{"id":142,"date":"2012-06-30T09:00:00","date_gmt":"2012-06-30T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=142"},"modified":"2017-11-02T14:08:58","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:58","slug":"a-falta-que-faz-a-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/06\/a-falta-que-faz-a-educacao\/","title":{"rendered":"A Falta que Faz a Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o me refiro \u00e0 educa\u00e7\u00e3o escolar, essa que sucessivos governos parecem querer dificultar, mas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 e humana, que cabe \u00e0s fam\u00edlias e a cada um de n\u00f3s. Esta \u00e9 a que faz mais falta, porque se trata da que n\u00e3o precisa de grandes investimentos, nem de grandes constru\u00e7\u00f5es. N\u00e3o dispende energia, n\u00e3o move terras e c\u00e9us, n\u00e3o cria d\u00edvidas e nem polui. N\u00e3o custa livros, n\u00e3o consome dinheiro, n\u00e3o requer transporte. Mas apesar de ser t\u00e3o barata em termos econ\u00f4micos, \u00e9 car\u00edssima em termos de cuidado e de carinho \u2014 e cuidado e carinho parecem ser justamente os insumos que mais est\u00e3o em falta no mundo do tchu e do tcha, do tchan e do Tel\u00f2. Tem muita gente por a\u00ed que sabe fazer o lelel\u00ea, mas nada mais.<\/p>\n<p>Tudo isso me vem \u00e0 mente depois de ter ido assistir \u00e0 festinha junina da escola da minha filha mais velha.<\/p>\n<p>O evento at\u00e9 que foi bem organizado: tinha seguran\u00e7as, som profissional, cantina produzindo os salgados fresquinhos, o guich\u00ea de fichinhas tinha troco, os banheiros eram bons e as crian\u00e7as estavam muito bem ensaiadinhas. Vergonha foram os pais.<\/p>\n<p>Apesar de ser evidente a falta de espa\u00e7o do recinto, logo no come\u00e7o se verificou que um canto da quadra, mais pr\u00f3ximo da entrada, ficou atolado de gente, enquanto o canto oposto ficava vazio. Todo mundo querendo pegar o &#8220;melhor lugar&#8221; se amontoava junto \u00e0 passagem, impedindo a entrada e sa\u00edda dos outros, de modo que n\u00e3o apenas era dif\u00edcil aos rec\u00e9m chegados verem seus filhos dan\u00e7ando a quadrilha, mas era tamb\u00e9m dif\u00edcil para quem j\u00e1 estava conseguir enxergar alguma coisa atrav\u00e9s do mar de cabe\u00e7as e bra\u00e7os erguidos com c\u00e2meras desesperadas para tirar uma foto qualquer.<\/p>\n<p>Sucessivos pedidos da dire\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do microfone foram em v\u00e3o: ningu\u00e9m se movia e a muvuca aumentava. Come\u00e7ou a haver acotovelamentos, algu\u00e9m xingou palavr\u00f5es altos (em um ambiente escolar, numa festinha de crian\u00e7as, por J\u00fapiter!). Somente quando a diretora amea\u00e7ou pedir aos seguran\u00e7as que abrissem caminho foi que alguns &#8220;educados&#8221; concordaram em desobstruir a entrada e passar para os fundos da quadra.<\/p>\n<p>A luta seguinte foi para retirar de dentro da pr\u00f3pria quadra os pais desesperados por fotos dos filhos dan\u00e7ando. Tanta gente tinha entrado l\u00e1 com c\u00e2mera na m\u00e3o e merda na cabe\u00e7a que n\u00e3o havia espa\u00e7o para as crian\u00e7as dan\u00e7arem. Novamente foram necess\u00e1rios apelos repetidos da dire\u00e7\u00e3o da escola e os pais s\u00f3 se tocaram de l\u00e1 quando novamente se amea\u00e7ou chamar os seguran\u00e7as.<\/p>\n<p>Liberada a quadra, a dire\u00e7\u00e3o da escola, desistiu de tentar organizar o resto, pois j\u00e1 havia dito algumas coisas bem pouco elogiosas na tentativa de convencer os pais a abrirem espa\u00e7o \u2014 como, por exemplo, sugerir que eles precisavam dar exemplo para seus filhos ou que a escola era um ambiente de respeito e n\u00e3o um lugar para se dizer palavras chulas e cometer agress\u00f5es. O resultado foi um verdadeiro caos em torno da quadra, com gente se empurrando e se embicando como dava. H\u00e1 um antigo axioma da ci\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o que diz que para todo corredor estreito existe um imbecil disposto a empilhar coisas l\u00e1, ou obstru\u00ed-lo ele mesmo. Havia muitos destes no local, que, em vez de procurarem um lugar amplo para manter sua conversa ou paquera, ficavam parados no corredor, ainda por cima fazendo cara feia para quem vinha tentando passar. E cada turma que conclu\u00eda seu turno na quadrilha gerava um tropel de crian\u00e7as e pais que se espremiam pelas passagens apertadas com o desespero de quem est\u00e1 prestes a cagar nas cal\u00e7as. Essa era a hora em que os imbecis do corredor se sentiam pisoteados ou acotovelados e xingavam ou reclamavam da falta de educa\u00e7\u00e3o alheia.<\/p>\n<p>Nos lugares amplos a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era muito melhor. Onde n\u00e3o houvesse luz direta havia casais dando amassos. Caramba! Em um ambiente escolar? Por que esses animais v\u00e3o se esfregar pelos corredores de uma escola prim\u00e1ria? N\u00e3o d\u00e1 para satisfazer o cio em outro lugar, ou esperar para depois da festinha junina das crian\u00e7as?<\/p>\n<p>Para completar o drama, a escolha das m\u00fasicas foi de uma l\u00e1stima terr\u00edvel. Para uma festa de crian\u00e7as dan\u00e7ando quadrilha resolveram tocar estas porcarias breganejas que s\u00f3 falam de beber cacha\u00e7a, fazer lelel\u00ea, querer tchu e tcha e coisas piores. E a gente que dizia que a Xuxa era uma influ\u00eancia perniciosa para os &#8220;baixinhos&#8221; por causa de seus shortinhos. Que valores est\u00e1 transmitindo uma escola que toca numa festa infantil uma m\u00fasica que diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Ela chega no baile faz a galera delirar<br \/>\n  Mascando chiclete doidinha pra namorar<br \/>\n  De saia curtinha s\u00f3 pra provocar<br \/>\n  E deixa a macharada delirando sem p\u00e1rar<br \/>\n  Ela dan\u00e7a mexe mexe eu n\u00e3o vou aguentar.<\/p>\n<p>Eu vou beber cacha\u00e7a<br \/>\n  Eu vou tomar m\u00e9<br \/>\n  Eu vou encher a cara<br \/>\n  por causa dessa mulher.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Muito educativa esta escolha, para acompanhar a quadrilha das crian\u00e7as do segundo ano, todas na faixa dos sete ou oito anos de idade. Elas v\u00e3o crescer sabendo que a &#8220;macharada&#8221; delira sem parar quando uma mulher chega de sainha curta no baile, &#8220;doidinha para namorar&#8221;, e que para isso a referida &#8220;macharada&#8221; vai tomar cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu poderia escrever vinte p\u00e1ginas de lamentos sobre as coisas que pensei e senti, mas chega que me d\u00e1 nojo. Alguns v\u00e3o dizer que minha reclama\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;puritana&#8221; e que &#8220;\u00e9 isso que as crian\u00e7as encontram na sociedade em que vivem&#8221;, mas a escola n\u00e3o \u00e9 &#8220;a sociedade&#8221;, ela precisa ser, e deveria ao menos pretender ser, um microcosmo de excel\u00eancia, um lugar melhor do que a sociedade, onde se ensina aos pequenos um mundo ideal, que sonhamos que exista para eles, j\u00e1 que n\u00e3o existiu para n\u00f3s. N\u00e3o \u00e9 lugar de endossar o m\u00e9 que a &#8220;macharada&#8221; toma por causa de mulheres doidas de sainha curta, mas de ensinar justamente estas crian\u00e7as a perceberem a brutalidade, a grossura e a estupidez que s\u00e3o necess\u00e1rias para que uma pessoa conviva com essa m\u00fasica sem revoltar-se.<\/p>\n<p>Enquanto nossa escola toca nas festinhas juninas infantis uma trilha sonora que n\u00e3o tocava nem em puteiro at\u00e9 h\u00e1 bem poucos anos, as verdadeiras tradi\u00e7\u00f5es juninas s\u00e3o esquecidas: as crian\u00e7as dan\u00e7aram em estilo <i>country<\/i>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o me refiro \u00e0 educa\u00e7\u00e3o escolar, essa que sucessivos governos parecem querer dificultar, mas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 e humana, que cabe \u00e0s fam\u00edlias e a cada um de n\u00f3s. Esta \u00e9 a que faz mais falta, porque se trata da que n\u00e3o precisa de grandes investimentos, nem de grandes constru\u00e7\u00f5es. N\u00e3o dispende energia, n\u00e3o move terras e c\u00e9us, n\u00e3o cria d\u00edvidas e nem polui. N\u00e3o custa livros, n\u00e3o consome dinheiro, n\u00e3o requer transporte. 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