{"id":12,"date":"2013-06-23T00:41:00","date_gmt":"2013-06-23T03:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=12"},"modified":"2017-11-16T14:42:06","modified_gmt":"2017-11-16T17:42:06","slug":"popularidade-plagio-e-advogados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/06\/popularidade-plagio-e-advogados\/","title":{"rendered":"Popularidade, Pl\u00e1gio e Advogados"},"content":{"rendered":"<p>Quando perdemos a no\u00e7\u00e3o de nossos direitos, pode \u00e0s vezes parecer opress\u00e3o quando querem nos entregar aquilo que devia ser nosso [sugest\u00e3o de cena ilustrativa: um faquir se recusando a receber pagamento pela sua apresenta\u00e7\u00e3o]. \u00c0s vezes nos acostumamos tanto a entregar de gra\u00e7a o que nos \u00e9 t\u00e3o caro, que chamamos de prostitui\u00e7\u00e3o quando pensam em pagar-nos. Estas duas frases me vieram \u00e0 mente a prop\u00f3sito de um [texto publicado hoje no &#8220;Bacia das Almas&#8221;]) pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/plus.google.com\/114370744500936714403\" target=\"_blank\">+Paulo Brabo<\/a>.<\/p>\n<p>O autor est\u00e1 perplexo porque recebeu uma resposta curta e grossa da Amazon a respeito de sua tentativa de publicar na Kindle Store\u00a0um livro contendo artigos de seu blogue. O teor das observa\u00e7\u00f5es feitas pelo Paulo mostra o quanto n\u00f3s, escritores nos acostumamos com a falta de dec\u00eancia com que nossos leitores nos tratam, a ponto de considerarmos certo aquilo que \u00e9 errado, e vice versa.<\/p>\n<p>Se bem entendi a arenga, Paulo possui um blogue desde 2004, no qual publica seus textos, da mesma forma que eu, que estou na internet mais ou menos desde a mesma \u00e9poca. Somente agora, em 2013, nove anos depois, resolveu publicar na Kindle Store alguns dos textos do blogue. A Amazon os rejeitou. Segundo os termos e condi\u00e7\u00f5es do servi\u00e7o da Kindle Store, que podem ser consultados <a href=\"https:\/\/kdp.amazon.com\/self-publishing\/help?topicId=APILE934L348N\">aqui<\/a>, a Amazon publica o que quer, quando quer (traduzido por mim):<\/p>\n<blockquote><p>\n  Reservamo-nos o direito de determinar que conte\u00fado aceitamos e distribu\u00edmos por meio do Programa segundo nossos pr\u00f3prios crit\u00e9rios. Se requisitarmos que nos forne\u00e7a informa\u00e7\u00f5es relacionadas aos seus livros digitais, tais como informa\u00e7\u00f5es que confirmem que voc\u00ea tem todos os direitos necess\u00e1rios para permitir-nos a distribui\u00e7\u00e3o do livro digital, voc\u00ea nos providenciar\u00e1 imediatamente a informa\u00e7\u00e3o requerida, e voc\u00ea reafirma e garante que toda e qualquer informa\u00e7\u00e3o ou documenta\u00e7\u00e3o que nos forne\u00e7a em resposta a tal requerimento ser\u00e1 atualizada, completa e exata. Voc\u00ea nos autoriza, diretamente ou por interm\u00e9dio de terceiros, a fazer quaisquer investiga\u00e7\u00f5es que consideremos apropriadas para verificar os seus direitos e permitir nossa distribui\u00e7\u00e3o dos livros digitais e a exatid\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es ou documenta\u00e7\u00e3o que nos forne\u00e7a a respeito de tais direitos.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Curta e grossa, a cl\u00e1usula do contrato n\u00e3o poderia ser mais clara. Considerando, tamb\u00e9m, o modelo de neg\u00f3cio da Amazon em rela\u00e7\u00e3o ao Kindle, ela n\u00e3o poderia ser mais <em>justa<\/em>. Expliquemos: A Amazon se reserva o direito de n\u00e3o publicar o que n\u00e3o lhe interessar e autor n\u00e3o discutir\u00e1 isso. Se ela desconfiar que o autor n\u00e3o est\u00e1 autorizado a ceder-lhe os direitos da obra, caber\u00e1 ao autor provar que os det\u00e9m e, no caso de a Amazon fazer alguma investiga\u00e7\u00e3o sobre os direitos autorais da obra, o autor admite que ela tem esse direito. Estas cl\u00e1usulas servem para evitar que g\u00eanios ofendidos por recusas processem a Amazon por &#8220;perdas e danos&#8221; referentes \u00e0 n\u00e3o publica\u00e7\u00e3o de suas obras-primas imortais e destinadas a mudar o destino da literatura ocidental ou da pr\u00f3pria humanidade. Mas servem tamb\u00e9m para permitir que a Kindle Store atue objetivamente como uma editora, ainda que em um n\u00edvel menor de exig\u00eancia: caso exista da parte da Amazon a mais remota d\u00favida de que o livro que tento publicar seja meu mesmo, ou que eu retenha os direitos sobre ele, n\u00e3o h\u00e1 nada que eu possa fazer contra uma decis\u00e3o de n\u00e3o public\u00e1-lo, <em>mesmo que eu seja totalmente inocente<\/em>. A Amazon se baseia no salutar princ\u00edpio de que n\u00e3o basta que a mulher de C\u00e9sar seja honesta, mas que <em>pare\u00e7a<\/em> honesta.<\/p>\n<p>Pois o Paulo recebeu da Amazon uma comunica\u00e7\u00e3o de que o seu livro estava livremente (&#8220;freely&#8221;) dispon\u00edvel na internet e que a Amazon n\u00e3o estava plenamente convencida de que ele detinha os direitos <em>exclusivos<\/em>\u00a0de publica\u00e7\u00e3o. Notaram a \u00eanfase que dei \u00e0 cita\u00e7\u00e3o feita pelo Paulo? Ele n\u00e3o prestou muita aten\u00e7\u00e3o a esta palavra.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios momentos, os termos do servi\u00e7o do Kindle mencionam a necessidade de direitos exclusivos. O autor n\u00e3o precisa ceder os direitos exclusivamente \u00e0 Amazon, mas precisa provar que ele, autor, \u00e9 o \u00fanico que det\u00e9m os direitos de distribui\u00e7\u00e3o de sua obra. E por que isso? Simples: porque se algu\u00e9m piratear o meu Kindle ebook, eu s\u00f3 posso exigir sua remo\u00e7\u00e3o se eu for o \u00fanico autorizado a licenci\u00e1-lo. Se eu, mesmo sendo autor de uma obra, a pus em dom\u00ednio p\u00fablico, isto quer dizer que qualquer pessoa que detenha uma c\u00f3pia pode distribu\u00ed-la e eu n\u00e3o posso reclamar. Pior: n\u00e3o se pode impedir que outras pessoas produzam c\u00f3pias inferiores do mesmo conte\u00fado e a tentem vender atrav\u00e9s da Kindle Store. Se algo assim ocorresse, se criaria uma situa\u00e7\u00e3o obscura, que poderia envolver a Amazon em um processo judicial por infra\u00e7\u00e3o de direito autoral.<\/p>\n<p>A Amazon tamb\u00e9m disse ao Paulo que esse tipo de material causa uma experi\u00eancia desagrad\u00e1vel ao leitor \u2014 e isso \u00e9 verdade. Quando se trata de comprar uma obra, o leitor espera que somente vers\u00f5es autorizadas estejam dispon\u00edveis. Tamb\u00e9m acredito que n\u00e3o haja experi\u00eancia mais desagrad\u00e1vel do que desembolsar uma grana para comprar um e-book e depois descobrir que seu texto est\u00e1 dispon\u00edvel num site de <em>downloads<\/em>.<\/p>\n<p>Voc\u00ea s\u00f3 pode ceder aquilo que controla. Ceder os direitos sobre algo que n\u00e3o controlo \u00e9 como vender ar para que engarrafem. A Amazon n\u00e3o deseja comprar ar.<\/p>\n<p>O que, ent\u00e3o, aconteceu ao Paulo, segundo suas pr\u00f3prias palavras?<\/p>\n<blockquote><p>\n  Na opini\u00e3o da Amazon, n\u00e3o tenho como provar os direitos exclusivos de publica\u00e7\u00e3o do meu novo livro precisamente porque \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil demonstrar que sou o autor: porque tratam-se de textos publicados originalmente no meu site e que foram desde ent\u00e3o reproduzidos em outras p\u00e1ginas da web, em blogs e nas m\u00eddias sociais.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Pode parecer uma postagem do Capit\u00e3o \u00d3bvio, mas o autor se sentiu surpreendido pela constata\u00e7\u00e3o da Amazon. Obviamente a Amazon n\u00e3o desconfia que ele esteja plagiando algu\u00e9m, ela desconfia que ele n\u00e3o detenha mais o controle dos direitos de copyright de sua obra. Para entender essa desconfian\u00e7a \u00e9 preciso dar uma lidinha em textos de Direito Autoral para entender que este, de fato, inclui dois direitos diferentes (por isso falamos em &#8220;direitoS autoraIS&#8221;):<\/p>\n<ul>\n<li>Direito moral \u2014 que \u00e9 o direito de ser reconhecido como autor da obra;<\/li>\n<li>Direito patrimonial \u2014 que \u00e9 o direito de controlar a distribui\u00e7\u00e3o da obra.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Segundo a Conven\u00e7\u00e3o de Berna, \u00e0 qual tanto Estados Unidos quanto Brasil s\u00e3o partes, o direito moral \u00e9 inalien\u00e1vel (o que significa, em tese, que um <em>ghost-writer<\/em> pode exigir ser reconhecido como co-autor das obras que escreve, mesmo que as escreva mediante pagamento). Ent\u00e3o, quando falamos em cess\u00e3o de direitos, estamos falando, logicamente, do <em>copyright<\/em>. A Amazon desconfia, dada a prolifera\u00e7\u00e3o de c\u00f3pias da obra do Paulo na internet e redes sociais, que ele n\u00e3o detenha mais o <em>copyright<\/em> de sua obra. Como isso poderia ter acontecido?<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muita gente pensa, a presen\u00e7a da not\u00edcia de <em>copyright<\/em> associada \u00e0 obra n\u00e3o \u00e9 essencial para que o direito seja reconhecido. Se fosse assim seria complicado garantir o direito autoral sobre pinturas ou fotografias. Pelo contr\u00e1rio, na aus\u00eancia de qualquer not\u00edcia de licenciamento, pressup\u00f5e-se \u00a0a licen\u00e7a mais restritiva, que \u00e9 o controle total de <em>copyright<\/em> pelo autor. Assim reza a Conven\u00e7\u00e3o de Berna.<\/p>\n<p>Mas nas redes sociais e nos blogues n\u00f3s, autores, \u00a0na \u00e2nsia de difundirmos nossa obra, fazemos tolices praticamente o tempo todo. Basta um encaminhamento de e-mail no qual incluamos uma frase como &#8220;compartilhem a\u00ed&#8221; ou &#8220;para todo mundo ler&#8221; e z\u00e1s! Acabamos de destinar nossa obra ao dom\u00ednio p\u00fablico se algu\u00e9m puder provar materialmente que n\u00f3s realmente escrevemos isso (pode ser que no Brasil n\u00e3o seja assim, mas nos EUA, onde se localiza a Amazon, l\u00e1 \u00e9).<\/p>\n<p>J\u00e1 ouviu falar em &#8220;disson\u00e2ncia cognitiva&#8221;? \u00c9 um fen\u00f4meno psicol\u00f3gico que nos faz desconsiderar certas informa\u00e7\u00f5es, normalmente sem que nos demos conta, de forma a acomodar a realidade \u00e0 nossa preconcep\u00e7\u00e3o da realidade. Paulo \u00e9 um caso de disson\u00e2ncia cognitiva muito f\u00e1cil de demonstrar. Voc\u00ea lembra da palavra que eu destaquei l\u00e1 em cima, na primeira cita\u00e7\u00e3o? Se n\u00e3o lembra, volte e releia o come\u00e7o desse artigo. Foi, voltou? Beleza, continuemos. Eis como o autor explica o funcionamento da Kindle Store:<\/p>\n<blockquote><p>\n  Na KDP qualquer um pode publicar um livro eletr\u00f4nico e receber os royalties pela venda: a \u00fanica exig\u00eancia \u00e9 que voc\u00ea detenha os direitos de publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica dos seus textos, de modo a ced\u00ea-los contratualmente para a Amazon. Querendo dizer: devem ser textos originais e voc\u00ea n\u00e3o pode ter cedido a ningu\u00e9m os direitos de publica\u00e7\u00e3o (tendo j\u00e1 assinado um contrato com uma outra editora, por exemplo).\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Na primeira cita\u00e7\u00e3o o Paulo retira a palavra &#8220;exclusivos&#8221; que estava na resposta dada pela Amazon, e com isso torna absurda a recusa apresentada por ela. A simples aus\u00eancia desta palavra muda totalmente o contexto. Claro que o Paulo tem direitos de publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica de seus textos, <em>disso a Amazon n\u00e3o duvida<\/em>, o que ela quer saber \u00e9 se ele \u00e9 a \u00fanica pessoa que det\u00e9m tais direitos pois, na melhor das hip\u00f3teses, ela teria que entrar em acordo com todos os detentores de direitos sobre uma obra. Pois bem, a Amazon desconfia que, dada a prolifera\u00e7\u00e3o de sua obra na Internet, o Paulo tenha, inadvertida ou propositalmente, concedido direitos de distribui\u00e7\u00e3o a terceiros. Como ela n\u00e3o tem (presentemente) nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre se houve tal concess\u00e3o e que direitos foram concedidos, \u00e9 bastante razo\u00e1vel que ela sinta cheiro de confus\u00e3o e ponha um p\u00e9 atr\u00e1s.<\/p>\n<p>O segundo erro que o Paulo comete nesta cita\u00e7\u00e3o acima \u00e9 empregar uma defini\u00e7\u00e3o limitada do que seja &#8220;publica\u00e7\u00e3o&#8221;. Ele entende como &#8220;cess\u00e3o de direitos de publica\u00e7\u00e3o&#8221; a assinatura de um contrato com outra editora. N\u00e3o \u00e9 isso que diz a lei de direitos autorais, em seu artigo 5\u00ba, inciso I:<\/p>\n<blockquote><p>\n  Publica\u00e7\u00e3o: o oferecimento de obra liter\u00e1ria, art\u00edstica ou cient\u00edfica ao conhecimento do p\u00fablico, com o consentimento do autor, ou de qualquer outro titular de direito do autor, por qualquer forma ou processo.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Ocorre que o pr\u00f3prio autor admite que:<\/p>\n<blockquote><p>\n  Por\u00e9m, sendo uma compila\u00e7\u00e3o dos meus textos mais populares, j\u00e1 haviam sido republicados (na maioria dos casos por pura simpatia) em uma *infinidade de lugares sobre os quais n\u00e3o tenho controle.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Esse \u00e9 o vespeiro no qual a Amazon n\u00e3o quer enfiar o dedo. A republica\u00e7\u00e3o, mesmo que seja por &#8220;pura simpatia&#8221;, \u00e9 uma &#8220;publica\u00e7\u00e3o&#8221; e uma autoriza\u00e7\u00e3o, mesmo que informal, \u00e9 uma autoriza\u00e7\u00e3o, pois o autor, sendo o \u00fanico detentor original dos direitos patrimoniais de sua obra, pode dispor deles como bem entender. Se o pr\u00f3prio autor admite que n\u00e3o tem mais o controle do direito de distribui\u00e7\u00e3o (<em>copyright<\/em>) de sua obra, como ele pode pretender ced\u00ea-la \u00e0 Kindle Store para que seja vendida?<\/p>\n<p>O corol\u00e1rio deste racioc\u00ednio,O corol\u00e1rio do segundo item \u00e9 que a Amazon concluiu (e na minha opini\u00e3o ela <b>tem raz\u00e3o<\/b>) que o Paulo pretende se utilizar gratuitamente da estrutura da Amazon para divulgar o livro de forma <b>indevida<\/b>. Sim, indevida, pois pretende ceder \u00e0 Amazon direitos exclusivos sobre uma obra que j\u00e1 foi &#8220;roubartilhada&#8221; com o seu benepl\u00e1cito e sobre a qual ningu\u00e9m tem mais nenhum controle. Voc\u00ea est\u00e1 entregando ar para a Amazon engarrafar e vender. N\u00e3o me admira que tenham sido rudes com voc\u00ea, voc\u00ea mereceu.<\/p>\n<p>O ponto final desta argumenta\u00e7\u00e3o nos traz de volta ao princ\u00edpio, sobre a sensa\u00e7\u00e3o de que a remunera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de prostitui\u00e7\u00e3o, esse pensamento que acomete a muitos de n\u00f3s, jovens autores. Paulo considera uma &#8220;homenagem&#8221; e uma demonstra\u00e7\u00e3o de &#8220;simpatia&#8221; que desconhecidos republiquem textos de seu blogue, mesmo <em>sem nenhum controle<\/em>. Palavras do pr\u00f3prio Paulo:<\/p>\n<blockquote><p>\n  O motivo pelo qual meu conte\u00fado est\u00e1 dispon\u00edvel em outros sites que n\u00e3o o meu, poderia na verdade contar em meu favor: porque <i>algumas pessoas<\/i>, incrivelmente, <i>curtem o que escrevo<\/i>.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Aqui no Brasil <i>as pessoas tendem a entender que republicando um texto nos seus pr\u00f3prios sites est\u00e3o fornecendo ao autor o seu endosso pessoal<\/i>; nos Estados Unidos, terra natal da Amazon, essa pr\u00e1tica \u00e9 universalmente tida e execrada como &#8220;stealing content&#8221;: roubo de conte\u00fado.<\/p>\n<p>Ocorre que neste ponto, como em muitos outros, os americanos est\u00e3o mais cobertos de raz\u00e3o do que um peixe, de escamas. Eu posso n\u00e3o admirar integralmente os valores da cultura americana e detestar a pol\u00edtica externa de seus governos, mas jamais poderia descartar em bloco os princ\u00edpios, pr\u00e1ticas e valores que permitiram aos Estados Unidos se tornarem o que se tornaram. E neste ponto, <em>eles t\u00eam raz\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe nenhuma homenagem em pegar um texto de meu blogue e republicar no seu, voc\u00ea pode at\u00e9 pedir permiss\u00e3o e pode at\u00e9 obter, mas a republica\u00e7\u00e3o \u00e9, sim, roubo de conte\u00fado. Essa hist\u00f3ria de endosso pessoal \u00e9 balela: trata-se de gente que n\u00e3o tem talento para produzir conte\u00fado pr\u00f3prio, ou n\u00e3o tem disciplina para tal, e que enche um blogue com texto retirado de outros blogues e que, com isso, ganha para si um relevo e uma remunera\u00e7\u00e3o \u00e0s custas da obra alheia.<\/p>\n<p>Blogueiro honesto n\u00e3o republica postagem alheia, ele comenta sobre ela e deixa um link. Assim, os seus seguidores, caso fiquem interessados, visitar\u00e3o o blogue original, render\u00e3o AdSense ao autor e o recompensar\u00e3o, mesmo que somente em <i>hits<\/i>, pelo seu trabalho.<\/p>\n<p>Quando um blogueiro republica a postagem alheia, <i>mesmo com autoriza\u00e7\u00e3o e mesmo deixando link, <\/i>ele est\u00e1 roubando do autor original a visibilidade que ele deveria ter em seu pr\u00f3prio blogue. E como existem blogues e portais na blogosfera brasileira que se criam e se tornam famosos sem ter ningu\u00e9m l\u00e1 que escreva! Existem e atraem visitas vampirizando conte\u00fado alheio, muitas vezes sem deixar nem mesmo o link de cr\u00e9dito. E os mantenedores desses blogues, cheios de emp\u00e1fia do alto das centenas de milhares de visitas que recebem, ainda respondem com malcria\u00e7\u00e3o quando um autor lhes aborda sobre o caso. Esperam que o autor considere um favor que lhe roubem sua luz.<\/p>\n<p>O Paulo, seja por que motivos forem, internalizou esta submiss\u00e3o. Ele se considera homenageado quando o seu texto se torna conhecido mesmo que muitos leitores nunca cheguem a saber de onde o texto saiu. Ele se julga remunerado pela &#8220;simpatia&#8221; dos que republicam seu conte\u00fado, mesmo que os blogues copi\u00f5es ganhem mais visibilidade e AdSense do que o seu. Talvez, agora, por causa disso que aconteceu, ele comece a questionar que tipo de homenagem \u00e9 essa que lhe prestam quando o copiam, e que tipo de simpatia \u00e9 essa que tira vantagem de seu trabalho. Voc\u00ea n\u00e3o permite (ou pelo menos n\u00e3o gosta) que um desconhecido no bar petisque uma batatinha de sua por\u00e7\u00e3o ou beba um pouco da sua cerveja, por que deveria permitir que desconhecidos compartilhem seus textos sem nem mesmo a educa\u00e7\u00e3o de um pedido de licen\u00e7a? E por que considerar normal que outros blogues e sites se abaste\u00e7am de conte\u00fado copiado de blogues e sites menos conhecidos?<\/p>\n<p>Por isso eu digo que eu n\u00e3o sou o Paulo. Eu n\u00e3o me sinto homenageado por isso. Se voc\u00ea quer me homenagear, fa\u00e7a postagens sobre minhas obras, seja falando bem ou descendo a lenha. Eu me sinto mais homenageado por <a href=\"http:\/\/esooutroblogue.wordpress.com\/2010\/09\/23\/solarium-2-lido-e-comentado\/\" target=\"_blank\">isto<\/a> do que por <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/pandora.jor.br\/2010\/01\/12\/boris-e-os-lixeiros\/\">isto<\/span>. Eu at\u00e9 permito que o meu conte\u00fado seja reproduzido, mas certamente prefiro que ele seja comentado e linkado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando perdemos a no\u00e7\u00e3o de nossos direitos, pode \u00e0s vezes parecer opress\u00e3o quando querem nos entregar aquilo que devia ser nosso [sugest\u00e3o de cena ilustrativa: um faquir se recusando a receber pagamento pela sua apresenta\u00e7\u00e3o]. \u00c0s vezes nos acostumamos tanto a entregar de gra\u00e7a o que nos \u00e9 t\u00e3o caro, que chamamos de prostitui\u00e7\u00e3o quando pensam em pagar-nos. Estas duas frases me vieram \u00e0 mente a prop\u00f3sito de um [texto publicado hoje no &#8220;Bacia das Almas&#8221;]) pelo\u00a0+Paulo Brabo. 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