{"id":84,"date":"2013-01-22T20:24:00","date_gmt":"2013-01-22T23:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=84"},"modified":"2018-02-25T20:30:33","modified_gmt":"2018-02-25T23:30:33","slug":"literatura-e-consciencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/01\/literatura-e-consciencia\/","title":{"rendered":"Literatura e Consci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Por que fazer literatura? N\u00e3o h\u00e1 resposta bastante abrangente que resuma a experi\u00eancia de escrever. A obra \u00e9 um orgasmo \u2014 algu\u00e9m j\u00e1 disse \u2014 mas orgasmo \u00e9 um instante fugidio, \u00e9 como tentar tocar o intang\u00edvel e, ap\u00f3s t\u00ea-lo vislumbrado muito perto, quedar esvaziado. Por que, ent\u00e3o, amamos? Igualmente n\u00e3o h\u00e1 resposta. Todos se sentem tristes ap\u00f3s o sexo, o orgasmo \u00e9 um vazio que nos preenche inteiramente. Nem para o amor e nem para a literatura podemos encontrar uma explica\u00e7\u00e3o racional. A n\u00e3o ser o gozo do instante: a obra terminada \u00e9 um amor que se acabou.<sup id=\"fnref-84-1\"><a href=\"#fn-84-1\" class=\"jetpack-footnote\">1<\/a><\/sup><\/p>\n<p>Qual a <em>necessidade<\/em> de se fazer literatura num mundo como o nosso? Simplesmente fa\u00e7amo-la como sempre foi feita: a partir da realidade e dos sonhos dos seres humanos. Buscando realizar a partir deste material comum alguma coisa nobre. Hoje em dia, no entanto, \u00e9 quase imposs\u00edvel surpreender. Antigamente, ainda que fossem pedras, havia alguma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de arte. Para n\u00f3s, por\u00e9m, restou s\u00f3 a indiferen\u00e7a: tudo o que se faz cai no esquecimento como uma goteira dentro de um buraco fundo. A liberdade tornou ultrapassadas todas as rebeldias.<\/p>\n<p>Talvez, ent\u00e3o, seja uma forma de rebeldia tentar encontrar uma alternativa a esta dissolu\u00e7\u00e3o em que vivemos. N\u00e3o tenho medo de vir a ser chamado de piegas: quem tem um mundo de experi\u00eancias para mostrar n\u00e3o precisa restringir seus sentimentos diante da exiguidade das possibilidades da moda, deve buscar quaisquer recursos que possam trazer o que tem dentro de si a uma forma palp\u00e1vel. Os defeitos do ser humano devem transparecer no que escreve: a perfei\u00e7\u00e3o fria \u00e9 caracter\u00edstica de quem n\u00e3o se importa com as imperfei\u00e7\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p>Sempre se deve olhar para o passado, pois \u00e9 de l\u00e1 que v\u00eam as novidades. O futuro \u00e9 provis\u00f3rio, e ser escravo dele \u00e9 viver na incerteza. Os del\u00edrios futuristas de d\u00e9cadas atr\u00e1s hoje nos parecem ris\u00edveis porque se tornaram despropositados. Ningu\u00e9m \u00e9 capaz de prever o futuro como ser\u00e1 realmente. Por isso, uma literatura sem raiz \u00e9 uma literatura que se torna rapidamente obsoleta: surfar nas predi\u00e7\u00f5es do futuro sem um p\u00e9 na terra \u00e9 uma temeridade para quem tenta e uma perda de tempo para quem acompanha.<\/p>\n<p>Ainda mais se considerarmos que mesmo um fr\u00e1gil poema tem um valor s\u00f3lido se possuir alguma coisa de verdadeira humanidade agregada a si. \u00c9 claro que a sinceridade n\u00e3o o salvar\u00e1 automaticamente para a arte, mas n\u00e3o \u00e9 de Arte que eu estou falando:<sup id=\"fnref-84-2\"><a href=\"#fn-84-2\" class=\"jetpack-footnote\">2<\/a><\/sup> \u00e9 da necessidade, inerente ao ser humano, de criar algo de que possa se orgulhar. Contemplar o que se fez \u00e9 uma realiza\u00e7\u00e3o quase plena de uma forma de comprovar nossa humanidade. Por que, ent\u00e3o, devemos pensar primeiro se o que estamos criando est\u00e1 contido e previsto nos c\u00e2nones da arte formal?<\/p>\n<p>Quem expressa o que pensa j\u00e1 se salva da multid\u00e3o silenciosa e d\u00e1 passos firmes rumo aos cinco est\u00e1gios da reflex\u00e3o consciente.<\/p>\n<p><em>Receber,<\/em> sem preconceitos, o novo e o velho, sem a pretens\u00e3o de j\u00e1 saber de v\u00e9spera, afinal, a busca do homem n\u00e3o tem limites.<\/p>\n<p><em>Interiorizar<\/em> o lido, n\u00e3o deixar que atravesse a mente sem deixar sinais. Significa a capacidade de recordar. Muitas pessoas s\u00e3o incapazes de dizer, minutos ap\u00f3s a leitura, o assunto do texto lido.<\/p>\n<p><em>Discernir,<\/em> que \u00e9 compreender o real sentido por tr\u00e1s das palavras do texto,<sup id=\"fnref-84-3\"><a href=\"#fn-84-3\" class=\"jetpack-footnote\">3<\/a><\/sup> vendo nele mais do que simplesmente palavras distribu\u00eddas num espa\u00e7o.<sup id=\"fnref-84-4\"><a href=\"#fn-84-4\" class=\"jetpack-footnote\">4<\/a><\/sup><\/p>\n<p><em>Discutir,<\/em> ou seja, n\u00e3o aceitar pura e simplesmente tudo o que se l\u00ea. Ter algo a dizer, ainda que n\u00e3o muito apropriado. Articular o pr\u00f3prio pensamento em palavras desenvolve a intelig\u00eancia, ainda que esse pensamento n\u00e3o valha muita coisa no princ\u00edpio.<\/p>\n<p><em>Produzir<\/em>.\u00a0 Eis o essenciol, o coroamento do lntelig\u00eancia humana: saber dizer ou escrever porque concordo ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que nada disso pode ser obtido atrav\u00e9s de uma arte que exagera a forma exterior e pouca import\u00e2ncia d\u00e1 ao conte\u00fado.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que quem for capaz destes cinco est\u00e1gios ser\u00e1 um cidad\u00e3o na mais complete acep\u00e7\u00e3o da palavra, e um cidad\u00e3o consciente \u00e9 uma amea\u00e7a a este estado de coisas em que vivemos. Deve ser por isso que tudo neste pa\u00eds propaga, intencionalmente ou por incompet\u00eancia, a aliena\u00e7\u00e3o. Certamente porque a liberdade de pensamento \u00e9 a \u00fanica liberdade a todo prova. A \u00fanica cuja posse n\u00e3o nos podem revogar se n\u00e3o estivermos nos comportando direitinho.<\/p>\n<p>E o que tudo isso tem a ver com o que eu quero produzir? Muito mais do que eu mesmo possa prever. A minha literatura quer falar do vida humano que nos tem sido roubada pelo mec\u00e2nico quotidiano de nossos tempos. Eu quero abandonar a p\u00e1gina impressa e recolocar o poema em suas funda\u00e7\u00f5es orais. E a clareza \u00e9 essencial porque ainda n\u00e3o inventaram uma telepatia e\ufb01ciente. E se \ufb01vessem inventado, ser\u00edamos todos bo\u00e7ais incapazes de racionalizar os pensamentos, confiantes na autom\u00e1tica compreens\u00e3o de nosso indefinido sentimento pelos outros.<\/p>\n<p>\u00c9 na literatura que o homem tem o seu sonho de \u00cdcaro: escapar dos vermes que o aguardam transcendendo o breve e leve sopro dessa vida atrav\u00e9s de sua obra. No concretismo, no entanto, o homem est\u00e1 preso pelo rigoroso espa\u00e7o da p\u00e1gina impressa. O conforto dessa est\u00e9tica pouco nutritiva \u00e9 que, sendo quase incompreens\u00edvel , o escritor n\u00e3o corre o risco de sofrer reparos procedentes. 0 mais terrivel \u00e9 que s\u00e3o tachados de arcaicas as pessoas que ainda sobem ler e escrever numa linguagem humana, enquanto se celebra a anarquia de fotos retocodos e colagens indefin\u00edveis e a solid\u00e3o de poucas palavras no meio de uma grande p\u00e1gina quase em branco. Assim, lentamente, v\u00e3o roubando do povo o acesso \u00e0 cultura.<\/p>\n<p>Curiosamente, a erudi\u00e7\u00e3o valorizada hoje em dia n\u00e3o est\u00e1 mais baseada no conhecimento da literatura, mas no dom\u00ednio de irrelevantes detalhes semi\u00f3ticos ou biogr\u00e1\ufb01cos. Rebusca-se nas entrelinhas sentidos ocultos ao ponto de quase se esquecer o explicito e julga-se mais importante definir se Thomas Mann era homo ou hetero do que proporcionar ao publico a oportunidade de l\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Tenho dito, aguardo as pedras.<\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn-84-1\">\nOriginalmente escrito e publicado por mim em 1997, na <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/chicoscataletras.blogspot.com.br\/2013\/01\/trem-azul-edicao-1-de-novdez-de-1997\">Revista Liter\u00e1ria Trem Azul<\/span>, representou a minha &#8220;Declara\u00e7\u00e3o de Princ\u00edpios&#8221; liter\u00e1rios, minha carta de alforria em rela\u00e7\u00e3o aos autores que eu lia e imitava servilmente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s opini\u00f5es dos cr\u00edticos que eu lia e seguia sem questionar. A partir do instante em que entre para o projeto da revista, decidi romper essas amarras mentais e explicitar o que eu queria. Se foi bom ou foi ruim, o importante \u00e9 que papel eu consumi.&#160;<a href=\"#fnref-84-1\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-84-2\">\nPrecisamos escrever mais livros ruins para que o solo da literatura fique f\u00e9rtil para as obras primas nascerem. Esterilizar a terra a espera do fruto perfeito \u00e9 uma futilidade.&#160;<a href=\"#fnref-84-2\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-84-3\">\nOu imaginar que existe um.&#160;<a href=\"#fnref-84-3\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-84-4\">\nEsta frase \u00e9 uma estocada no concretismo, que d\u00e1 grande relev\u00e2ncia justamente \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o visual das palavras.&#160;<a href=\"#fnref-84-4\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que fazer literatura? N\u00e3o h\u00e1 resposta bastante abrangente que resuma a experi\u00eancia de escrever. 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