{"id":102,"date":"2012-11-24T21:38:00","date_gmt":"2012-11-25T00:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=102"},"modified":"2017-11-02T14:08:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:23","slug":"colonizacao-subliminar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/11\/colonizacao-subliminar\/","title":{"rendered":"Coloniza\u00e7\u00e3o Subliminar"},"content":{"rendered":"<p>Um humorista, n\u00e3o me lembro se brit\u00e2nico ou americano, certa vez definiu &#8220;coloniza\u00e7\u00e3o&#8221; como o processo atrav\u00e9s do qual um povo &#8220;insere&#8221; dentro de outro algo, que pode ser uma comunidade imigrante, uma ind\u00fastria multinacional, um regime de governo ou outra coisa, e o faz de forma t\u00e3o profunda que o povo &#8220;colonizado&#8221; passa a levar aquilo dentro de si, imperceptivelmente. \u00c0 parte o car\u00e1ter escatol\u00f3gico e sexual desta met\u00e1fora, ela serve bem para mostrar como, em pequenos gestos, as pessoas vitimadas pelo lento e quase impercept\u00edvel processo da coloniza\u00e7\u00e3o se tornam incapazes de perceber que se tornaram parte dele, tamb\u00e9m elas refor\u00e7ando os mecanismos de domina\u00e7\u00e3o. Marx teria dito que estas pessoas, por estarem alienadas de seu papel na sociedade, n\u00e3o conseguem perceber como o seu papel na sociedade passou a ser utilizado por outras for\u00e7as, sem o seu conhecimento e at\u00e9 de uma forma que elas n\u00e3o aprovariam se soubessem.<\/p>\n<p>Neste blogue tenho frequentemente batalhado por migalhas de uma identidade brasileira, criticando subservi\u00eancia desnecess\u00e1ria ou imita\u00e7\u00e3o sem sentido. Mesmo estas migalhas que eu aponto geram rea\u00e7\u00f5es inamistosas. As pessoas n\u00e3o gostam que digam que foram &#8220;colonizadas&#8221;. Reagem, negam, agridem, tentam suprimir. Se poss\u00edvel, ignoram. Em geral, mesmo os meus leitores mais esclarecidos, me acham um\u00a0paranoico\u00a0 Talvez eu at\u00e9 seja. Mas mesmo um\u00a0paranoico\u00a0\u00e0s vezes tem mesmo algu\u00e9m atr\u00e1s de si.<\/p>\n<p>Hoje fa\u00e7o isso mais uma vez, pronto a ser chamado de diversos adjetivos. Quanto mais profunda a inser\u00e7\u00e3o do conte\u00fado estranho, quanto mais &#8220;colonizada&#8221; a mentalidade do indiv\u00edduo, maior seu empenho em negar. O viciado jura que cada gole poderia ser o \u00faltimo se ele quisesse que fosse. O colonizado jura que macaqueia a metr\u00f3pole porque escolheu esse caminho por algum motivo.<\/p>\n<p>Refiro-me ao capit\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol de sal\u00e3o que, ao voltar \u00e0 sua cidade como her\u00f3i do heptacampeonato mundial do esporte, apareceu no aeroporto trajando um uniforme da sele\u00e7\u00e3o estadunidense de p\u00f3lo, com a bandeira ianque figurando\u00a0proeminentemente e com as indefect\u00edveis letras &#8220;U S A&#8221; pontificando acima desta.\u00a0Ele j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o jovem para que digam que foi imaturidade, algo que o tempo supostamente conserta, mas certamente \u00e9 inocente de uma forma lhe impede de ver al\u00e9m do imediato: ele sofre, como a maioria dos brasileiros, de uma profunda aliena\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a seu papel no sistema de coisas. N\u00e3o fosse alienado, ou estivesse assessorado por algu\u00e9m que n\u00e3o seja, ele n\u00e3o teria usado, em momento t\u00e3o importante de sua vida, uma camisa que glorifica um obscuro esporte praticado em outro pa\u00eds. Ao colocar aquela camisa sem pensar, o capit\u00e3o de nosso escrete campe\u00e3o passou subliminarmente a mensagem de que ele, o vencedor, idolatra, na verdade, um esporte e um pa\u00eds estrangeiros.<\/p>\n<p>Dir\u00e3o que foi humildade. Digo que foi s\u00f3 ignor\u00e2ncia. As duas s\u00e3o muito parecidas na forma, diferem no conte\u00fado. O humilde recusa homenagens imerecidas, ou as transfere ao grupo. Um capit\u00e3o humilde n\u00e3o teria desfilado em carro aberto com a ta\u00e7a, como ele fez, visto que esta pertence a ele tanto quanto a todos os demais integrantes do time. O ignorante comete erros que muitas vezes coincidem com as posturas dos humildes. O capit\u00e3o, ignorando o simbolismo e o significado de sua pr\u00f3pria conquista, maculou-a com uma demonstra\u00e7\u00e3o de coloniza\u00e7\u00e3o cultural, ao usar aquela camisa.<\/p>\n<p>Sim, eu sei que voc\u00eas n\u00e3o concordam. A maioria de voc\u00eas, mesmo n\u00e3o usando uma camisa como aquela, usaria outra camisa aleat\u00f3ria que poderia coincidir com alguma outra coisa que algu\u00e9m criticasse. A maioria de voc\u00eas n\u00e3o teria a &#8220;sacada&#8221; de que o desembarque de um campe\u00e3o \u00e9 um momento para a hist\u00f3ria, que precisa ser planejado e que precisa receber um significado.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma diferen\u00e7a importante entre nossos campe\u00f5es e os dos outros. Nossos campe\u00f5es adoram posar de super homens, reclamando das condi\u00e7\u00f5es que enfrentaram, mesmo quando tiveram apoios importantes. O simples fato de eles viverem no Brasil j\u00e1 significa que n\u00e3o t\u00eam e nem poderiam ter condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s dos atletas de pa\u00edses desenvolvidos. Ent\u00e3o esta reclama\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 justa. Mas o que o capit\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o de futsal fez foi, para mim, um pouco pior: ele encarou sua conquista como algo que lhe pertence, pessoalmente. Por isso n\u00e3o planejou seu retorno triunfal, vestiu-se de qualquer jeito, com uma camisa que uma figura p\u00fablica como ele nem deveria ter, e deixou-se fotografar para um momento que pode ficar na hist\u00f3ria usando uma camisa que alude \u00e0 na\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica do mundo.<\/p>\n<p>Ficou feio para ele. E n\u00e3o espero que voc\u00eas concordem comigo. Afinal, voc\u00eas n\u00e3o acharam feio. S\u00f3 lamento que tantas pessoas tolerem a insidiosa coloniza\u00e7\u00e3o a que somos submetidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um humorista, n\u00e3o me lembro se brit\u00e2nico ou americano, certa vez definiu &#8220;coloniza\u00e7\u00e3o&#8221; como o processo atrav\u00e9s do qual um povo &#8220;insere&#8221; dentro de outro algo, que pode ser uma comunidade imigrante, uma ind\u00fastria multinacional, um regime de governo ou outra coisa, e o faz de forma t\u00e3o profunda que o povo &#8220;colonizado&#8221; passa a levar aquilo dentro de si, imperceptivelmente. \u00c0 parte o car\u00e1ter escatol\u00f3gico e sexual desta met\u00e1fora, ela serve bem para mostrar como, em pequenos gestos, as pessoas vitimadas pelo lento e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[187],"tags":[102,27,76],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=102"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4800,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102\/revisions\/4800"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}