{"id":1415,"date":"2014-02-23T14:21:20","date_gmt":"2014-02-23T17:21:20","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1415"},"modified":"2017-08-13T01:02:30","modified_gmt":"2017-08-13T04:02:30","slug":"a-more-da-escrita-e-a-falta-de-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/02\/a-more-da-escrita-e-a-falta-de-tempo\/","title":{"rendered":"A Morte da Escrita \u00c9 a Falta de Tempo"},"content":{"rendered":"<p>Quando eu era estudante, deparei-me certa vez com uma trova portuguesa, cuja auto\u00adria se perdeu nas trevas, que dizia o seguinte: &#8220;o tempo n\u00e3o me d\u00e1 tempo\/ de bem do tempo fruir \/ e nessa falta de tempo \/ n\u00e3o vejo o tempo fluir&#8221;. Como sempre ocorre quando nos deparamos com verdades que ainda estamos verdes para comer, demo\u00adrei trinta anos para come\u00e7ar a digerir estes quatro versos singelos.<\/p>\n<p>A tristeza do escritor \u00e9 a de n\u00e3o ter tempo para escrever, n\u00e3o poder desenvolver as ideias que fervem na sua mente, e ao mesmo tempo n\u00e3o perceber que o tempo ine\u00adxo\u00adravelmente se esgota, sem que a obra prima seja completa, o reconheci\u00admento venha e torne-se poss\u00edvel a frui\u00e7\u00e3o da vida segundo o sonho. Mas n\u00e3o se limita a isso a tal tristeza. Gradualmente percebemos que n\u00e3o nos sobra tampouco o tempo para fruir de coisas que apenas nos dariam prazer. \u00c9 como se o mundo em torno de n\u00f3s conspire sempre contra o prazer e o \u00f3cio, que s\u00e3o a ess\u00eancia da atividade liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Entre os prazeres citados est\u00e1 o da descoberta. Contrariamente ao que pensam mui\u00adtos jovens que acham que s\u00e3o escritores s\u00f3 porque escrevem, h\u00e1 no escritor um prazer de achar o novo. Qualquer novidade sempre representa uma oportunidade para aprender o ainda ignorado, para aperfei\u00e7oar algo que ainda \u00e9 incipiente, para superar o que j\u00e1 deveria estar esquecido. A descoberta \u00e9 um processo que pode ser longo: muitos autores preferem inves\u00adtir d\u00e9cadas descobrindo antes de come\u00e7arem a escrever, mas h\u00e1 outros que fazem dela uma ferramenta de progresso depos que j\u00e1 come\u00e7aram, e h\u00e1 os que a temem porque toda desco\u00adberta amea\u00e7a um preconceito.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou melhor do que ningu\u00e9m (de fato sou at\u00e9 pior que muitos), mas amo este prazer pequeno de me deparar com coisas diferentes. Muitas foram as vezes em que eu paralisei a minha vida por horas, ou at\u00e9 dias, embevecido na contempla\u00e7\u00e3o de novidades, algumas at\u00e9 singelas. Lembro-me de maratonas de leitura de autores novos, em que mergulhava em universos alheios e esquecia at\u00e9 mesmo a hora do almo\u00e7o. Foi assim que li Stanislaw Lem, Philip K. Dick, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Carvalho, Robert A. Heinlein, Jos\u00e9 Lins do Rego, Manuel Ant\u00f4nio de Almeida, E\u00e7a de Queir\u00f3s, Joaquim Manuel de Macedo, Lima Barreto, H. P. Lovecraft e Nikolai G\u00f3gol. Lembro-me de filmes que me deixaram em verdadeiro estado catat\u00f4nico: RoboCop, 2001: Uma Odisseia no Espa\u00e7o, Pers\u00e9polis, Boniti\u00adnha mas Ordin\u00e1ria, Stalker.<\/p>\n<p>Mas o tempo, que n\u00e3o me d\u00e1 tempo de bem dele fruir, tem cada vez conspirado mais con\u00adtra esses pequenos prazeres educativos. Trabalhando agora de oito \u00e0s dezoito, de segunda \u00e0 sexta-feira, sobra-me pouco est\u00f4mago, aos quarenta e um anos, para digerir a montanha de novidades interessantes com que o mundo me cumprimenta todos os dias. Nessa situa\u00ad\u00e7\u00e3o, \u00e9 natural que se comece a escolher com cautela. Em vez de me atirar nos bra\u00e7os de toda not\u00edcia, tento adivinhar, sei l\u00e1 como, quais merecem minutos de meu escasso tempo. \u00c9 uma escolha arriscada, mais baseada em preconceito ou achismo do que em m\u00e9todo. Mui\u00adtas vezes a escolhe \u00e9 feita com base na reputa\u00e7\u00e3o do amigo que indica, mas o amigo pode ter indicado por causa de outro amigo, que eu n\u00e3o conhe\u00e7o, e o resultado \u00e9 que, de fato, eu estou apenas limitando minha exposi\u00e7\u00e3o ao novo, mas sem nenhum par\u00e2metro.<\/p>\n<div id=\"attachment_1418\" style=\"width: 305px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1418\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/71C34hi3DQL._SY300_.jpg\" alt=\"Monty Cantsin: Ahora Neoismus\" width=\"295\" height=\"300\" class=\"size-full wp-image-1418\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/71C34hi3DQL._SY300_.jpg 295w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/71C34hi3DQL._SY300_-120x122.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/71C34hi3DQL._SY300_-250x254.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 295px) 100vw, 295px\" \/><p id=\"caption-attachment-1418\" class=\"wp-caption-text\">Monty Cantsin: Ahora Neoismus<\/p><\/div>\n<p>Ontem tive a percep\u00e7\u00e3o exata da crueldade disto quando, num momento de pura falta do que fazer, sob o imp\u00e9rio de uma densa pregui\u00e7a mental, resolvi clicar num link oferecido por um amigo que tem por h\u00e1bito me indicar coisas insanas que nem sempre me agradam. Da \u00faltima vez que cliquei num link dele eu vi um [videoclipe](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bjjuc5v5RoQ) de m\u00fasica dan\u00e7ante em dese\u00adnho animado, envolvendo um cavaleiro ingl\u00eas, uma camponesa, lambidas em um cavalo e uma m\u00fasica chiclete dif\u00edcil de tolerar. Mas este clipe era diferente.<\/p>\n<p>A come\u00e7ar pelo t\u00edtulo &#8220;Monty Cantsin \u2013 I Believe in Neoism&#8221;, parte de um \u00e1lbum intitu\u00adlado &#8220;Ahora Neoismus&#8221;. A imagem de capa suge\u00adrindo vagamente o realismo socialista, de uma forma ali\u00e1s an\u00e1loga \u00e0 do &#8220;Little Red Record&#8221; (Pequena Grava\u00e7\u00e3o Vermelha, \u00e1lbum lan\u00e7ado pelo grupo progressivo ingl\u00eas Matching Mole em 1973). Por incr\u00edvel que pare\u00e7a eu, um razo\u00e1vel conhecedor da iconografia socialista e dotado de alguma no\u00e7\u00e3o dos movi\u00admentos vanguardistas do in\u00edcio do s\u00e9culo passado, n\u00e3o dei aten\u00e7\u00e3o inicial ao compartilha\u00admento de meu amigo.<\/p>\n<div id=\"attachment_1419\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1419\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/cover_3222122272009-300x300.jpg\" alt=\"Matching Mole: Little Red Record\" width=\"300\" height=\"300\" class=\"size-medium wp-image-1419\" \/><p id=\"caption-attachment-1419\" class=\"wp-caption-text\">Matching Mole: Little Red Record<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 evidente nos dois casos o tom de s\u00e1tira a \u00edcones da cultura esquerdista pop. A influ\u00eancia \u00f3bvia do &#8220;Little Red Record&#8221; (t\u00edtulo que em si satiriza o &#8220;Livrinho Vermelho&#8221;, de Mao Tse Tung) \u00e9 o realismo socialista stalinista, mas Monty Cantsin parece misturar um pouco disso, via iconografia norte coreana, com doses de visual otaku e k-pop. N\u00e3o tenho uma cultura visual suficiente para decodificar todas as refer\u00eancias, e espero que nos coment\u00e1\u00adrios os meus leitores me ajudem a esclarecer melhor.<\/p>\n<p>Quando finalmente topei clicar no link, espantei-me ao ouvir uma longa s\u00e9rie de aplausos, com um efeito de eco, como se estivesse em um est\u00e1dio, depois, adicionou-se sobre ela uma esp\u00e9cie de discurso que parecia pol\u00edtico, que soava como Hitler em Nuremberg, ou como St\u00e1lin falando pelo r\u00e1dio, ou Get\u00falio Vargas. Um discurso pol\u00edtico antiquado na ento\u00adna\u00e7\u00e3o, mas estra\u00adnha\u00admente incongruente em seu conte\u00fado, que \u00e9 dif\u00edcil de traduzir jus\u00adtamente por ser vazio de todo conte\u00fado, como um poema dada\u00edsta, ou um discurso popu\u00adlista de governo tota\u00adlit\u00e1rio, que come\u00e7a parecendo ter algum sentido, mas vai der\u00adre\u00adtendo a cada frase, at\u00e9 se transfor\u00admar em uma balb\u00fardia rid\u00edcula.<\/p>\n<p>> People, here I am standing in front of you and standing with<br \/>\n> you, people. You are part of me, and I\u2019m telling you to this<br \/>\n> day:  without me life has no meaning and I\u2019m the best friend<br \/>\n> you\u2019ll  ever  have.  I\u2019ve come to touch myself:  No! No! No!<br \/>\n> I\u2019ll never touch myself [\u2026] Do you want to know what time is<br \/>\n> it?  No!  What time is it?  I am  surprised now to hear this<br \/>\n> question.  What time is it? Can you tell me what time is it?<br \/>\n> Have  you  the time? Tell me, \u2018cos I never watch that clock.<br \/>\n> Time is a &#8220;figmention.&#8221;  I never watch that clock, but I can<br \/>\n> tell you what time is it because there is only one important<br \/>\n> time in our lives.  Six o\u2019clock.  Yes, in our land is always<br \/>\n> six  o\u2019clock.  It\u2019s  six  o\u2019clock  sharp.   Six  o\u2019clock  is<br \/>\n> happi\u00adness. Six o\u2019clock means love, joy. Six o\u2019clock is total<br \/>\n> freedom.  Six o\u2019clock  is  when you do what you like.  Ahora<br \/>\n> neoismus.  Ahora neoismus.  You don\u2019t  need the  clock,  you<br \/>\n> don\u2019t need your watch \u2026 <\/p>\n<p>Quando terminei de ouvir a faixa eu estava mudado. Sob a capa de aparente imbecilidade parece haver pulsando algo que faz sentido. Estava determinado a descobrir mais sobre Monty Cantsin e o neo\u00edsmo, seja l\u00e1 o que isso for. E esta busca ocupou o resto do meu s\u00e1bado e um peda\u00e7o do meu domingo. Uma descoberta nova, coisa que raramente acon\u00adtece comigo nesta fase vazia da minha vida. \u00c9 uma pena que eu n\u00e3o tenha muito tempo para aprender mais, que os frutos do tempo estejam passados e eu n\u00e3o tenha conseguido tudo o que queria. A morte da escrita \u00e9 a falta de tempo. Se ele falta, falta a vida, falta a descoberta, e sobre o nada n\u00e3o se escreve nada que mere\u00e7a ser lido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu era estudante, deparei-me certa vez com uma trova portuguesa, cuja auto\u00adria se perdeu nas trevas, que dizia o seguinte: &#8220;o tempo n\u00e3o me d\u00e1 tempo\/ de bem do tempo fruir \/ e nessa falta de tempo \/ n\u00e3o vejo o tempo fluir&#8221;. Como sempre ocorre quando nos deparamos com verdades que ainda estamos verdes para comer, demo\u00adrei trinta anos para come\u00e7ar a digerir estes quatro versos singelos. 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