{"id":122,"date":"2012-09-03T08:27:00","date_gmt":"2012-09-03T11:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=122"},"modified":"2017-11-02T14:08:55","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:55","slug":"sonhos-estranhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/09\/sonhos-estranhos\/","title":{"rendered":"Sonhos Estranhos"},"content":{"rendered":"<p>Esta noite sonhei com o <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/08\/o-meu-melhor-amigo\">meu melhor amigo<\/a>. N\u00e3o, n\u00e3o foi a primeira vez, apenas foi um sonho estranho o suficiente para merecer que eu o lembrasse. Um dia imagino que um semi\u00f3logo ou cr\u00edtico queimar\u00e1 pestanas tentando decifrar-me a partir de textos como esse, ent\u00e3o escrevo para dar-lhe trabalho. Ou para apenas me divertir lembrando.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos em uma f\u00e1brica, uma f\u00e1brica que estava prestes a fechar, mas os trabalhadores n\u00e3o sabiam disso. O ritmo de produ\u00e7\u00e3o era t\u00e3o fren\u00e9tico como sempre, os contramestres andavam de um lado a outro pondo na linha quem estivesse morcegando e caminh\u00f5es chegavam e sa\u00edam trazendo ou levando mat\u00e9ria prima e mercadorias. Ent\u00e3o, subitamente o Kid Abelha apareceu, com um palco montado sobre uma estrutura de a\u00e7o, talvez um guindaste, e tocou os oper\u00e1rios um rock den\u00fancia que tinha uma letra mais ou menos assim:<\/p>\n<p>Voc\u00eas que continuam<br \/>\na vida sem saber<br \/>\nLogo v\u00e3o compreender<br \/>\nque as m\u00e1quinas os usam<br \/>\ne o dono s\u00f3 quer ter.<\/p>\n<p>Mas um dia tudo passa,<br \/>\nvai a m\u00e1quina parar.<br \/>\nA quem v\u00e3o perguntar o que fazer,<br \/>\nvoc\u00eas que seguem sem ouvir.<\/p>\n<p>Surfar fora da onda<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 loucura nem azar<br \/>\nFora da onda porque h\u00e1<br \/>\num momento de prazer.<\/p>\n<p>Fora da onda, fora da onda,<br \/>\nou a onda vai passar<br \/>\ne deixar voc\u00ea pra tr\u00e1s.<br \/>\nCrie sua onda, fora da onda.<\/p>\n<p>Enquanto eu contemplava a cena perplexo pela ideia de o Kid Abelha fazer uma can\u00e7\u00e3o de conte\u00fado pol\u00edtico-filos\u00f3fico-existencialista (o que equivaleria ao Pink Floyd regravar Jorge Benjor), apareceu o meu amigo dizendo que a f\u00e1brica estava prestes a ser vendida para um ferro-velho chin\u00eas e que dev\u00edamos sair dali porque os empregados organizariam uma arrua\u00e7a. Ante a men\u00e7\u00e3o de uma arrua\u00e7a organizada eu decidi que precisava comprar p\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o painel do carro cheio de p\u00e3es das mais variadas esp\u00e9cies eu dei uma carona ao meu amigo, que disse que precisava ir para a terra colorida de cinza e rosa. Eu lhe dei a carona dizendo que ia passar por l\u00e1 a caminho de Kashmir.<\/p>\n<p>Enquanto atravess\u00e1vamos uma ruela de casas todas velhas e parecidas, meu amigo pediu que eu parasse o carro para ele fazer uma visita. Desci com ele e encontrei tr\u00eas av\u00f3s deitadas em tr\u00eas camas em um quarto nos fundos de uma das casas. A av\u00f3 dele era uma delas (n\u00e3o av\u00f3 real, mas uma arquet\u00edpica) e pediu-lhe p\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu lhe disse que era muito tarde para comprar p\u00e3o e lhe dei um pacote dos que eu havia comprado, provando que nos meus sonhos mais estranhos eu planejo com anteced\u00eancia as coisas que eu nem sei se v\u00e3o acontecer.<\/p>\n<p>\u00a0Sa\u00edmos daquela casa nos sentindo um pacote de p\u00e3o mais pobres, porque sab\u00edamos que apesar de tudo a senhora ia morrer, e ainda nos culpariam por ter-lhe dado p\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Foda-se o que pensem \u2014 protestou o meu amigo. Eu n\u00e3o ligo para as conven\u00e7\u00f5es malucas desta sociedade decadente. Minha av\u00f3 pode ter oitenta anos de idade, mas vou lhe dar p\u00e3o se ela quiser.<\/p>\n<p>A \u00faltima coisa que me lembro era de ver a velhinha revirando os olhos enquanto passava manteiga num p\u00e3o.<\/p>\n<p>No minuto seguinte eu acordei com vontade de urinar. Fui ao banheiro aliviar-me e vi Gregor Samsa recolhido, com medo, atr\u00e1s do cesto de roupas. Notei que suas anteninhas tremiam de medo de meus p\u00e9s, ent\u00e3o prometi que n\u00e3o o esmagaria: deixaria que minha filha fizesse isso de manh\u00e3 quando o visse.<\/p>\n<p>Deitei de novo, ainda com o pesco\u00e7o doendo de ter datilografado uma carta testamento antes de p\u00f4r a gravata. De repente lembrei do rosto do padre e pulei da cama como se estivesse acordando.\u00a0 Minha mulher disse que me chutou, mas eu s\u00f3 me senti caindo atrav\u00e9s de um c\u00e9u cheio de travesseiros e me recolhi de novo at\u00e9 a manh\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta noite sonhei com o <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/08\/o-meu-melhor-amigo\">meu melhor amigo<\/a>. N\u00e3o, n\u00e3o foi a primeira vez, apenas foi um sonho estranho o suficiente para merecer que eu o lembrasse. Um dia imagino que um semi\u00f3logo ou cr\u00edtico queimar\u00e1 pestanas tentando decifrar-me a partir de textos como esse, ent\u00e3o escrevo para dar-lhe trabalho. Ou para apenas me divertir lembrando.Est\u00e1vamos em uma f\u00e1brica, uma f\u00e1brica que estava prestes a fechar, mas os trabalhadores n\u00e3o sabiam disso. O ritmo de produ\u00e7\u00e3o era t\u00e3o fren\u00e9tico como sempre, os contramestres andavam de um lado a outro pondo na linha quem estivesse morcegando e caminh\u00f5es chegavam e sa\u00edam trazendo ou levando mat\u00e9ria prima e mercadorias. 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