{"id":89,"date":"2013-01-05T22:40:00","date_gmt":"2013-01-06T01:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=89"},"modified":"2017-11-02T14:08:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:23","slug":"a-ignorancia-causa-a-incompreensao-ou-nao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/01\/a-ignorancia-causa-a-incompreensao-ou-nao\/","title":{"rendered":"A Ignor\u00e2ncia Causa a Incompreens\u00e3o, ou N\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>Uma das afirmativas mais recorrentes nos debates pol\u00edticos e culturais que ainda ocorrem dentro e fora da internet \u00e9 justamente que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer uma cr\u00edtica qualificada de um autor cujo trabalho n\u00e3o conhecemos o suficiente. \u00c0 primeira vista \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o inatac\u00e1vel, mas eu n\u00e3o gosto de posi\u00e7\u00f5es inatac\u00e1veis em um debate, a menos que elas sejam fundamentadas em fatos. Inatac\u00e1vel \u00e9 a realidade. Argumentos s\u00e3o apenas argumentos. Ao longo da vida tenho tido a oportunidade de verificar que argumentos inatac\u00e1veis nada mais s\u00e3o do que argumentos revestidos de respeitabilidade para ocultar suas fraturas l\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Esta afirma\u00e7\u00e3o, em especial, \u00e9 uma leg\u00edtima \u00abfaca de dois gumes\u00bb e \u00e9 muito perigoso aceit\u00e1-la como verdadeira sem um pouco de discuss\u00e3o. Por um lado, \u00e9 verdade que \u00e9 preciso embasamento para poder comentar (a favor ou contra) uma determinada proposi\u00e7\u00e3o. Por outro lado, no entanto, \u00e9 sempre muito f\u00e1cil desqualificar uma cr\u00edtica com o argumento de que o autor dela n\u00e3o leu o bastante do autor criticado. Quanto \u00e9 o bastante?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m nunca ter\u00e1 lido toda a obra de um autor, provavelmente nem mesmo os seus f\u00e3s. Raros marxistas ter\u00e3o lido todo \u00abO Capital\u00bb, por exemplo, e dos que leram uma parte grande ter\u00e1 entendido bulhufas. Al\u00e9m disso, o que nos obriga a ler toda a obra de um autor que nos causa repulsa apenas para termos o direito de critic\u00e1-la? Ser\u00e1 que uma pessoa que deteste o mago manda-chuva s\u00f3 pode critic\u00e1-lo depois de ter lido cada um de seus textos, at\u00e9 aquelas bostinhas que ele publica diariamente em alguns jornais? Penso que n\u00e3o. Assim como \u00e9 poss\u00edvel analisar eficazmente as caracter\u00edsticas gerais da sociedade a partir de estat\u00edsticas origin\u00e1rias de pesquisas por amostragem, \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel analisar as ideias ou a qualidade de um autor conhecendo uma parte de seus textos e algumas de suas ideias.<\/p>\n<p>Exigir um conhecimento total (ou pelo menos muito abrangente) \u00e9 um tipo de apelo \u00e0s lacunas, e n\u00e3o \u00e9 justo. Envolve um tipo de cren\u00e7a no poder da obra &#8220;revelada&#8221; do &#8220;mestre&#8221;.\u00a0A resposta sempre est\u00e1 no livro que o cr\u00edtico n\u00e3o leu. &#8220;Fulano de Tal n\u00e3o gostou do Magn\u00edfico, mas se pelo menos tivesse lido o livro beltrano poderia ter finalmente entendido as ideias extraordin\u00e1rias dele.&#8221;<\/p>\n<p>O que se tem aqui \u00e9 a esperan\u00e7a de que, se o cr\u00edtico por acaso ler todos os livros do autor, a conviv\u00eancia com o\u00a0pensamento\u00a0do Profeta obrar\u00e1 a convers\u00e3o de mais um adepto. Mises certamente n\u00e3o leu toda a obra de Marx para escrever sua desqualifica\u00e7\u00e3o dele, mas os marxistas s\u00e3o convidados a ler quase toda a obra de Mises antes de poder critic\u00e1-lo: podemos considerar justa esta exig\u00eancia? Ser\u00e1 que \u00e9 necess\u00e1rio ler toda a obra de um autor para ter um bom ou pelo menos razo\u00e1vel entendimento dela? As contradi\u00e7\u00f5es s\u00f3 est\u00e3o vis\u00edveis para quem conhece cada jota e cada til?<\/p>\n<p>Penso que se uma obra \u00e9 t\u00e3o complexa que s\u00f3 pode ser de fato compreendida pela sua leitura completa ou muito abrangente, ent\u00e3o o autor \u00e9 falho em seus objetivos. Por mais que os detalhes possam se perder nas resenhas, se a obra n\u00e3o sobrevive nelas, pelo menos enquanto conceito, o autor claramente falhou em alguma coisa. Resenhas n\u00e3o s\u00e3o tu\u00edtes. De fato &#8220;Guerra e Paz&#8221; \u00e9 &#8220;sobre a R\u00fassia&#8221;, mas uma resenha honesta diria bem mais que isso. E se da resenha n\u00e3o pudermos inferir a qualidade da obra original, a falha est\u00e1 na resenha. H\u00e1 resenhas escritas para louvar, e outras para danar.<\/p>\n<p>Comece a ler uma obra liter\u00e1ria, se at\u00e9 a quinquag\u00e9sima p\u00e1gina ela n\u00e3o conseguiu \u00a0lhe fazer gostar, por que a obriga\u00e7\u00e3o de ler at\u00e9 a quingent\u00e9sima? Por masoquismo? Existem livros que, como famosamente disse o Mill\u00f4r Fernandes, &#8220;quando a gente larga n\u00e3o consegue mais pegar.&#8221; \u00c9 justo criticar\u00a0acerbamente\u00a0estas obras, mesmo tendo lido s\u00f3 at\u00e9 a vig\u00e9sima p\u00e1gina; mesmo porque n\u00e3o seria necess\u00e1rio todo este esfor\u00e7o para fazer um elogio \u00e0 mesma obra.<\/p>\n<p>Fica ainda mais f\u00e1cil se a obra n\u00e3o for liter\u00e1ria, mas t\u00e9cnica. Leu alguns artigos do autor expondo suas teses e conseguiu detectar &#8220;bullshit&#8221;? Por que supor que a leitura de mais artigos mudar\u00e1 o efeito? Quantos dedos do gigante precisamos puxar para dirimirmos a suspeita de que \u00e9 um gigante mesmo, em vez de um an\u00e3o?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das afirmativas mais recorrentes nos debates pol\u00edticos e culturais que ainda ocorrem dentro e fora da internet \u00e9 justamente que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer uma cr\u00edtica qualificada de um autor cujo trabalho n\u00e3o conhecemos o suficiente. \u00c0 primeira vista \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o inatac\u00e1vel, mas eu n\u00e3o gosto de posi\u00e7\u00f5es inatac\u00e1veis em um debate, a menos que elas sejam fundamentadas em fatos. Inatac\u00e1vel \u00e9 a realidade. Argumentos s\u00e3o apenas argumentos. 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