{"id":127,"date":"2012-08-08T20:18:00","date_gmt":"2012-08-08T23:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=127"},"modified":"2017-11-02T14:08:56","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:56","slug":"vermelho-vermelhaco-vermelhusco-vermelhante-vermelhao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/08\/vermelho-vermelhaco-vermelhusco-vermelhante-vermelhao\/","title":{"rendered":"Vermelho, vermelha\u00e7o, vermelhusco, vermelhante, vermelh\u00e3o&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>As guirlandas e cachec\u00f3is vermelhos eram parte de costumes do casamento em muitas culturas. O vestido vermelho do casamento era moda em Nuremberg no s\u00e9c. XVIII, mas esta tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 desde as \u00e9pocas romanas: As noivas romanas eram envolvidos em um v\u00e9u vermelho impetuoso, o <em>flammeum<\/em>, para trazer amor e fertilidade. Os noivos gregos, albanianos e arm\u00eanios ainda hoje usam v\u00e9us vermelhos. Os nubentes chineses est\u00e3o trajando vestimentas vermelhas para o casamento e s\u00e3o carregados durante a cerim\u00f4nia numa maca vermelha. Os vizinhos trazem ovos vermelhos aos pares depois que uma crian\u00e7a \u00e9 carregada.<\/p>\n<p>A rosa vermelha \u00e9 o s\u00edmbolo do amor e da fidelidade. De acordo com a lenda grega as rosas vermelhas surgiram do sangue de Adonis que foi morto por um varr\u00e3o selvagem em uma ca\u00e7a. Na mitologia grega a rosa era um s\u00edmbolo para o ciclo do crescimento e da deteriora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m para o amor e a afinidade. A rosa vermelha era tamb\u00e9m dedicada a Afrodite, deusa grega do amor e \u00e0 filha de Zeus e tamb\u00e9m a deusa romana V\u00eanus. Por isso, ainda hoje, os casais de apaixonados se d\u00e3o rosas vermelhas, que evocam afrodite, e n\u00e3o rosas brancas, que evocam Pers\u00e9fone. Nenhuma namorada deseja a sorte de Pers\u00e9fone, coitada. No Cristianismo a rosa vermelha \u00e9 associada com a cruz e o derramamento de sangue (supl\u00edcio).<\/p>\n<p>Os israelitas, em \u00e9pocas b\u00edblicas, pintaram seus batentes com sangue vermelho para assustar dem\u00f4nios. Mais tarde os autores b\u00edblicos associaram este h\u00e1bito a algum ritual relacionado \u00e0 fuga do Egito. O vermelho no Egito antigo era a cor do deserto e do deus destrutivo Seth que personificava o mal. Tanto assim que os eg\u00edpcios desenvolveram v\u00e1rias fraseologias em torno do vermelho. &#8220;Fazer vermelho&#8221; era sin\u00f4nimo de matar algu\u00e9m; pr\u00e1ticas demon\u00edacas eram referidas como &#8220;neg\u00f3cios vermelhos&#8221;. A salva\u00e7\u00e3o do mal era o objetivo do canto eg\u00edpcio: * Oh, Isis, salvai-me das m\u00e3os de todo o mal, dem\u00f4nio e coisas vermelhas!* . Escribas eg\u00edpcios usavam uma tinta vermelha especial para palavras malditas.<\/p>\n<p>As qualidades boas e m\u00e1s s\u00e3o combinadas em Phoenix, o p\u00e1ssaro do fogo, um s\u00edmbolo da imortalidade, mas tamb\u00e9m do sacrif\u00edcio de si mesmo: a ave se consome dolorosamente em chamas para poder renascer rejuvenescida.<\/p>\n<p>O cabelo da Virgem Maria era ruivo nas mais antigas pinturas e as vestes dos anjos eram vermelhas nas pinturas medievais. Somente mais tarde foram branqueadas. A conota\u00e7\u00e3o definitivamente positiva da cor vermelha originada com o ca\u00e7ador neol\u00edtico e continuou com os alem\u00e3es antigos, come\u00e7a mudar ao redor 1500 por influ\u00eancia b\u00edblica.&lt;<\/p>\n<p>O deus germ\u00e2nico Thor tinha o cabelo vermelho. Os animais vermelhos tais como o <em>robin<\/em>  (n\u00e3o o parceiro do Batman, mas um passarinho de peito vermelho muito comum na Europa), a raposa e o esquilo eram criaturas sagradas de Thor. Os olhos de Wotan, deus germ\u00e2nico da ca\u00e7a (muitas vezes associado com Odin), eram descritos como de um vermelho chamejante.  Com o advento do Cristianismo diminuiu o poder destes dois deuses germ\u00e2nicos. Foram transformados no diabo com seus cabelos e barbas vermelhos.<\/p>\n<p>As mulheres de cabelo vermelho eram acusadas de serem bruxas e prostitutas e a papoula transformou-se numa flor do diabo.\u00a0A sexualidade foi associada tamb\u00e9m com o vermelho, e era demonizada. O cabelo da Virgem Maria ficou loiro por influ\u00eancia dos povos germ\u00e2nicos, em cujas l\u00ednguas a mesma palavra que descreve a cor do cabelo louro claro tamb\u00e9m significa &#8220;bom, justo, honesto&#8221; etc. A Noruega teve um rei chamado Harald Harfagre (&#8220;Haroldo Bom-Cabelo&#8221;). Quando um ingl\u00eas quer dizer que uma pessoa \u00e9 loura diz que ela tem &#8220;cabelo bom&#8221; (<em>fair hair<\/em>).<\/p>\n<p>Os prov\u00e9rbios antigos discriminaram povos com cabelo vermelho ou barba vermelha. O h\u00e1bito de escanhoar-se diariamente foi imposto entre os celtas para ocultar suas barbas ruivas. Tais preconceitos prevalecem ainda em algumas \u00e1reas rurais de Europa.<\/p>\n<p>As deusas celtas s\u00e3o, em sua maioria, ruivas. O que n\u00e3o \u00e9 de se espantar, dado o tipo \u00e9tnico da regi\u00e3o (norte da Inglaterra, Esc\u00f3cia e a Irlanda). Beltaine \u00e9 reverenciada pelos longos e rubros cabelos. E esta \u00e9 a deusa da procria\u00e7\u00e3o e fertilidade, tendo sua data festiva em maio. As V\u00e9speras de maio s\u00e3o comemoradas com sacerdotisas ruivas e a cor vermelha se relaciona com a virilidade e coragem.<\/p>\n<p>Beltaine foi sincretizada como Santa Br\u00edgida pela ICAR, mas a cor vermelha n\u00e3o \u00e9 mais relacionada a ela e sim a S\u00e3o Jorge. Por qu\u00ea?  Porque a Senhora dos Ex\u00e9rcitos, Andraste, \u00e9 ruiva (n\u00e3o tanto quanto Beltaine) e ela \u00e9 a deusa que oferece for\u00e7a e poder aos ex\u00e9rcitos e os guia rumo \u00e0 vit\u00f3ria. Claro que os mis\u00f3ginos crist\u00e3os n\u00e3o iriam querer associar lutas e guerras (atividades masculinas) a uma mulher. Andraste some e aparece Jorge da Capad\u00f3cia, que sentou pra\u00e7a na cavalaria e s\u00e9culos depois inspirou seu xar\u00e1 carioca a compor uma m\u00fasica muito boa.<\/p>\n<p>Quando os Normandos (vindos da atual Fran\u00e7a, mas de etnia n\u00f3rdica) come\u00e7aram a adentrar a Inglaterra, a vis\u00e3o do vermelho come\u00e7ou a inspirar desconfian\u00e7a e a coisa ficou preta para o lado de todo mundo. Vermelho era a cor predominante nos <em>banners<\/em> dos reis anglo-sax\u00f5es e tamb\u00e9m nos pavilh\u00f5es dos bret\u00f5es celtas.<\/p>\n<p>Entre nossos \u00edndios o vermelho, obtido do barro e da seiva de algumas plantas, como o pau-brasil, e de frutos, como o urucum, era pintura de guerra, simbolizava a prontid\u00e3o para a morte.<\/p>\n<p>Na her\u00e1ldica o vermelho \u00e9 uma cor caracter\u00edstica da realeza mais antiga, de prefer\u00eancia daquela que herda seus t\u00edtulos, por via direta ou indireta, do Imp\u00e9rio Romano (cuja cor oficial era o vermelho). Vermelha era a bandeira do Sacro Imp\u00e9rio Romano e tamb\u00e9m a do Imp\u00e9rio Bizantino. Boa parte dos estados europeus que ostentam faixas vermelhas horizontais (exceto a \u00c1ustria e a Pol\u00f4nia) evocam esta associa\u00e7\u00e3o de forma obl\u00edqua. Notavelmente isto se verifica nas bandeiras da Alemanha, da R\u00fassia, da Holanda, da Cro\u00e1cia, da S\u00e9rvia, da Espanha, de Liechtenstein, de Luxemburgo e da Litu\u00e2nia. No caso da \u00c1ustria, o vermelho evoca o mart\u00edrio de um antepassado dos Habsburgos nas cruzadas. No caso da Pol\u00f4nia a origem \u00e9 mais obscura e tem alguma coisa a ver com os bras\u00f5es da Pol\u00f4nia e da Litu\u00e2nia. Nas bandeiras tricolores verticais (como a francesa, a italiana, a belga e a romena) o vermelho significa a revolu\u00e7\u00e3o, o levante do povo contra a opress\u00e3o de uma elite (Fran\u00e7a, B\u00e9lgica, It\u00e1lia) ou de for\u00e7as estrangeiras (Rom\u00eania). Estas bandeiras foram adotadas no s\u00e9culo XIX, muito antes que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 consagrasse o vermelho como a cor da Revolu\u00e7\u00e3o (com &#8220;R&#8221;).<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o o vermelho ganhou, especialmente na Europa e na Am\u00e9rica Latina, uma certa conota\u00e7\u00e3o esquerdista e rebelde. Da qual se aproveitaram os nazistas (com sua bandeira vermelha, que deu at\u00e9 nome ao jornal oficial do NSDAP) e outros, mas a fama do vermelho revolucion\u00e1rio alcan\u00e7a at\u00e9 mesmo a m\u00fasica popular brasileira, como nos versos de uma balada de Boi-Bumb\u00e1 gravada nos anos 1990:<\/p>\n<p>A cor do meu batuque<br \/>\nTem o toque, tem o som<br \/>\nDa minha voz<br \/>\nVermelho, vermelha\u00e7o<br \/>\nVermelhusco, vermelhante<br \/>\nVermelh\u00e3o.<\/p>\n<p>O velho comunista se alian\u00e7ou<br \/>\nAo rubro do rubor do meu amor<br \/>\nO brilho do meu canto tem o tom<br \/>\nE a express\u00e3o da minha c\u00f4r<br \/>\nVermelho!<\/p>\n<p>Meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 vermelho<br \/>\nHei! Hei! Hei!<br \/>\nDe vermelho vive o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nHe Ho! He Ho!<br \/>\nTudo \u00e9 garantido<br \/>\nAp\u00f3s a rosa vermelhar<br \/>\nTudo \u00e9 garantido<br \/>\nAp\u00f3s o sol vermelhecer.<\/p>\n<p>Vermelhou o curral<br \/>\nA ideologia do folclore<br \/>\nAvermelhou!<br \/>\nVermelhou a paix\u00e3o<br \/>\nO fogo de artif\u00edcio<br \/>\nDa vit\u00f3ria vermelhou&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As guirlandas e cachec\u00f3is vermelhos eram parte de costumes do casamento em muitas culturas. O vestido vermelho do casamento era moda em Nuremberg no s\u00e9c. XVIII, mas esta tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 desde as \u00e9pocas romanas: As noivas romanas eram envolvidos em um v\u00e9u vermelho impetuoso, o *flammeum*, para trazer amor e fertilidade. Os noivos gregos, albanianos e arm\u00eanios ainda hoje usam v\u00e9us vermelhos. Os nubentes chineses est\u00e3o trajando vestimentas vermelhas para o casamento e s\u00e3o carregados durante a cerim\u00f4nia numa maca vermelha. Os vizinhos trazem ovos vermelhos aos pares depois que uma crian\u00e7a \u00e9 carregada.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[13,77,113],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=127"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5261,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127\/revisions\/5261"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}