{"id":104,"date":"2012-11-21T19:30:00","date_gmt":"2012-11-21T22:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=104"},"modified":"2017-11-02T14:08:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:23","slug":"as-diferentes-velocidades-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/11\/as-diferentes-velocidades-do-mundo\/","title":{"rendered":"As Diferentes Velocidades do Mundo"},"content":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m vivia muito tempo para prestar aten\u00e7\u00e3o ao tempo, que era sempre o presente, cada vez que amanhecia. Significava que a noite terminara sem o encontro de uma fera, sem as garras g\u00e9lidas da terra rasgarem. O passado s\u00f3 existia atrav\u00e9s do mito, das coisas acontecidas ningu\u00e9m sabia quando, nem onde, nem com quem. O mito tamb\u00e9m era uma esp\u00e9cie de tempo coagulado, c\u00edclico, intermin\u00e1vel. Algu\u00e9m poderia pensar que era horr\u00edvel ser um deus, e ter que refazer a cria\u00e7\u00e3o do mundo sempre, ter que viver sempre a fazer as mesmas coisas.<\/p>\n<p>Mas quando justamente ningu\u00e9m viveria muito tempo, era poss\u00edvel ainda viver com vagar. Diante de t\u00e3o pouco tempo, a coisa s\u00e1bia que se fazia era viver cada hora com a profundidade de uma pequena eternidade. E as semanas, passadas ao mito, se acumulavam na mem\u00f3ria sem saudade. Saudade existe quando a gente descobre que o tempo passa. Jovens demoram nisso: nenhum jovem sabe que morrer\u00e1.<\/p>\n<p>Cada nova civiliza\u00e7\u00e3o descobriu um modo de criar velocidade. Mas nenhuma conseguiu a perfei\u00e7\u00e3o antes da nossa: somos os animais mais velozes que j\u00e1 existiram. Temos pressa, muita pressa, porque vivemos muito. Parece um paradoxo, visto que os homens das cavernas viviam com um peso t\u00e3o diferente. Mas n\u00f3s temos essa pressa porque, por mais que tenhamos esticado o cord\u00e3o da vida at\u00e9 rebentar por si, sem crime e sem doen\u00e7a, a verdade \u00e9 que o tempo imenso que obtivemos nos parece pouco, porque sabemos que morreremos.<\/p>\n<p>N\u00f3s, os velozes, somos os primeiros mortais inteiramente c\u00f4nscios disso. Sabemos disso em nossos ossos, porque os nossos olhos e mentes ainda se recusam a crer. A saudade e a pressa existem porque somos muito velhos no mundo, porque temos muitos velhos. Na \u00e9poca em que n\u00e3o havia velhos, era como se ningu\u00e9m fosse nunca morrer, como se cada \u00f3bito fosse uma fatalidade, uma interfer\u00eancia dos deuses, alguma coisa assim. Era uma esp\u00e9cie de imortalidade, que terminava sempre quando algu\u00e9m ou algo interferia.<\/p>\n<p>N\u00e3o temos tempo para viver cada dia, porque temos uma vida inteira pela frente. Uma vida inteira significa toda a vida que se pode ter. N\u00e3o h\u00e1 outra, n\u00e3o h\u00e1 mais, n\u00e3o h\u00e1 cheque especial no saldo dos anos, n\u00e3o h\u00e1 mais gasolina para a alma. O peso disso nos faz correr, e tudo se torna provis\u00f3rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m vivia muito tempo para prestar aten\u00e7\u00e3o ao tempo, que era sempre o presente, cada vez que amanhecia. Significava que a noite terminara sem o encontro de uma fera, sem as garras g\u00e9lidas da terra rasgarem. O passado s\u00f3 existia atrav\u00e9s do mito, das coisas acontecidas ningu\u00e9m sabia quando, nem onde, nem com quem. O mito tamb\u00e9m era uma esp\u00e9cie de tempo coagulado, c\u00edclico, intermin\u00e1vel. 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