{"id":108,"date":"2012-11-08T23:12:00","date_gmt":"2012-11-09T02:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=108"},"modified":"2017-11-02T14:08:24","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:24","slug":"o-poetinha-o-maconheiro-e-a-ivete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/11\/o-poetinha-o-maconheiro-e-a-ivete\/","title":{"rendered":"O Poetinha, o Maconheiro e a Ivete"},"content":{"rendered":"<p>O poetinha desceu do \u00f4nibus j\u00e1 suado e despenteado. O \u00f3culos empenado na cara, a camisa amassada pela viagem desajeitada, a umidade incomodando por debaixo da roupa, o h\u00e1lito amargo devido ao nervoso e ao f\u00edgado. Bateu no peito para ter certeza de que seu poema, copiado com capricho na velha m\u00e1quina de escrever, se encontrava ainda intacto. N\u00e3o estava: tanto suor o amolecera. Retirou-o do bolso e desdobrou com cuidado, quase com l\u00e1grimas. O mesmo calor que o molhara n\u00e3o o secaria. Xingou algum palavr\u00e3o absoluto, mas timidamente o fez. Preferiu cruzar a rua em dire\u00e7\u00e3o ao humilde teatro onde teria lugar o concurso municipal de poesia, para o qual se inscrevera com aquelas gotejantes exala\u00e7\u00f5es das chagas de sua alma torturada. Esperava a gl\u00f3ria, n\u00e3o meros tr\u00eas mil reais de pr\u00eamio. Mas na falta da gl\u00f3ria, o dinheiro cairia bem. N\u00e3o \u00e9 verdade que se compra a gl\u00f3ria com dinheiro, dinheiro \u00e9 s\u00f3 uma desculpa que a gente usa, o consolo da gl\u00f3ria inatingida, inating\u00edvel, definitivamente deixada em outra esquina, numa rua diferente da que tomamos, possivelmente noutro bairro, cidade ou planeta. Quando ganhamos dinheiro a saudade da gl\u00f3ria d\u00f3i um pouco menos, mas ainda d\u00f3i.<\/p>\n<p>Tinha &#8220;vinte e cinco anos de sonho, de sangue e de Am\u00e9rica do Sul&#8221; e &#8220;por for\u00e7a desse destino&#8221; ouvia o som dos gringos e lia a poesia dos mortos. Julgava-se inteligente o bastante: conhecia as antologias. Estava muito bem informado, de tudo que tocava no r\u00e1dio ou sa\u00eda no jornal. Estava na moda, em perfeita simetria com com a televis\u00e3o e o cinema. Sei que, assim falando, d\u00e1 para pensar que esse jeito era o \u00f3bvio de 93, mas de fato o poetinha era especial de uma maneira: n\u00e3o conseguira ser igual a todos os demais, ent\u00e3o restava-lhe o destino de ser diferente. N\u00e3o por escolha &#8212; que teria preferido uma cara mais bonita, uma fam\u00edlia rica ou um pinto bem maior.<\/p>\n<p>E estava ali diante do teatro municipal como se fosse receber um pr\u00eamio internacional.<\/p>\n<p>Quando chegou ao outro lado da rua, j\u00e1 estranhando que houvesse t\u00e3o pouca gente, percebeu que Isaura estava sob a sombra de um oiti, vigiando sua chegada como quem tocaia sua ca\u00e7a. Ele n\u00e3o a convidara, claro. N\u00e3o supusera que poesia lhe interessasse mais do que a vida sexual das tar\u00e2ntulas. Mas ela soubera do concurso, de alguma forma, e viera. Sua primeira esperan\u00e7a foi o engano: talvez s\u00f3 fosse algu\u00e9m parecida. Esperan\u00e7a falha:<\/p>\n<p>&#8212;Boa noite, Isaura. Que surpresa v\u00ea-la por aqui?<\/p>\n<p>&#8212;Boa noite, Cacai. Voc\u00ea n\u00e3o me convidou, mas eu vim.<\/p>\n<p>&#8212;Desculpa n\u00e3o convidar, mas eu n\u00e3o sabia que voc\u00ea gostava de poesia.<\/p>\n<p>&#8212;Eu gosto de voc\u00ea.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Isaura n\u00e3o viera atr\u00e1s de poesia, viera mesmo para vigi\u00e1-lo, como imaginara.<\/p>\n<p>&#8212;Veio sozinha?<\/p>\n<p>&#8212;Desculpa n\u00e3o trazer plateia, querido, mas fiquei sabendo muito em cima da hora.<\/p>\n<p>Tomou-a pelo bra\u00e7o e foi entrando. Isaura n\u00e3o era exatamente bonita, mas tinha um corpinho jeitoso, uma voz que n\u00e3o era excessivamente doce e uma dose cavalar de ci\u00fames injetada nos olhos.<\/p>\n<p>Dentro do teatro fazia uma temparatura que agradaria a L\u00facifer. Os ventiladores pareciam ma\u00e7aricos e as janelas, bocas de fornalhas. Algumas senhoras da sociedade padeciam de leques fora de moda e de uma vontade imposs\u00edvel de falar, t\u00e3o custoso o esfor\u00e7o de qualquer m\u00fasculo naquelas circunst\u00e2ncias. Por sorte anoitecia j\u00e1, e logo aquele ambiente saariano melhoraria. Demoraria s\u00f3 o suficiente para sua camisa terminar de ficar molhada, seu cabelo arrepiado, seu rosto engordurado de transpira\u00e7\u00e3o, o papel ainda mais molengo e os \u00f3culos emba\u00e7ados escorregando no nariz, querendo cair.<\/p>\n<p>Sentaram-se o mais perto poss\u00edvel da porta, pois aquela parede do teatro ficava pelo menos meio oculta pelas copas gordas das \u00e1rvores. Alguns loucos haviam se sentado junto \u00e0 parede que acabara de receber o sol de toda a tarde. Mas eles n\u00e3o suavam tanto: n\u00e3o tinham vindo de \u00f4nibus e os tecidos caros de suas roupas eram mais porosos \u00e0 temperatura.<\/p>\n<p>O mestre de cerim\u00f4nias subiu ao palco, fazendo o teste dos microfones e convidando quem ainda tivesse que entrar. Ent\u00e3o apareceu gente de todos os lugares inimagin\u00e1veis, bem poucos entrando pela porta frontal. S\u00f3 faltou algu\u00e9m entrar pela janela lateral, a que se debru\u00e7ava sobre o f\u00e9tido riacho, porque pelo menos de uma outra janela entrou algu\u00e9m. Uma mo\u00e7a de vestido verde, cafona a ponto de parecer cortado de uma cortina velha, tomou a palavra e convidou os autores presentes a se dirigirem aos bastidores, para identificarem-se e tomar conhecimento do protocolo. O poetinha se levantou, pernas bambas e \u00f3culos quase caindo da ponta do nariz, e acompanhou-a, juntamente com v\u00e1rios outros, por uma porta ao lado do pequeno palco.<\/p>\n<p>Os bastidores estavam razoavelmente frescos, gra\u00e7as a um aparelho de ar condicionado e ao isolamento termoac\u00fastico. Naquele ambiente t\u00e3o controlado e silencioso o poetinha p\u00f4de contemplar os que, com ele, lutariam pela gl\u00f3ria das musas.<\/p>\n<p>Era um grupo bastante heterog\u00eaneo, com tantas idades, sexos e cores quanto poss\u00edvel. Havia um velhinho de terno que declamava em cochichos, parecendo ensaiar-se, uma garota que n\u00e3o parecia ter mais de quinze anos, um senhor gorducho que usava uma estranha camisa azul estampada de flores psicod\u00e9licas, um rapaz que aparentava algum tipo de defici\u00eancia mental, uma senhora empertigada, que olhava a todos com um jeito de professora, um sujeito cabeludo, desarrumado e de olhos tristes\u2026 e a mo\u00e7a de vestido azul voltou, pedindo a aten\u00e7\u00e3o de todos antes que o poetinha tivesse conseguido fixar-se mentalmente em cada um.<\/p>\n<p>&#8212; Senhoras, senhores. Venham comigo.<\/p>\n<p>Acompanharam-na at\u00e9 a orquestra, onde foram convidados a sentar-se.<\/p>\n<p>&#8212; Permanecer\u00e3o aqui aguardando a vez. Cada um se levantar\u00e1 quando chamado e se dirigir\u00e1 ao palco, juntamente com os seus parceiros. Durante as apresenta\u00e7\u00f5es, pedimos que os que estiverem aguardando, e os que j\u00e1 tiverem se apresentado, permane\u00e7am em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>O palco, enfeitado de flores de pl\u00e1stico e papel crepom, tinha uma larga mesa para abrigar sete jurados. &#8220;Para que tantos?&#8221; &#8212; pensou o poetinha. Sentou num lugar t\u00e3o obscuro quanto poss\u00edvel. Deu uma olhada para tr\u00e1s, para ver Irene l\u00e1, sentada e acenando. Os demais foram se aboletando cada um a seu gosto.<\/p>\n<p>Resolveu que n\u00e3o os olharia. Fixar-se neles o faria nervoso. Abriu o papel e recome\u00e7ou a repetir os versos, que ele mesmo escrevera, mas que pareciam fugidios como se tivessem sido extra\u00eddos de uma b\u00edblia marciana.<\/p>\n<pre>N\u00e3o h\u00e1 um n\u00famero de 0900\npara encomendar o que lhe falta,\nmas mesmo ent\u00e3o mantenha calma\ne n\u00e3o quebre ainda o telefone\nse a noite conseguir inquietar-lhe.\n\nEle \u00e9 s\u00f3 uma m\u00e1quina sem culpa,\nque por dinheiro voc\u00ea pode usar.\n\nN\u00e3o h\u00e1 nenhum comando pr\u00f3prio\npara desligar da alma essa dor,\nmas ainda assim mantenha a calma\ne n\u00e3o quebre o seu computador.\n\nSe voc\u00ea lhe perguntar aonde ir\nele n\u00e3o ter\u00e1 resposta para dar:\nele \u00e9 s\u00f3 uma m\u00e1quina est\u00fapida\nque n\u00e3o mente para lhe agradar.\nDesligue a tomada da parede\ne todo o perigo vai passar.\n\nN\u00e3o h\u00e1 nenhuma lata que contenha\nsabores similares ao amor que houve,\nmas n\u00e3o deprede nunca o mercado\nse o que mais lhe falta em casa\nn\u00e3o pode ser comprado l\u00e1.\n\nAli \u00e9 s\u00f3 um ref\u00fagio de consumo,\ntemplo de quem come em vez de amar.\nEst\u00e1 tudo certo se voc\u00ea sair,\ndesde que n\u00e3o saia sem pagar.\n\nMas n\u00e3o creia no que dizem esses r\u00f3tulos,\nesque\u00e7a tudo, tudo est\u00e1 errado:\nnem prateleiras nem teclados lhe respondem\nse voc\u00ea lhes perguntar pelo passado.<\/pre>\n<p>Tinha receio de ter sido uma m\u00e1 escolha. Cada vez que olhava para tr\u00e1s, nos olhos do p\u00fablico pingado que comparecera, tinha menos certeza de que seus versos inquietos causariam bom impacto. A gl\u00f3ria que lhe sorria em sonhos parecia rir-lhe ent\u00e3o, e ria dele.<\/p>\n<p>Chamaram a senhora com cara de professora. Ela subiu ao palco desvencilhando-se de uma bolsa que n\u00e3o teve aonde p\u00f4r, sen\u00e3o sobre a mesa do j\u00fari &#8212; pretexto para cumprimentar cada um, v\u00e1rios deles aparentando ser colegas seus na profiss\u00e3o. Postou-se como uma cantora de \u00f3pera, abriu os bra\u00e7os como uma estranha ave depenada que ainda quer voar, e come\u00e7ou a declamar versos duros, cortados a martelo e talhadeira, no material eterno da pedra: versos de soneto, mais perfeitos em suas rimas do que claros no que diziam. Terminou deixando em todos a convic\u00e7\u00e3o de que sua obra n\u00e3o tinha sequer um hemist\u00edquio deslocado ou um hiato, essa indec\u00eancia, mas ningu\u00e9m conseguiu saber exatamente do que falara seu poema.<\/p>\n<p>O rapaz que aparentava defici\u00eancia mental foi o segundo. Subiu ao palco ajudado por um bando de crian\u00e7as e duas professoras de m\u00fasica com viol\u00f5es. As professoras dedilhavam pe\u00e7as pseudoflamencas enquanto as crian\u00e7as, pelo menos aparentemente, tentavam cantar a Bachina n\u00famero cinco de Villa-Lobos. Passado um minuto disto, o rapaz deu um desnecess\u00e1rio boa noite e uma crian\u00e7a descal\u00e7a entrou no palco para lere o poema dele, alguma coisa singela que falava sobre andar descal\u00e7o na grama. A ideia era piegas ao extremo, os versos eram de uma banalidade total. A menina que lia parecia trope\u00e7ar na falta de pontua\u00e7\u00e3o. Mas no fim ouviu-se uma salva de palmas ensurdecedora. O poetinha olhou para tr\u00e1s e viu umas dezenas a mais de pessoas: certamente parentes, conhecidos, professores, vizinhos, colegas do mo\u00e7o. Todos gritavam &#8220;Jair! Jair! Jair&#8221; como se os p\u00e9s das musas tivessem tocado aquele palco.<\/p>\n<p>Em seguida subiu o velhino de terno, que desfiou, no melhor estilo pregador de pra\u00e7a, uma chorumela religiosa que parecia intermin\u00e1vel. E de fato era: ele extrapolou os cinco minutos dados a cada concorrente e, mesmo avisado duas vezes, ainda continuava. Por fim, pegaram-no pelo bra\u00e7o e o ajudaram a descer at\u00e9 seu lugar. Mesmo assim ele ainda andava olhando para tr\u00e1s, em dire\u00e7\u00e3o ao microfone como a mulher de L\u00f3 sentindo saudades de Sodoma, e ainda defenestrando versos que j\u00e1 ningu\u00e9m ouvia.<\/p>\n<p>Seguiu-se uma sucess\u00e3o de apresenta\u00e7\u00f5es mais comedidas, umas duas ou tr\u00eas, todas t\u00e3o sonolentas que o poetinha cochilou mesmo. Acordou com as palmas dadas \u00e0 menina de quinze anos, que se curvava diante da plat\u00e9ia, imensamente agradecida, exibindo a bunda para os jurados, por causa de sua saia muito curta. O poeta maconheiro, que ainda n\u00e3o se apresentara, cometeu um ato de terrorismo po\u00e9tico que foi o melhor momento da noite: gritou \u00e0 garota que agradecesse tamb\u00e9m aos jurados.<\/p>\n<p>Talvez por vingan\u00e7a, ou sei l\u00e1 o que, chamaram-no a seguir. Ele subiu ao palco acompanhado de um viol\u00e3o e de uma mo\u00e7a tatuada que lhe levou uma vara de incenso. Deixou-a acesa no ch\u00e3o e dedilhou o instrumento. Come\u00e7ou a declamar, deixando espa\u00e7os compridos entre os versos, durante os quais as notas percutidas em cada s\u00edlaba ficavam reverberando misticamente no ar. Era um poema sobre natureza, discos voadores, sonhos, anjos, coisas psicod\u00e9licas e tamb\u00e9m sobre cogumelos e flores.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o chamaram o poetinha. Subiu ao palco, amarfanhado e j\u00e1 malcheiroso de suor. Enquanto passava pelos bastidores deram-lhe uma c\u00f3pia nova do poema, talvez por miseric\u00f3rdia. Mas ainda no caminho at\u00e9 o palco percebeu que haviam &#8220;corrigido&#8221; algumas coisas com que n\u00e3o concordava, ent\u00e3o resolveu ignorar e lere mesmo a sua c\u00f3pia molhada de suor, escondendo-a atr\u00e1s da folha nova e rija que lhe haviam entregado.<\/p>\n<p>Fechou os olhos e se imaginou sozinho no pr\u00f3prio quarto. O sil\u00eancio geral o ajudou. Olhou para os pap\u00e9is, que tinha \u00e0 m\u00e3o esquerda, ergueu-os no ar e soltou. De repente teve a confian\u00e7a de que precisava. As duas folhas, nova e velha, ca\u00edram dan\u00e7ando pelo ar enquanto ele declamava os versos devagar, parando nas \u00eanfases, exaltando as met\u00e1foras, at\u00e9 as que n\u00e3o pusera l\u00e1. Como sempre, lembrou-se de fazer duas corre\u00e7\u00f5es em trechos que soavam mal. Quando terminou, suando sobre as luzes fortes que iluminavam o palco, abriu os bra\u00e7os e se curvou, em agradecimento pr\u00e9vio aos aplausos que n\u00e3o vieram. Veio um sil\u00eancio quente, denso, \u00famido.<\/p>\n<p>Ergueu-se meio eletrificado, mas embebido de uma decep\u00e7\u00e3o tranquilamente grande. Uma l\u00e1grima brotou escondida num canto do rosto, disfar\u00e7ou-a limpando a testa e se vingou da mo\u00e7a de verde dando-lhe a m\u00e3o suada para sair do palco.<\/p>\n<p>O \u00faltimo a subir foi o senhor gorducho de camisa estampada. Este apareceu no palco verdadeiramente transfigurado. Durante o breve tr\u00e2nsito pelos bastidores, desabotoara a camisa e deixara ver sob ela uma outra, de malha, com uma estampa berrante que os \u00f3culos emba\u00e7ados do poetinha n\u00e3o lhe deixaram ver direito. Ouviu-se m\u00fasica: um samba tocado com cuidado no piano do teatro, e o gorducho sapateou no ritmo justo.<\/p>\n<p>O samba foi ralentando, adquirindo um outro andamento, ficando esvaziado como uma chuva que vai emagrecendo no fim da tarde. O homem abriu o peito que soou cavo e potente como um canh\u00e3o, sua voz rasgou o teatro, com pouca ajuda do fraco microfone. E foi declamando uma s\u00e9rie de trovas simples, com rimas do segundo verso com o quarto. N\u00e3o parecia haver muito nexo entre elas, mas a \u00faltima foi &#8220;matadora&#8221;, ao conseguir uma &#8220;improv\u00e1vel&#8221; rima do nome da amada Ivete com a necessidade de, por causa da dist\u00e2ncia, namor\u00e1-la pela internet. Uma onda de gargalhadas atravessou o teatro, dezenas de vozes de pessoas que achavam surpreendente alguma rima que n\u00e3o fosse do tipo &#8220;amor e dor&#8221;.<\/p>\n<p>Os jurados, ent\u00e3o, deram por encerrada a fase de apresenta\u00e7\u00f5es e convidaram os presentes, autores inclusos, para o coquetel que estava servido na sala cont\u00edgua. Ap\u00f3s o coquetel seria feita a premia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O poetinha foi o \u00faltimo a deixar seu lugar. N\u00e3o tinha vontadede comer ovo de codorna com fios de ovos, nem salaminho ao lim\u00e3o, nem azeitonas pretas no vinagre. N\u00e3o beberia nada al\u00e9m de \u00e1gua com g\u00e1s, possivelmente aceitaria uma rodela de lim\u00e3o no fundo. <\/p>\n<p>N\u00e3o aconteceu nada de extraordin\u00e1rio no coquetel, al\u00e9m do desfile de frivolidades simples. Meia hora apenas e os salgados se acabando quando finalmente anunciou-se o fim das delibera\u00e7\u00f5es dos jurados, que aparentavam a gravidade de quem vai condenar algu\u00e9m \u00e0 forca.<\/p>\n<p>&#8212; Para o terceiro lugar&#8212; anunciou o mestre de cerim\u00f4nias &#8212; Fabiana Lima, com seu poema &#8220;Amor aos Peda\u00e7os&#8221;.<\/p>\n<p>O poetinha achou gra\u00e7a de darem um pr\u00eamio \u00e0 menina. Valera a pena mostrar a bunda aos jurados, afinal.<\/p>\n<p>&#8212; Para o segundo lugar, Ana Vicentina Gon\u00e7alves, com o poema &#8220;Face ao Estige&#8221;.<\/p>\n<p>A professora conseguira impressionar aos jurados, afinal, com seu meticuloso exerc\u00edcio de versifica\u00e7\u00e3o. Devia alguma coisa de genial naquele poema, apesar de soar t\u00e3o duro. Era uma professora, afinal, e os jurados eram professores. Algu\u00e9m devia representar a classe naquele concurso.<\/p>\n<p>&#8212; Antes de anunciarmos o poema vencedor, gostar\u00edamos de entregar um pr\u00eamio realmente especial, pelo conjunto da obra.<\/p>\n<p>O poetinha olhou em torno, tentando adivinhar quem mereceria uma honraria tal. Haveria inadvertidamente entre os pretendentes ao pr\u00eamio algum que fosse acad\u00eamico, ou que tivesse j\u00e1 v\u00e1rios livros publicados? N\u00e3o, n\u00e3o era isso:<\/p>\n<p>&#8212; Ao poeta Jair de Sousa Lima, que \u00e9 um exemplo para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Era o rapaz que aparentava defici\u00eancia mental. Ele subiu ao palco sorrindo meio abobado, acompanhado de v\u00e1rias outras pessoas, certamente parentes e amigos. Deram-lhe um bonito trof\u00e9u, maior que os outros dois que j\u00e1 haviam sido entregues. <\/p>\n<p>O poetinha, ainda se sentindo perdido no assunto, resolveu pedir ajuda ao \u00fanico entre os candidatos que lhe parecia acess\u00edvel, o poeta maconheiro:<\/p>\n<p>&#8212; Quem \u00e9 esse cara do pr\u00eamio especial? N\u00e3o vi nada de extraordin\u00e1rio na obra dele hoje &#8212; perguntou em um cochicho.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, \u00e9 s\u00f3 um portador de necessidades especiais que inscreveu alguma coisa no concurso. Para n\u00e3o serem crueis com ele patrocinaram esse pr\u00eamio.<\/p>\n<p>&#8212; Mas isso n\u00e3o faz sentido, que esp\u00e9cie de concurso \u00e9 esse em que a gente concorre contra alunos da APAE?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 um concurso como qualquer outro, ou voc\u00ea acha que \u00e9 melhor do que o garoto? Voc\u00ea s\u00f3 n\u00e3o tem uma APAE para estudar e uma fam\u00edlia para lhe pagar um trof\u00e9u.<\/p>\n<p>O poetinha quis revidar, mas subitamente deu-se conta de que era aquilo mesmo. Quanto poeta do mundo se empresta a gl\u00f3ria da escola onde comprou seu diploma, ou \u00e9 propelido pelo dinheiro da fam\u00edlia at\u00e9 as salas dos melhores revisores, aos selos das melhores editoras e \u00e0s listas dos mais vendidos? Mais honesto aquele rapaz, que n\u00e3o o fazia por querer, e aquela fam\u00edlia que tinha plena consci\u00eancia de que estava apenas comprando horas de felicidade para ele. Melhor isso que a ilus\u00e3o de ser um novo g\u00eanio liter\u00e1rio s\u00f3 porque nasceu no lugar certo e estudou com pessoas influentes. Ou talvez estivesse ressentido, e o ressentimento nos conta mentiras para justificar nossa insignific\u00e2ncia. <\/p>\n<p>Por fim o mestre de cerim\u00f4nias pediu a palavra para o grande momento da noite.<\/p>\n<p>&#8212; Senhoras e senhores, neste momento gostaria de pedir uma salva de palmas para o nosso vencedor, com sua obra inovadora e surpreendente, Ant\u00f4nio Gomes e suas &#8220;Trovas para Ivete&#8221;.<\/p>\n<p>O poetinha quase engasgou com a pr\u00f3pria l\u00edngua. O poeta maconheiro apenas ria.<\/p>\n<p>&#8212; Como \u00e9 isso? &#8220;Inovadora&#8221;? O cara escreveu umas trovas em redondilha!<\/p>\n<p>&#8212; Fica calmo, rapaz, tudo \u00e9 parte do jogo.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim, &#8220;surpreendente&#8221;? A \u00fanica coisa diferente em todo o poema era a palavra &#8220;internet&#8221; no final, rimando com o nome da suposta amada dele, que ele s\u00f3 batizou assim por causa da rima!<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o seja despeitado, o poema dele pelo menos todo mundo entendeu.<\/p>\n<p>O poetinha se levantou para aplaudir, junto com os outros, e os foi acompanhando para fora, mortificado de sair do concurso sem pr\u00eamio nenhum, apesar da &#8220;obra prima&#8221; que arrancara das entranhas de sua pr\u00f3pria alma enquanto o sambista gorducho amealhava tr\u00eas mil reais gra\u00e7as a cinco trovas simples sobre amar de longe uma tal de Ivete. Sentia-se ultrajado, esbulhado, feito de palha\u00e7o. Apenas o poeta maconheiro o ajudava a ter perspectiva:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea esperava o que, rapaz? Um concurso de poesia no interior, com um juri formado pela pequena burguesia local? Queria que dessem o pr\u00eamio a um forasteiro como voc\u00ea? Queria que dessem o pr\u00eamio a um pobre como um de n\u00f3s? Que premiassem um poema inconformista, como o seu, ou como o meu? <\/p>\n<p>&#8212; Olha, o problema n\u00e3o \u00e9 eu ter perdido. O problema \u00e9 &#8220;ele&#8221; ter ganhado.<\/p>\n<p>&#8212; Foda-se isso, voc\u00ea ainda n\u00e3o entendeu para que voc\u00ea e eu servimos aqui? N\u00f3s somos s\u00f3 a escada em que eles sobem para ganhar seus certificados in\u00fateis. Estamos aqui para dar brilho \u00e0 cerim\u00f4nia deles.<\/p>\n<p>Mesmo assim, eu tenho a certeza de que meu poema era bom. Como n\u00e3o ganhei nada?<\/p>\n<p>O poeta maconheiro o levou \u00e0 janela que dava para o riacho f\u00e9tido, o canto onde ningu\u00e9m queria ir, mostrou-lhe as luzes da cidade e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Veja s\u00f3, rapaz, tudo isso \u00e9 ilus\u00e3o. Ilus\u00e3o, ilus\u00e3o, tudo \u00e9 ilus\u00e3o. Eles fazem cerim\u00f4nias, trocam certificados e t\u00edtulos, d\u00e3o-se pr\u00eamios, batizam ruas com os nomes de seus parentes. Mas depois eles morrem e fica s\u00f3 a placa na esquina, sem que ningu\u00e9m saiba quem foi. Tudo \u00e9 poeira no vento. Esse concurso, esse pr\u00eamio, at\u00e9 o dinheiro que o cara ganhou. E n\u00e3o pense que lhe adiantaria alguma coisa se voc\u00ea ganhasse. Adiantaria menos do que adiantou para o gorducho: ele vai beber esse dinheiro em u\u00edsque e deixar o trof\u00e9u num canto da \u00e1rea de servi\u00e7o. Mas voc\u00ea, faria o que com o trof\u00e9u, o certificado e o dinheiro? Tr\u00eas mil n\u00e3o consertam sua vida, o certificado n\u00e3o lhe abre nenhuma porta, o trof\u00e9u \u00e9 um monstrengo horr\u00edvel. Fique feliz de ter perdido, e aprecie a companhia.<\/p>\n<p>&#8212; Que companhia?<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea perdeu em \u00f3tima companhia nesta noite. Voc\u00ea perdeu em companhia de Augusto Frederico Schmidt, entremeado com versos de P\u00e9ricles Eug\u00eanio da Silva Ramos, Rui Ribeiro Couto, Raul de Leoni e Alphonsus de Guimaraens.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea est\u00e1 falando do seu poema?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, claro. Uma colagem de versos absolutamente lindos, de poemas obscuros de autores absolutamente incontest\u00e1veis. E eles nem perceberam e nem premiaram.<\/p>\n<p>O poetinha sorriu:<\/p>\n<p>&#8212; Acho que ano que vem tentarei participar com umas tradu\u00e7\u00f5es de Evgeni Evtushenko que estou tentando a partir do franc\u00eas.<\/p>\n<p>&#8212; Esse \u00e9 o esp\u00edrito, cara. Se voc\u00ea n\u00e3o pode ser rei, seja um bom bobo da corte, que \u00e9 o \u00fanico com permiss\u00e3o para rir do rei.<\/p>\n<p>O poeta maconheiro recebeu o abra\u00e7o de sua mulher e convidou:<\/p>\n<p>&#8212; Vamos afogar esse seu ressentimento em uma copada generosa de vinho com catuaba?<\/p>\n<p>O poetinha lembrou-se de Irene, acenou-lhe, e, claro, disse que aceitava.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poetinha desceu do \u00f4nibus j\u00e1 suado e despenteado. O \u00f3culos empenado na cara, a camisa amassada pela viagem desajeitada, a umidade incomodando por debaixo da roupa, o h\u00e1lito amargo devido ao nervoso e ao f\u00edgado. Bateu no peito para ter certeza de que seu poema, copiado com capricho na velha m\u00e1quina de escrever, se encontrava ainda intacto. N\u00e3o estava: tanto suor o amolecera. Retirou-o do bolso e desdobrou com cuidado, quase com l\u00e1grimas. O mesmo calor que o molhara n\u00e3o o secaria. 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