{"id":125,"date":"2012-08-13T19:27:00","date_gmt":"2012-08-13T22:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=125"},"modified":"2017-11-02T14:08:55","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:55","slug":"duas-opinioes-sobre-os-classicos-e-os-novos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/08\/duas-opinioes-sobre-os-classicos-e-os-novos\/","title":{"rendered":"Duas Opini\u00f5es Sobre os Cl\u00e1ssicos e os Novos"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p>Certo escritor nativo de minha cidade natal tinha o h\u00e1bito de responder, sempre que lhe perguntavam insistentemente se j\u00e1 havia lido o livro de algum jovem autor revelado recentemente, ou os originais submetidos por algum amador: &#8220;Eu ainda n\u00e3o tive tempo para terminar de ler Plat\u00e3o [ou Joyce ou Dostoi\u00e9vski ou algum outro cl\u00e1ssico] e voc\u00ea acha que eu j\u00e1 tive tempo de ler isso a\u00ed?&#8221; Lem\u00adbrei desta frase quando hoje tomei conhecimento da iniciativa <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/www.escrevaseulivro.com.br\/escreva\/component\/content\/article\/5-home\/10-por-laura-bacellar\">Movimento em Prol dos Escritores Brasileiros Desconhecidos<\/span>, divulgada pela Laura Bacellar (que me \u00e9 t\u00e3o desconhecida quanto eu devo ser para ela).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Existe um abismo conceitual e humano entre as duas posi\u00e7\u00f5es. A primeira revela o pragmatismo de algu\u00e9m que certamente valoriza a qualidade indis\u00adpu\u00adt\u00e1\u00advel dos trabalhos que sobreviveram ao teste do tempo, a segunda prefere a novi\u00addade. A primeira desconsidera o escritor enquanto ser humano dotado de emo\u00ad\u00e7\u00f5es (que o levam, por exemplo, a pegar o seu original e submet\u00ea-lo ao crivo de algu\u00e9m que tem fama de ser mal educado), a segunda se preocupa com tanta gente que est\u00e1 nas sombras enquanto o sol brilha l\u00e1 fora. A primeira revela auto\u00adridade, no caso uma autoridade irrelevante, e a segunda revela empatia. Nenhuma das duas cont\u00e9m em si um ju\u00edzo de valor sobre o que afirma priorizar, pois quem ainda n\u00e3o leu certo autor n\u00e3o tem base para emitir uma opini\u00e3o sobre ele e quem prioriza os jovens talentos <em>por serem jovens<\/em> certamente est\u00e1, entre os tra\u00adba\u00adlhos lidos, dando aten\u00e7\u00e3o imerecida a alguns que mereciam <em>mesmo<\/em> a som\u00adbra em que vegetam.<\/p>\n<p>Em um mundo ideal n\u00e3o existiriam pessoas med\u00edocres que humilham as outras atrav\u00e9s de compara\u00e7\u00f5es com o inating\u00edvel, especialmente considerando que o pr\u00f3\u00adprio autor em quest\u00e3o jamais esteve, nem jamais estar\u00e1, aos p\u00e9s do mais reles dos cl\u00e1ssicos cujos nomes nos foram legados dos s\u00e9culos anteriores. Mas tam\u00adb\u00e9m, em um mundo ideal, um trabalho n\u00e3o deveria merecer aten\u00e7\u00e3o apenas por ser novo. A verdade \u00e9 que os livros, como quase todos os produtos culturais, s\u00e3o jul\u00adgados principalmente por fatores extr\u00ednsecos: capas, temas da moda, sobre\u00adnome do autor, vincula\u00e7\u00e3o a uma obra audiovisual, reputa\u00e7\u00e3o (boa ou &#8220;nega\u00adtiva&#8221;). N\u00e3o acredito que a resist\u00eancia que os novos enfrentam se deva \u00e0 novi\u00addade, ou as pessoas estariam comprando os cl\u00e1ssicos \u00e0s toneladas, em vez de lerem J.K. Rowling e Augusto Cury. A quest\u00e3o \u00e9, na verdade, um problema de mar\u00adketing.<\/p>\n<p>Quando digo &#8220;marketing&#8221; eu n\u00e3o estou, de maneira nenhuma, querendo por qual\u00adquer tipo de culpa no autor. Escritores escrevem, revisores revisam, editores edi\u00adtam. Em um mundo ideal autores n\u00e3o editam, revisores n\u00e3o reescrevem e edi\u00adtores n\u00e3o revisam. Mas n\u00e3o vivemos em um mundo ideal, vivemos em um mundo onde a realidade \u00e9 o imperialismo cultural mal disfar\u00e7ado, que faz com que uma composi\u00e7\u00e3o de adolescente mal escrita adquira um status de <em>best-seller<\/em> em nosso pa\u00eds, mas as nossas pr\u00f3prias composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o encaradas de nariz tor\u00adcido. Ianques e brit\u00e2nicos t\u00eam o direito quase exclusivo de escrever certos g\u00eane\u00adros, e se voc\u00ea quiser pratic\u00e1-los dever\u00e1, no m\u00ednimo, ambientar suas hist\u00f3rias fora do pa\u00eds ou anglicizar os nomes dos personagens. Na melhor das hip\u00f3teses, pelo menos fuja de nomes muito acentuados, como Concei\u00e7\u00e3o, Sebasti\u00e3o, Est\u00eav\u00e3o ou Jo\u00e3o. Esse \u00e9 o mercado em que precisamos nos inserir: \u00e9 um mercado pre\u00adcon\u00adcei\u00adtuoso, racista (ou, no m\u00ednimo, angloc\u00eantrico), unilateral (por objetivar subjugar-nos, em vez de assimilar-nos) e amparado em uma imensa ind\u00fastria cul\u00adtural a que estamos todos expostos desde a mais tenra inf\u00e2ncia. Querer cul\u00adpar o autor tupiniquim por sua &#8220;falha&#8221; em atingir esse mercado \u00e9 uma culpabi\u00adli\u00adza\u00e7\u00e3o descarada da v\u00edtima.<\/p>\n<p>Portanto, quando a Laura Bacellar fala em valorizarmos o trabalho dos jovens auto\u00adres \u2014 comprando-os, lendo-os, recomendando-os, falando deles, doando-os a bibliotecas etc. \u2014 ela est\u00e1 propondo uma atitude antic\u00edclica. Considerando qu\u00e3o pequeno \u00e9 o mercado editorial brasileiro (a ponto de obras se tornarem famo\u00adsas por venderem poucas dezenas de milhares de exemplares) e tendo em vista o crescimento acelerado de nosso mercado consumidor nos \u00faltimos dez anos (que, infelizmente, ainda n\u00e3o teve impacto suficiente sobre as vendas de pro\u00addutos culturais, como livros) o que ela est\u00e1 propondo \u00e9 capaz de fazer mesmo a diferen\u00e7a. Um n\u00famero relativamente pequeno de ades\u00f5es (alguns milhares) pode produzir algumas &#8220;marolas&#8221; de interesse, que levar\u00e3o a pequenas mudan\u00ad\u00e7as de curso. \u00c0 medida em que alguns resultados come\u00e7arem a aparecer, talvez as editoras percebam que comprar o original de um autor brasileiro \u00e9 mais lucra\u00adtivo do que pagar os direitos autorais de uma obra estrangeira famosa e ainda custear tradu\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o. Nesse dia os nossos autores deixar\u00e3o de estar em desvantagem t\u00e3o grande contra os enlatados. Continuar\u00e3o tendo a pena\u00adli\u00addade de serem menos conhecidos, mas ser\u00e3o mais baratos. Sendo lucrativos o bas\u00adtante, isso j\u00e1 pode abrir in\u00fameras portas que hoje est\u00e3o fechadas.<\/p>\n<p>Agora, sinceramente, eu espero que estas portas venham a ser abertas para gente que escreve bem, o que exclui a maior parte da turminha que anda escre\u00advendo no Orkut e no Facebook.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certo escritor nativo de minha cidade natal tinha o h\u00e1bito de responder, sempre que lhe perguntavam insistentemente se j\u00e1 havia lido o livro de algum jovem autor revelado recentemente, ou os originais submetidos por algum amador: &#8220;Eu ainda n\u00e3o tive tempo para terminar de ler Plat\u00e3o [ou Joyce ou Dostoi\u00e9vski ou algum outro cl\u00e1ssico] e voc\u00ea acha que eu j\u00e1 tive tempo de ler isso a\u00ed?&#8221; Lem\u00adbrei desta frase quando hoje tomei conhecimento da iniciativa Movimento em Prol dos Escritores Brasileiros Desconhecidos, divulgada pela Laura [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[187],"tags":[33,112,76,8],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/125"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=125"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/125\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5259,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/125\/revisions\/5259"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=125"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=125"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=125"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}