{"id":1248,"date":"2014-01-24T11:40:39","date_gmt":"2014-01-24T14:40:39","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1248"},"modified":"2017-11-02T14:08:15","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:15","slug":"traducao-vulthoom-c-a-smith-indice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/01\/traducao-vulthoom-c-a-smith-indice\/","title":{"rendered":"Tradu\u00e7\u00e3o: Vulthoom (C.A. Smith)"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/vulthoom.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/vulthoom-295x300.jpg\" alt=\"vulthoom\" width=\"295\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1250\" \/><\/a>&#8220;Vulthoom&#8221; \u00e9 uma noveleta de Clark Ashton-Smith escrita e publicada em 1935 e pertencente ao breve ciclo de hist\u00f3rias marcianas do autor, nas quais geralmente temos o [desastroso] encontro de terr\u00e1queos com os perigos e enigmas do planeta Marte, aqui chamado de Aihai.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de &#8220;Vulthoom&#8221; este ciclo \u00e9 composto pelos contos &#8220;O Habitante do Abismo&#8221; (<em>The Dweller in the Gulf<\/em>) e &#8220;As Criptas de Yoh-Vombis&#8221; (<em>The Vaults of Yoh-Vombis<\/em>), al\u00e9m de um conto chamado &#8220;A Muda Marciana&#8221; (<em>The Seedling of Mars<\/em>), no qual n\u00e3o est\u00e3o presentes os marcianos e sua civiliza\u00e7\u00e3o, mas a hist\u00f3ria se ambienta em Marte e tem certas conex\u00f5es.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um conto longo, com aproximadamente 9590 palavras, e por esta raz\u00e3o foi publicado em cap\u00edtulos semanais. Esta divis\u00e3o foi feita arbitrariamente, inexistindo no original, com o \u00fanico objetivo de facilitar a leitura. <\/p>\n<p>Por\u00e9m os cap\u00edtulos foram consolidados nesta p\u00e1gina e podem ser lidos sequencialmente.<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p>Ao observador distra\u00eddo poderia parecer que Bob Haines e Paul Septimus Chanler tinham pouco em comum, a n\u00e3o ser o dilema de estarem abandonados sem recursos em um planeta estranho.<\/p>\n<p>Haines, terceiro piloto assistente de um cruzador do \u00e9ter, tinha sido acusado de insubordina\u00e7\u00e3o por seus superiores e sido deixado para tr\u00e1s em Ignarh, a metr\u00f3pole comercial de Marte e porto de seu tr\u00e1fego espacial. A acusa\u00e7\u00e3o contra ele era somente um caso de rancor pessoal, mas at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tivera sucesso em achar outro engajamento e o sal\u00e1rio de um m\u00eas que lhe fora pago na despedida tinha sido devorado com uma espantosa rapidez pelos pre\u00e7os extorsivos do Hotel Tel\u00farico.<\/p>\n<p>Chanler, escritor profissional de fic\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria, viajara a Marte para for\u00adti\u00adficar seu talento ima\u00adginativo com uma s\u00f3lida base de observa\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia. Seu dinheiro aca\u00adbara nas primeiras semanas e suprimentos adicionais, esperados de seu editor, ainda n\u00e3o haviam chegado.<\/p>\n<p>Os dois homens, a n\u00e3o ser por suas desventuras, tinham em comum somente uma curiosidade ili\u00admitada por todas as coisas marcianas. Sua sede pelo ex\u00f3tico e sua tend\u00eancia a perambular por luga\u00adres normalmente evitados pelos terr\u00e1queos lhes haviam aproximado apesar das \u00f3bvias diferen\u00e7as de temperamento e os haviam feito amigos imediatos.<\/p>\n<p>Tentando esquecer suas preocupa\u00e7\u00f5es, haviam passado o dia anterior no labirinto estranha\u00admente amontoado e agrupado da Velha Ignarh, chamada pelos marcianos de Ignar-Vath, no lado ori\u00adental do grande Canal Yahan. Retornando ao entardecer, e seguindo a estrada de m\u00e1rmore roxo ao longo da torrente, eles j\u00e1 haviam quase chegado a ponte de quil\u00f4metro e meio que os levaria de volta \u00e0 cidade moderna, Ignar-Luth, onde estavam os consulados terrestres, os escrit\u00f3rios das trans\u00adpor\u00adta\u00addoras e os hot\u00e9is.<\/p>\n<p>Era a hora marciana de adora\u00e7\u00e3o, quando os Aihais se juntam em seus templos sem teto a implo\u00adrar o retorno do sol que se vai. Como o vibrar de pulsa\u00e7\u00f5es met\u00e1licas e febris, o som de inu\u00admer\u00e1veis e incessantes gongos penetrava o ar rarefeito. As ruas incrivelmente tortuosas estavam quase vazias e apenas algumas barca\u00e7as, com imensas velas romboidais pintadas de malva e escarlate, se arras\u00adtavam daqui para l\u00e1 nas sombrias \u00e1guas verdes.<\/p>\n<p>A luz diminuiu com vis\u00edvel rapidez por detr\u00e1s das torres rombudas e das pir\u00e2mides angulosas de Ignar-Luth. O calafrio da noite pr\u00f3xima come\u00e7ou a invadir as sombras dos grandes rel\u00f3gios solares que seguiam o canal a intervalos regulares. Os clangores queixosos dos gongos morreram de uma vez em Ignar-Vath e restou um sil\u00eancio estranhamente sussurrante. Os edif\u00edcios da cidade ime\u00admo\u00adrial pareciam enormes sob o c\u00e9u de escura esmeralda que j\u00e1 estava pontilhado de estrelas geladas.<\/p>\n<p>Uma mescla de odores ex\u00f3ticos irreconhec\u00edveis soprava pelo crep\u00fasculo. O perfume cheirava a mist\u00e9rios alien\u00edgenas, excitando e perturbando os terr\u00e1queos, que ficaram silenciosos ao se apro\u00adxi\u00adma\u00adrem da ponde, sentindo a opress\u00e3o de um sentimento acabrunhante que fechava de todos os lados na escurid\u00e3o que se aprofundava. Mais agudamente do que durante o dia, eles perceberam as respira\u00e7\u00f5es contidas e os movimentos tortuosos e discretos de uma vida sempre inescrut\u00e1vel pelos filhos de outros planetas. A imensidade entre a Terra e Marte fora atravessada, mas quem poderia cruzar o abismo evolucion\u00e1rio entre o terr\u00e1queo e o marciano?<\/p>\n<p>O povo era bastante amig\u00e1vel a seu modo, taciturnamente. Haviam tolerado a intromiss\u00e3o dos ter\u00adr\u00e1\u00adqueos e permitido o com\u00e9rcio entre os mundos. Suas linguagens haviam sido decifradas e sua his\u00adt\u00f3ria, estudada por s\u00e1bios terrestres. Mas parecia que n\u00e3o poderia haver nenhum interc\u00e2mbio real de ideias. Sua civiliza\u00e7\u00e3o envelhecera complexamente diversa desde antes do afundamento da Lem\u00fa\u00adria; suas ci\u00eancias, artes e religi\u00f5es eram velhas de uma idade inconceb\u00edvel e at\u00e9 mesmo o mais simples dos costumes era o fruto de for\u00e7as e condi\u00e7\u00f5es alien\u00edgenas.<\/p>\n<p>Naquele momento, enfrentando a precariedade de sua situa\u00e7\u00e3o, Haines e Chanler sentiram um verdadeiro terror do mundo desconhecido que os cercava com sua incomensur\u00e1vel antiguidade.<\/p>\n<p>Apressaram o passo. O pavimento amplo que bordejava o canal parecia deserto e a ponte leve e sem gradil era propriamente guardada apenas pelas dez colossais est\u00e1tuas de her\u00f3is marcianos que se erguiam em atitudes belicosas diante do come\u00e7o do primeiro trecho suspenso.<\/p>\n<p>Os terr\u00e1queos se assustaram um tanto quando uma figura viva, pouco menos gigantesca que as ima\u00adgens de escultura, se destacou das sombras profundas e avan\u00e7ou at\u00e9 eles em poderosos saltos.<\/p>\n<p>A figura, com quase tr\u00eas metros de altura, tinha quase um metro de altura a mais que a m\u00e9dia dos Aihai, mas apresentava a conforma\u00e7\u00e3o familiar de um peito massivo, protuberante e membros ossu\u00addos, com m\u00faltiplas articula\u00e7\u00f5es. A cabe\u00e7a possu\u00eda orelhas protuberantes e narinas cavernosas que se alargavam e contra\u00edam visivelmente na penumbra. Os olhos estavam perdidos em \u00f3rbitas profun\u00addas, totalmente invis\u00edveis a n\u00e3o ser por min\u00fasculas cintila\u00e7\u00f5es avermelhadas que pareciam queimar suspensas nos buracos de uma caveira. De acordo com os costumes nativos, este bizarro persona\u00adgem estava totalmente nu, mas uma esp\u00e9cie de colar em torno do pesco\u00e7o \u2014 um arame achatado feito de prata batida \u2014 indicava que era o servo de algum senhor nobre.<\/p>\n<p>Haines e Chanler ficaram estupefatos por nunca terem visto antes um marciano de estatura t\u00e3o pro\u00addigiosa. A apari\u00e7\u00e3o desejava intercept\u00e1-los, isto era claro. Pausou diante deles sobre o pavimento de m\u00e1rmore maci\u00e7o. Eles ficaram ainda mais maravilhados pela voz, estranhamente grave e reverbe\u00adrante como a de uma enorme r\u00e3, com que ele come\u00e7ou a se dirigir a eles. Apesar do tom intermina\u00advelmente gutural e da lentid\u00e3o na pron\u00fancia de certas vogais e consoantes, eles perceberam que as palavras pertenciam a uma l\u00edngua humana.<\/p>\n<p>\u2014 O meu senhor os convoca \u2014 bramiu o colosso. Seus apuros s\u00e3o conhecidos dele. Ele os ajudar\u00e1 generosamente, em troca de um certo servi\u00e7o que lhe podem prestar. Venham comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Isto me parece categ\u00f3rico \u2014 murmurou Haines. Devemos ir? Provavelmente \u00e9 algum caridoso pr\u00edncipe Aihai que ficou sabendo de nossas circunst\u00e2ncias prejudicadas. Qual ser\u00e1 o jogo?<\/p>\n<p>\u2014 Sugiro que sigamos o guia \u2014 disse Chanler, ansiosamente. Sua proposta soa como o primeiro cap\u00edtulo de um mist\u00e9rio.<br \/>\n\u2014 Tudo bem \u2014 disse Haines ao imenso gigante. Leve-nos ao seu senhor.<\/p>\n<p>Com saltos moderados para seguirem os passos dos terr\u00e1queos, o colosso os levou da ponte guar\u00addada pelos her\u00f3is em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 escurid\u00e3o roxa-esverdeada que inundara Ignar-Vath. Al\u00e9m do pavi\u00admento se abria uma viela que parecia uma caverna de boca alta entre mans\u00f5es sem luz e armaz\u00e9ns cujos largos balc\u00f5es e telhados salientes quase se encontravam no ar. A viela estava deserta e o Aihai se moveu como uma sombra crescida em meio \u00e0s trevas e se deteve como um fantasma diante de uma porta profunda e alta. Parados sobre os calcanhares, Chanler e Haines perceberam o resvalar estridente de metais, produzido pela porta que se abria, como todas as portas marcianas, puxada para cima, \u00e0 maneira de uma portinhola medieval. Seu guia foi delineado pela luz amare\u00adlada que se derramava dos relevos em minerais radioativos que enfeitavam as paredes e o teto de uma antec\u00e2\u00admara circular. Ele os precedeu, conforme o costume, e seguindo-o, perceberam que o lugar estava desocupado. A porta desceu por detr\u00e1s deles sem nenhuma a\u00e7\u00e3o ou manipula\u00e7\u00e3o aparente.<\/p>\n<p>Sobreveio a Chandler, contemplando a c\u00e2mara sem janelas, aquele alarma indefin\u00edvel que se sente \u00e0s vezes em um espa\u00e7o trancado. As circunst\u00e2ncias n\u00e3o pareciam dar raz\u00e3o a qualquer percep\u00e7\u00e3o de perigo ou trai\u00e7\u00e3o, mas ele foi instantaneamente preenchido por uma vontade irrefre\u00e1vel de fugir.<\/p>\n<p>Haines, por sua vez, se perguntava com certa perplexidade por que a porta interna estava cerrada e por que o senhor da casa ainda n\u00e3o aparecera para receber-lhes. De alguma forma, a casa lhe cau\u00adsava a impress\u00e3o de ser desabitada. Havia algo vazio e desolado no sil\u00eancio que os cercava.<\/p>\n<p>O Aihai, de p\u00e9 no centro daquele c\u00f4modo simples e sem mob\u00edlia, tinha volta sua face como se fosse se dirigir aos terr\u00e1queos. Seus olhos brilhavam inescrutavelmente em suas profundas \u00f3rbitas, sua boca se abriu, mostrando duplas fileiras de dentes protuberantes. Mas nenhum som pareceu sair de seus l\u00e1bios quando se mexeram e as notas que ele emitiu certamente pertenciam \u00e0 escala dos ultrassons, al\u00e9m da audi\u00e7\u00e3o humana, de que a voz marciana \u00e9 capaz. Sem d\u00favida o mecanismo da porta tinha funcionado movido por entona\u00e7\u00f5es semelhantes, e ent\u00e3o, como em resposta, todo o ch\u00e3o da c\u00e2mara, esculpido em metal escuro e maci\u00e7o, come\u00e7ou a descer devagar, como se ca\u00edsse dentro de um imenso po\u00e7o. Haines e Chanler se assustaram, viram as luzes amareladas recuarem sobre suas cabe\u00e7as. Os dois, juntos do gigante, estavam descendo em dire\u00e7\u00e3o a sombras e escuri\u00add\u00e3o, por uma passagem larga e circular. Havia um incessante arranhar e estalar de metal, dando-lhes arrelia aos dentes por causa do tom insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Como uma distante constela\u00e7\u00e3o de estrelinhas amarelas, as luzes ficaram apagadas e pequenas sobre eles. Mas sua descida continuava e n\u00e3o podiam mais ver suas faces, ou a do Aihai, na escu\u00adrid\u00e3o eb\u00farnea por que passavam. Haines e Chanler foram acometidos por mil d\u00favidas e suspeitas e come\u00e7aram a considerar se n\u00e3o tinham sido um tanto apressados em aceitar o convite do Aihai.<\/p>\n<p>\u2014 Aonde est\u00e1 nos levando? \u2014 perguntou Haines bruscamente. O seu senhor vive no subterr\u00e2neo?<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ao meu senhor \u2014 respondeu o marciano com uma decis\u00e3o algo cr\u00edptica. Ele os espera.<\/p>\n<p>A constela\u00e7\u00e3o se reduzira a uma estrela solit\u00e1ria, diminu\u00edra e desaparecera na noite do infinito. Havia uma sensa\u00e7\u00e3o de profundidade irremedi\u00e1vel como se tivessem chegado ao pr\u00f3prio n\u00facleo daquele mundo alien\u00edgena. A estranheza de sua situa\u00e7\u00e3o encheu os terr\u00e1queos de uma inquietude crescente. Eles tinham se comprometido com um mist\u00e9rio sem pistas que come\u00e7ava a ter cheiro de amea\u00e7a e perigo. Nada se podia saber de seu guita. Nenhum recuo era poss\u00edvel. E estavam ambos desarmados.<\/p>\n<p>Os estalos estridentes do metal ficaram mais lentos e diminu\u00edram at\u00e9 um gemido sombrio. Os terr\u00e1\u00adqueos foram ofuscados pelo brilho rubro que irrompeu sobre eles atrav\u00e9s de um c\u00edrculo de estreitos pilares que substitu\u00edra as paredes do po\u00e7o. Um instante depois, enquanto desciam pela inunda\u00e7\u00e3o de luz, o ch\u00e3o sob eles estacionou. Perceberam, ent\u00e3o, que e tornara parte do ch\u00e3o de uma grande caverna iluminada por hemisf\u00e9rios cor de carmim inseridos no teto. A caverna era circular, com pas\u00adsagens que se ramificavam em todas as dire\u00e7\u00f5es, como os raios de uma roda a partir do eixo. Muitos marcianos, nenhum menos gigantesco que o guia, passavam apressadamente daqui para l\u00e1, como se movidos por objetivos enigm\u00e1ticos. Os clangores estranhos de m\u00e1quinas escondidas, estrondosos ou amortecidos, vibravam no ar, reverberavam no ch\u00e3o que tremia.<\/p>\n<p>\u2014 Em que voc\u00ea acha que nos metemos? \u2014 murmurou Chanler. Devemos estar muitos quil\u00f4metros abaixo da superf\u00edcie. Nunca ouvi falar de nada assim, a n\u00e3o ser em certos antigos mitos Aihai. Este lugar pode ser Ravormos, o mundo subterr\u00e2neo de Marte, onde Vulthoom, o deus maligno, dorme por mil anos entre seus adoradores.<\/p>\n<p>O guia os ouvira.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas vieram a Ravormos \u2014 respondeu portentosamente. Vulthoom est\u00e1 desperto e n\u00e3o vol\u00adtar\u00e1 a dormir por outros mil anos. Ele \u00e9 quem os convocou e eu os levo agora \u00e0 c\u00e2mara de audi\u00eancias.<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p>Haines e Chanler, mudos de incomensur\u00e1vel espanto, seguiram o marciano desde o estranho eleva\u00addor por uma das passagens ramificadas.<\/p>\n<p>\u2014 Deve haver um tipo de brincadeira acontecendo \u2014 resmungou Haines. J\u00e1 ouvi falar de Vulthoom tamb\u00e9m, mas ele \u00e9 s\u00f3 uma supersti\u00e7\u00e3o, como Satan\u00e1s. Os marcianos de hoje n\u00e3o lhe d\u00e3o muito cr\u00e9\u00addito mais, embora eu tenha ouvido falar de um tipo de culto demon\u00edaco entre os p\u00e1rias e as castas mais baixas. Poderia apostar que algum nobre est\u00e1 tentando organizar uma revolu\u00e7\u00e3o contra o imperador reinante, Cykor, e estabeleceu seu quartel-general no subsolo.<\/p>\n<p>\u2014 Soa razo\u00e1vel \u2014 concordou Chanler. Um revolucion\u00e1rio poderia se intitular Vulthoom. O truque faria sentido de acordo com a psicologia dos Aihai. Eles t\u00eam um gosto por met\u00e1foras exageradas e t\u00edtulos fant\u00e1sticos.<\/p>\n<p>Ambos ca\u00edram em sil\u00eancio, sentindo uma esp\u00e9cie de rever\u00eancia pela vastid\u00e3o do mundo caver\u00adnoso cujos corredores iluminados pareciam estender-se infinitamente. As teorias que tinham acabado de enunciar come\u00e7aram a parecer impr\u00f3prias: o improv\u00e1vel se verificou, o fabu\u00adloso se fez fato e os envolvia cada vez mais. Os clangores distantes e misteriosos pareciam ser de ori\u00adgem sobrenatural, os apressados gigantes que passavam atrav\u00e9s da c\u00e2mara com car\u00adgas desco\u00adnhe\u00adcidas davam um sen\u00adtido sobrenatural \u00e0s suas atividades e prop\u00f3sitos. Haines e Chanler eram ambos altos e fortes, mas os marcianos em torno deles eram todos de dois metros e meio para cima. Alguns tinham quase tr\u00eas metros e meio e todos eram propor\u00adcio\u00adnal\u00admente muscu\u00adlo\u00adsos. Suas faces tinham a expres\u00ads\u00e3o de uma idade de m\u00famia, imensa e incon\u00adgruente com sua agilidade e vigor.<\/p>\n<p>Haines e Chanler foram levados por um corredor de cujo teto arqueado os hemisf\u00e9rios ver\u00adme\u00adlhos, sem d\u00favida formados de algum metal artificialmente radiante, brilhavam a intervalos como s\u00f3is prisioneiros. Pulando de degrau em degrau eles desceram por uma escadaria gigan\u00adtesca, pela qual o marciano passou facilmente \u00e0 frente deles. Ele parou diante dos portais aber\u00adtos de uma c\u00e2mara escavada em uma rocha bas\u00e1ltica escura e adamantina. <\/p>\n<p>\u2014 Entrem \u2014 ele disse, e recuou para permitir que passassem.<\/p>\n<p>A c\u00e2mara era pequena, mas muito alta, com o reto se erguendo como o interior de um pin\u00e1\u00adculo. Seu ch\u00e3o e paredes eram manchados pelos raios sangu\u00edneos de um s\u00f3 hemisf\u00e9rio violeta que brilhava l\u00e1 no alto da c\u00fapula estreita. O lugar estava vazio e mobiliado apenas de uma curi\u00adosa tr\u00edpode de metal negro, fixa no centro. A tr\u00edpode sustinha um bloco de cristal e deste bloco, como se nascesse de uma po\u00e7a congelada, uma flor alv\u00edssima se erguia, abrindo p\u00e9talas de um marfim uniforme e denso que recebia uma tintura rosada daquela estranha luz. Bloco, flor, tr\u00edpode, tudo parecia ser parte de uma s\u00f3 pe\u00e7a de escultura.<\/p>\n<p>Ao passarem a porta, os terr\u00e1queos logo notaram que a vibra\u00e7\u00e3o de trov\u00f5es e os clan\u00adgores que reverberavam pelas cavernas haviam diminu\u00eddo em profundo sil\u00eancio. Era como se eles tives\u00adsem entrado em um santu\u00e1rio do qual todo som era exclu\u00eddo por uma barreira m\u00edstica. Os por\u00adtais permaneceram abertos por tr\u00e1s deles. Seu guia, aparentemente, se retirara. Mas, por algum motivo, eles sentiam que n\u00e3o estavam s\u00f3s e parecia que olhos ocultos os observavam de dentro das paredes vazias.<\/p>\n<p>Perturbados e confusos eles se detiveram na flor p\u00e1lida, notando sete finas p\u00e9talas parecidas com l\u00ednguas que partiam de uma cavidade em forma de cora\u00e7\u00e3o, formando um desenho parecido com o de um pequeno cinzeiro. Chanler come\u00e7ou a imaginar se era realmente uma obra de arte ou uma flor de verdade que fora mineralizada por algum processo da qu\u00edmica marciana. Ent\u00e3o, supreendentemente, uma voz pareceu sair da flor: uma voz incrivelmente suave, clara e sonora, cujas entona\u00e7\u00f5es, perfeitamente articuladas, n\u00e3o eram as dos Aihai e nem as dos terr\u00e1queos.<\/p>\n<p>&quot;Eu, que lhes falo, sou a entidade conhecida como Vulthoom \u2014 disse a voz. N\u00e3o se surpre\u00aden\u00addam e nem tenham medo: \u00e9 o meu desejo ser amig\u00e1vel com voc\u00eas em troca de uma aten\u00e7\u00e3o que, espero, n\u00e3o considerar\u00e3o imposs\u00edvel. Primeiro, no entanto, eu devo explicar certos assun\u00adtos que lhes est\u00e3o deixando perplexos.<\/p>\n<p>&quot;Sem d\u00favida ouviram as lendas populares a meu respeito e as descartaram como meras supers\u00adti\u00e7\u00f5es. Como todos os mitos, elas s\u00e3o parcialmente verdadeiras e parcialmente falsas. N\u00e3o sou nem deus nem dem\u00f4nio, mas um ser que chegou a Marte proveniente de outro universo, em outros ciclos. Embora n\u00e3o seja imortal, o limite da minha vida \u00e9 muito mais longo que o de qualquer das criaturas que evolu\u00edram nos mundos de seu sistema solar. Sou governado por leis biol\u00f3gicas alien\u00edgenas, com per\u00edodos alternados de sono e vig\u00edlia que envolvem s\u00e9culos. \u00c9 ver\u00addadeiro o que os Aihai acreditam, que eu durmo por mil anos e permane\u00e7o consciente de forma cont\u00ednua por outros mil.<\/p>\n<p>&quot;Numa \u00e9poca em que os seus ancestrais ainda eram parentes dos macacos eu fugi de meu pr\u00f3\u00adprio mundo at\u00e9 este ex\u00edlio interc\u00f3smico, banido por inimigos implac\u00e1veis. Os marcianos dizem que ca\u00ed do c\u00e9u como um meteoro em chamas, e o seu mito interpreta a descida de minha nave et\u00e9rea. Encontrei uma civiliza\u00e7\u00e3o madura, mas imensamente inferior, no entanto, \u00e0quela de onde vim.<\/p>\n<p>&quot;Os reis e hierarcas do planeta me teriam expulsado, mas eu reuni alguns aderentes, dotando-lhes de armas superiores \u00e0s da ci\u00eancia marciana, e ap\u00f3s uma grande guerra eu me estabeleci firmemente e ganhei outros seguidores. N\u00e3o me importei em conquistar Marte, mas me refu\u00adgiei neste mundo cavernoso em que tenho vivido desde ent\u00e3o, em companhia de meus disc\u00edpu\u00adlos. A estes, por sua fidelidade, eu conferi uma longevidade que \u00e9 quase igual \u00e0 minha pr\u00f3pria. Para assegurar tal longevidade eu tamb\u00e9m lhes dei o dom de um sono correspondente ao meu. Eles dormem e despertam comigo.<\/p>\n<p>&quot;Mantivemos esta ordem de exist\u00eancia por muitas eras. Raras vezes eu interferi nos feitos dos habitantes da superf\u00edcie. Eles, por\u00e9m, me converteram em um deus mau ou esp\u00edrito, embora o mal seja, para mim, uma palavra sem significado.<\/p>\n<p>&quot;Sou possuidor de muitos sentidos e faculdades desconhecidas de voc\u00eas, ou dos marcianos. Minhas percep\u00e7\u00f5es podem ser estendidas, segundo meu desejo, por amplas \u00e1reas do espa\u00e7o ou mesmo do tempo. Assim eu soube de seu infort\u00fanio e os chamei aqui na esperan\u00e7a de obter o seu consentimento para um certo plano. Para ser breve, cansei de Marte, um mundo senil que se aproxima de sua morte, e agora desejo me estabelecer em um planeta mais jovem. A Terra serviria bem ao meu prop\u00f3sito. Neste exato instante os meus seguidores est\u00e3o construindo uma nova nave et\u00e9rea em que pretendo fazer a viagem.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o pretendo repetir a experi\u00eancia de minha chegada a Marte pousando em meio a uma popu\u00adla\u00e7\u00e3o ignorante de mim e talvez universalmente hostil. Voc\u00eas, jovens terr\u00e1queos, pode\u00adriam preparar muitos dos seus para a minha chegada, poderiam reunir pros\u00e9litos para me ser\u00advi\u00adrem. Sua recompensa \u2014 e a deles \u2014 seria o elixir da longevidade. E eu possuo muitos outros dons\u2026 como as preciosas gemas e metais que a voc\u00eas d\u00e3o tanto valor. Tamb\u00e9m h\u00e1 flores cujo perfume \u00e9 mais sedutor e persuasivo do que tudo. Inalando seus perfumes voc\u00eas entender\u00e3o que at\u00e9 o ouro \u00e9 sem valor em compara\u00e7\u00e3o\u2026 e os tendo respirado, voc\u00eas e todos os outros de sua esp\u00e9cie me servir\u00e3o alegremente.&#8221;<\/p>\n<p>A voz terminou, deixando uma vibra\u00e7\u00e3o que excitou os nervos dos ouvintes por mais alguns momentos. Foi como a cessa\u00e7\u00e3o de uma m\u00fasica doce e encantadora com notas de mal que quase n\u00e3o podiam ser detectadas atrav\u00e9s da melodia sutil. Ela seduzia os sentidos de Haines e Chanler, transformando sua estupefa\u00e7\u00e3o em uma esp\u00e9cie de aceita\u00e7\u00e3o sonolenta da voz e de suas declara\u00e7\u00f5es.<br \/>\nChanler fez um esfor\u00e7o para se livrar do encantamento.<\/p>\n<p>\u2014 Onde est\u00e1 voc\u00ea? \u2014 ele perguntou. E como podemos saber se nos disse a verdade?<\/p>\n<p>\u2014 Estou perto \u2014 disse a voz \u2014 mas eu n\u00e3o quis me revelar ainda, neste momento. A prova de tudo que declarei, por\u00e9m, lhes ser\u00e1 revelada na hora certa. Ante v\u00f3s est\u00e1 uma das flores de que lhes falei. Ela n\u00e3o \u00e9, como voc\u00eas j\u00e1 devem ter percebido, uma pe\u00e7a de escultura, mas um ant\u00f3\u00adlito, uma flor f\u00f3ssil, trazida, como outras do mesmo tipo, do mundo de que sou nativo. Embora \u00e0 temperatura ambiente ela n\u00e3o tenha cheiro, produz um perfume quando submetida ao calor. Quanto ao perfume\u2026 julguem voc\u00eas mesmos.<\/p>\n<p>O ar dentro da c\u00e2mara antes n\u00e3o era nem quente nem frio. Mas ent\u00e3o os terr\u00e1queos notaram uma mudan\u00e7a, como se fogos escondidos tivessem sido acendidos. O calor parecia sair da tr\u00ed\u00adpode met\u00e1lica e do bloco de cristal, incidindo sobre Haines e Chanler como a radia\u00e7\u00e3o de um invis\u00edvel sol tropical. Ficou ardente, mas n\u00e3o insuport\u00e1vel. Ao mesmo tempo, insidiosamente, os terr\u00e1queos come\u00e7aram a perceber o perfume, que n\u00e3o era como coisa alguma que j\u00e1 tives\u00adsem inalado. Um tra\u00e7o discreto de uma do\u00e7ura de outro mundo, ele se retorcia em suas nari\u00adnas, aprofundando devagar, mas cada vez mais r\u00e1pido, at\u00e9 se tornar uma torrente de especia\u00adrias, e parecia se mesclar com a frescura agrad\u00e1vel de uma brisa \u00e0 sombra de uma folhagem, ao abrigo de um calor escaldante.<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p>Chanler foi afetado de maneira mais v\u00edvida que Haines pelas curio\u00adsas alucina\u00e7\u00f5es que se seguiram, embora, a n\u00e3o ser por diferen\u00adtes graus de verossimilhan\u00e7a, as impress\u00f5es fossem estranhamente pare\u00adcidas. Pareceu a Chanler, subitamente, que o perfume n\u00e3o era mais alien\u00edgena, mas algo que lembrava de outros tempos e luga\u00adres. Ten\u00adtou lembrar as circunst\u00e2ncias desta familiaridade anterior e suas lembran\u00e7as, emergidas dos reservat\u00f3rios selados duma antiga exis\u00adt\u00eancia, tomaram a forma de uma cena real que substituiu a c\u00e2mara cavernosa ao redor. Haines j\u00e1 n\u00e3o era parte desta cena, mas desa\u00adparecera do campo de vis\u00e3o, e o teto e as paredes tinham se dis\u00adsolvido, dando lugar a uma grande floresta de \u00e1rvores que pare\u00adciam fetos. Seus caules finos e perolados e sua folhagem tenra nadavam numa gl\u00f3ria luminosa, como o \u00c9den banhado pela primeira aurora. As \u00e1rvores eram altas, mas ainda mais altas que elas eram as flores que derramavam de incens\u00e1rios de um branco ondulante um perfume voluptuoso e dominante.<\/p>\n<p>Chaler sentiu um \u00eaxtase indescrit\u00edvel. Parecia que retornara \u00e0 fonte do tempo, o primeiro dos mundos, e naquela gloriosa luz e na fragr\u00e2ncia que submergia seus sentidos at\u00e9 o seu \u00faltimo nervo ele se abastecera de vida, juventude e vigor inexaur\u00edveis.<\/p>\n<p>O \u00eaxtase aumentou e ele ouviu um canto que parecia emanar das bocas das flores: um canto de huris que transformou seu sangue em uma po\u00e7\u00e3o dourada. No del\u00edrio de suas faculdades, o som se identi\u00adficou com o odor das flores. Ele subiu em um arrebatamento verti\u00adgi\u00adnoso e irrefre\u00e1vel e ele pensou que as pr\u00f3prias flores flutuavam como chamas e as \u00e1rvores aspiravam por elas e ele mesmo era uma chama acesa que pairava com o canto buscando o \u00faltimo pin\u00e1culo de deleite. Todo o mundo girava para cima em uma mar\u00e9 de exalta\u00e7\u00e3o e parecia que o canto se transformava em um som articulado, at\u00e9 Chanler ouvir as palavras:<br \/>\n\u2014 Eu sou Vulthoom e tu \u00e9s meu desde o come\u00e7o dos mundos e ser\u00e1s at\u00e9 o fim\u2026 <\/p>\n<p>Despertou sob circunst\u00e2ncias que pareciam quase a continua\u00e7\u00e3o das imagens vision\u00e1rias que contemplara sob influ\u00eancia do perfume. Estava deitado em um leito de relva curta, de folhas recurvas, de cor verde desbotada, com enormes flora\u00e7\u00f5es de cores tigradas que se dobravam sobre ele e um brilho macio como o de um p\u00f4r do sol \u00e2mbar enchendo seus olhos por entre os galhos pendentes de \u00e1rvores que davam estranhos frutos carmim. Vagarosamente, enquanto tomava consci\u00eancia de seus arredores, ele percebeu que fora a voz de Haines que o acordara e viu que ele estava sentado perto naquele curioso relvado. <\/p>\n<p>\u2014 Diga, voc\u00ea n\u00e3o vai nunca sair disso?<\/p>\n<p>Chanler ouviu a pergunta r\u00edspida atrav\u00e9s de uma camada de sonhos. Seus pensamentos estavam confusos e suas mem\u00f3rias se mesclavam estranhamente com lembran\u00e7as falsas, que pareciam retiradas de outras vidas, e que haviam surgido em seu del\u00edrio. Era dif\u00edcil dis\u00adcernir o falso do real, mas a sanidade lhe retornava aos pou\u00adcos e com ela veio uma sensa\u00e7\u00e3o profunda de exaust\u00e3o e cansa\u00e7o nervoso que lhe advertia que estivera viajando no esp\u00fario para\u00edso de uma droga potente.<\/p>\n<p>\u2014 Onde estamos agora? E como sa\u00edmos daqui? \u2014 perguntou.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo que posso saber \u2014 respondeu Haines \u2014 estamos em uma esp\u00e9cie de jardim subterr\u00e2neo. Alguns dos grandes Aihais nos devem ter tra\u00adzido para c\u00e1 depois que sucumbimos ao perfume. Resisti \u00e0 sua influ\u00eancia por mais tempo do que voc\u00ea e lembro de ouvir a voz de Vulthoom quando perdia os sentidos. A voz disse que nos daria qua\u00adrenta e oito horas, tempo terrestre, para pensarmos em sua pro\u00adposta. Se aceitarmos, ele nos devolver\u00e1 a Ignarh com uma fabulosa soma de dinheiro e um suprimento das flores narc\u00f3ticas.<\/p>\n<p>Chanler j\u00e1 estava ent\u00e3o completamente desperto. Ele e Haines come\u00ad\u00e7aram a discutir sua situa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o podiam chegar a uma con\u00adclu\u00ads\u00e3o definitiva. Todo o caso n\u00e3o era menos frustrante do que extra\u00adordin\u00e1rio. Uma entidade desconhecida, que se intitulava como o Dem\u00f4nio marciano, lhes convidara a se tornar seus agentes ou emis\u00ads\u00e1rios terrestres. Al\u00e9m da distribui\u00e7\u00e3o de uma propaganda des\u00adti\u00adnada a facilitar seu advento \u00e0 Terra, eles deveriam introduzir uma droga alien\u00edgena n\u00e3o menos potente que a morfina, a coca\u00edna ou a maconha e, com toda probabilidade, n\u00e3o menos pernici\u00adosa.<\/p>\n<p>\u2014 E se nos recusarmos? \u2014 disse Chanler.<\/p>\n<p>\u2014 Vulthoom disse que neste caso ser\u00e1 imposs\u00edvel nos deixar retor\u00adnar. Mas ele n\u00e3o especificou o nosso destino, s\u00f3 sugeriu que ser\u00e1 desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, Haines, temos de pensar um jeito de sair dessa se pudermos.<\/p>\n<p>\u2014 Temo que pensar n\u00e3o nos ajude muito. Devemos estar muitos quil\u00f4\u00admetros abaixo da superf\u00edcie de Marte e o mecanismo dos elevadores, com toda probabilidade, \u00e9 algo que nenhum terr\u00e1queo poder\u00e1 jamais aprender.<\/p>\n<p>Antes que Chanler pudesse oferecer qualquer coment\u00e1rio, um dos gigan\u00adtes Aihais apareceu entre as \u00e1rvores carregando dois dos curi\u00adosos utens\u00edlios marcianos conhecidos como <em>kulpai<\/em>. Estes eram grandes bandejas de cer\u00e2mica semimet\u00e1lica, adaptadas com ta\u00e7as remo\u00adv\u00edveis e garrafas rotativas, nas quais toda uma refei\u00e7\u00e3o de s\u00f3lidos e l\u00edquidos podia ser servida. O Aihai dep\u00f4s as bandejas no ch\u00e3o diante de Haines e Chanler e ent\u00e3o esperou, im\u00f3vel e inescru\u00adt\u00e1vel. Os terr\u00e1queos, conscientes de uma fome rapinante, se servi\u00adram da comida, que estava cortada em v\u00e1rias formas geom\u00e9tricas. Embora possivelmente fossem de origem sint\u00e9tica, os alimentos esta\u00advam deliciosos e os terr\u00e1queos os consumiram at\u00e9 o \u00faltimo cone ou losango, empurrando-os para dentro com uma bebida que tinha cor de granada e sabor de vinho.<\/p>\n<p>Quando terminaram, seu servi\u00e7al falou pela primeira vez.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a vontade de Vulthoom que andem por Ravormos e contem\u00adplem as maravilhas das cavernas. Ter\u00e3o liberdade para irem s\u00f3s e sem ajuda ou, se preferirem, posso lhes servir de guia. Meu nome \u00e9 Ta-Vho-Shai e estou pronto para responder quaisquer perguntas que fa\u00e7am. Tamb\u00e9m poder\u00e3o me dispensar quando quiserem.<\/p>\n<p>Haines e Chanler, depois de uma breve discuss\u00e3o, decidiram aceitar esta oferta de um cicerone. Eles seguiram o Aihai pelo jardim, cuja extens\u00e3o era dif\u00edcil de determinar por causa da nebulosa luz \u00e2mbar que o preenchia e parecia vir \u00e1tomos radiantes, dando a impress\u00e3o de um espa\u00e7o ilimitado. A luz, segundo souberam por Ta-Vho-Shai, era emitida pelo alto teto e pelas paredes, sob o est\u00ed\u00admulo de uma for\u00e7a eletromagn\u00e9tica de que tinha um comprimento de onda ainda mais curto que o dos raios c\u00f3smicos e possu\u00eda todas as qualidades essenciais da luz solar.<\/p>\n<p>O jardim era composto de plantas e flores ex\u00f3ticas, muitas delas estranhas a Marte, e fora provavelmente importado do sistema solar alien\u00edgena de onde Vulthoom era nativo. Algumas das flores eram enormes tapetes de p\u00e9talas, como centenas de orqu\u00eddeas reunidas em uma s\u00f3. Outras eram \u00e1rvores cruciformes, de que pendiam folhas fantasticamente longas e variadas que pareciam pend\u00f5es ou rolos de escrita arcana. Outras eram ramificadas ou davam frutos de muitas formas extravagantes.<\/p>\n<p>Saindo do jardim, entraram num mundo de passagens abertas e caver\u00adnas abobadadas, algumas delas cheias de maquinismos ou toneis e urnas para estocagem. Em outras, se empilhavam imensos lingotes de metais pre\u00adciosos ou semipreciosos e gigantescos cofres trans\u00adbor\u00addavam de gemas brilhantes como se quisessem tentar os terr\u00e1queos.<\/p>\n<p>A maioria das m\u00e1quinas estava em a\u00e7\u00e3o, embora planejadas, segundo disseram a Haines e Chanler, para funcionar assim por s\u00e9culos ou mil\u00eanios. Sua opera\u00e7\u00e3o era inexplic\u00e1vel at\u00e9 para Haines, com seu conhecimento especial de mec\u00e2nica. Vulthoom e seu povo tinham ido al\u00e9m do espectro e al\u00e9m das vibra\u00e7\u00f5es aud\u00edveis do som e tinham compelido as for\u00e7as ocultas do universo a comparecerem e obedece\u00adr a seus des\u00edgnios.<\/p>\n<p>Por todo o lugar havia um bater ruidoso como o de pulsos met\u00e1li\u00adcos, um murm\u00fario como o de Ifrits1 prisioneiros ou tit\u00e2nicos ser\u00advi\u00e7ais de ferro. V\u00e1lvulas se abriam e fechavam com um estrondo rude. Havia salas onde d\u00ednamos estridentes se erguiam como pila\u00adres e outras onde grupos de esferas misteriosamente levitadas giravan silenciosamente, como s\u00f3is e planetas no vazio do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Subiram um lance de escadas, com degraus colossais como os da pir\u00e2\u00admide de Qu\u00e9ops,2 at\u00e9 um n\u00edvel superior. Haines, de uma forma meio on\u00edrica, teve a impress\u00e3o de lembrar ter descido os degraus, e imaginou que se aproximavam da c\u00e2mara onde ele e Chanler tinham sido entrevistados pela entidade oculta, Vulthoom. N\u00e3o tinha, cer\u00adteza, por\u00e9m, e Ta-Vho-Shai os conduziu por uma s\u00e9rie de vastas salas que pareciam servir como laborat\u00f3rios. Na maioria destas havia colossos muito idosos, que se curvavam como alquimistas sobre fornos que queimavam com um fogo frio e retortas que fume\u00adga\u00advam com singulares penachos e nuvens de vapor. Uma sala estava abandonada e n\u00e3o era mobiliada com nenhum aparelho a n\u00e3o ser tr\u00eas grandes garrafas de um g\u00e1s claro e incolor, mais altas que um homem e de formato algo parecido com o de \u00e2nforas romanas. Pelo que parecia, estavam vazias, mas estavam fechadas com rolhas que um ser humano mal poderia ter levantado.<\/p>\n<p>\u2014 O que s\u00e3o estas garrafas? \u2014 perguntou Chanler ao guia.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o as Garrafas de Sono \u2014 disse o Aihai, com o ar solene e sen\u00adten\u00adcioso de um palestrante \u2014 Cada uma est\u00e1 preenchida por um g\u00e1s raro e invis\u00edvel. Quando chega a hora do sono de mil anos de Vulthoom, os gases s\u00e3o liberados e, ao se misturarem, perpassam a atmosfera de Ravormos at\u00e9 a mais baixa das cavernas, induzindo um sono de dura\u00e7\u00e3o similar em n\u00f3s que servimos a Vulthoom. O tempo deixa de existir e despertamos somente na hora do despertar de Vulthoom.<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p>Haines e Chanler, cheios de curiosidade, come\u00e7aram a fazer muitas perguntas, mas a maioria era respondida de forma vaga ou amb\u00edgua por Ta-Vho-Shai, que parecia ansioso por continuar ciceroneando-os por outras partes de Ravormos. Ele n\u00e3o lhes pode dizer nada sobre a natureza qu\u00edmica dos gases, e mesmo Vulthoom, se a sinceridade de Ta-Vho-Shai era confi\u00e1vel, era um mist\u00e9rio at\u00e9 para os seus pr\u00f3prios seguidores, que em sua maioria nunca o haviam visto pessoalmente.<\/p>\n<p>Ta-Vho-Shai conduziu os terr\u00e1queos para fora da sala das garrafas, por uma caverna longa e estreita, totalmente deserta, onde ribombos e batidas de inumer\u00e1veis m\u00e1quinas vinham ao seu encontro. O som os atingiu como uma Ni\u00e1gara de trov\u00f5es malignos quando eles finalmente emergiram em uma esp\u00e9cie de galeria ladeada de pilastras, que passava ao redor de um abismo de uma milha de largura, iluminado pelas terr\u00edveis fulgura\u00e7\u00f5es de l\u00ednguas de fogo que subiam incessantemente de suas profundezas.<\/p>\n<p>Era como se olhassem para dentro de um c\u00edrculo infernal de luz raivosa e sombra torturada. Muito abaixo eles viram uma estrutura colossal de vigas curvas e brilhantes, como os ossos estranhamente articulados de um beemote estendido por sobre o fundo do abismo. Ao redor dele, fornalhas arrotavam como as bocas flamejantes de drag\u00f5es, guindastes tremendos subiam e desciam perpetuamente com um movimento como o de plesiossauros pesco\u00e7udos e as figuras de gigantes, vermelhos como dem\u00f4nios oper\u00e1rios, se moviam por entre a claridade sinistra.<\/p>\n<p>\u2014 Eles constroem a nave et\u00e9rea na qual Vulthoom viajar\u00e1 para a Terra \u2014 disse Ta-Vho-Shai. Quando tudo estiver pronto a nave arrebentar\u00e1 seu caminho at\u00e9 a superf\u00edcie usando desintegradores at\u00f4micos. A pr\u00f3pria rocha derreter\u00e1 diante dela, como vapor. Ignarh-Luth, que fica diretamente acima, ser\u00e1 consumida como se os fogos centrais do planeta tivessem sido liberados.<\/p>\n<p>Haines e Chanler, espantados, n\u00e3o puderam oferecer qualquer r\u00e9plica. Mais e mais estavam atordoados pelo mist\u00e9rio e pela magnitude, o terror e a amea\u00e7a daquele mundo cavernoso e insuspeitado. Naquele momento sentiram que um poder maligno, armado com incont\u00e1veis arcanos da ci\u00eancia, planejava uma conquista funesta, uma senten\u00e7a que poderia condenar os mundos habitados do sistema solar estava sendo incubada em segredo na escurid\u00e3o. Mas eles pr\u00f3prios, ao que parecia, estavam impossibilitados de escapar e dar o alarme, e o seu pr\u00f3prio destino estava sob a sombra de trevas insol\u00faveis.<\/p>\n<p>Uma rajada de vapor quente e met\u00e1lico, subindo do abismo, queimou corrosivamente em suas narinas quando olharam da beira da galeira. Nauseados e tonteando, eles recuaram.<\/p>\n<p>\u2014 O que h\u00e1 al\u00e9m deste abismo? \u2014 perguntou Chanler, quando a sua n\u00e1usea passou.<\/p>\n<p>\u2014 Esta galeria leva a outras cavernas, pouco usadas, que conduzem ao leito seco de um antigo rio subterr\u00e2neo. Tal leito, correndo por muitos quil\u00f4metros, emerge em uma depress\u00e3o des\u00e9rtica, muito abaixo do n\u00edvel do mar, que fica a oeste de Ignarh.<\/p>\n<p>Os terr\u00e1queos se surpreenderam com esta informa\u00e7\u00e3o, que parecia lhes oferecer uma poss\u00edvel rota de fuga. Ambos, por\u00e9m, acharam melhor dissimular seu interesse. Fingindo cansa\u00e7o, perguntaram ao Aihai se ele poderia conduzi-los a alguma c\u00e2mara onde pudessem descansar um pouco e pensar com calma na proposta de Vulthoom.<\/p>\n<p>Ta-Vho-Shai, dizendo estar ao seu servi\u00e7o de todas as formas, levou-os a uma pequena sala al\u00e9m dos laborat\u00f3rios. Era um tipo de quarto de dormir, com dois n\u00edveis de div\u00e3s junto \u00e0s paredes. Esses div\u00e3s, pelo seu tamanho, eram evidentemente planejados para acomodar os gigantes marcianos. L\u00e1 Haines e Chanler foram deixados a s\u00f3s por Ta-Vho-Shai, que tacitamente imaginara que sua presen\u00e7a n\u00e3o era mais necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, \u2014 disse Chanler \u2014 parece que h\u00e1 uma chance de fugir se pudermos pelo menos chegar ao leito do rio. Tomei nota cuidadosamente dos corredores que seguimos em nosso retorno da galeria. Seria bem f\u00e1cil \u2014 a menos que nos estejam vigiando sem sabermos.<\/p>\n<p>\u2014 O \u00fanico problema \u00e9 que \u00e9 f\u00e1cil demais. Mas de qualquer maneira, podemos tentar. Qualquer coisa ser\u00e1 melhor do que esperar desse jeito. Depois de tudo que vimos e ouvimos, come\u00e7o a acreditar que Vulthoom \u00e9 realmente o dem\u00f4nio, embora ele n\u00e3o diga que \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Esses Aihai de tr\u00eas metros me d\u00e3o medo \u2014 disse Chanler. Posso facilmente acreditar que eles t\u00eam um milh\u00e3o de anos de idade, ou algo assim. Enorme longevidade explicaria seu tamanho e altura. A maioria dos animais que sobrevivem al\u00e9m do normal se tornam gigantes e parece racional supor que os marcianos se desenvolveriam da mesma forma.<\/p>\n<p>Foi uma coisa simples refazer seu caminho at\u00e9 a galeria das pilastras que circundava o grande abismo. A maior parte da dist\u00e2ncia eles s\u00f3 tiveram que seguir um corredor principal e os sons das m\u00e1quinas ribombando os teria guiado. N\u00e3o encontraram ningu\u00e9m nas passagens e todos os Aihai que viram dentro de laborat\u00f3rios cujas portas ficavam abertas estavam profundamente ocupados com qu\u00edmicas complicadas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o gosto disso \u2014 murmurou Haines. Est\u00e1 bom demais para ser verdade.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho tanta certeza disso. Pode ser que simplesmente n\u00e3o tenha ocorrido a Vulthoom e seus seguidores que tentar\u00edamos escapar. Afinal, nada sabemos de sua psicologia.<\/p>\n<p>Mantendo-se pr\u00f3ximos da parede interna, atr\u00e1s dos grossos pilares, seguiram a longa galeria que curvava lentamente para a direita. Ela s\u00f3 era iluminada pelos reflexos assustadores das altas chamas no po\u00e7o abaixo. Movendo-se assim eles estavam escondidos da vista dos gigantes oper\u00e1rios, se algum resolvesse olhar para cima. Vapores venenosos eram, \u00e0s vezes, soprados sobre eles e sentiam o calor infernal das fornalhas, o estalo de soldas e o trovejar de obscuros maquinismos, que os atingiam com reverbera\u00e7\u00f5es que eram como marteladas enquanto andavam.<\/p>\n<p>Aos poucos circularam o abismo e chegaram enfim ao lado oposto, onde a galeria curvava de volta em seu retorno ao corredor de entrada. Ali, nas sombras, eles perceberam a boca escura de uma grande caverna que partia da galeria. <\/p>\n<p>Tal caverna, conclu\u00edram, os levaria at\u00e9 o leito do rio subterr\u00e2neo de que Ta-Vho-Shai lhes falara. Haines, por sorte, levava consigo uma pequena lanterna de bolso e dirigiu seu raio para a caverna, revelando um corredor reto, com numerosas intersec\u00e7\u00f5es. A noite e o sil\u00eancio parecia engoli-los de uma bocada s\u00f3 e os clangores dos Tit\u00e3s trabalhadores foram r\u00e1pida e misteriosamente silenciados quando correram pelo lugar vazio.<\/p>\n<p>O teto do corredor era provido de hemisf\u00e9rios met\u00e1licos, ent\u00e3o escuros e sem energia, que haviam servido um dia para ilumin\u00e1-lo da mesma forma que os outros lugares de Ravormos. Uma poeira fina foi levantada pelos p\u00e9s dos Terr\u00e1queos enquanto fugiam, e logo o ar esfriou, perdendo o calor agrad\u00e1vel e um tanto \u00famido das cavernas centrais. Era evidente, tal como Ta-Vho-Shai lhes dissera, que aquelas passagens eram raramente usadas ou visitadas.<\/p>\n<p>Pareceu que seguiram por quase dois quil\u00f4metros naquele corredor tart\u00e1reo. Ent\u00e3o as paredes come\u00e7aram a se estreitar, o ch\u00e3o ficou irregular e \u00edngreme. N\u00e3o havia mais passagens laterais e a esperan\u00e7a aumentou nos terr\u00e1queos, ao perceberem claramente que haviam deixado as cavernas artificiais e chegado a um t\u00fanel natural. O t\u00fanel logo se alargou e o seu ch\u00e3o se tornou uma s\u00e9rie de forma\u00e7\u00f5es em degraus. Por meio destes eles chegaram a um abismo profundo que era obviamente o leito seco de que Ta-Vho-Shai lhes falara.<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p>A pequena lanterna mal conseguia revelar toda a extens\u00e3o daquele canal subterr\u00e2neo em que n\u00e3o havia mais sequer uma gota de seu fluxo pr\u00e9-hist\u00f3rico. O fundo, profundamente erodido e pontilhado de rochas pontiagudas, tinha mais de mil metros de largura e o teto se curvava em dire\u00e7\u00e3o a trevas impenetr\u00e1veis. Explorando incertamente o fundo por uma curta dist\u00e2ncia, Haines e Chanler determinaram por sua descida gradual a dire\u00e7\u00e3o que a correnteza seguira. Descendo nessa dire\u00e7\u00e3o, caminharam resolutamente, rezando para que n\u00e3o encontrassem barreiras intranspon\u00edveis, ou precip\u00edcios de antigas cataratas que impedissem ou retardassem a sa\u00edda no deserto. A n\u00e3o ser pelo perigo de serem seguidos, n\u00e3o conseguiam imaginar nenhuma outra dificuldade sen\u00e3o esta.<\/p>\n<p>As curvas misteriosas do leito do rio os levavam primeiro para um lado e pois para o outro enquanto tateavam o caminho. Em alguns lugares a caverna se alargava e chegavam a praias amplas, escavadas em terra\u00e7os marcadas pelo oscilar das \u00e1guas. Acima de uma destas praias havia singulares forma\u00e7\u00f5es que lembravam um tipo de fungo enorme que crescia nas cavernas abaixo dos canais modernos. Estas forma\u00e7\u00f5es, que pareciam clavas de H\u00e9rcules, erguiam-se a uma altura de um metro ou mais. Haines, impressionado pelas cintila\u00e7\u00f5es met\u00e1licas que emitiam sob a luz da lanterna, teve uma ideia curiosa. Embora Chanler protestasse contra o atraso, ele escalou os degraus rochosos para examinar um grupo delas mais de perto e descobriu, como suspeitara, que n\u00e3o eram flora\u00e7\u00f5es vivas, mas estavam petrificadas e pesadamente impregnadas de minerais. Tentou arrancar uma, mas ela resistiu a todo o seu esfor\u00e7o de puxar. No entanto, batendo com um peda\u00e7o solto de pedra, teve sucesso em fraturar a base do talo, que caiu com um retinir de ferro. A coisa era muito pesada, com um incha\u00e7o na ponta que parecia mesmo uma clava, e seria uma arma muito efetiva em caso de necessidade. Ele quebrou uma segunda clava para Chanler e, assim armados, recome\u00e7aram a sua fuga.<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel calcular a dist\u00e2ncia que percorriam. O canal mudava a dire\u00e7\u00e3o e serpenteava, descia abruptamente em certos lugares e em outros se partia em camadas que cintilavam de minerais alien\u00edgenas ou tinham manchas estranhamente brilhantes de \u00f3xidos azuis, vermelhos e amarelos. Os dois afundavam at\u00e9 os tornozelos em po\u00e7as de areia negra, ou subiam laboriosamente barragens de rochas enferrujadas, imensas como menires empilhados. Frequentemente se detinham tentando febrilmente ouvir qualquer som que sugerisse uma persegui\u00e7\u00e3o. Mas o sil\u00eancio lotava o g\u00e9lido canal, interrompido apenas pelo ru\u00eddo e os estalos de seus pr\u00f3prios passos.<\/p>\n<p>Por fim, com olhos incr\u00e9dulos, viram diante de si o surgimento de uma luz p\u00e1lida nas profundezas. Arco a arco, l\u00fagubres como a garganta do Averno iluminada pelos fogos internos, a enorme caverna se tornou vis\u00edvel. Por um momento de exulta\u00e7\u00e3o eles pensaram que estavam se aproximando da boca do canal, mas a luz adquiriu um brilho t\u00e9trico e inquietante, como as fornalhas flamejantes em vez da luz do sol penetrando uma caverna. Implac\u00e1vel ela se esgueirou pelas paredes e o fundo, empalidecendo o raio insuficiente da lanterna de Haines quando atingiu os espantados terr\u00e1queos.<\/p>\n<p>Agourenta e incompreens\u00edvel, a luz pareceu observar e amea\u00e7ar. Eles permaneceram assustados e hesitantes, sem saber se avan\u00e7avam ou recuavam. Ent\u00e3o, do ar inflamado, uma voz falou como se os repreendesse educadamente: a voz doce e sonora de Vulthoom.<\/p>\n<p>\u2014 Voltem por onde vieram, \u00f3 terr\u00e1queos. Ningu\u00e9m pode sair de Ravormos sem meu conhecimento ou contra minha vontade. Vejam! Enviei meus guardi\u00f5es para acompanh\u00e1-los.<\/p>\n<p>O ar iluminado n\u00e3o tivera nada para se ver e o leito do rio era populado apenas pelas grotescas massas e as atarracadas sombras das rochas. Ent\u00e3o, cessando a voz, Haines e Chanler viram diante de si, a uma dist\u00e2ncia de tr\u00eas metros, a apari\u00e7\u00e3o de duas criaturas que n\u00e3o eram compar\u00e1veis a nada em toda a zoologia conhecida da Terra ou mesmo de Marte.<\/p>\n<p>Elas se erguiam do ch\u00e3o rochoso at\u00e9 a altura de girafas, com pernas curtas vagamente similares \u00e0s de drag\u00f5es chineses e pesco\u00e7os longos, espiralados como os n\u00f3s de uma anaconda. Suas cabe\u00e7as tinham tr\u00eas faces e eles poderiam ser as trimurtis de algum mundo infernal. Parecia que cada face era sem olhos, com l\u00ednguas de chamas que saiam abundantemente das profundas \u00f3rbitas abaixo das sobrancelhas obl\u00edquas. Chamas tamb\u00e9m sa\u00edam em v\u00f4mito incessante das monstruosas bocas de g\u00e1rgulas que arreganhavam. Da cabe\u00e7a de cada monstro um triplo pente vermelho fulgurava em pontiagudos dentes de serra, brilhando terrivelmente, e ambos tinham barbas que se desenrolavam em carmim. Seus pesco\u00e7os e espinha eram cobertos de l\u00e2minas longas como espadas que diminu\u00edam em fileiras de adagas ao se aproximarem das caudas pontiagudas e seus corpos inteiros, al\u00e9m de possu\u00edrem esse armamento tem\u00edvel, pareciam queimar como se tivessem acabado de sair de uma fornalha ardente.<\/p>\n<p>Um calor palp\u00e1vel emanava daquelas quimeras infernais e os terr\u00e1queos recuaram apressadamente diante das manchas flutuantes, como retalhos de inc\u00eandio, que se desprendiam de seus olhos e bocas flamejantes.<\/p>\n<p>\u2014 Meu Deus! Estes monstros s\u00e3o sobrenaturais! \u2014 gritou Chanler, abalado e confuso.<\/p>\n<p>Haines, embora visivelmente assustado, se inclinava a uma explica\u00e7\u00e3o mais ortodoxa:<\/p>\n<p>\u2014 Deve haver algum tipo de televis\u00e3o por tr\u00e1s disso \u2014 ele disse. Embora eu n\u00e3o consiga imaginar como \u00e9 poss\u00edvel projetar imagens tridimensionais ou como criar uma sensa\u00e7\u00e3o de calor\u2026 De alguma maneira, por\u00e9m, eu tinha a impress\u00e3o de que nossa fuga era acompanhada.<\/p>\n<p>Pegou um fragmento pesado de rocha met\u00e1lica e atirou em uma das quimeras brilhantes. Mirado sem erro, o fragmento atingiu a fronte do monstro e pareceu explodir em uma chuva de fagulhas com o impacto. A criatura aumentou seu brilho e tamanho prodigiosamente, enquanto um silvo agudo se tornou aud\u00edvel. Haines e Chanler foram acuados por uma onda de calor capaz de queimar e os seus guardas os seguiram passo a posso pelo leito irregular do rio. Abandonando toda esperan\u00e7a de fuga, retornaram a Ravormos perseguidos pelos monstros atrav\u00e9s de areias trai\u00e7oeiras e junto \u00e0s bordas e quinas.<\/p>\n<p>Chegando ao ponto em que haviam descido ao canal do rio, viram que seu curso acima tamb\u00e9m estava guardado por mais dois daqueles terr\u00edveis drag\u00f5es. N\u00e3o havia outro recurso a n\u00e3o ser escalar os degraus at\u00e9 o t\u00fanel \u00edngreme. Cansados de sua longa fuga e nervosos de um desespero acachapante, logo se viram novamente no sal\u00e3o externo, com dois de seus acompanhantes precedendo-os como uma infernal guarda de honra. Ambos ficaram paralisados pela compreens\u00e3o dos horr\u00edveis e misteriosos poderes de Vulthoom e at\u00e9 Haines tinha ficado em sil\u00eancio, embora seu c\u00e9rebro ainda estivesse ocupado em uma f\u00fatil e desesperada an\u00e1lise. Chanler, mais sens\u00edvel, sofria todos os calafrios e terrores que a sua imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria poderia infligir-lhe sob as circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Chegaram, por fim, \u00e0 galeria colunada que circundava o vasto abismo. Na metade do percurso desta galeria as quimeras que precediam os terr\u00e1queos se voltaram contra eles subitamente, com um vomitar de chamas tem\u00edveis e, enquanto eles permaneceram paralisados de medo, as duas continuaram seu avan\u00e7o em sua dire\u00e7\u00e3o, com um sat\u00e2nico assobio de salamandras. Naquele espa\u00e7o estreito o calor era como o do fogo de uma fornalha e as colunas n\u00e3o ofereciam nenhum abrigo. Do abismo abaixo, onde os marcianos labutavam perpetuamente, um trov\u00e3o estupendo surgiu para assaltar ainda mais os seus nervos e a fuma\u00e7a nociva foi soprada contra eles em an\u00e9is que se contorciam como serpentes. <\/p>\n<p>\u2014 Parece que v\u00e3o nos atirar dentro do abismo \u2014 Haines ofegava tentando puxar a respira\u00e7\u00e3o naquele ar ardente. Ele e Chanler se encolheram na presen\u00e7a dos monstros e enquanto ele acabava de falar duas mais daquelas apari\u00e7\u00f5es do inferno surgiram em chamas na borda da galeria, como se tivessem subido do abismo para tornar imposs\u00edvel o mergulho fatal que teria sido a \u00fanica fuga.<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p>Quase desmaiando, os terr\u00e1queos perceberam vagamente uma mudan\u00e7a nas amea\u00e7adoras quimeras. Os corpos incandescentes passaram a perder o brilho, encolher e escurecer; o calor diminuiu, os fogos se apagaram nas bocas e olhos. Ao mesmo tempo, as criaturas se aproximaram com car\u00edcias nojentas, revelando l\u00ednguas esbranqui\u00e7adas e olhos de \u00e9bano.<\/p>\n<p>As l\u00ednguas pareceram dividir-se\u2026 ficaram mais p\u00e1lidas\u2026 eram como as p\u00e9talas das flores que Haines e Chanler tinham visto em algum lugar. O h\u00e1lito das quimeras, como um vento suave, soprava sobre as faces dos terr\u00e1queos\u2026 e o h\u00e1lito era um perfume frio e temperado que haviam conhecido antes\u2026 o perfume narc\u00f3tico que os subjugara ap\u00f3s sua audi\u00eancia com o mestre oculto de Ravormos\u2026 Minuto a minuto, os monstros se transformaram em flores prodigiosas, os pilares da galeria se tornaram gigantescas \u00e1rvores no glamour de uma aurora primitiva, os trov\u00f5es do po\u00e7o foram abafados at\u00e9 se reduzirem a um solu\u00e7o distante como o dos suaves mares de costas ed\u00eanicas. Os abundantes terrores de Ravormos, a amea\u00e7a de um destino sombrio, eram como coisas que nunca tinham acontecido. Haines e Chanler, esquecidos, se perderam no para\u00edso da droga desconhecida\u2026 <\/p>\n<p>Haines, acordando ainda meio cego, descobriu que estava deitado no ch\u00e3o de pedra na colunada circular. Estava sozinho, e as quimeras flamejantes tinham desaparecido. As sombras do desmaio opi\u00e1ceo foram rudemente dissipadas pelos ru\u00eddos que ainda subiam do abismo pr\u00f3ximo. Cada vez mais consternado e horrorizado, ele se lembrou de tudo que acontecera.<\/p>\n<p>Ainda tonto ele se p\u00f4s de p\u00e9, olhando em volta na semiobscuridade da galeria \u00e0 procura de algum sinal de seu companheiro. A clava de fungo petrificado que Chanler carregava permanecia onde ca\u00edra de sua m\u00e3o quando fora subjugado, bem como a de Haines. Mas Chanler sumira e Haines chamou-o aos gritos sem obter resposta nenhuma a n\u00e3o ser os ecos sinistramente prolongados pela arcada profunda.<\/p>\n<p>Impelido por uma sensa\u00e7\u00e3o urgente de que precisava encontrar Chanler sem demora, recuperou sua pesada clava e come\u00e7ou a percorrer a galeria. Parecia que a arma seria de pouco uso contra os servi\u00e7ais sobre-humanos de Vulthoom, mas de alguma forma o peso met\u00e1lico daquele porrete tranquilizava.<\/p>\n<p>Aproximando-se do grande corredor que seguia at\u00e9 o centro de Ravormos, Haines ficou muito feliz ao ver que Chanler vinha ao seu encontro. Antes que pudesse cham\u00e1-lo ou lhe dar um cumprimento alegre, ouviu a voz dele.<\/p>\n<p>\u2014 Oi, Bob. Esta \u00e9 o meu primeiro aparecimento televisual em forma tridimensional. Muito bom, n\u00e3o \u00e9? Estou no laborat\u00f3rio privado de Vulthoom e ele me persuadiu a aceitar a sua proposta. T\u00e3o logo voc\u00ea tenha decido a fazer o mesmo n\u00f3s vamos retornar a Ignarh com instru\u00e7\u00f5es completas a respeito de nossa miss\u00e3o terrestre e fundos da ordem de um milh\u00e3o de d\u00f3lares para cada um. Pense outra vez e ver\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 mais nada a fazer. Quando estiver decidido a se juntar a n\u00f3s, siga o corredor principal de Ravormos e Ta-Vho-Shai o encontrar\u00e1 e o trar\u00e1 at\u00e9 o laborat\u00f3rio. <\/p>\n<p>Ao t\u00e9rmino deste discurso chocante, a figura de Chanler, sem parecer esperar qualquer resposta de Haines, deu um passo al\u00e9m do limite da galeria e flutuou entre os vapores que se contorciam no ar. Ali, sorrindo para Haines, ela desapareceu no ar como um fantasma.<\/p>\n<p>Dizer que Haines estava fulminado seria um eufemismo. Em tudo a figura e a voz tinham sido id\u00eanticas \u00e0s do Chanler de carne e sangue. Ele sentiu um calafrio sinistro diante da taumaturgia de Vulthoom, que podia produzir uma proje\u00e7\u00e3o t\u00e3o veross\u00edmil a ponto de engan\u00e1-lo daquela maneira. Estava, tamb\u00e9m, chocado e horrorizado al\u00e9m da conta pela capitula\u00e7\u00e3o de Chanler, mas por algum motivo n\u00e3o lhe ocorreu que houvesse qualquer impostura em curso.<\/p>\n<p>\u2014 Aquele dem\u00f4nio o pegou \u2014 pensou Haines. Mas eu n\u00e3o poderia crer nisso. N\u00e3o acho que ele era esse tipo de cara, de jeito nenhum.<\/p>\n<p>Tristeza, ira, confus\u00e3o e surpresa o preenchiam alternadamente enquanto percorria a galeria e nem mesmo quando entrou o sal\u00e3o interno ele foi capaz de decidir um curso efetivo de a\u00e7\u00e3o. Ceder, como Chanler comprovadamente o fizera, era algo inimaginavelmente repugnante. Se pudesse encontrar Chanler outra vez, talvez conseguisse persuadi-lo a mudar de lado outra vez e voltar a fazer decidida opini\u00e3o \u00e0 entidade alien\u00edgena. Era uma degrada\u00e7\u00e3o pessoal e uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 humanidade que qualquer terr\u00e1queo se prestasse aos des\u00edgnios mais do que duvidosos de Vulthoom. Al\u00e9m da planejada invas\u00e3o da Terra e da distribui\u00e7\u00e3o daquele estranho e sutil narc\u00f3tico, haveria a cruel destrui\u00e7\u00e3o de Ignar-Luth quando o navio et\u00e9reo de Vulthoom rompesse seu caminho at\u00e9 a superf\u00edcie do planeta. Era seu dever, e o de Chanler, prevenir tudo isso, se fosse humanamente poss\u00edvel prevenir. De alguma forma os dois deveriam impedir a amea\u00e7a incubada naquelas cavernas \u2014 ou ele sozinho, se fosse preciso. Duramente honesto, n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o alguma de contemporizar, mesmo por um instante.<\/p>\n<p>Ainda carregando a clava mineralizada, ele ainda caminhou por v\u00e1rios minutos, com o seu c\u00e9rebro preocupado com o terr\u00edvel problema, mas impotente para chegar a qualquer solu\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s do h\u00e1bito de observa\u00e7\u00e3o que era mais ou menos autom\u00e1tico em sua forma\u00e7\u00e3o de piloto espacial veterano, olhava atrav\u00e9s das portas das v\u00e1rias salas por que passava, onde os cadinhos e retortas de uma qu\u00edmica estranha eram manipulados por colossos velh\u00edssimos. Ent\u00e3o, sem premedita\u00e7\u00e3o, ele chegou \u00e0 sala deserta onde estavam os imensos recept\u00e1culos que Ta-Vho-Shai chamara de Garrafas do Sono. Lembrou-se do que o Aihai lhe dissera a respeito de seu conte\u00fado.<\/p>\n<p>Em um lampejo de inspira\u00e7\u00e3o desesperada, Haines bravamente entrou na sala esperando que n\u00e3o estivesse sob a vigil\u00e2ncia de Vulthoom naquele momento. N\u00e3o havia tempo para refletir ou adiar, se quisesse executar o audacioso plano que lhe ocorrera.<br \/>\nMais altas que sua cabe\u00e7a, com os contornos bulbosos de grandes \u00e2nforas e parecendo vazias, as Garrafas brilhavam na luz im\u00f3vel. Como o fantasma de um gigante inchado ele viu a sua pr\u00f3pria imagem distorcida aparecer no vidro curvado quando se aproximou da primeira.<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p>Havia em sua mente um \u00fanico pensamento, uma resolu\u00e7\u00e3o. A qualquer custo deveria quebrar as Garrafas, cujos gases liberados se espalhariam por Ravormos e mergulhariam os seguidores de Vulthoom \u2014 se n\u00e3o o pr\u00f3prio Vulthoom \u2014 em um mil\u00eanio de sono. Ele e Chanler, sem d\u00favida, estavam condenados a compartilhar do sono, e para eles, n\u00e3o afetados pelo elixir secreto da imortalidade, com toda certeza n\u00e3o haveria despertar. Mas diante das circunst\u00e2ncias era melhor assim, e o seu sacrif\u00edcio concederia uma clem\u00eancia de mil anos aos dois planetas. Aquela era a oportunidade e parecia improv\u00e1vel que algum dia houvesse outra.<\/p>\n<p>Ergueu a clava de fungo petrificado, balan\u00e7ou-a para tr\u00e1s em um movimento de arco e bateu com toda for\u00e7a no ponto mais convexo do vidro. Houve um estrondo como de um gongo, sonoro e prolongado, e rachaduras em teia come\u00e7aram a aparecer no recept\u00e1culo, de alto a baixo. Com o segundo golpe ele se rompeu de fora para dentro, com um som agudo e assustador quase como um grito articulado e a face de Haines foi soprada instantaneamente por um vento frio, suave como um suspiro de mulher.<\/p>\n<p>Segurando a respira\u00e7\u00e3o para evitar a inala\u00e7\u00e3o do g\u00e1s, voltou-se para a segunda Garrafa. Ela se quebrou ao primeiro golpe e outra vez ele ouviu um suspiro suave que saiu de dentro da rachadura.<\/p>\n<p>Uma voz de trov\u00e3o pareceu preencher a sala quando ele ergueu sua arma para atacar a terceira Garrafa.<\/p>\n<p>\u2014 Tolo! Com este ato voc\u00ea condenou a si mesmo e ao seu companheiro terr\u00e1queo.<\/p>\n<p>As \u00faltimas palavras se misturaram com o ru\u00eddo do \u00faltimo golpe de Haines. Um sil\u00eancio sepulcral se seguiu e o distante murm\u00fario das engrenagens pareceu refluir e diminuir diante dele. O terr\u00e1queo olhou momentaneamente para as Garrafas rompidas e ent\u00e3o, deixando cair o resto in\u00fatil de sua clava, reduzida a muitos fragmentos, saiu correndo daquela c\u00e2mara.<\/p>\n<p>Atra\u00eddos pelo ru\u00eddo da ruptura, um n\u00famero de Aihais tinha aparecido no sal\u00e3o principal. Eles corriam em c\u00edrculos, sem sentido e desconcertadamente como cad\u00e1veres impelidos por um galvanismo que ia acabando. Nenhum deles tentou interceptar o terr\u00e1queo.<\/p>\n<p>Se o sono induzido pelos gases chegaria lento ou r\u00e1pido, Haines n\u00e3o tinha como saber. O ar das cavernas parecia n\u00e3o ter mudado, n\u00e3o que se pudesse notar: n\u00e3o havia nenhum odor, nenhum efeito percept\u00edvel em sua respira\u00e7\u00e3o. Mas enquanto corria ele sentiu uma discreta tonteira e um v\u00e9u fino come\u00e7ou a se tecer em todos os seus sentidos. Parecia que di\u00e1fanos vapores se formavam no corredor e havia um toque de imaterialidade nas pr\u00f3prias paredes.<\/p>\n<p>Sua fuga n\u00e3o tinha objetivo definido e nem destino. Como um sonhador em seu sonho, sentiu pouca surpresa quando se viu erguido do ch\u00e3o e levado pelo ar em uma levita\u00e7\u00e3o inexplic\u00e1vel. Era como se fosse presa em uma correnteza, ou carregado por nuvens invis\u00edveis. As portas de uma centena de salas secretas, as entradas de uma centena de laborat\u00f3rios misteriosos, tudo passou rapidamente e viu em breves lampejos os colossos que vacilavam e balan\u00e7avam com o sono que os subjugava aqui e ali em meio \u00e0s suas tarefas. Ent\u00e3o, difusamente, viu que penetrara a sala de teto alto que abrigava a flor f\u00f3ssil em sua tr\u00edpode de cristal e metal escuro. Uma porta se abriu na pedra maci\u00e7a da parede oposto quando foi impelido contra ela. Um instante depois, enquanto parecia cair em dire\u00e7\u00e3o a uma c\u00e2mara inferior, por entre massas prodigiosas de m\u00e1quinas inomin\u00e1veis, por sobre um disco girat\u00f3rio que zumbia infernalmente, ent\u00e3o foi depositado de p\u00e9, com toda a c\u00e2mara se ajustando em torno dele e o disco erguido \u00e0 sua frente. O disco ent\u00e3o parara de girar, mas o ar ainda reverberava com a sua vibra\u00e7\u00e3o demon\u00edaca. O lugar era como um pesadelo mec\u00e2nico, por\u00e9m, em meio \u00e0 confus\u00e3o de molas brilhantes e d\u00ednamos Haines contemplou a forma de Chanler, amarrado ereto, com cabos de a\u00e7o, a uma estrutura de cavalete. Junto dele, em uma posi\u00e7\u00e3o ainda firme e de p\u00e9, estava o gigante Ta-Vho-Shai e imediatamente diante dele se reclinava uma Coisa incr\u00edvel cujos outros membros e partes se perdiam no emaranhado da maquinaria.<\/p>\n<p>De certa forma, a Coisa era como uma planta gigantesca, com inumer\u00e1veis ra\u00edzes, p\u00e1lidas e inchadas, que ramificavam de um caule bulboso. Este, parcialmente fora de vista, era coroado de uma ta\u00e7a rubra como uma flor monstruosa, e da ta\u00e7a crescia uma figura \u00e9lfica, cor de p\u00e9rola, de formas extremamente belas e sim\u00e9tricas, uma figura que voltou uma face liliputiana para Haines e falou, com a voz sonora de Vulthoom:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea venceu por ora, mas n\u00e3o tenho nenhum rancor contra voc\u00ea. Culpo meu pr\u00f3prio descuido.<\/p>\n<p>A Haines a voz parecia um distante trov\u00e3o ouvido por algu\u00e9m que est\u00e1 adormecendo. Em um esfor\u00e7o extremo, cambaleando como se fosse cair, chegou at\u00e9 Chanler. L\u00edvido e magro, com uma express\u00e3o facial que intrigou Haines brevemente, Chanler o encarou desde o cavalete sem dizer nada.<\/p>\n<p>\u2014 Eu\u2026 quebrei as Garrafas \u2014 Haines ouviu a pr\u00f3pria voz com uma sensa\u00e7\u00e3o de irrealidade sonolenta. Parecia ser a \u00fanica coisa a fazer\u2026 j\u00e1 que voc\u00ea tinha passado para o lado de Vulthoom.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o tinha concordado \u2014 Chanler respondeu devagar. Era tudo um engodo\u2026 para te enganar e te fazer concordar\u2026 E estavam me torturando porque eu n\u00e3o queria aceitar.<\/p>\n<p>A voz de Chanler foi se afastando, e parecia que ele n\u00e3o conseguia mais dizer nada. Subitamente a dor e a fraqueza come\u00e7aram a desaparecer de sua express\u00e3o, como se apagadas pela chegada gradual do sono.<\/p>\n<p>Haines, laboriosamente tentando compreender atrav\u00e9s de seu pr\u00f3prio sono, percebeu um instrumento de apar\u00eancia maligna, como um ferr\u00e3o de muitas pontas, seguro por entre os dedos de Ta-Vho-Shai. Formando um arco em torno das pontas afiadas havia uma incessante corrente de fagulhas el\u00e9tricas. O peito da camisa de Chanler tinha sido rasgado e a sua pele estava gravada com pequenas marcas azuis ou roxas, do queixo ao diafragma; marcas que formavam um padr\u00e3o diab\u00f3lico. Haines sentiu um horror vago e irreal.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do Letes que se fechava em torno de seus sentidos cada vez mais ele percebeu que Vulthoom tinha falado, e ap\u00f3s um tempo ele pareceu entender o sentido das palavras:<\/p>\n<p>\u2014 Todos os meus m\u00e9todos de persuas\u00e3o falharam. Mas isso \u00e9 pouco importante. Vou ceder ao sono, embora eu pudesse permanecer desperto se eu quisesse, desafiando os gases com a minha ci\u00eancia superior e a minha for\u00e7a vital. Vamos dormir profundamente\u2026 e mil anos n\u00e3o s\u00e3o mais do que uma noite para mim e para os meus seguidores. Para voc\u00eas, cujas vidas s\u00e3o t\u00e3o breves, eles se tornar\u00e3o eternidade. Logo vou despertar e retomar os meus planos de conquista\u2026 e voc\u00ea, que ousou interferir, estar\u00e1 ent\u00e3o estendido diante de mim, apenas um pouco de poeira\u2026 e a poeira ser\u00e1 varrida.<\/p>\n<p>A voz parou, e pareceu que o ser \u00e9lfico come\u00e7ara a balan\u00e7ar sobre a monstruosa copa vermelha. Haines e Chanler se viam atrav\u00e9s de uma crescente e oscilante turva\u00e7\u00e3o, como se uma n\u00e9voa cinzenta se erguesse entre eles. Havia sil\u00eancio por toda parte, como se os maquinismos daquele T\u00e1rtaro tivessem parado e os tit\u00e3s tivessem interrompido seus trabalhos. Chanler relaxou no instrumento de tortura e as suas p\u00e1lpebras ca\u00edram. Haines cambaleou, caiu e se estendeu im\u00f3vel. Ta-Vho-Shai, ainda agarrando seu instrumento sinistro, repousava de p\u00e9 como um gigante mumificado. O sono, como um mar silencioso, tinha preenchido as cavernas de Ravormos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Vulthoom&#8221; \u00e9 uma noveleta de Clark Ashton-Smith escrita e publicada em 1935 e pertencente ao breve ciclo de hist\u00f3rias marcianas do autor, nas quais geralmente temos o [desastroso] encontro de terr\u00e1queos com os perigos e enigmas do planeta Marte, aqui chamado de Aihai. Al\u00e9m de &#8220;Vulthoom&#8221; este ciclo \u00e9 composto pelos contos &#8220;O Habitante do Abismo&#8221; (The Dweller in the Gulf) e &#8220;As Criptas de Yoh-Vombis&#8221; (The Vaults of Yoh-Vombis), al\u00e9m de um conto chamado &#8220;A Muda Marciana&#8221; (The Seedling of Mars), no qual n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1250,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[25,32,137,10,31],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1248"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1248"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1248\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4736,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1248\/revisions\/4736"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1250"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1248"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1248"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1248"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}