{"id":110,"date":"2012-11-02T10:28:00","date_gmt":"2012-11-02T13:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=110"},"modified":"2017-11-02T14:08:24","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:24","slug":"em-nome-dos-mortos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/11\/em-nome-dos-mortos\/","title":{"rendered":"Em Nome dos Mortos"},"content":{"rendered":"<p>A Zona da Mata Mineira vive hoje uma crise \u2013 humana, econ\u00f4mica e ecol\u00f3gica. Por toda parte onde se v\u00e1, encontramos a descaracteriza\u00e7\u00e3o cultural, a perda das tradi\u00e7\u00f5es orais, o esquecimento do artesanato (e da pr\u00f3pria hist\u00f3ria) e, mais grave que tudo, uma absurda destrui\u00e7\u00e3o da natureza que, de t\u00e3o arraigada, deixou de significar apenas a remo\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa e agora est\u00e1 chegando \u00e0 remo\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio solo e das montanhas: percorrendo a regi\u00e3o vemos morros pelados, terra aparente, eros\u00f5es, cursos d&#8217;\u00e1gua assoreados. A Zona da Mata deixou de merecer esse nome: hoje \u00e9 uma regi\u00e3o em processo incipiente de desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;No come\u00e7o isso aqui era s\u00f3 mato, bicho e \u00edndio. Mas n\u00f3s limpamos a terra e a fizemos produzir.&#8221; A frase foi dita, de verdade, por um propriet\u00e1rio de terras da Zona da Mata Mineira, em algum momento nublado de minha inf\u00e2ncia. Ele certamente n\u00e3o se lembrava de quando chegaram os primeiros colonos, procedentes do norte do estado do Rio de Janeiro ou dos Campos das Vertentes, mas a presen\u00e7a dos tr\u00eas elementos definidores \u2013 mato, bicho e \u00edndio \u2013 perdurou durante d\u00e9cadas depois, permaneceu no imagin\u00e1rio do povo at\u00e9 bem h\u00e1 pouco tempo. E eu sempre achei curioso como a gente de minha terra contava sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Conheci pessoas que diziam que um ou outro de seus antepassados havia sido &#8220;\u00edndio pego a la\u00e7o no mato&#8221; \u2013 uma refer\u00eancia obl\u00edqua a indiv\u00edduos sobreviventes dos massacres dos grupos isolados de tapuias, puris, goitacazes e outros povos amer\u00edndios que aqui viviam. Quando os colonos brancos vieram, trazendo seus escravos e seus machados, a presen\u00e7a dos \u00edndios foi sendo extirpada, junto com o mato e com os bichos. As tr\u00eas palavras foram sempre empregadas em um tom pejorativo.<\/p>\n<p>&#8220;Mato&#8221; era, no portugu\u00eas coloquial de antigamente, uma palavra carregada de negatividade. Dizer que algo &#8220;era mato&#8221; era como dizer que era vulgar, que era encontrado em qualquer lugar. O &#8220;mato&#8221; era, tamb\u00e9m, o lugar desorganizado, o caos primevo. &#8220;Bola para o mato, que o jogo \u00e9 de campeonato&#8221; e &#8220;fugir para o mato&#8221; s\u00e3o express\u00f5es que mencionam esse sentido. Joga-se a bola para onde ela desaparecer\u00e1, para retardar o jogo. Foge-se para longe do alcance do bra\u00e7o da lei. No meu tempo de crian\u00e7a ainda corriam hist\u00f3rias de pessoas que fugiam das cidades e vinham &#8220;para o mato&#8221; trabalhar em terras de coron\u00e9is, e que n\u00e3o eram presas se esses n\u00e3o deixassem, porque a pol\u00edcia n\u00e3o entrava nas propriedades. Remover o &#8220;mato&#8221; era um processo civilizat\u00f3rio. Lembro-me de como a professora leiga, de minha escolinha rural, me contou, embevecida, como seus antepassados &#8220;desbravaram&#8221; a terra. &#8220;Desbravar&#8221; \u00e9 cognato de &#8220;bravio&#8221;. Envolve um sentido de &#8220;doma&#8221;. Desbravar \u00e9 amansar a terra. \u00c9 tirar o mato, o bicho e o \u00edndio. E eu me lembro at\u00e9 hoje do desenho que fiz, de um colono enxugando o suor da testa, apoiado em seu machado, no meio da lida herc\u00falea de derrubar \u00e1rvores em um campo imenso.<\/p>\n<p>Meus antepassados odiavam \u00e1rvores. Tanto que constru\u00edam suas casas em clareiras lisas, os &#8220;terreiros&#8221;. O tamanho do terreiro estava vinculado ao poder do propriet\u00e1rio. Viver em uma casa isolada no meio de um terreiro imenso era para os coron\u00e9is, ou quem tinha dinheiro equivalente. Manter o terreiro limpo envolvia o trabalho de muitos homens, para remover as folhas do mato, arrancar as ervas que teimavam em nascer. O terreiro era tamb\u00e9m uma prote\u00e7\u00e3o natural contra emboscadas. \u00c0 noite, mesmo sem lua, era mais f\u00e1cil ver algu\u00e9m tentando atravess\u00e1-lo para atacar a casa. Mais f\u00e1cil do que seria se em vez de terreiro a casa fosse cercada de \u00e1rvores.<\/p>\n<p>&#8220;Bicho&#8221; tinha um sentido ainda mais forte. A palavra &#8220;animal&#8221; era reservada para as bestas domesticadas: cavalos, mulas, vacas, jumentos, cabras, ovelhas. Pequenos animais domesticados, ou que viviam pr\u00f3ximos \u00e0 casa \u2013 como gatos, ratos e lagartixas \u2013 eram chamados de &#8220;bichos&#8221;, assim como os insetos (bicho-de-p\u00e9, por exemplo). Os outros eram os &#8220;bichos do mato&#8221;, vistos como &#8220;invasores&#8221; e predestinados \u00e0 ca\u00e7a ou ao mero exterm\u00ednio porque interferiam na economia. E o colono sabia muito bem que remover o mato era uma maneira eficiente de afastar o bicho, sem ter que matar cada um, correndo risco. Por isso as grandes queimadas, por isso &#8220;desbravar&#8221; at\u00e9 mesmo encostas de \u00e2ngulo imposs\u00edvel para a agricultura e a pecu\u00e1ria. Era preciso &#8220;limpar&#8221; a terra, para que o bicho n\u00e3o ficasse perto. A on\u00e7a, o quati, o piri\u00e1, a jaguatirica, o guar\u00e1, o guaxinim, o maracaj\u00e1, o m\u00e3o pelada, o caboclo d&#8217;\u00e1gua, a lontra \u2013 todos bichos que, embora fossem bonitos alguns, tinham o infeliz h\u00e1bito de ver nas galinhas das fazendas uma ca\u00e7a mais gorda e mais f\u00e1cil do que os magros e velozes p\u00e1ssaros &#8220;do mato&#8221;.<\/p>\n<p>E o &#8220;\u00edndio&#8221;, por fim, era o &#8220;bicho&#8221; por excel\u00eancia. Dotado de uma intelig\u00eancia &#8220;quase humana&#8221;, reunia a ferocidade e a matreirice. Por isso o \u00f3dio que despertava no colono, de forma espont\u00e2nea e natural. Se algum era capturado e trazido \u00e0 fazenda, era para ser simplesmente morto ou escravizado. Poucos comentam, mas os antepassados pegos a la\u00e7o eram, em geral, mulheres. Estuprar a \u00edndia e fazer filhos nela era uma forma de subjugar este animal estranhamente humano que vivia em torno das regi\u00f5es de coloniza\u00e7\u00e3o incipiente. Mas uma vez trazido \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o, se &#8220;aprendesse a falar&#8221; (o que geralmente s\u00f3 acontecia com crian\u00e7as) e conseguisse aprender uma profiss\u00e3o, o \u00edndio n\u00e3o era mais um inimigo, apenas outro elemento subjugado, na estrutura de poder da grande fazenda.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer essa mentalidade se quisermos entender o desastre. Os colonos removeram a mata para afastar o bicho e para exterminar o \u00edndio. Removeram a mata at\u00e9 mesmo nos lugares onde isso nem era necess\u00e1rio, como encostas de pedreiras com \u00e2ngulo de sessenta graus. No lugar da mata plantaram monoculturas que n\u00e3o ofereceram cobertura ao solo, as mais recentes s\u00e3o o eucalipto e a brachiaria. O uso frequente da queimada enfraqueceu a terra, salinizou-a, acidificou-a. Queimada proposital, ou queimada acidental, causada por bal\u00f5es, raios, acidentes dom\u00e9sticos ou, em dias excepcionalmente quentes, peda\u00e7os de vidro perdidos em moitas secas. Nos lugares mais queimados j\u00e1 n\u00e3o cresce mais nada: a terra est\u00e1 pelada, mostrando sua derme, vermelha ou amarela. Sem cobertura a chuva arranca e arrasta: surgem eros\u00f5es imensas. A terra solta vai para os riachos, que ficam rasos e largos. As nascentes s\u00e3o sufocadas, riachos secam na estiagem, coisa que nunca se imaginou acontecer por aqui.<\/p>\n<p>E este desastre acontece aos poucos, sem que ningu\u00e9m proteste. Os jornais n\u00e3o comentam. A televis\u00e3o n\u00e3o fala. O cad\u00e1ver vai apodrecendo e \u00e9 como se ningu\u00e9m sentisse o cheiro. As pessoas dirigem pelas estradas olhando exclusivamente para o asfalto, sem ver as feias marcas de destrui\u00e7\u00e3o que perfilam ao redor. Tal como, nas cidades, ignoram os mendigos, ao sair delas ignoram a destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m quer ver, porque ningu\u00e9m quer admitir que tem alguma responsabilidade. N\u00e3o fomos n\u00f3s, foram nossos pais, av\u00f3s e bisav\u00f3s. Nossos netos e bisnetos tamb\u00e9m dir\u00e3o que n\u00e3o foram eles, mas que fomos n\u00f3s \u2013 mas n\u00f3s estaremos mortos ent\u00e3o, o que significa que n\u00e3o veremos seus dedos apontados em nossas caras, e n\u00e3o precisaremos ter vergonha da acusa\u00e7\u00e3o. Por isso podemos ficar inertes, sem nada fazer, sem nada dizer.<\/p>\n<p>Nascemos em uma cultura violenta, uma cultura de genoc\u00eddio, estupro, desmatamento, queimada e depreda\u00e7\u00e3o. Matamos ou &#8220;pegamos a la\u00e7o&#8221; os \u00edndios, arrancamos as \u00e1rvores, secamos os brejos, queimamos os montes, destru\u00edmos os sinais de tudo que houve antes de n\u00f3s. Tomamos posse da terra atrav\u00e9s da terraplenagem e da esp\u00f3lio. Esfolamos a terra, tiramos sua pele, para que crescesse outra, nova, nossa. Agora vemos essa pele que nasceu, ressecada, feia, cicatrizada, e n\u00e3o a queremos. Eis o fruto da ira e da cobi\u00e7a de nossos antepassados. At\u00e9 quando os desculparemos, at\u00e9 quando nos desculparemos?<\/p>\n<p>Eu poderia tamb\u00e9m estar quieto, mas me d\u00f3i cada vez que vejo uma nova eros\u00e3o, que noto que esqueci outra cantiga que fez parte de minha inf\u00e2ncia. D\u00f3i quando vejo que a coloniza\u00e7\u00e3o continua, sempre em novas vagas, cada uma determinada a suplantar a que havia antes, sob camadas sucessivas de esquecimento. Rompendo a continuidade, para que tenhamos a ilus\u00e3o de que o mal l\u00e1 fora n\u00e3o \u00e9 fruto nosso: queremos ser novos, fingimos ser outros, porque n\u00e3o queremos saber que matamos os bichos, que la\u00e7amos os \u00edndios e que limpamos o mato.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estou quieto porque todo escritor \u00e9 consci\u00eancia de sua era. Eu sei muito bem que a perfei\u00e7\u00e3o, poss\u00edvel ou n\u00e3o, \u00e9 apenas um ideal vazio, apenas outra forma de n\u00e3o olhar l\u00e1 para fora e ver o vazio, de \u00e1rvores, de bichos e de \u00edndios, que o nosso passado produziu. Se eu ficasse obcecado apenas em contar, do melhor modo poss\u00edvel, as hist\u00f3rias e os sentimentos que agradam aos outros, eu estaria sendo apenas outro colono, que vive aqui, mas tem a cabe\u00e7a no Rio de Janeiro ou em qualquer outro lugar. A mentalidade do colono \u00e9 transit\u00f3ria. Ele n\u00e3o ama a terra, ela n\u00e3o tem fam\u00edlia: seu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 em outro lugar, para onde quer ir ou voltar, quando arrancar da terra o que seja preciso para viver l\u00e1 como patr\u00e3o, ele que veio como ladr\u00e3o. O colono n\u00e3o \u00e9 um cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu come\u00e7o, aos poucos, a falar disso, e de outras coisas que sinto, da raiva que sinto. Posso estar escrevendo mal, mas cada dia que passa tenho mais definida esta sensa\u00e7\u00e3o de que \u00e9 preciso vocalizar esta frustra\u00e7\u00e3o. Falar em nome das \u00e1rvores, dos bichos e dos \u00edndios. Falar em nome do que esta terra foi antes de ter sido reduzida ao que \u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Zona da Mata Mineira vive hoje uma crise \u2013 humana, econ\u00f4mica e ecol\u00f3gica. 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