{"id":1437,"date":"2014-03-02T11:53:54","date_gmt":"2014-03-02T14:53:54","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1437"},"modified":"2017-11-02T14:08:15","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:15","slug":"injustica-poetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/03\/injustica-poetica\/","title":{"rendered":"Injusti\u00e7a Po\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p>Escutei as sirenes logo abaixo da minha janela e me levantei para ver. Continuava em sil\u00eancio a casa do outro lado da rua. Tinha estado assim durante os \u00faltimos doze minutos, contados no rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>O policial apeou da viatura e foi at\u00e9 a porta, que dava diretamente sobre a cal\u00e7ada. Bateu sem educa\u00e7\u00e3o, conforme a situa\u00e7\u00e3o exigia. Ningu\u00e9m respondeu, as luzes continuaram apagadas.<\/p>\n<p>\u2014 Abra essa porta, ou vamos soprar, soprar\u2026<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>\u2014 O que aconteceu com voc\u00ea, querida?<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o respondia. Tim\u00f3teo estapeou-lhe o rosto na esperan\u00e7a de reaviv\u00e1-la, mas ela continuou com apar\u00eancia cadav\u00e9rica.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3, merda!<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>A menina corria descal\u00e7a pela rua.<\/p>\n<p>\u2014 Tio, chama a pol\u00edcia para a mam\u00e3e! Chama a pol\u00edcia para a mam\u00e3e!<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>\u2014 Olha o que voc\u00eas fizeram, seus filhos de uma puta!<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e3os para o alto, seu bosta!<\/p>\n<p>Tim\u00f3teo n\u00e3o as quis p\u00f4r ao alto. Que o levassem \u00e0 for\u00e7a, se quisessem, mas n\u00e3o se renderia \u00e0 culpa.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o fiz nada! Eu n\u00e3o fiz nada!<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>Os gritos e ru\u00eddos de madeira quebrando come\u00e7aram por volta de dez da noite. Mais altos do que os gritos da torcida na televis\u00e3o. Esqueci o jogo e cheguei \u00e0 janela. Ouviu-se um tiro.<\/p>\n<p>\u2014 Veado! Miser\u00e1vel!<\/p>\n<p>\u2014 Vadia! Vai se foder! Vai me pagar agora!<\/p>\n<p>Um tamborete de madeira voou pela janela de vitr\u00f4 e foi parar na cal\u00e7ada. Logo em seguida um corpinho esqu\u00e1lido saltou pelo buraco aberto, milagrosamente n\u00e3o se cortando nos cacos, a t\u00edpica agilidade do medo.<\/p>\n<p>Eu estava com a cabe\u00e7a cheia de \u00e1lcool e enxergava a realidade atrav\u00e9s de um aqu\u00e1rio enquanto Luzia, ainda dormindo ao meu lado, dormia o sonho dos anjinhos pelados.<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>Os policiais se entreolharam e fizeram um gesto de cabe\u00e7a. Recuaram para derrubar a porta. Ouviu-se um estalo de tiro dentro da casa. Os policiais n\u00e3o pestanejaram e atiraram quatro vezes atrav\u00e9s da porta antes de saltarem sobre ela, transformando-a em lascas.<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>\u2014 Como p\u00f4de fazer isso comigo, Marta?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei do que est\u00e1 falando?<\/p>\n<p>\u2014 Como? Como? O que \u00e9 isso aqui?<\/p>\n<p>E atirou um ma\u00e7o de cartas e fotos sobre a mesa.<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>\u2014 Tio, tio! Chama a pol\u00edcia para a mam\u00e3e.<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>De repente senti os l\u00e1bios de Luzia me convidando de volta.<\/p>\n<p>\u2014 P\u00e9ra, Luzia.<\/p>\n<p>\u2014 O que?<\/p>\n<p>\u2014 Tem uma merda qualquer acontecendo na casa em frente?<\/p>\n<p>\u2014 E voc\u00ea quer ver merda? Vou virar para o canto, at\u00e9 amanh\u00e3!<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>\u2014 Ah, \u00e9 disso que est\u00e1 falando?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, \u00e9 disso que eu estou falando! Quem \u00e9 esse tal de Artur?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o meu namorado, Tim\u00f3teo.<\/p>\n<p>Ele se sentou, com as m\u00e3os na testa.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea me disse que s\u00f3 queria um tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas muita coisa aconteceu nesse tempo.<\/p>\n<p>\u2014 O que vai ser de nossa filha?<\/p>\n<p>\u2014 Uai, nada. Ela vai continuar vivendo uma vida normal. Indo \u00e0 escola.<\/p>\n<p>\u2014 Ela \u00e9 minha filha tamb\u00e9m, Marta.<\/p>\n<p>\u2014 Vai continuar sendo. N\u00e3o tem nenhum problema.<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>Os policiais entraram na casa apontando os rev\u00f3lveres, prontos para atirar. Na cozinha, ca\u00edda de bru\u00e7os, com dois tiros nas costas, jazia Marta numa po\u00e7a de sangue. Encostado \u00e0 parede estava Tim\u00f3teo, apertando com a m\u00e3o esquerda o ombro direito.<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>\u2014 O que houve, menina?<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e n\u00e3o est\u00e1 bem. Chamem a pol\u00edcia para ela. R\u00e1pido, \u00e9 o papai.<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>Luzia se levantou, ent\u00e3o, e se debru\u00e7ou \u00e0 janela comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Pelamordedeus, Luzia, bota uma roupa. Quer que o bairro inteiro fique olhando pros seus peitos?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 interessado, quem sabe algum dos vizinhos interesse?<\/p>\n<p>E se debru\u00e7ou mais ainda, deixando os grandes peitos penderem, ironicamente, sobre o parapeito da janela.<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>\u2014 Papai, n\u00e3o entre \u2014 cochichou a menina.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, filhinha, voc\u00ea ainda n\u00e3o est\u00e1 pronta?<\/p>\n<p>\u2014 Papai, v\u00e1 embora, por favor.<\/p>\n<p>\u2014 Assim voc\u00ea deixa papai triste, D\u00e9bi.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, Tim. J\u00e1 chegou? Entre.<\/p>\n<p>\u2014 O que voc\u00ea tem dito para a menina, Marta? Agora ela n\u00e3o quer ir comigo?<\/p>\n<p>\u2014 Eu, o que eu deveria dizer, seu frouxo?<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>\u2014 Achei o rev\u00f3lver, sargento.<\/p>\n<p>\u2014 Preserve a cena, soldado. Vamos algemar o susp\u2026 Mas que merda \u00e9 essa, \u00f4 filho da puta? Tira essa m\u00e3o da\u00ed!<\/p>\n<p>\u2014 Sargento, ele est\u00e1 ferido.<\/p>\n<p>E Tim\u00f3teo desabou no ch\u00e3o, de cara sobre a po\u00e7a do sangue de Marta.<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>\u2014 Eu disse, tio! Precisava chamar a pol\u00edcia para a mam\u00e3e! Precisava chamar.<\/p>\n<p>A menina entrou num pranto convulsivo quando os socorristas retiraram o seu pai, entubado, para dentro da ambul\u00e2ncia:<\/p>\n<p>\u2014 Papai! Papai! Ent\u00e3o ela fez! Ela fez!<\/p>\n<p>O sargento se aproximou:<\/p>\n<p>\u2014 O que foi, menina? Do que voc\u00ea est\u00e1 falando?<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Infelizmente, menina, chegamos tarde demais. Sua m\u00e3e j\u00e1 tinha sido\u2026 Tarde demais para ela\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o entendeu! Papai!<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea vai poder ver o seu pai depois, querida. Se ainda quiser v\u00ea-lo depois do que ele fez.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o entendeu, pol\u00edcia. O rev\u00f3lver era da mam\u00e3e.<\/p>\n<p><center>\u2026<\/center><\/p>\n<p>No dia seguinte, Artur faltou ao trabalho. Liguei para ele depois do expediente. Ele n\u00e3o sabia que eu era vizinho da Marta, e nem eu sabia que ele andara arrastando a asa para ela:<\/p>\n<p>\u2014 Artur, o que houve contigo? N\u00e3o foi trabalhar, est\u00e1 doente?<\/p>\n<p>\u2014 Doente n\u00e3o. Mas acho que vou ficar.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Cara, a minha namorada, cara. Morreu.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, que\u2026 que puxa! Eu nem sabia que voc\u00ea estava namorando de novo.<\/p>\n<p>\u2014 Pior n\u00e3o \u00e9 isso. Ela tinha dito que era vi\u00fava. Que espanto o jornal de hoje!<\/p>\n<p>\u2014 Artur, Artur. D\u00ea-se por feliz que ela morreu.<\/p>\n<p>Artur n\u00e3o entendeu. Talvez minha frase at\u00e9 abalasse a amizade. Mas eu precisava corrigir uma injusti\u00e7a no mundo, se estivesse ao meu alcance. Pobre Tim\u00f3teo: batera na mulher durante tr\u00eas anos de casamento e nunca fora preso. E agora estava preso por algo que n\u00e3o fizera. Em algum lugar Satan\u00e1s estava gargalhando e patenteando sua nova inven\u00e7\u00e3o, a injusti\u00e7a po\u00e9tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escutei as sirenes logo abaixo da minha janela e me levantei para ver. Continuava em sil\u00eancio a casa do outro lado da rua. Tinha estado assim durante os \u00faltimos doze minutos, contados no rel\u00f3gio. O policial apeou da viatura e foi at\u00e9 a porta, que dava diretamente sobre a cal\u00e7ada. Bateu sem educa\u00e7\u00e3o, conforme a situa\u00e7\u00e3o exigia. 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