{"id":1428,"date":"2014-02-27T14:27:35","date_gmt":"2014-02-27T17:27:35","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1428"},"modified":"2017-11-02T14:08:15","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:15","slug":"aquilo-que-nao-se-ve","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/02\/aquilo-que-nao-se-ve\/","title":{"rendered":"Aquilo que N\u00e3o se V\u00ea"},"content":{"rendered":"<p>Esta semana, entre tantos acontecimentos escabrosos merecedores de meu espanto, me marcou mais por um acontecimento que parecia um final feliz, mas foi mais chocante que muita execu\u00e7\u00e3o: refiro-me \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o do ator e representante comercial Vin\u00edcius Rom\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_1429\" style=\"width: 240px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/romao.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1429\" src=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/romao-245x300.png\" alt=\"Antes de Ser Preso\" width=\"230\" class=\"size-medium wp-image-1429\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/romao-245x300.png 245w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/romao-120x147.png 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/romao.png 265w\" sizes=\"(max-width: 245px) 100vw, 245px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1429\" class=\"wp-caption-text\">Vin\u00edcius Rom\u00e3o antes de ser preso<\/p><\/div>\n<p>Assisti a sua entrevista ap\u00f3s libertado e fiquei profundamente chocado com a <em>transforma\u00e7\u00e3o<\/em> por ele sofrida no processo, transforma\u00e7\u00e3o reveladora de muitas coisas que a TV n\u00e3o diz, para tentar lhe convencer que existem finais felizes. A transforma\u00e7\u00e3o a que me refiro n\u00e3o \u00e9 exclusivamente f\u00edsica, se bem que seja fisicamente vis\u00edvel.  Veja-a por si mesmo.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o entre as duas imagens (antes de ser preso e depois de solto) \u00e9 t\u00e3o eloquente que praticamente n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dizer coisa alguma. Mas como h\u00e1 pessoas no mundo que n\u00e3o conseguem ter empatia, tentarei explicar as minhas impress\u00f5es, para o benef\u00edcio dos que sofrem de tal defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois de quinze dias no sistema penitenci\u00e1rio carioca, at\u00e9 se provar, finalmente, que a sua pris\u00e3o fora um engano, este foi o Vin\u00edcius Rom\u00e3o que saiu:<\/p>\n<div id=\"attachment_1430\" style=\"width: 240px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/romao2.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1430\" src=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/romao2-200x300.png\" alt=\"Ap\u00f3s ser solto\" width=\"230\" class=\"size-medium wp-image-1430\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/romao2-200x300.png 200w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/romao2-100x150.png 100w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/romao2.png 256w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1430\" class=\"wp-caption-text\">Vin\u00edcius Rom\u00e3o libertado<\/p><\/div>\n<p>Antes de ser preso, Vin\u00edcius era uma pessoa normal e ing\u00eanua (aqui emprego o termo no seu sentido mais profundo e original, o de quem nasceu livre e jamais esteve submetido \u00e0 servid\u00e3o). Sua foto exibe um sorriso largo, express\u00e3o da vida feliz que levava, uma vasta cabeleira afro, distintivo do orgulho de sua cor, em um mundo onde o negro ainda n\u00e3o \u00e9 aceito plenamente. A exibi\u00e7\u00e3o do uniforme do Flamengo \u00e9 um distintivo ing\u00eanuo de cidadania: uma torcida \u00e9 uma inst\u00e2ncia c\u00edvica na qual todos est\u00e3o igualados. O Vin\u00edcius de antes da pris\u00e3o \u00e9 um homem negro que se julga plenamente inserido na sociedade e apto para sobreviver nela, apesar de algum desconforto ocasional.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o lhe sobrev\u00e9m a absurda pris\u00e3o. Apesar de vestido com roupa diferente (conforme evidenciado pelas imagens das c\u00e2meras de seguran\u00e7a) ele \u00e9 identificado como o autor de um roubo, embora esteja desarmado e n\u00e3o traga consigo o que foi subtra\u00eddo \u00e0 v\u00edtima. A pol\u00edcia n\u00e3o investiga, apenas o despeja numa cela, sem dar-lhe chance de defesa. A justi\u00e7a n\u00e3o o ouve, apenas avaliza o justi\u00e7amento pr\u00e9vio praticado pelos gendarmes. Quinze dias ele permanece na pris\u00e3o, apesar da v\u00edtima j\u00e1 ter se dado conta do engano (ela supostamente leva quinze dias a conseguir dinheiro para uma passagem de \u00f4nibus at\u00e9 a delegacia para retratar-se da acusa\u00e7\u00e3o). Na certa ela imaginou, no come\u00e7o, quando o caso ainda n\u00e3o federa nas redes sociais, que Vin\u00edcius, se n\u00e3o fosse culpado de seu roubo espec\u00edfico, teria de ser culpado de algum outro, pois <em>negros s\u00f3 andam \u00e0 noite pela rua pensando em roubar.<\/em><\/p>\n<p>Se Vin\u00edcius n\u00e3o fosse ator de televis\u00e3o e uma subcelebridade, amigo de pessoas famosas e algumas delas influentes, ele seria deixado na cela de uma cadeia de sub\u00farbio, junto com outros quinze homens, alguns deles, como ele mesmo disse na entrevista, t\u00e3o injusti\u00e7ados quanto ele pr\u00f3prio. Mas Vin\u00edcius deu sorte de ter trabalhado na televis\u00e3o e ter feito os amigos certos. Isto o salvou de ser esquecido no lixo como um Jean Valjean tupiniquim.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, gra\u00e7as ao movimento iniciado por seus amigos, e viralizado pela sua vaga conex\u00e3o com a televis\u00e3o, Vin\u00edcius \u00e9 libertado e agora est\u00e1 a caminho de ser absolvido de uma acusa\u00e7\u00e3o que sequer deveria ter sido feita.<\/p>\n<p>Quando ele sai da pris\u00e3o, vemos no seu rosto as marcas brutalizantes da experi\u00eancia por que passou, e que ele provavelmente negar\u00e1 ter passado. O cabelo afro foi raspado descuidadamente a m\u00e1quina, deixando tufos irregulares como o daqueles pobres haitianos e africanos que a gente v\u00ea nas trag\u00e9dias. Est\u00e1 mais magro, o rosto ficou macilento,  a pele adquiriu uma estranha palidez (sim, negros empalidecem). Mas a maior mudan\u00e7a est\u00e1 em seu olhar. Reparem na diferen\u00e7a do olhar do Vin\u00edcius livre, ing\u00eanuo (repito que a palavra aqui est\u00e1 usada no sentido primitivo, romano) para o olhar do Vin\u00edcius liberto. H\u00e1 uma diferen\u00e7a abissal entre ser livre e ser liberto.<\/p>\n<p>O olhar do Vin\u00edcius liberto cont\u00e9m s\u00e9culos de sofrimento e enigma. \u00c9 o olhar de um Sans\u00e3o barbeado. \u00c9 o mesmo olhar vidrado dos marginalizados que sofrem pelas ruas e que, \u00e0s vezes, nos incomodam com a sua exist\u00eancia. O primeiro Vin\u00edcius era um cara com quem voc\u00ea tranquilamente tomaria um chope depois do trabalho, falando dos gols do meng\u00e3o (eu n\u00e3o sou flamenguista, mas alguns de meus leitores s\u00e3o, ent\u00e3o est\u00e1 valendo o contexto). Mas o segundo \u00e9 um cara que, se voc\u00ea o v\u00ea na rua, ainda mais assim vestido, voc\u00ea pensa em atravessar, engole em seco se n\u00e3o puder pelo menos se afastar, tenta se lembrar em quais bolsos distribuiu o dinheiro etc.<\/p>\n<p>Tudo o que foi preciso para transformar o primeiro Vin\u00edcius no segundo foi uma pris\u00e3o arbitr\u00e1ria, quinze dias de humilha\u00e7\u00f5es em um sistema penitenci\u00e1rio que n\u00e3o \u00e9 feito para o bem da sociedade, mas para algum tipo de puni\u00e7\u00e3o medieval e ineficaz. Tudo o que foi preciso foi <em>botar esse negro em seu lugar<\/em>. Subitamente, Vin\u00edcius, o homem livre, percebe que a sociedade o trata apenas como um &#8220;liberto&#8221;, algu\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 originariamente detentor de direitos, mas que os adquiriu condicionadamente. Vin\u00edcius enxergou onde a sociedade acha que \u00e9 o seu lugar. Ver-se nessa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 o que mudou o olhar de Vin\u00edcius.<\/p>\n<p>N\u00e3o, eu n\u00e3o espero que Vin\u00edcius jamais admita a verdade de qualquer frase que eu disse. Eu n\u00e3o sou negro, eu n\u00e3o pretendo entender a dor dos negros mais do que eles mesmos. Mas eu tenho empatia. Eu me pus na pele dele. Eu j\u00e1 sofri injusti\u00e7as. Eu j\u00e1 vi pessoas que eu amo sofrerem injusti\u00e7as. Eu posso calcular o impacto que a injusti\u00e7a exerce sobre a mente do cidad\u00e3o que se cr\u00ea livre em uma sociedade livre. Eu compreendi a diferen\u00e7a entre ser livre e ser liberto.<\/p>\n<p>Mas eu espero que voc\u00ea que me l\u00ea reflita sobre o tipo de sociedade que prende um homem mediante uma acusa\u00e7\u00e3o isolada, que o submete nesse \u00ednterim a um processo de desumaniza\u00e7\u00e3o que o emagrece, empalidece e embrutece.  E espero que voc\u00ea se pergunte qual \u00e9  a circunst\u00e2ncia espec\u00edfica que transforma um jovem comum e inocente (de p\u00e9ssimo gosto, v\u00e1 l\u00e1, por ser flamenguista, mas isso n\u00e3o \u00e9 crime, embora devesse ser&hellip;) em uma pessoa que merece ser presa e s\u00f3 pode ser libertada ap\u00f3s uma mobiliza\u00e7\u00e3o p\u00fablica de milhares de pessoas. Uma pessoa o p\u00f4s na cadeia, foram necess\u00e1rias milhares para tir\u00e1-lo.<\/p>\n<p>E eu n\u00e3o quero nem pensar no que teria acontecido se a mulher o tivesse acusado tamb\u00e9m de agress\u00e3o sexual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana, entre tantos acontecimentos escabrosos merecedores de meu espanto, me marcou mais por um acontecimento que parecia um final feliz, mas foi mais chocante que muita execu\u00e7\u00e3o: refiro-me \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o do ator e representante comercial Vin\u00edcius Rom\u00e3o. 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