{"id":82,"date":"2013-01-25T23:24:00","date_gmt":"2013-01-26T02:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=82"},"modified":"2017-11-12T14:43:14","modified_gmt":"2017-11-12T17:43:14","slug":"de-que-modo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/01\/de-que-modo\/","title":{"rendered":"De Que Modo?"},"content":{"rendered":"<p>Uma das maiores dificuldades que h\u00e1 no mundo \u00e9 a de se ensinar. Quem tenta ensinar geralmente se exp\u00f5e. N\u00e3o raramente surge a cobran\u00e7a da legitimidade: Como voc\u00ea quer me ensinar a falar ingl\u00eas sem ser nativo? Como vai me ensinar m\u00fasica se toca toscamente esse viol\u00e3o? Como vai me ensinar a dirigir se tem carteira de motorista e seguro de autom\u00f3vel h\u00e1 dez anos e o seu b\u00f4nus \u00e9 zero? Como vai me ensinar a desenhar se os seus personagens parecem tortos no papel?<\/p>\n<p>Mas os questionamentos n\u00e3o acabam junto com a fase da falta de legitimidade (que chega ao fim por pregui\u00e7a do aprendiz, que se conforma em n\u00e3o achar instrutor melhor, ou porque aceita que, afinal, nem \u00e9 preciso saber fazer para ensinar a fazer). Depois que as pessoas resolvem ouvi-lo surge o desafio do poder, e voc\u00ea pode come\u00e7ar a escrever besteiras, desnudando-se de uma forma que n\u00e3o queria. Infelizmente o mundo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o escasso de crian\u00e7as de cinco anos dispostas a apontar que o rei desfila pelad\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta semana est\u00e1 bombando nas redes sociais o caso de uma editora que teria postado em seu saite, sob o t\u00edtulo de &#8220;Dicas Para Escrever um Romance&#8221;, uma curiosa pe\u00e7a, de autoria de uma certa Thayane Gaspar (quem?) que inclu\u00eda conselhos pol\u00eamicos:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Thayane-Gaspar-Modo-Editora.png\" width=\"403\" height=\"403\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3676\" style=\"margin: 0 auto 0 auto; padding: 0; text-align: center\" alt=\"As dicas de escrita da Editora foram publicadas atrav\u00e9s desta imagem compartilh\u00e1vel nas redes sociais\" aria-describedby=\"modo\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Thayane-Gaspar-Modo-Editora.png 403w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Thayane-Gaspar-Modo-Editora-120x120.png 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Thayane-Gaspar-Modo-Editora-250x250.png 250w\" sizes=\"(max-width: 403px) 100vw, 403px\" \/><\/p>\n<blockquote><p>\n  <strong>Dicas de como escrever um romance<\/strong><\/p>\n<p>  Seja original, e para isso fique longe de outros livros. Em total abstin\u00eancia liter\u00e1ria. Ser\u00e1 como se s\u00f3 existisse seu romance no seu mundo, do mesmo jeito para o mocinho, s\u00f3 existe a mocinha.<\/p>\n<p>  Inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 o estado de sintonia entre sua alma e voc\u00ea, \u00e9 o momento em que a alma consegue se expressar verbalmente. Por isso, busque coisas que evoquem esta sintonia: uma m\u00fasica, um lugar, uma foto que mexa com voc\u00ea. Fique perto dessas coisas, e d\u00ea voz \u00e0 sua alma, e n\u00e3o a force, ela s\u00f3 fala o necess\u00e1rio e quando necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>  Descreva o m\u00ednimo poss\u00edvel a apar\u00eancia dos personagens. \u00c9 como se eu fizesse apenas o contorno de seus desenhos e passasse a tarefa adiante, para o leitor. Esse \u00e9 o trabalho deles. O meu \u00e9 dar vida a sentimentos, sonhos e hist\u00f3rias. E o nosso trabalho \u00e9, que juntos, fa\u00e7amos essas pessoas reais dentro de nossas mentes.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Esses tr\u00eas par\u00e1grafos nos revelam muita coisa sobre Thayane Gaspar, sobre a Modo Editora (que muito antes de ter publicado esse texto havia endossado a autora) e sobre o tipo gen\u00e9rico de escritor que tem procurado as nossas editoras. Mas revela tamb\u00e9m sobre o arqu\u00e9tipo de literato que vem sendo transmitido em nosso pa\u00eds, de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o. Um dos muitos arqu\u00e9tipos nocivos (ou seja, &#8220;preconceitos&#8221;) que expressam o nosso atraso mental coletivo.<\/p>\n<p>O que Thayane est\u00e1 expressando neste texto \u00e9 o que ela, certamente, tem dentro de si: a concep\u00e7\u00e3o da literatura como o resultado de uma inspira\u00e7\u00e3o superior, e n\u00e3o um trabalho com as palavras, algo que exige &#8220;inspira\u00e7\u00e3o&#8221;, mas n\u00e3o &#8220;transpira\u00e7\u00e3o&#8221; (n\u00e3o force muito), e que n\u00e3o dialoga com o mundo real (como se s\u00f3 existisse seu romance no seu mundo), mas com um mundo de f\u00e1bula, uma torre de marfim onde o escritor, este or\u00e1culo dos deuses, produz sua obra. Dentro de sua torre de marfim o autor n\u00e3o precisa dialogar com a cultura na qual est\u00e1 imerso (ou n\u00e3o, isso depende de cada um), mas com um plano mais elevado (fisica e espiritualmente) de onde misteriosamente vem a tal &#8220;inspira\u00e7\u00e3o&#8221; (ela s\u00f3 fala o necess\u00e1rio e quando necess\u00e1rio).<\/p>\n<p>Esta personifica\u00e7\u00e3o da inspira\u00e7\u00e3o como algo alheio ao autor, e independente de sua vontade, busca, claro, valorizar o produto obtido como algo que n\u00e3o estaria ao alcance de &#8220;qualquer um&#8221;. Faz parte da mitologia liter\u00e1ria nacional imaginar o autor como uma esp\u00e9cie de Escolhido, portador de um dom gratuito de Deus ou da natureza (ou de Satan\u00e1s, se tiver fechado um pacto numa sexta feira numa encruzilhada sacrificando um bode).<\/p>\n<p>T\u00e3o importante \u00e9 esse trabalho (quase no sentindo umbandista do termo) a que se dedica o Autor (com letras mai\u00fasculas, pois ele \u00e9 um ser iluminado), que ele n\u00e3o deve perder tempo com detalhes trabalhosos, como descri\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 trabalho do autor descrever narizes, imaginar cores, catalogar caracter\u00edsticas, saber tamanhos. O trabalho do Autor \u00e9 &#8220;dar vida&#8221; (tal como um Dr. Frankenstein que lida com mem\u00f3rias e inspira\u00e7\u00f5es, cad\u00e1veres de emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es) a &#8220;sentimentos, sonhos e hist\u00f3rias&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p>A autora, apesar do desastroso modo como apresenta o conceito, est\u00e1, de fato, buscando ser moderninha, ao ecoar a tese da obra liter\u00e1ria como um processo aberto, do qual o autor n\u00e3o tem controle, e no qual cabe ao leitor um processo de co-cria\u00e7\u00e3o durante a leitura. Conhe\u00e7o apenas vagamente o conceito, que meu amigo Jo\u00e3o Francisco diz originar-se em Roland Barthes (autor de que li um excelente livro certa vez e depois esqueci benditamente cada linha). O que ela n\u00e3o sabe \u00e9 que ningu\u00e9m razoavelmente culto ousaria dizer que o autor devia se abster de criar, confiando que o leitor criaria o que faltasse. Parece \u00f3bvio que, se o leitor estivesse dispostos a tanto, e soubesse tanto, n\u00e3o haveria necessidade de se valorizar tanto o Autor e sua Inspira\u00e7\u00e3o (que o diabo os carregue se eles n\u00e3o servem para produzir bons livros). Thayane n\u00e3o percebe que seus conselhos se chocam uns contra os outros, porque ela tenta harmonizar seus preconceitos arquet\u00edpicos com doutrinas filol\u00f3gicas modernas e um pouco de justifica\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por fim, a abstin\u00eancia liter\u00e1ria (sic) recomendada pela autora ecoa este privil\u00e9gio, ao negar a import\u00e2ncia, ou o valor, da influ\u00eancia de uma obra sobre outra. Mais que isso, sup\u00f5e a autora que, por n\u00e3o ter lido outros romances, voc\u00ea n\u00e3o os imitar\u00e1. Esta afirmativa revela uma profunda ignor\u00e2ncia dos mecanismos da literatura, pois ela desconhece a exist\u00eancia de modelos mentais que condicionam a estrutura\u00e7\u00e3o narrativa at\u00e9 mesmo de pessoas iletradas: os <em>causos<\/em> contados pelos pitorescos matutos do interior n\u00e3o s\u00e3o menos estruturados do que os bons romances, apenas est\u00e3o vazados numa linguagem n\u00e3o padronizada e padecem, devido ao contexto oral e informal, de uma s\u00e9rie de elementos &#8220;poluidores&#8221; que desviam seu foco e seu fluxo, dificultando uma linearidade maior. Desconhece, ainda mais, essa continuidade estrutural entre a literatura oral e a literatura escrita, visto que mesmo os que n\u00e3o leiam livros ter\u00e3o acesso \u00e0 primeira atrav\u00e9s mesmo de fatos prosaicos, como a repeti\u00e7\u00e3o de not\u00edcias de jornais. E o mais curioso \u00e9 que justamente esse conceito vem corroborar uma antiga tese provocativa que circulava nas redes sociais: a de que o autor brasileiro n\u00e3o vende porque n\u00e3o escreve bem, e n\u00e3o escreve bem porque \u00e9 um bronco sem cultura (mais sobre isso no final).<\/p>\n<p>Evidentemente uma postagem t\u00e3o desinformada acaba por lan\u00e7ar fortes d\u00favidas sobre quem a escreveu. Eu nunca tinha ouvido falar de Thayane antes (isso n\u00e3o \u00e9 problema, visto que ela dificilmente ter\u00e1 ouvido falar de mim), mas agora que a conheci por este texto, terei muita dificuldade para lev\u00e1-la a s\u00e9rio. Se n\u00e3o por suas contradi\u00e7\u00f5es e erros oriundos de desinforma\u00e7\u00e3o ou falta de jeito, certamente por n\u00e3o conseguir pontuar corretamente um texto de tr\u00eas par\u00e1grafos.<\/p>\n<p>No come\u00e7o eu dizia que a postagem tamb\u00e9m revela algo sobre a Modo Editora. Refiro-me ao fato de que a Editora tenha n\u00e3o apenas aceitado difundir um conselho t\u00e3o tosco, mas que n\u00e3o tenha sequer corrigido o uso de v\u00edrgulas no texto. Obviamente a Editora Modo n\u00e3o acha importante corrigir v\u00edrgulas, tanto quanto a autora n\u00e3o acha importante descrever personagens, ou ter uma bagagem liter\u00e1ria. Imagino que, se n\u00e3o corrigiu v\u00edrgulas em tr\u00eas par\u00e1grafos, n\u00e3o as ter\u00e1 tampouco corrigido nas dezenas ou centenas de p\u00e1ginas de &#8220;Princesa de Gelo&#8221;, a obra que Thayane produziu.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 em haver uma editora que d\u00e1 vez e voz a depoimentos como esse, se fosse uma voz isolada isso n\u00e3o teria nenhum problema. O problema est\u00e1 em haver uma massa cr\u00edtica de pessoas que acredita nesses conselhos e os p\u00f5e em pr\u00e1tica. Porque Thayane n\u00e3o inventou isso. Por mais que se esforce em &#8220;ser original&#8221; enterrando a cabe\u00e7a na areia para n\u00e3o conhecer o resto da literatura universal, a verdade \u00e9 que esses conselhos s\u00e3o a condensa\u00e7\u00e3o de um estado de esp\u00edrito amorfo que vem se formando nas redes sociais h\u00e1 pelo menos uns seis anos. A ideia de que ler outras obras &#8220;contamina&#8221; o talento do autor \u00e9 antiga, e eu mesmo j\u00e1 escrevi aqui, h\u00e1 dois anos e meio, sobre <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/06\/o-sabio-louco-e-o-ignorante-vigoroso\">o mito do autor genial que n\u00e3o l\u00ea<\/a>.<\/p>\n<p>O caso me faz lembrar a par\u00e1bola crist\u00e3 do Guia Cego. &#8220;Porventura pode um <em>cego<\/em> guiar outro <em>cego<\/em>? N\u00e3o cair\u00e3o ambos no barranco?&#8221; (Lucas, VI, 39). Se Thayane padece destas defici\u00eancias (mais do que o uso das v\u00edrgulas, a cren\u00e7a em preconceitos infundados e um conhecimento porco de teoria liter\u00e1ria), como pode ensinar a seus leitores como produzir romances perfeitos? A quest\u00e3o da legitimidade urra aqui com uma for\u00e7a ensurdecedora. \u00c9 aceit\u00e1vel que o professor n\u00e3o saiba fazer, mas saiba ensinar. O t\u00e9cnico de futebol ensina o jogador a jogar sem que ele mesmo saiba dar um drible num cone. Mas \u00e9 inaceit\u00e1vel que um mestre n\u00e3o tenha nem a pr\u00e1tica e nem a teoria. Esse mestre \u00e9 um guia cego, e todo aquele que o segue vai para o barranco junto com ele.<\/p>\n<p>E para o barranco segue uma multid\u00e3o de jovens autores brasileiros, que publicam por editoras que os iludem com capas bonitas, noites de aut\u00f3grafos e estandes em feiras, que afagam seus egos e ordenham seus bolsos enquanto desperdi\u00e7am belas \u00e1rvores. Autores que acham que ser\u00e3o originais caso se tranquem num quarto, de prefer\u00eancia <em>antes<\/em> de terem lido qualquer coisa.<\/p>\n<p>Quando a pol\u00eamica se instalou, a Modo Editora removeu de seu site o arquivo de imagem que continha os conselhos da Thayane, mas continuam l\u00e1 outros conselhos igualmente inacredit\u00e1veis. Tamara Ramos, por exemplo, d\u00e1 os seguintes conselhos:<\/p>\n<blockquote><p>\n  Um bom autor precisa conhecer os grandes cl\u00e1ssicos da literatura nacional e internacional e deve estar atento \u00e0s tend\u00eancias do mercado liter\u00e1rio.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Parece ser um conselho sensato, ainda mais em compara\u00e7\u00e3o com o de Thayane, mas n\u00e3o tem a mais remota base factual. Porque se tal conhecimento amplo fosse &#8220;preciso&#8221; para um bom autor, a grande maioria dos cl\u00e1ssicos n\u00e3o teria raz\u00e3o para ser lida. Os autores cl\u00e1ssicos n\u00e3o conheciam os grandes cl\u00e1ssicos (o pr\u00f3prio conceito de &#8220;cl\u00e1ssico&#8221; \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o bastante recente) e at\u00e9 muito recentemente inexistia um &#8220;mercado liter\u00e1rio&#8221; para se prestar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que conhecer os cl\u00e1ssicos n\u00e3o faz mal, mas \u00e9 errado imaginar que somente um douto literato sabe fazer boa literatura. Esse \u00e9, ali\u00e1s, o motivo pelo qual a acusa\u00e7\u00e3o de que o autor brasileiro escreve mal porque \u00e9 inculto n\u00e3o passa de uma trollagem tosca. H\u00e1 bons autores que tem uma cultura imensa, mas h\u00e1 tantos outros que adquiriram a cultura apenas na forma de uma biblioteca, enquanto que alguns autores genuinamente incultos produziram livros interessantes. A falha est\u00e1 em enxergar uma rela\u00e7\u00e3o de causalidade entre quantidade e qualidade. Algumas pessoas precisam ler alguns bons livros para conseguirem escrever alguns bons livros, outras precisam ler muitos, e muitas n\u00e3o escreveram bons livros nem que leiam cada p\u00e1gina jamais impressa, em cada l\u00edngua do mundo. A chave est\u00e1 em aproveitar o que se tem, tal como \u00e9 imposs\u00edvel gastar um bilh\u00e3o de reais, tamb\u00e9m \u00e9 imposs\u00edvel tirar proveito de ter lido dez mil romances cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>Mais do que recomendar o conhecimento dos cl\u00e1ssicos como uma estrat\u00e9gia para buscar um nicho de mercado, Tamara acredita que exibir cultura cativa o leitor:<\/p>\n<blockquote><p>\n  Para come\u00e7ar o processo da escrita de um romance, um autor necessita de uma grande bagagem liter\u00e1ria e cultural. Isso enriquece o texto e conquista os leitores.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Novamente ela confunde quantidade com qualidade. Exibir uma grande bagagem cultural n\u00e3o necessariamente enriquece o texto, na maioria das vezes apenas o torna pesado, intimidador. Depende do talento do autor para dosar e apresentar essa bagagem. Porque, definitivamente, n\u00e3o \u00e9 a bagagem liter\u00e1ria do autor que conquista o leitor. O que conquista o leitor \u00e9 o livro ser bom, ou, pelo menos, atender \u00e0s suas expectativas do que seja &#8220;bom&#8221; (e tanto h\u00e1 quem goste do olho como da remela).<\/p>\n<p>O caso \u00e9 que Tamara <em>sabe<\/em> disso. Tanto que escreveu em outra postagem sua &#8220;n\u00e3o tente um estilo for\u00e7ado ou literato&#8221;. Ora, ent\u00e3o por que escreveu que uma grande bagagem liter\u00e1ria e cultural enriquece o texto e conquista os leitores? A resposta \u00e9 simples: tamb\u00e9m Tamara est\u00e1 divida entre a teoria que aprende na faculdade (onde lhe ensinam sobre literatura, mas n\u00e3o ensinam literatura) e os seus antigos preconceitos. A faculdade lhe diz que o autor culto produz uma obra mais densa e de qualidade, mas ela sabe, instintivamente, que a maior parte das obras citadas como exemplo na faculdade s\u00e3o verdadeiros son\u00edferos, do tipo que, como disse Mill\u00f4r Fernandes, &#8220;quando voc\u00ea larga n\u00e3o consegue mais pegar.&#8221;<\/p>\n<p>Entre Thayane e Tamara eu acredito que a segunda tenha escrito um livro melhor. N\u00e3o s\u00f3 porque n\u00e3o levou rasteira das v\u00edrgulas, mas tamb\u00e9m porque ela me passou um conflito mais profundo entre o que lhe dizem e o que ela quer. Um conflito que pode lev\u00e1-la a uma reflex\u00e3o de valores mais amadurecedora do que uma abstin\u00eancia liter\u00e1ria para preparar o corpo para o nascer do p\u00e3o do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Mas ambas, ambas, s\u00e3o v\u00edtimas de uma Editora que atira seus autores aos le\u00f5es, sem dar-lhes nenhuma assessoria. As duas viraram v\u00edtimas das redes sociais porque se expuseram com opini\u00f5es caracterizadas, respectivamente, pela ignor\u00e2ncia e pela incoer\u00eancia. Uma editora que realmente cuidasse da carreira de seus contratados n\u00e3o permitiria que elas postassem aqueles conselhos, possivelmente n\u00e3o permitiria nem que publicassem os seus livros. Mas o que fazer se h\u00e1 tantos jovens iludidos pela cobi\u00e7a do distintivo duvidoso de &#8220;escritor&#8221; a ponto de justificar o florescimento do mercado de &#8220;f\u00e1bricas de f\u00e1bulas&#8221; que temos visto acontecer? Se a Modo n\u00e3o publicasse, haveria algu\u00e9m para publicar, e outro lugar onde as duas pudessem guiar rumo ao barranco quem as quisesse seguir.<\/p>\n<p><em>EM TEMPO:<\/em> Contrariamente ao que muitos podem pensar, eu n\u00e3o sou nenhum guia cego porque n\u00e3o estou aqui ensinando ningu\u00e9m a escrever. Como n\u00e3o tenho essa proposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tenho o \u00f4nus de justificar minhas ideias. Esse \u00f4nus pertence a quem pretende ensinar &#8220;como&#8221;. E se algu\u00e9m segue minhas ideias, lamento dizer que tal atitude s\u00f3 poder\u00e1 levar meu seguidor pelos caminhos que trilhei e ao destino a que cheguei.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das maiores dificuldades que h\u00e1 no mundo \u00e9 a de se ensinar. Quem tenta ensinar geralmente se exp\u00f5e. N\u00e3o raramente surge a cobran\u00e7a da legitimidade: Como voc\u00ea quer me ensinar a falar ingl\u00eas sem ser nativo? Como vai me ensinar m\u00fasica se toca toscamente esse viol\u00e3o? Como vai me ensinar a dirigir se tem carteira de motorista e seguro de autom\u00f3vel h\u00e1 dez anos e o seu b\u00f4nus \u00e9 zero? Como vai me ensinar a desenhar se os seus personagens parecem tortos no papel? 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