{"id":130,"date":"2012-07-29T23:24:00","date_gmt":"2012-07-30T02:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=130"},"modified":"2017-11-02T14:08:56","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:56","slug":"monstros-e-mascaras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/07\/monstros-e-mascaras\/","title":{"rendered":"Monstros e M\u00e1scaras"},"content":{"rendered":"<p>O sucesso do mais novo rebento da categoria do filme hollywoodiano baseado em quadrinhos de her\u00f3is nos faz novamente refletir sobre o s\u00edmbolo que a m\u00e1scara representa para aqueles que com ela se identificam. O her\u00f3i mascarado, mais especificamente o Batman, her\u00f3i mascarado mais arquet\u00edpico e mais poderosamente enraizado nas nossas neuras e ideais, representa muito mais do que o ve\u00edculo de algumas horas de divers\u00e3o violenta, ainda mais quando habilmente manipulado para que sua hist\u00f3ria deixe de ser quadrinesca e <i>kitsch <\/i>para adquirir ares adultos. Um movimento que come\u00e7ou com Frank Miller nos anos 1980 e agora nos produz o primeiro filme de super her\u00f3is a romper realmente a barreira do infanto-juvenil e ganhar elogios de adultos (<a href=\"http:\/\/newsfeed.time.com\/2012\/07\/17\/critic-faces-death-threats-over-bad-dark-knight-rises-review\/\" rel=\"nofollow\" target=\"_blank\">embora n\u00e3o de todos os adultos<\/a>).<\/p>\n<p>Batman faz mais sucesso que a maioria dos her\u00f3is, inclusive no quesito ardor dos f\u00e3s, porque ele \u00e9 \u00abum de n\u00f3s\u00bb, n\u00e3o um alien\u00edgena adotado pelo nosso planeta, como o Super-Homem. Porque seus poderes est\u00e3o ao alcance de um ser humano dedicado e provido de recursos, em vez de derivarem de uma fonte m\u00edstica qualquer; como o anel do Lanterna Verde, a filia\u00e7\u00e3o divina da Mulher-Maravilha, a divindade de Thor ou\u00a0 algum improv\u00e1vel acidente nuclear (Hulk) ou el\u00e9trico (Flash). Al\u00e9m disso, ao contr\u00e1rio do Homem de Ferro, outro her\u00f3i que tamb\u00e9m emprega poderes n\u00e3o sobrenaturais, ele n\u00e3o \u00e9 fragilizado fisicamente. A fragilidade do Homem-Morcego \u00e9 uma fragilidade ao mesmo tempo psicol\u00f3gica (derivada do trauma de ter presenciado, impotente, o assassinato dos pais) e moral (seu comportamento de vigilante frequentemente torna aqueles a que combate em monstros piores ou enseja que os bandidos se tornem mais viciosos para lhe fazerem frente).<\/p>\n<p>Estes fatores aproximam o homem comum deste her\u00f3i, cuja for\u00e7a est\u00e1 nos m\u00fasculos, no c\u00e9rebro e no dinheiro \u2014 os tr\u00eas poderes mais invejados pelos jovens de hoje. E desde que o atual diretor dos filmes, Christopher Nolan, conseguiu mostrar o her\u00f3i de forma mais m\u00e1scula (desviando das antigas suspeitas do relacionamento homossexual com Robin) e independente (tornando-o menos tutelado pela figura paterna do mordomo Alfred), paradigma se tornou mais evidente e o culto ao Cruzado Mascarado cresceu.<\/p>\n<p>Uma coisa que sempre me chamou a aten\u00e7\u00e3o nas hist\u00f3rias do Batman foi que os seus vil\u00f5es o enfrentavam de cara limpa na maioria das vezes. As poucas exce\u00e7\u00f5es eram justamente os personagens mais amb\u00edguos, como a Mulher Gato, que eu, desde crian\u00e7a, sempre pensei que queria mais roubar o cora\u00e7\u00e3o do Morceg\u00e3o do que as joias dos museus. Pinguim, Coringa, Duas Caras, Charada, Erva Venenosa; quase todos tinham os rostos expostos ou meramente disfar\u00e7ados por uma m\u00e1scara que servia mais de adere\u00e7o do que de disfarce. Diferentemente do Homem-Morcego, em seu pesado traje, que reflete as sombras de sua alma atormentada por uma inf\u00e2ncia interrompida por um crime absurdo e pelas sequelas de um vigilantismo que frequentemente o exp\u00f5e \u00e0s monstruosidades que pretende combater. Como dizia Nietzsche: <i>quando contemplas o abismo, o abismo tamb\u00e9m te contempla. <\/i>De tanto contemplar o abismo, o Morcego se torna, tamb\u00e9m ele, abissal.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 curioso que justamente esteja sendo considerado este \u00faltimo filme como a culmina\u00e7\u00e3o de todos os filmes do her\u00f3i com m\u00e1scara de quir\u00f3ptero: pois \u00e9 justamente o filme no qual ele enfrenta outro que, como ele, tem o rosto oculto por tr\u00e1s de uma m\u00e1scara. Uma m\u00e1scara que \u00e9 o oposto da sua: Batman oculta os olhos, para n\u00e3o ter que encarar de frente o abismo. Bane oculta a boca e se oferece \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que contempla, desafiadora e esfingicamente. Bane \u00e9 um bandido que n\u00e3o tem nada a declarar, ao contr\u00e1rio de outros que muito diziam mas nada significavam, como o Charada, o Coringa ou o Pinguim. Representa a maior express\u00e3o da for\u00e7a bruta, descuidada da pr\u00f3pria preserva\u00e7\u00e3o. Sua m\u00e1scara lhe mant\u00e9m permanentemente sob o efeito de analg\u00e9sicos e ester\u00f3ides e drogas outras. Ele n\u00e3o quer acusar os golpes, porque se os sente talvez n\u00e3o golpeie com tanta for\u00e7a.<\/p>\n<p>Poderia dizer que vejo em Bane uma met\u00e1fora para o terrorista suicida. Mas para isso eu teria de comparar a cren\u00e7a religiosa a uma m\u00e1scara que injeta analg\u00e9sicos o tempo todo pela goela abaixo de quem a p\u00f5e. Voc\u00eas concordariam com isso? N\u00e3o sei se eu mesmo concordo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sucesso do mais novo rebento da categoria do filme hollywoodiano baseado em quadrinhos de her\u00f3is nos faz novamente refletir sobre o s\u00edmbolo que a m\u00e1scara representa para aqueles que com ela se identificam. 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