{"id":1406,"date":"2014-02-17T23:05:27","date_gmt":"2014-02-18T02:05:27","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1406"},"modified":"2020-05-05T23:45:39","modified_gmt":"2020-05-06T02:45:39","slug":"a-pessoa-amada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/02\/a-pessoa-amada\/","title":{"rendered":"A Pessoa Amada"},"content":{"rendered":"\n<p>Rodrigo mirou Amanda nos olhos com uma f\u00faria que ela ainda n\u00e3o conhecia. Mas em vez de um tapa ou de um grito ele derramou uma solit\u00e1ria l\u00e1grima enquanto apertava na m\u00e3o um inimigo imagin\u00e1rio, com tanta for\u00e7a que as unhas feriram a palma e os m\u00fasculos retesados demais come\u00e7aram a doer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Fica assim, ent\u00e3o, Amanda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea vai se arrepender, Rodrigo. N\u00e3o fa\u00e7a isso comigo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o me arrependerei, Amanda. Nada me far\u00e1 arrepender porque eu acabei de ver que n\u00e3o poderia mais ser feliz com voc\u00ea. Para ser infeliz, tanto faz com ou sem o seu amor.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim Rodrigo deixou o apartamento, levando apenas o seu notebook, uma mala com metade das suas roupas e uma bolsa contendo alguns objetos pessoais avulsos, do tipo que n\u00e3o ficaria bem levar na mala.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ele bateu a porta, Amanda engoliu o choro, xingou para as paredes e foi tomar um generoso sorvete de chocolate. Ele voltaria, ele tinha voltado v\u00e1rias vezes antes. N\u00e3o seria apenas um erro igual aos outros que o faria mudar. E Amanda precisava dele, desejava que voltasse logo, mas saberia esperar o momento certo, para n\u00e3o ter que prometer nada, comprometer coisa alguma.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas no dia seguinte um homem de uniforme azul bateu \u00e0 porta, acompanhado de um oficial de justi\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O Sr. Rodrigo Martins deseja retirar seus pertences que se encontram nesta unidade habitacional \u2014 explicaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Amanda p\u00f4s a cabe\u00e7a para fora e viu Rodrigo, na quina do corredor com os bra\u00e7os cruzados e os \u00f3culos de lentes verdes escondiam sua express\u00e3o muito bem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o precisava mand\u00e1-los, Rodrigo. Eu n\u00e3o mordo, venha buscar suas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sabia que era mentira e que, se o companheiro viesse s\u00f3, ela at\u00e9 mesmo o morderia para impedir que sa\u00edsse com o resto de suas coisas. Mas na frente da Justi\u00e7a precisou se conter. E quando tomou um susto o resto de tudo que ele possu\u00eda estava dentro de cinco ou seis caixas de papel\u00e3o, que o homem de azul levava aos ombros como se fossem de isopor.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando terminaram o apartamento ficara menos atulhado, mas ainda n\u00e3o chegara a equivaler ao vazio do cora\u00e7\u00e3o de Amanda. Ela pensava em comprar m\u00f3veis, mas nada mobiliaria sua saudade suficientemente. Em vez disso, trancou o apartamento e ligou para C\u00edntia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Querida, onde voc\u00ea est\u00e1? Eu preciso de socorro existencial. Urgente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que houve? \u2014 perguntou uma voz sonolenta do outro lado?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele me deixou mesmo, at\u00e9 buscou as coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 J\u00e1 n\u00e3o era sem tempo, at\u00e9 quando voc\u00ea faria gato e sapato desse coitado? Um dia o chifre d\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas voc\u00ea ousa me dizer isso, C\u00edntia. Voc\u00ea \u00e9 minha amiga ou dele?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nem sua nem dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Amanda se acabou na dan\u00e7a e no u\u00edsque, aquela noite e quatro outras, antes de saber, por tortas vias, que C\u00edntia abandonara-lhe a amizade em busca do Rodrigo. A vadia, depois de tanta loucura, resolvera sossegar no colo justamente do Rodrigo, do Rodrigo que Amanda tanto achincalhara que lhe doera o chifre.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o tempo cura tudo. Curou Rodrigo, curou a C\u00edntia. Mas Amanda descobriu, espantada, que de fato amava o homem que perdera. Ou achava que amava. Talvez fosse s\u00f3 a vontade de tom\u00e1-lo da C\u00edntia, que nem era t\u00e3o bonita, afinal. Queria Rodrigo de volta a todo custo, mesmo que fosse para tra\u00ed-lo outra vez. Mas o amava, de um jeito torto e p\u00fablico. O tempo n\u00e3o curou isso, fez ficar pior, como uma inflama\u00e7\u00e3o que nunca sara, at\u00e9 que finalmente supura e sangra.<\/p>\n\n\n\n<p>Meses depois ainda estava inerte nisso quando viu a C\u00edntia no supermercado. A putinha havia desaparecido por semanas, vivendo seu amor roubado \u00e0 amiga. L\u00e1 estava ela, a mi\u00fada piranha, vestindo um comportado vestidinho preto b\u00e1sico, com \u00f3culos escuros de uma grife popular. Comprava verduras, claro. Queria manter-se magra enquanto Amanda se empanturrava de sorvete e de cervejas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentiu-se ferver por dentro. Era uma desfa\u00e7atez a piranha agora andar fantasiada de gente normal. Irracionalmente precisava acabar com ela. Fosse qual fosse o meio, desde que fosse naquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p>A mente turva nublou os olhos, ou foram l\u00e1grimas. As cenas apareceram como peda\u00e7os de um filme antigo, entremeadas de borr\u00f5es. Gritos, algum sangue, ajuntamento de fregueses, uniformes. Acordou de repente em um cub\u00edculo escuro, com grades de um lado e uma janela alta do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas, onde\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1 no xilindr\u00f3, mia fia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem falava era uma senhora negra que aparentava-se com Rams\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas o que eu fiz?<\/p>\n\n\n\n<p>Pergunta feita, resposta ouvida de sua pr\u00f3pria alma: lembrou-se vagamente de ter investido contra C\u00edntia munida da primeira coisa pesada que pudera pegar: uma pe\u00e7a de salame. Fora trabalhoso manusear aquela clava molenga e escorregadia, mas o golpe fora certeiro no rosto da vadia, quebrando-lhe os \u00f3culos e ferindo-lhe perto do nariz. Lembrou do ajuntamento de gente: havia parentes dela por perto, ou amigos, ou talvez somente seguran\u00e7as. Ent\u00e3o fora isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou-se no imundo catre, sentindo uma culpa imensa de algo que n\u00e3o entendia o que fosse.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Arrependida, mia fia?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A senhora n\u00e3o sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Brigou por causa de home, n\u00e3o foi mia fia?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00e1, confesso. Bati numa vadia com uma pe\u00e7a de salame.<\/p>\n\n\n\n<p>A velha deu uma gargalhada de bruxa de filme de terror.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00d3ia que eu bem queria estar l\u00e1 para ver. Uma pe\u00e7a de salame, mia fia. N\u00e3o tinha nem mesmo um bacalhau por perto para fazer um estrago mai\u00f3?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A senhora me fa\u00e7a o favor de n\u00e3o rir. Eu estou me sentindo p\u00e9ssima.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu posso lhe curar da dor de corno ou traz\u00ea de volta o homem que oc\u00ea perdeu. Oc\u00ea iscoe.<\/p>\n\n\n\n<p>Amanda ergueu os olhos. A negra estava sentada no outro catre, cuidadosamente posta no \u00e2ngulo da sombra. De seu rosto, apenas o vago brilho de seus olhos vencia a penumbra da cela. Mas as m\u00e3os brilhavam, calejadas, mas longil\u00edneas, movendo-se o tempo todo, como se manipulassem a realidade a seu prazer.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu queria tanto ter o Rodrigo de volta. De qualquer jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 De quarqu\u00e9 jeito, mia fia? Num \u00e9 mi\u00f3 isquec\u00ea quem j\u00e1 se foi?<\/p>\n\n\n\n<p>Um carcereiro apareceu, destravando a porta da cela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Amanda Gon\u00e7alves, venha. Seu advogado conseguiu-lhe um *habeas corpus*. Vai responder em liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ela se levantou para sair, a velha negra lhe estendeu \u00e0 m\u00e3o um peda\u00e7o de papel cuidadosamente branco e dobrado. Amanda n\u00e3o lhe deu muita aten\u00e7\u00e3o. Era, evidentemente, um n\u00famero de telefone. A velha negra tamb\u00e9m sairia logo. E teria seu consult\u00f3rio sentimental em algum sub\u00farbio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quando ela sai?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quem?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah, n\u00e3o importa.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente em casa, Amanda desdobrou o papel. Nele estava um aljamiado quase indistinto, uma letra t\u00e3o lenta e firme que parecia fazer quase parte do pr\u00f3prio papel. Naquela noite Amanda n\u00e3o se importou com o bilhete, mas no dia seguinte, ao v\u00ea-lo pela segunda vez, as letras pareciam menos amarradas umas nas outras, as linhas menos doloridamente juntas e as frases se destacavam:<\/p>\n\n\n\n<p>&gt; Pague duas garrafas de cacha\u00e7a e uma galinha preta numa encruzilhada, numa sexta-feira de lua nova, \u00e0 meia-noite. Reze sobre tr\u00eas velas vermelhas e sete velas pretas: &#8220;Que o tranca ruas abra os caminhos para que volte quem se foi.&#8221; Quando terminar, derrame tr\u00eas ta\u00e7as de cacha\u00e7a em volta da galinha e v\u00e1 embora sem olhar para tr\u00e1s. Volta a pessoa amada que se foi. Dentro de tr\u00eas dias.<\/p>\n\n\n\n<p>A sexta-feira seguinte seria de lua crescente. Foi uma pena ter que esperar uma semana inteira e mais meia. Nesse tempo Amanda nem se lembrou da preta velha, que talvez ainda apodrecesse na cadeia. &#8220;Que me importa, a velha est\u00fapida me deu a simpatia antes de cobrar. Por que teria que pagar?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Na madrugada do s\u00e1bado da lua nova, retornando para casa, Amanda come\u00e7ou a sentir um frio vento que se enfiava pelas gretas do painel do carro, por mais que a ventila\u00e7\u00e3o estivesse fechada e mesmo sendo ainda fevereiro. Subitamente ouviu um calafrio em sua nuca lhe dizendo que estava feito.<\/p>\n\n\n\n<p>Freou o carro num acostamento prec\u00e1rio e olhou para tr\u00e1s. Obviamente n\u00e3o havia ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Segunda feira, dia maldito. Trabalhou pesada, como se tivesse engolido triplas refei\u00e7\u00f5es de cada vez. O espelho andava cruel, nem tanto pelo peso, mais pelas olheiras e pelo vi\u00e7o partido que ia cada vez mais se esfarelando. &#8220;Maldito Rodrigo, me usou e abusou, me comeu e me bebeu o quanto quis, e me largou no osso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando finalmente o ponto caiu, saiu da sala de contabilidade j\u00e1 vestindo um bolero de renda, louca para chegar em casa e enfiar a cara num travesseiro para chorar de novo. Talvez fosse amor, ou s\u00f3 uma dor de corno mal curada. Oito meses.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava em casa assistindo uma filmagem de f\u00e9rias com Rodrigo em Ilhabela quando ouviu um ru\u00eddo fora. Deveria ter sido a campainha, se fosse algu\u00e9m. Mas, que estranho, trocara a campainha por uma mais ruidosa, melhor para suas ressacas frequentes, e ouvia, mesmo assim, o tilintar suave do sininho de bicicleta que o Rodrigo gaiatamente instalara \u2014 ele e sua mania de reciclar coisas, reaproveitar pequenos peda\u00e7os luxuosos de lixo, evitando que pequenas bobagens bonitas fossem descartadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou-se num sobressalto. Havia no ar um vento estranhamente \u00famido e um ru\u00eddo de unhas na porta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O cachorro do vizinho veio mijar na minha soleira outra vez!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Onde est\u00e1 o viado do teu dono que n\u00e3o te ensina!? \u2014 perguntou Amanda, sem educa\u00e7\u00e3o, abrindo a porta de um golpe s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era nenhum cachorro. Amanda bateu de volta a porta com toda a for\u00e7a que tinha, passou o trinco, tentou arrastar o sof\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Gritava por socorro, mas se socorria, que nunca fora mo\u00e7oila indefesa para cavaleiro andante salvar do drag\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As unhas arranhavam do lado de fora. A umidade parecia aumentar, trazendo um cheiro pantanoso e acre.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 V\u00e1 embora! V\u00e1 embora!<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente Amanda entendeu o pretinho b\u00e1sico que C\u00edntia vestia naquela tarde do supermercado.<\/p>\n\n\n\n<p>A gritaria e os ru\u00eddos come\u00e7aram a atrair curiosos. Gente que abria as portas de seus apartamentos e dava com a cena passava a contribuir com mais gritos para a algazarra que se espalhava pelo nono andar. Vizinhos dos pr\u00e9dios em frente acendiam as luzes. Outros xingavam, amea\u00e7ando com pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>Amanda correu at\u00e9 a cozinha, finalmente se lembrando que o apartamento tinha outra porta.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 estava a preta velha. Sentada numa das cadeiras de palhinha, calmamente tomando um ch\u00e1 que ela mesma preparara, em sil\u00eancio, certamente antes da chegada de Amanda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mia fia t\u00e1 satisfeita?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas que merda \u00e9 essa, senhora?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu ofrici pa lhe cur\u00e1 da dor de corno ou lhe traz\u00ea de vorta quem se fora. E oc\u00ea iscoeu ele de vorta. Eu vim aqui arreceb\u00ea o que oc\u00ea me deve.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mas eu j\u00e1 paguei, conforme o bilhete.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oc\u00ea pagou pro Exu, mas precisa me pagar pelo ensinamento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quando eu disse que o queria de volta eu n\u00e3o sabia! Se soubesse n\u00e3o tinha pedido &#8220;de qualquer maneira&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O que est\u00e1 feito est\u00e1 feito, fia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Nem sei quanto a senhora vai cobrar, mas lhe pago o dobro para ele ir embora e nunca mais voltar!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Est\u00e1 feito, fia.<\/p>\n\n\n\n<p>Passos pesados subiam as escadas, pois os elevadores estavam ocupados por gente desesperada que queria sair. Pol\u00edcia e bombeiros. Acharam o cad\u00e1ver deitado no corredor, inerte como se nunca tivesse sido, desde sua morte prematura, outra coisa que n\u00e3o um cad\u00e1ver. Levaram-no embora. Bateram \u00e0 porta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Senhora Amanda Gon\u00e7alves?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deseja prestar queixa? Tem ideia de quem lhe fez essa piada de mau gosto?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sim. Tenho. Venha comigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Entraram at\u00e9 a cozinha. Mas n\u00e3o havia cadeira de palhinha, nem x\u00edcara de ch\u00e1 e nem preta velha.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edcia foi embora, deixando Amanda com a recomenda\u00e7\u00e3o de comparecer ao distrito no dia seguinte, para dar esclarecimentos e fazer a queixa com mais calma. &#8220;Entendemos que est\u00e1 em estado de choque, e lhe recomendamos que tome um calmante antes de dormir.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, por\u00e9m, Amanda retornou \u00e0 cozinha, percebeu que havia sobre a mesa um outro bilhete, na mesma algaravia: &#8220;O pre\u00e7o era a metade do resto de seus dias.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Amanda levou as m\u00e3os \u00e0 boca, assustada. T\u00e3o assustada que, de repente, deu-se conta de que seu cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o batia, o seu pulm\u00e3o paralisara e que uma vertigem a empurrava para tr\u00e1s, para tr\u00e1s, para dentro de trevas que nenhuma luz jamais rasgaria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo mirou Amanda nos olhos com uma f\u00faria que ela ainda n\u00e3o conhecia. Mas em vez de um tapa ou de um grito ele derramou uma solit\u00e1ria l\u00e1grima enquanto apertava na m\u00e3o um inimigo imagin\u00e1rio, com tanta for\u00e7a que as unhas feriram a palma e os m\u00fasculos retesados demais come\u00e7aram a doer. \u2014 Fica assim, ent\u00e3o, Amanda. \u2014 Voc\u00ea vai se arrepender, Rodrigo. N\u00e3o fa\u00e7a isso comigo. \u2014 N\u00e3o me arrependerei, Amanda. 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