo baseado no tamanho. Hoje todo mundo quer escrever trilogias ou, no m\u00ednimo, tijola\u00e7os. Argumentum ad numerum, mas o povo n\u00e3o liga para fal\u00e1cias. Quanto mais grosso o livro, maior o desafio de escrev\u00ea-lo. Desafio \u00e9 vencer limites f\u00edsicos, n\u00e3o art\u00edsticos. A maioria dos leitores de hoje provavelmente acharia que uma obra breve, como\u00a0 &#8220;O Apanhador no Campo de Centeio&#8221;,\u00a0 \u00e9 inferior a um peso de porta como &#8220;Heran\u00e7a&#8221;, \u00faltimo volume da tetralogia de Christopher Paolini. O fato de se poder contar toda a hist\u00f3ria da tetralogia em vinte ou trinta p\u00e1ginas n\u00e3o faz diferen\u00e7a: um livro de tantas p\u00e1ginas merece respeito, tanto quanto os m\u00fasculos criados por anos de malha\u00e7\u00e3o. O esfor\u00e7o f\u00edsico importa mais que o efeito. Vivemos uma era que idolatra a teimosia. Talvez por isso o karat\u00ea, a arte marcial que idealiza o golpe perfeito, tenha sa\u00eddo de moda, e hoje idolatremos aquela bosta do UFC, uma esp\u00e9cie de briga de rua com regras, t\u00e3o cronometrada quanto a &#8220;luta livre&#8221; estilo &#8220;tele-catch&#8221;, s\u00f3 que com sangue, para &#8220;dar realismo&#8221;. O carateca &#8220;magrelo&#8221; \u00e9 zombado hoje: o objetivo do treinamento \u00e9 criar massa, tal como o objetivo da literatura \u00e9 criar p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>Isso explica porque os jovens vivem obcecados com trilogias, tetralogias, pentalogias, hexalogias, heptalogias, enealogias, decalogias, fodasselogias. Eles n\u00e3o t\u00eam um estilo, mas um objetivo. A ideia \u00e9 vencer um desafio, n\u00e3o produzir uma obra.<\/p>\n<p>Eu mesmo acabei recaindo nisso ao dizer, zombeteiramente, quando do lan\u00e7amento de meu romance de estreia: &#8220;n\u00e3o produzi mais uma apostila com ISBN para valer de t\u00edtulo na Academia, produzi um livro que tem, pelo menos, a dignidade de parar em p\u00e9 na estante.&#8221; Minha declara\u00e7\u00e3o maldosa tinha um alvo claro, se ele est\u00e1 me lendo deve estar me xingando, mas tinha uma falha: ao dizer isso eu estava legitimando essas obras que proliferam p\u00e1ginas como um c\u00e2ncer prolifera c\u00e9lulas. Se o meu livro para em p\u00e9 na estante, tem gente querendo escrever livros sobre os quais a estante pare em p\u00e9. Andar com tais livros \u00e9 chique, isso \u00e9 que \u00e9 livro de macho, mesmo que sua quantidade de p\u00e1ginas seja anabolizada por artif\u00edcios que n\u00e3o acrescentam conte\u00fado. A velha diferen\u00e7a entre crescer, inflar e inchar.<\/p>\n<p>Outra coisa curiosa \u00e9 que a ampla maioria das obras postas nas estantes de destaque, na entrada da loja, eram literatura de fantasia. Nem estou falando de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, porque essa exige estudo at\u00e9 para se entender. Estou falando de fantasia desbragadamente desconectada da realidade, ambientada em pa\u00edses fict\u00edcios para que o autor n\u00e3o precisa pesquisar sobre um real e o leitor n\u00e3o aprenda, por acidente, algo sobre um que exista. Houve uma \u00e9poca em que o exotismo estava na moda, e muito jovem autor brasileiro queria se chamar Johnny e escrevia hist\u00f3rias ambientadas nos Ist\u00eaitis, mas o exotismo cont\u00e9m uma busca de conhecimento, da qual a literatura de fantasia est\u00e1 livre, gra\u00e7as a Deus. Se o pa\u00eds e a cultura s\u00e3o inventados a partir do nada, ent\u00e3o vale de tudo, dane-se a l\u00f3gica, foda-se a coer\u00eancia hist\u00f3rica. Se tudo ficar complicado, aparece um deus ou anjo ou dem\u00f4nio ou drag\u00e3o e conserta tudo. E sempre se pode ressuscitar o morto para mais um cap\u00edtulo, ou dar um reboot na hist\u00f3ria inventando que o n\u00f3 que a atava era um &#8220;sonho&#8221;. E vamos que vamos que duzentas p\u00e1ginas ainda est\u00e1 pouco. O bom da fantasia \u00e9 que sempre se d\u00e1 um jeito de se chegar aonde se quer, os limites da realidade n\u00e3o interferem.<\/p>\n<p>Claro que a maioria desta fantasia \u00e9 obra de autores estrangeiros, em sua maioria ianques. N\u00e3o \u00e9 um produto cultural, \u00e9 um fast food que d\u00e1 mais lucro por ser importado, vindo j\u00e1 de fora com a propaganda gr\u00e1tis das redes sociais e das s\u00e9ries veiculadas na TV por assinatura, onde a classe m\u00e9dia se isola da &#8220;tosqueira&#8221; da TV aberta. Sinceramente, se eu fosse come\u00e7ar de novo a escrever, investiria mais no meu curso de ingl\u00eas, batalharia um interc\u00e2mbio, inventaria um pseud\u00f4nimo anglo-sax\u00e3o (ali\u00e1s, inventei: em certa \u00e9poca andei escrevendo &#8220;coisas&#8221; sob o nome fict\u00edcio de Gerald Goldman) e fantasiaria alguma terra imagin\u00e1ria com personagens de nomes toscos baseados em latim macarr\u00f4nico, pseudogrego ou pseudohebraico. Com um pouco de sorte eu me tornaria famoso, ou ent\u00e3o tentaria a sorte dizendo que minha obra era Escritura Sagrada.<\/p>\n<p>No fim de minha visita preferi comprar um *pendrive*. Sa\u00ed e entrei num sebo, onde comprei a dez reais o quilo obras muito mais interessantes. O que me d\u00e1 medo \u00e9 que os sebos do futuro ser\u00e3o alimentados pelas obras adquiridas hoje. Essas obras abomin\u00e1veis.<\/p>\n<p>[^1]: O t\u00edtulo deste texto \u00e9 uma alus\u00e3o a [este conto](http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/04\/livraria-do-futuro-do-preterito).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem me dei conta da falta que faz visitar ocasionalmente uma livraria. Estive brevemente na Leitura &#8220;Megastore&#8221; em Juiz de Fora e pude compreender muito daquilo que tenho visto e lido na internet. Algumas conclus\u00f5es foram animadoras, outras terr\u00edveis, a maioria apenas remete a uma neutra mudan\u00e7a de padr\u00f5es, oscila\u00e7\u00f5es de modas que n\u00e3o mudam nada. 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