{"id":128,"date":"2012-08-08T00:40:00","date_gmt":"2012-08-08T03:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=128"},"modified":"2017-11-13T23:31:01","modified_gmt":"2017-11-14T02:31:01","slug":"mais-um-concurso-de-que-nao-participarei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/08\/mais-um-concurso-de-que-nao-participarei\/","title":{"rendered":"Mais um Concurso de que N\u00c3O Participarei"},"content":{"rendered":"<p>Sempre tive rea\u00e7\u00f5es indecisas diante de cada concurso liter\u00e1rio de que ouvi falar em toda a minha vida. Uma das primeiras coisas que li a respeito de meu poeta favorito, Fernando Pessoa, foi que tirou o segundo lugar no \u00fanico concurso de poesia de que participou em vida. Eu tinha dezesseis anos quando li isso numa biografia do Poeta. De l\u00e1 para c\u00e1 as not\u00edcias de concursos que d\u00e3o errado n\u00e3o param de me perseguir, como a recente pol\u00eamica sob a premia\u00e7\u00e3o de Chico Buarque com (mais um) Jabuti, que acabou fazendo com que muitos autores e cr\u00edticos relevantes botassem na imprensa o que, provavelmente, se diz na surdina: que os pr\u00eamios liter\u00e1rios mais famosos servem mais para manter o interesse pelos autores consagrados (em um pa\u00eds onde a literatura concorre com pe\u00e7as de cultura pop v\u00e1lidas apenas por um ver\u00e3o) do que para identificar e estimular novos talentos.<\/p>\n<p>Essa persistente percep\u00e7\u00e3o se agu\u00e7a cada vez que leio o regulamento de um novo concurso, a ponto de eu j\u00e1 ter perdido qualquer interesse em participar de algum (porque participar envolve custos integralmente absorvidos pelo autor). Em geral, pelo que percebi, os concursos parecem dividir-se em quatro categorias:<\/p>\n<ol>\n<li>Os que n\u00e3o s\u00e3o concursos de fato, mas apenas pretexto para atrair autores que tenham dinheiro, mas n\u00e3o experi\u00eancia, a publicarem por editoras que possuem muita experi\u00eancia, algum dinheiro e nenhuma compet\u00eancia.<\/li>\n<li>Os que s\u00e3o obscuros demais para acrescentarem alguma coisa ao curr\u00edculo do autor, fazendo-me pensar que se algum dia eu ficar famoso, os organizadores se promover\u00e3o dizendo que um dia me premiaram.<\/li>\n<li>Os que n\u00e3o est\u00e3o interessados em identificar autores originais, mas autores capazes de cumprir as tarefas predeterminadas pelos objetivos comerciais da editora, como, por exemplo, produzir um conto com tantos mil caracteres sobre o tema fulano.<\/li>\n<li>Os que possuem regulamentos t\u00e3o draconianos que explicitamente excluem a maioria dos autores que pretendem identificar e premiar.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Sobre os primeiros \u00e9 melhor que n\u00e3o fale muito, e que sequer sugira nomes, embora os nomes sejam sussurrados nos f\u00f3runs da internet, porque n\u00e3o tenho dinheiro e nem disposi\u00e7\u00e3o para enfrentar um processo por difama\u00e7\u00e3o. Especialmente porque alguns dos sussurros podem ser boatos movidos por interesses t\u00e3o escusos quanto aqueles.<\/p>\n<p>Sobre os segundos eu at\u00e9 poderia falar alguma coisa sem medo, mas sinceramente esses concursos s\u00e3o t\u00e3o obscuros que eu precisaria gastar um bom tempo procurando informa\u00e7\u00f5es sobre a sua exist\u00eancia a fim de poder tecer tais coment\u00e1rios. Mas se voc\u00ea conseguiu acompanhar a minha linha de racioc\u00ednio n\u00e3o precisa que eu d\u00ea exemplos.<\/p>\n<p>Sobres os terceiros eu fa\u00e7o quest\u00e3o de falar, mesmo sabendo que perderei alguns amigos e fecharei algumas portas (mas fodam-se essas portas, pelas quais eu n\u00e3o quero entrar). N\u00e3o citarei nomes (\u00e9 verdade), mas as cabe\u00e7as nas quais as carapu\u00e7as servirem n\u00e3o ficaram felizes.<\/p>\n<p>Sobre os \u00faltimos, por fim, \u00e9 preciso que eu diga muita, mas muita coisa. Mas antes quero explicar esse neg\u00f3cio de \u00abcumprir tarefas\u00bb.<\/p>\n<p>Acredito que a maioria das pessoas dotadas de talento liter\u00e1rio teve problemas com seus professores de portugu\u00eas e literatura. Mill\u00f4r Fernandes orgulhava-se dizer que tirava notas horr\u00edveis em reda\u00e7\u00e3o. Machado de Assis declarou-se um incompetente em l\u00edngua portuguesa ao tentar ajudar um sobrinho a fazer os deveres escolares. Carlos Drummond de Andrade foi ridicularizado pela professora por ter escrito um conto fant\u00e1stico (inspirado em Jules Verne), de forma n\u00e3o muito diferente do \u00abPink\u00bb, personagem narrador da \u00f3pera rock <em>The Wall,<\/em> do Pink Floyd, que foi humilhado pelo mestre-escola por ter escrito um poema.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero me ombrear com os autores famosos \u2014 no m\u00e1ximo com o Pink, que era um sujeito problem\u00e1tico e egoc\u00eantrico, com uma certa dificuldade com as mulheres e uma tend\u00eancia a fazer p\u00e9ssimos poemas (rimando &#8220;jag-uar&#8221;, &#8220;new car&#8221; e &#8220;ca-viar&#8221;) \u2014 mas tamb\u00e9m j\u00e1 tive a minha cota de notas baixas em portugu\u00eas e muita gente j\u00e1 ridicularizou o que escrevo. Se eu soubesse tocar guitarra ou liderasse meu pr\u00f3prio bando de <em>skinheads<\/em>, talvez eu atirasse em uma televis\u00e3o, depilasse as sobrancelhas e enxergasse roedores nas paredes. Como o Pink, para voc\u00ea que n\u00e3o \u00e9 f\u00e3 de rock progressivo e n\u00e3o entenderia a piada.<\/p>\n<p>O problema que as pessoas supostamente dotadas de \u00abtalento\u00bb t\u00eam com os professores de portugu\u00eas \u00e9 que, quando voc\u00ea acredita que est\u00e1 acometido desta condi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria voc\u00ea passa a ter o desejo de expressar-se, do seu jeito. Obviamente este desejo n\u00e3o combina com as tarefas que os alunos t\u00eam de cumprir para obter a nota. <em>A reda\u00e7\u00e3o que foi pedida era sobre &#8220;Como Viver\u00edamos Sem Eletricidade&#8221;, e n\u00e3o sobre o seu medo do escuro, filho.<\/em> No meu caso eu digo com orgulho pueril que quase fui expulso da escola porque, para o dia da crian\u00e7a de 1984, ainda no ocaso da ditadura, eu entreguei \u00e0 minha escandalizada professora de portugu\u00eas, uma reda\u00e7\u00e3o sobre controle populacional. Que era uma bosta, obviamente, como tudo que um aluno de 11 anos escreve, mas pelo menos tinha ousadia e originalidade. Inclusive por ter chamado a p\u00edlula pelo interessante eufemismo de <em>anticegonha<\/em>.<\/p>\n<p>Quando um escritor sai da escola, eu imagino, sente um bafejo de liberdade no ar. N\u00e3o est\u00e1 mais obrigado a escrever respeitando limites de tamanho e ditames de assunto. Tanto quanto quem se forma em desenho n\u00e3o precisa mais usar papel quadriculado ou empregar o pant\u00f3grafo para calcular perspectivas. <em>Finalmente vou escrever o que quero, do jeito que quero.<\/em> Infelizmente o mundo n\u00e3o quer ningu\u00e9m do jeito que cada um \u00e9, o mundo quer todo mundo devidamente harmonizado. <em>Cada um no seu quadrado,<\/em> uma m\u00fasica est\u00fapida, mas que tangibilizou a ideologia conservadora de uma forma irrepreens\u00edvel. Eis o que o mundo quer: &#8220;Ado, a-ado, cada um no seu quadrado.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 que, depois de ter conquistado a maioridade e de ter a pr\u00f3pria m\u00e1quina de escrever (eu j\u00e1 celebrei isso, uma vez), voc\u00ea descobre que a sua liberdade de escolher o tema e determinar o tamanho \u00e9 totalmente irrelevante porque o mundo n\u00e3o est\u00e1 procurando nada disso: o mundo tem um sapatinho de cristal e sai cal\u00e7ando por a\u00ed, se seu p\u00e9 for do tamanho certo voc\u00ea sai do borralho e recebe seu grande pr\u00eamio. Para quem tem p\u00e9s bonitos, mas do tamanho errado, o lugar continua sendo a cozinha.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o os concursos que determinam tema e tamanho. Cada vez mais os seus editais se tornam espec\u00edficos. N\u00e3o basta que seja um conto do g\u00eanero &#8220;hist\u00f3rico&#8221;, por exemplo, tem que ser hist\u00f3rico ambientado no interior do Esp\u00edrito Santo na d\u00e9cada de 1820. N\u00e3o basta ser fant\u00e1stico, tem que ser fant\u00e1stico com um estilo prattchettiano, voltado para o tema <em>dieselpunk<\/em> e adaptado \u00e0 realidade brasileira (ou b\u00falgara, tanto faz, visto que nenhuma das refer\u00eancias culturais tem a ver com o ambiente onde tudo deve ser adaptado).<\/p>\n<p>N\u00e3o estou generalizando. Provavelmente o concurso promovido pela sua editora \u00e9 diferente, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de me processar. Eu estava me referindo apenas aos seus concorrentes, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>O caso \u00e9 que n\u00e3o tenho nenhum tes\u00e3o para fazer composi\u00e7\u00f5es de acordo com o tema &#8220;sugerido&#8221;. Ali\u00e1s, sugerido \u00e9 o meu\u2026 de \u00f3culos: todas as vezes em que n\u00e3o optei por nenhuma das sugest\u00f5es o meu texto foi rejeitado e tive que fazer outro. S\u00f3 que, como n\u00e3o estou mais na escola e n\u00e3o tenho a necessidade de obter uma nota para passar de ano, n\u00e3o me importa se o meu texto n\u00e3o serve para a sua colet\u00e2nea. Provavelmente sua colet\u00e2nea n\u00e3o serve para mim tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas chego, enfim (sim, sou prolixo e uso pontua\u00e7\u00e3o em excesso), ao assunto que me moveu a escrever esta diatribe: os famosos editais excludentes.<\/p>\n<p>Imagino que as pessoas que escrevem tais editais imaginam que o Brasil seja a p\u00e1tria da literatura e que exista um autor talentoso em cada quarteir\u00e3o desse pa\u00eds, fora os que n\u00e3o s\u00e3o talentosos, mas sabem agradar o j\u00fari. E como existem tantos, \u00e9 necess\u00e1rio que o edital, j\u00e1 de cara, se encarregue de inabilitar o maior n\u00famero poss\u00edvel deles.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias maneiras de se fazer isso. A mais comum \u00e9 exigir o ineditismo. Dependendo do concurso, o ineditismo pode ser exigido para a obra apresentada ou <em>at\u00e9 mesmo para o autor.<\/em> A regra \u00e9 clara:<\/p>\n<blockquote><p>\n  Somente ser\u00e3o aceitas, no presente processo de sele\u00e7\u00e3o, obras liter\u00e1rias rigorosamente in\u00e9ditas e que n\u00e3o tenham sido publicadas, mesmo parcialmente, de forma impressa ou virtual.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o entendeu? Vou explicar.<\/p>\n<p>Nesta nossa idade digital, em que todo autor obscuro que almeja alguma forma de divulga\u00e7\u00e3o pode encontrar leitores (ou at\u00e9 um editor) divulgando seus textos em redes sociais, f\u00f3runs ou blogues, os redatores deste edital ainda imaginam que exista o <em>rigoroso ineditismo<\/em> de uma obra liter\u00e1ria. Qual autor escreve uma obra genial, digna de receber um pr\u00eamio relevante, e a mant\u00e9m rigorosamente in\u00e9dita, sepultada em uma gaveta, esperando um concurso?<\/p>\n<p>Trata-se de uma regra t\u00e3o absurda que me vejo for\u00e7ado a imaginar que ser\u00e3o apresentadas, e eventualmente premiadas, obras n\u00e3o rigorosamente in\u00e9ditas ou que algu\u00e9m, j\u00e1 predeterminado para ganhar, possui uma das rar\u00edssimas obras geniais e rigorosamente in\u00e9ditas. A primeira hip\u00f3tese \u00e9 bastante plaus\u00edvel, especialmente se a obra em quest\u00e3o foi postada apenas em f\u00f3runs privados (n\u00e3o indexados pelas ferramentas de busca) ou redes sociais, ou publicada em revistas impressas de baixa tiragem e nenhuma relev\u00e2ncia. A segunda hip\u00f3tese \u00e9 acintosa, mas eu nunca me esque\u00e7o de que vivo no Brasil.<\/p>\n<p>Sobre a segunda hip\u00f3tese, h\u00e1 que se ter em conta que a exig\u00eancia de rigoroso ineditismo, obviamente, impede que algu\u00e9m questione a decis\u00e3o do j\u00fari. Seja qual for a escolha dos jurados, ningu\u00e9m poder\u00e1 argumentar que outra obra merecia mais o pr\u00eamio. Os editais de concursos liter\u00e1rios aprenderam com os festivais musicais \u2014 e com o fiasco do concurso portugu\u00eas que preteriu Fernando Pessoa. Hoje em dia o poeta n\u00e3o ganharia e talvez nem tivesse como provar que participou.<\/p>\n<p>\u00c9 por causa do <em>rigoroso ineditismo<\/em> que eu n\u00e3o posso participar de nenhum concurso liter\u00e1rio. Ou pelo menos n\u00e3o me dou ao trabalho de faz\u00ea-lo para gastar dinheiro cumprindo as exig\u00eancias e depois ser desclassificado sem nenhum aviso sequer (porque os concursos liter\u00e1rios s\u00f3 d\u00e3o satisfa\u00e7\u00e3o aos premiados e voc\u00ea, que se inscreve, na maioria das vezes nem recebe uma confirma\u00e7\u00e3o de que sua inscri\u00e7\u00e3o foi aceita). Mas tem mais. Existem outras formas de excluir autores que n\u00e3o devem ganhar.<\/p>\n<p>Uma delas \u00e9 impor ao candidato uma peregrina\u00e7\u00e3o para inscrever o seu trabalho. Apesar de todo o avan\u00e7o das comunica\u00e7\u00f5es, da confiabilidade do correio e da exist\u00eancia da internet, nada mais apropriado do que fazer um concurso aberto \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de qualquer cidad\u00e3o brasileiro, mas obrig\u00e1-lo a comparecer, em hor\u00e1rio comercial, em algum escrit\u00f3rio qualquer da cidade onde o concurso \u00e9 sediado, para entregar <em>pessoalmente<\/em> sua obra.<\/p>\n<p>Outra maneira \u00e9 determinar regras expl\u00edcitas para a formata\u00e7\u00e3o do original. Claro que eu imagino que pessoas que ter\u00e3o de ler dezenas de livros de autores desconhecidos n\u00e3o ficar\u00e3o felizes de l\u00ea-los impressos em cores, com fonte <span style=\"font-family: 'Comic Sans', script\">Comic Sans<\/span> ou em formato de papel n\u00e3o padronizado. Mas h\u00e1 concursos que chegam \u00e0s raias do absurdo no detalhismo, determinando a tipologia, o tamanho da fonte, as margens da \u00e1rea impressa, a localiza\u00e7\u00e3o da numera\u00e7\u00e3o de p\u00e1gina, o espa\u00e7amento entre linhas, etc. Poderiam simplesmente solicitar o arquivo em formato digital e determinar o tamanho por uma simples contagem de palavras e caracteres. Mas d\u00e3o-me a impress\u00e3o de que algum estafeta, em alguma escrivaninha abarrotada, estar\u00e1 contando linhas e palavras com uma r\u00e9gua.<\/p>\n<p>A tudo isto se junta a lenta constata\u00e7\u00e3o, compartilhada com a amiga <a href=\"http:\/\/cronicaseretalhos.blogspot.com.br\">Ilka Canavarro<\/a>, de que a partir de uma certa idade as pessoas n\u00e3o se interessam mais pelo que n\u00f3s temos a dizer, a n\u00e3o ser que tenhamos ficado ricos ou famosos. Algo que o Ronaldo Roque tamb\u00e9m j\u00e1 havia <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/08\/o-lobo-do-leme\">detectado<\/a>.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se j\u00e1 sei que n\u00e3o serei aceito nem premiado, se j\u00e1 sei que n\u00e3o est\u00e3o mais interessados em um Novo Escritor que fez 39 anos, se j\u00e1 sei que rid\u00edculo ficar buscando a aprova\u00e7\u00e3o de um mundo que objetivamente j\u00e1 me rejeitou como autor; por que me desgastar formatando originais para concursos cujos editais parecem talhados para justamente excluir n\u00e3o a mim, pessoalmente, mas o tipo de pessoa que eu sou, no mundo de hoje?<\/p>\n<p>Ah, me poupem de formatar meu romance de forma aceit\u00e1vel. Quer dizer que eu n\u00e3o tenho o direito de pegar um conto meu e expandir para um romance, pois isso n\u00e3o se enquadra no <em>rigoroso ineditismo<\/em> que o concurso exige? Para que vou me preocupar em viajar trezentos quil\u00f4metros para perder horas em uma fila a fim de poder &#8220;protocolar&#8221; meu humilde original nas m\u00e3os de algu\u00e9m que n\u00e3o escreve? Provavelmente incomodado com o volume inesperado de trabalho e o peso de tanto livro (&#8220;para que esse pessoal escreve livro t\u00e3o grosso, meu Deus?&#8221;).<\/p>\n<p>\u00c9 muita humilha\u00e7\u00e3o para um autor amador, que realmente ama o que faz. \u00c9 muita exig\u00eancia para um assalariado que ousa escrever (isso n\u00e3o \u00e9 coisa de trabalhador, quem tem que escrever sobre o povo \u00e9 o rico que se interesse pelo tema). \u00c9 muito obst\u00e1culo para quem divulga seu trabalho em busca de aten\u00e7\u00e3o, contatos e reconhecimento em vez de pedantemente p\u00f4-lo na gaveta \u00e0 espera de um concurso. Isto \u00e9 coisa de gente que v\u00ea a literatura como um ornamento na biografia, n\u00e3o como um objetivo pessoal.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, mais uma vez, declino de participar. N\u00e3o que me julgue &#8220;acima&#8221; de concursos. Na verdade gostaria muito de estar neles. Mas julgo in\u00fatil tentar, visto que nos pr\u00f3prios editais est\u00e3o estabelecidas condi\u00e7\u00f5es que me excluem, de forma que eu s\u00f3 poderia participar mentindo (e expondo-me \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o de ser achado na mentira) ou submetendo obras feitas por encomenda. S\u00f3 que n\u00e3o se encomenda, em trinta dias, oitenta p\u00e1ginas de prosa digna de ganhar um concurso.<\/p>\n<p>N\u00e3o fico, por\u00e9m, prejudicado. Nunca tive grandes ambi\u00e7\u00f5es com a literatura. Escrevo porque gosto e, embora goste da ideia de um dia fazer sucesso, n\u00e3o me sinto diminu\u00eddo por n\u00e3o ganhar concursos. Fernando Pessoa nunca ganhou um.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre tive rea\u00e7\u00f5es indecisas diante de cada concurso liter\u00e1rio de que ouvi falar em toda a minha vida. Uma das primeiras coisas que li a respeito de meu poeta favorito, Fernando Pessoa, foi que tirou o segundo lugar no \u00fanico concurso de poesia de que participou em vida. Eu tinha dezesseis anos quando li isso numa biografia do Poeta. 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