{"id":1480,"date":"2014-03-14T23:11:13","date_gmt":"2014-03-15T02:11:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1480"},"modified":"2017-11-02T14:08:14","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:14","slug":"yuri-e-natasha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/03\/yuri-e-natasha\/","title":{"rendered":"Yuri e Natasha"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto pesquisava sobre m\u00fasica sovi\u00e9tica, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele post malu\u00adqui\u00adnho sobre a m\u00fasica do jogo Super Mario World ter sido baseada no Hino da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, fui tendo contato com o universo musical comunista e entendendo como era <em>sufocante<\/em> a vida cultural ent\u00e3o. Certamente nem eu e nem voc\u00ea gostar\u00edamos de viver aquilo. Imaginemos ent\u00e3o o nosso her\u00f3i, o Yuri, um ex\u00edmio guitarrista, que estudou guitarra cl\u00e1ssica no conservat\u00f3rio e atravessou a adolesc\u00eancia ouvindo discos contrabandeados de Black Sabbath, Beatles, Bee Gees, Pink Floyd e outros. Enquanto isso temos sua amada Natasha, que sempre admirou o seu talento e seria o que em termos ocidentais modernos n\u00f3s chamar\u00edamos de &#8220;tiete&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=e3eQdTNGkRw\">O grupo &#8220;Zdravstvuy, pesnya&#8221; tocando um sucesso na televis\u00e3o<\/a><\/p>\n<p>Falemos da m\u00fasica. Para poder exercer a rigorosa censura que havia, o sistema <em>n\u00e3o admitia m\u00fasica ao vivo<\/em>. Tocava-se <em>playback<\/em> em todo lugar, at\u00e9 mesmo em festivais de m\u00fasica e em <em>shows<\/em> &#8220;ao vivo&#8221;. E voc\u00ea a\u00ed reclamando que sua banda favorita fica dublando quando aparece na televis\u00e3o. Imagina que coisa tosca a Natasha em um festival de m\u00fasica, vendo o Yuri e os outros caras dublarem no palco e o som saindo de caixas de som distribu\u00eddas entre as cadeiras da plateia.<\/p>\n<p>Bem, seria mesmo dif\u00edcil imaginar isso porque seria extremamente impro\u00adv\u00e1\u00advel Natasha estar l\u00e1. Como os festivais eram transmitidos ao vivo pela televis\u00e3o, tudo neles era rigidamente controlado e ensaiado. Se os artistas tocavam <em>playback<\/em> no palco, imagine como n\u00e3o era a plateia! Bem, voc\u00ea j\u00e1 deve ter conclu\u00eddo que a plateia era formada por pessoas escolhidas a dedo: membros confi\u00e1veis do partido, devidamente vestidos conforme a moda (as roupas fornecidas pela televis\u00e3o e os penteados e maquiagens devidamente providenciados). Mas a Natasha \u00e9 uma <em>rabotnitsa<\/em> descolada e conseguiu estar na plateia do fes\u00adtival musical de Vladivostok como pr\u00eamio por ter a maior produtividade na f\u00e1brica de motores de caminh\u00e3o onde trabalha. Ent\u00e3o Natasha voou para o Extremo Oriente russo, ganhou um vestido cor de salm\u00e3o, um penteado cheio de laqu\u00ea, um colar de contas de pl\u00e1stico, brincos banhados em prata e uma maquiagem pesada para disfar\u00e7ar suas sardas. E l\u00e1 est\u00e1 Natasha vibrando na plateia quando a banda de seu amado Yuri sobe no palco. Bem, n\u00e3o.<\/p>\n<p>As plateias eram tamb\u00e9m ensaiados sobre quando e como se manifestarem durante as apresenta\u00e7\u00f5es (geralmente o &#8220;quando&#8221; era <em>nunca<\/em>) e como e quanto aplaudirem ap\u00f3s. As cenas hist\u00e9ricas da <em>beatlemania<\/em> nunca aconteceriam na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Nos <em>shows<\/em> ao vivo, em pra\u00e7a p\u00fablica ou est\u00e1dios, sendo mais dif\u00edcil escolher a plateia a dedo, o rem\u00e9dio era infiltrar pol\u00edcia \u00e0 paisana, e como consequ\u00eancia era mais f\u00e1cil ser investigado por mascar chicletes durante um show de m\u00fasica do que por ser iniciado entre os &#8220;bandidos segundo a lei&#8221; (os mafiosos sovi\u00e9ticos). Uma consequ\u00eancia pitoresca deste uso do <em>playback<\/em> era que os fios e amplificadores dos instrumentos eram praticamente desneces\u00ads\u00e1rios. O que, obviamente, significava que eles <em>nem seriam postos no palco<\/em>, para economizar alguns preciosos rublos.<\/p>\n<p>A vida para Yuri, por sua vez, n\u00e3o era f\u00e1cil. Come\u00e7ando pelo fato de que os m\u00fasicos n\u00e3o tinham o direito de compor a pr\u00f3pria m\u00fasica. Havia um sin\u00addi\u00adcato de m\u00fasicos e um sindicato de compositores. Te\u00f3rica, mas raramente, era poss\u00edvel ser membro de ambos. Somente compositores licenciados podiam compor \u2014 e mesmo assim as suas obras eram censuradas previa\u00admente. S\u00f3 depois de devidamente aprovadas as composi\u00e7\u00f5es ficavam dispon\u00edveis para grava\u00e7\u00e3o, e quem definia quem gravaria as obras aprovadas n\u00e3o eram os m\u00fasi\u00adcos, mas os seus produtores, que, logicamente, eram mem\u00adbros de uma terceira guilda. Os melhores produtores obtinham para seus pupilos as melhores com\u00adpo\u00adsi\u00e7\u00f5es, mesmo que tivessem sido compostas por gente que a banda nem conhecia. Te\u00f3rica, mas raramente, uma mesma pessoa podia estar licenciada simultaneamente nos tr\u00eas papeis, mas nesse caso ela quase certamente tocaria em uma banda, produziria outra e comporia sabe Deus para qual.<\/p>\n<p>O resultado disso \u00e9 que os m\u00fasicos tinham um envolvimento emocional pr\u00f3ximo de zero com aquilo que estavam cantando (o que explica as caras &#8220;de madeira&#8221; que vemos nos videoclipes da \u00e9poca). Yuri, por exemplo, ficava extremamente frustrado porque s\u00f3 poderia tentar divulgar sua m\u00fasica se a publicasse atrav\u00e9s de um compositor autorizado, que seria automaticamente considerado seu &#8220;parceiro&#8221; mesmo que nada fizesse. Havia, efetivamente, m\u00fasicos autorizados que nada faziam a n\u00e3o ser publicar m\u00fasicas dos outros. Alguns deles eram ver\u00addadeiros escroques, mas muitos eram pessoas de boa f\u00e9, que emprestavam o pr\u00f3prio nome para que a m\u00fasica de autores proibidos fosse tocada, e repas\u00adsa\u00advam os royalties destas composi\u00e7\u00f5es aos seus verdadeiros autores. Estes caras, inclusive, inspiraram a ideia dos &#8220;coletivos criativos&#8221; presentes em certos gru\u00adpos esquerdistas.<\/p>\n<p>Mas ainda podia ser pior. \u00c0s vezes acontecia dos rostos p\u00fablicos da &#8220;banda&#8221; serem de gente totalmente diferente da que participava das grava\u00e7\u00f5es. Se algum dia te disseram que Mili Vanilli foi algo comunista, saiba que n\u00e3o estava totalmente errado. A n\u00e3o ser pelo vocal principal, que era muito f\u00e1cil de identificar, era comum os instrumentistas usados em est\u00fadio n\u00e3o serem todos membros da banda. Pense em &#8220;convidados especiais&#8221;, s\u00f3 que n\u00e3o eram convidados e nem eram listados nas fichas t\u00e9cnicas. Ali\u00e1s, &#8220;ficha t\u00e9cnica&#8221;? O que \u00e9 isso, camarada? Ent\u00e3o nosso amigo Yuri poderia ser obrigado a tocar no disco de uma banda rival que ele detestava, ou ver o &#8220;seu&#8221; trabalho ser, de fato, feito por um membro dela. Ent\u00e3o o Yuri subiria ao palco para tocar sua m\u00fasica publicada em nome de um outro cara e gravada por outro. Ent\u00e3o a coisa ficava ainda mais frustrante. Tudo por dinheiro, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>N\u00e3o, na verdade os m\u00fasicos tinham sal\u00e1rios e n\u00e3o ganhavam muita coisa com as ven\u00addas de seus discos. Ganhavam sal\u00e1rios, que eram maiores se fossem muito popu\u00adlares e participassem de muitos festivais, e ganhavam a fama, e s\u00f3. Muitos artistas populares da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica se viram pobres quando a URSS se desintegrou porque j\u00e1 ningu\u00e9m mais queria ouvir &#8220;sua&#8221; m\u00fasica depois que descobriram que n\u00e3o era &#8220;sua&#8221; e eles n\u00e3o haviam juntado bastante dinheiro durante suas carreiras porque n\u00e3o ganhavam dinheiro \u2014 e porque &#8220;juntar dinheiro&#8221; era coisa de burgu\u00eas decadente e n\u00e3o era vista com bons olhos.<\/p>\n<p>E j\u00e1 que falamos de balalaica n\u00e3o custa lembrar que a m\u00fasica sovi\u00e9tica n\u00e3o era exatamente muito variada em temas. Al\u00e9m das can\u00e7\u00f5es de cunho pol\u00edtico, exal\u00adtando o Ex\u00e9rcito Vermelho, a for\u00e7a da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, as maravilhas do socialismo, a import\u00e2ncia do comunismo como farol para o mundo, etc.; voc\u00ea n\u00e3o tinha muito sobre o que cantar. Certos temas, como o amor rom\u00e2ntico, jogos de palavra de duplo sentido e a religi\u00e3o s\u00f3 eram tolerados em can\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas \u2014 o que explica a imensa fertilidade do folclorismo sovi\u00e9tico, que &#8220;descobriu&#8221; mais can\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas russas e ucranianas na segunda metade do s\u00e9culo XX do que russos e ucranianos foram capazes de comp\u00f4-las em um mil\u00eanio, se \u00e9 que voc\u00ea me entende. Se a m\u00fasica era &#8220;folcl\u00f3rica&#8221;, ent\u00e3o ela defi\u00adni\u00adtivamente n\u00e3o continha nada ofensivo ao regime ou aos costumes sovi\u00e9ticos, ent\u00e3o era poss\u00edvel at\u00e9 mesmo peg\u00e1-la e &#8220;adaptar&#8221; para os tempos modernos, dando-lhe um arranjo popular ou at\u00e9 mesmo transformando-a em &#8220;rock&#8221; ou &#8220;funk&#8221;. Foi no arranjo que os m\u00fasicos sovi\u00e9ticos, ali\u00e1s, se especializaram, pois n\u00e3o havia censura quanto a isso. O que explica porque temas folcl\u00f3ricos &#8220;ucranianos&#8221; do &#8220;s\u00e9culo XVII&#8221; acabaram numa roupagem rockabilly ou at\u00e9 mesmo em arranjos \u00e0 la George Clinton.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se o nosso amigo Yuri quisesse fazer um galanteio para a Natasha, ele provavelmente teria que &#8220;descobrir&#8221; uma can\u00e7\u00e3o folcl\u00f3rica russa do s\u00e9culo XVIII, apresent\u00e1-la a um compositor para que ele a submetesse a censura e, se aprovada, provavelmente seu galanteio seria cantado para Natasha pela voz do Sergei, um cara l\u00e1 de Tashkent, que ele nunca vira na vida \u2014 e que por sorte a Natasha tamb\u00e9m n\u00e3o. Outra consequ\u00eancia do tema folcl\u00f3rico era os m\u00fasicos subirem nos palcos vestindo roupas que imitavam trajes hist\u00f3ricos. Nem sempre imita\u00e7\u00f5es exatas, nem sempre roupas de qualidade. O mau gosto imperava. E o Yuri l\u00e1 estava na televis\u00e3o usando botas de cano alto, cal\u00e7as de algod\u00e3o e camisas bordadas em estilo bielorruso, cantando uma can\u00e7\u00e3o &#8220;folcl\u00f3rica&#8221; da Car\u00e9lia. Mas ele era siberiano de Cheliabinsk e os caras da banda eram, quase todos, moscovitas. A essa altura voc\u00ea j\u00e1 teria ligado o &#8220;foda-se&#8221; e estaria num &#8220;bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1&#8221; ao microfone (que j\u00e1 estava desligado mesmo). Mas Yuri tinha muito medo de ir para o gulag, ent\u00e3o ele tentava parecer s\u00e9rio. S\u00f3 n\u00e3o conseguia parecer descontra\u00eddo nem alegre. Era dif\u00edcil, com aqueles agentes da KGB do lado do palco.<\/p>\n<p>Mas algu\u00e9m deve estar pensando: se o cara quisesse apenas ganhar a vida como m\u00fasico, em vez de fazer pol\u00edtica, ele poderia ter um trabalho seguro no sistema, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Sim, mas n\u00e3o era f\u00e1cil chegar l\u00e1. Para come\u00e7ar, havia um conservat\u00f3rio em cada cidade, e todos os anos milh\u00f5es de pessoas conclu\u00edam cursos avan\u00e7ados de uma grande variedade de instrumentos. O que significava que voc\u00ea n\u00e3o precisava apenas ser bom, precisava ser ultra-black em termos de habilidade musical. Se o Camel fosse uma banda sovi\u00e9tica o Andy Latimer teria passado semanas tocando Ice at\u00e9 conseguir executar os dez minutos da m\u00fasica sem errar aquele \u00fanico acorde no minuto final. Isso se n\u00e3o chamassem o Eric Clapton para tocar para ele. Os m\u00fasicos que chegavam a formar parte de uma banda eram todos de um n\u00edvel maestro de filarm\u00f4nica para cima. E eles n\u00e3o podiam compor nada para si! E frequentemente tinham de tocar composi\u00e7\u00f5es inferiores feitas por pessoas que detestavam.<\/p>\n<p>Isso, claro, supondo que eles se gostassem, o que n\u00e3o era certo de forma alguma. Ningu\u00e9m formava uma banda de garagem e passava meses tocando e compondo. Fazer isso era crime. Yuri praticara no conservat\u00f3rio, sob super\u00advis\u00e3o de seus mestres at\u00e9 se formar e, como lhe notaram um talento realmente grande, teve a chance de fazer um teste para entrar para a banda. Poderia ter sido qualquer banda em forma\u00e7\u00e3o, ou para substituir um membro que havia sa\u00eddo de alguma banda ou sido retirado dela. Voc\u00ea n\u00e3o se juntava com amigos, voc\u00ea era reunido a outros caras de todas as partes do pa\u00eds (um pa\u00eds duas vezes e meia maior que o Brasil) para tocar m\u00fasica composta por outros caras. Assim, foi realmente uma sorte Yuri ter arranjado uma banda de Moscou, e n\u00e3o de Yakutsk ou Alma-Ata.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=e1TJETTAKcg\">Banda &#8220;Ariel&#8221; em um festival de m\u00fasica<\/a><\/p>\n<p>O talento era o que importava, isso era uma coisa boa. O m\u00fasico precisava ser excelente \u2014 n\u00e3o precisava ser bonito. Isso significava que pessoas que n\u00e3o se encaixavam no padr\u00e3o de beleza estavam nas bandas de maior sucesso (veja isso nos v\u00eddeo da banda Ariel, que eu anexei no post). Explica tamb\u00e9m a maioria de nerds entre os integrantes dos grupos musicais.<\/p>\n<p>Chegar a ser m\u00fasico, compositor ou produtor n\u00e3o era nada f\u00e1cil, por outros motivos tamb\u00e9m. Mesmo os microfones estando desligados o tempo todo, voc\u00ea era monitorado o tempo e tinha que ter um comportamento exemplar, porque voc\u00ea era um exemplo para a juventude. Um toxic\u00f4mano ou uma pessoa de personalidade autodestrutiva seria silenciosamente demitida de sua banda e enviada para o gulag (\u00f3timo lugar para quem gosta de se autodestruir, por falar nisso). Se o servi\u00e7o fosse bem-feito, calhava at\u00e9 de arranjarem um s\u00f3sia para o lugar do demitido (o que explicava que muitas vezes quem tocava no est\u00fadio era uma pessoa diferente da que aparecia no show). Mas o sistema n\u00e3o queria estes transtornos, por isso selecionava pessoas que pudessem ser confi\u00e1veis, e nesse ponto o talento come\u00e7a a ficar em segundo plano, e novamente entendemos porque gente diferente tocava no est\u00fadio. Se o Yuri n\u00e3o tivesse sido considerado &#8220;bom comunista&#8221; poderia n\u00e3o ter autoriza\u00e7\u00e3o para aparecer em p\u00fablico como membro de banda, poderia se tornar m\u00fasico de est\u00fadio, tocando m\u00fasicas para outras bandas fazerem <em>playback<\/em> em seus shows. Isso, claro, supondo que houvesse escassez de m\u00e3o de obra qualificada e de confian\u00e7a \u2014 o que n\u00e3o havia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o nosso amiguinho Yuri provavelmente atravessou a vida inteira sem jamais conseguir fazer algo simples como chegar na beira do palco, jogar uma flor uma mo\u00e7a e lhe dizer: &#8220;esta eu fiz para voc\u00ea&#8221;. N\u00e3o s\u00f3 porque ele mesmo n\u00e3o poderia tocar a pr\u00f3pria m\u00fasica, mas porque os shows eram pelo pa\u00eds todo, e seria improv\u00e1vel sua amada estar na plateia. Natasha, por sua vez, n\u00e3o pode\u00adria seguir tiete de seus shows por muito tempo: ela n\u00e3o escolhia a quais festi\u00advais ir, como oper\u00e1\u00adria que era, tinha de trabalhar a maior parte do ano e s\u00f3 ia em festivais quando ganhava entradas como pr\u00eamio por seu trabalho, ou nas f\u00e9rias, se tivesse uns rublos de sobra e coincidisse do Yuri estar tocando rela\u00adtiva\u00admente perto.<\/p>\n<p>O Yuri, por\u00e9m, tinha uma grande esperan\u00e7a: a <em>glasnost<\/em> prometia acabar com esse sistema podre. Quando Gorbachev fosse bem-sucedido os m\u00fasicos teriam liberdade para compor e tocar, e ele finalmente poderia revelar, \u00e0 la George Harrison, todo o trabalho que reservara durante anos. Seria glorioso. Yuri se sentiu maravilhado quando a Cortina de Ferro come\u00e7ou a cair, em 1989, sua hora estava chegando.<\/p>\n<p>Foi uma pena que em 1991 aconteceu tudo aquilo, a R\u00fassia emergiu como um pa\u00eds empobrecido e fortemente influenciado pelo ocidente. Natasha perdeu o emprego na f\u00e1brica, e a essa altura j\u00e1 era uma matrona gorda e mal-humorada, com as m\u00e3os cheias de calos. Estava casada com um uzbeque mal humorado chamado Ruslan e todos tiveram que fugir do Uzbequist\u00e3o para a R\u00fassia por causa do regime implantado pelo louco do presidente que assumiu l\u00e1. Enquanto isso o Yuri, tendo acesso a toda a m\u00fasica pop ocidental, viu que suas composi\u00e7\u00f5es eram ing\u00eanuas e jamais fariam sucesso no mundo real. Sua banda foi dissolvida, ele voltou para Cheliabinsk querendo trabalhar no conservat\u00f3rio, mas descobriu que o sal\u00e1rio era uma merda e que havia bem menos gente querendo estudar m\u00fasica. Para c\u00famulo de tudo isso, seu visual de \u00f3culos fundo de garrafa e seu status de ex guitarrista de uma banda s\u00edmbolo de uma \u00e9poca que todo mundo queria esquecer. Ainda bem que existia a vodca, e ela era barata, ainda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto pesquisava sobre m\u00fasica sovi\u00e9tica, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele post malu\u00adqui\u00adnho sobre a m\u00fasica do jogo Super Mario World ter sido baseada no Hino da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, fui tendo contato com o universo musical comunista e entendendo como era sufocante a vida cultural ent\u00e3o. Certamente nem eu e nem voc\u00ea gostar\u00edamos de viver aquilo. Imaginemos ent\u00e3o o nosso her\u00f3i, o Yuri, um ex\u00edmio guitarrista, que estudou guitarra cl\u00e1ssica no conservat\u00f3rio e atravessou a adolesc\u00eancia ouvindo discos contrabandeados de Black Sabbath, Beatles, Bee Gees, Pink Floyd e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[77,40,148,17,14,59,26,29,9,114],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1480"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1480"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1480\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4732,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1480\/revisions\/4732"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1480"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1480"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}