{"id":1493,"date":"2014-03-21T21:00:10","date_gmt":"2014-03-22T00:00:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1493"},"modified":"2017-11-02T14:08:14","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:14","slug":"vinda-do-verme-branco-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/03\/vinda-do-verme-branco-1\/","title":{"rendered":"Tradu\u00e7\u00e3o: A Vinda do Verme Branco, 1  (C. A. Smith)"},"content":{"rendered":"<p>Por residir junto ao mar boreal, o feiticeiro Evagh costumava ver muitos por\u00adten\u00adtos inesperados no ver\u00e3o. O sol ardia g\u00e9lido sobre Mhu Thulan, pendente de um firmamento l\u00edmpido e desbotado como gelo. Ao entardecer a aurora se esten\u00addia do horizonte ao z\u00eanite, como uma cortina de um pal\u00e1cio dos deuses. D\u00e9beis e raras eram as papoulas e pequenas as an\u00eamonas nos vales que entre\u00adme\u00adavam os rochedos al\u00e9m da casa de Evagh, e os frutos de seu jardim murado eram p\u00e1lidos por fora e verdes por dentro. Ele tamb\u00e9m contemplava durante o dia a fuga inesperada de grandes multid\u00f5es de aves, que se dirigiam para o sul a partir das ilhas ocultas al\u00e9m de Mhu Thulan, e \u00e0 noite ele ouvia o clamor perturbador de outras multid\u00f5es passageiras. E sempre, contra o vento rui\u00addoso ou o rugido da mar\u00e9, ele escutava o sussurro estranho das vozes dos pa\u00ed\u00adses de inverno perene.<\/p>\n<p>Mas Evagh estava preocupado com esses portentos, tanto quanto os rudes pes\u00adca\u00addores das margens da ba\u00eda abaixo de sua casa. Sendo um mestre completo em todo sortil\u00e9gio e um vidente de coisas remotas e futuras, ele fez uso de suas artes em um esfor\u00e7o para adivinhar o seu significado, mas havia uma nuvem sobre seus olhos durante o dia e uma escurid\u00e3o dificultava-lhe a vis\u00e3o quando tentava buscar o esclarecimento em sonhos. Seus mais astutos hor\u00f3s\u00adco\u00adpos resultaram em nada, seus familiares estavam quietos ou lhe res\u00adpondiam ambiguamente, e havia confus\u00e3o em toda a sua geomancia, hidro\u00admancia ou aruspica\u00e7\u00f5es. E Evagh teve a impress\u00e3o de que um poder des\u00adconhecido traba\u00adlhava contra si, zombando de seus esfor\u00e7os e tornando-os impotentes de uma forma tal que sua feiti\u00e7aria nunca fora derrotada. E Evagh soube, por meio de sinais percept\u00edveis somente aos magos, que tal poder era maligno e sua aproxi\u00adma\u00e7\u00e3o era uma desgra\u00e7a para os homens.<\/p>\n<p>Dia ap\u00f3s dia, atrav\u00e9s do ver\u00e3o, os pescadores sa\u00edram em suas barcas de sal\u00adgueiro e couro, lan\u00e7ando as redes. Mas delas s\u00f3 sa\u00edam peixes mortos, que pareciam fulminados por fogo ou por um frio extremo, e tamb\u00e9m mons\u00adtros vivos, de esp\u00e9cies que mesmo os mais velhos capit\u00e3es nunca haviam visto, coi\u00adsas de tr\u00eas cabe\u00e7as, com caudas ou nadadeiras horrendas, coisas amorfas e descoloridas que se dissolviam em l\u00edquidos f\u00e9tidos e escorriam por entre os n\u00f3s, ou coisas sem cabe\u00e7a que pareciam luas inchadas, com raios verdes e gela\u00addos em volta, ou coisas com olhos leprosos e envoltas em uma baba grossa e pegajosa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vinda do horizonte do norte, aonde os navios de Cerngoth costumavam ir labutar entre as ilhas do \u00c1rtico, surgiu uma galera \u00e0 deriva, com remos iner\u00adtes e um leme que girava sem destino. A mar\u00e9 a encalhou entre os botes dos pes\u00adcadores, que n\u00e3o se aventuravam mais no mar, mas se refugiavam nas are\u00adias logo abaixo do rochedo onde tinha Evagh a sua casa. Percorrendo a galera, presas de espanto e medo, os pescadores contemplaram seus remadores im\u00f3\u00adveis nos assentos e o capit\u00e3o ao leme. Mas as m\u00e3os e faces de todos esta\u00advam duras como ossos e brancas como a pele de um leproso, e as pupilas de seus olhos abertos tinham desbotado curiosamente, sendo indistingu\u00edveis do branco, e havia uma horr\u00edvel brancura neles, como uma po\u00e7a profunda que congelou at\u00e9 o fundo. E o pr\u00f3prio Evagh, mais tarde, tamb\u00e9m contem\u00adplou a tripula\u00e7\u00e3o da galera e refletiu muito a respeito da import\u00e2ncia de tal pro\u00add\u00edgio.<\/p>\n<p>Os pescadores tiveram nojo de tocar aqueles mortos e come\u00e7aram a murmu\u00adrar que havia uma maldi\u00e7\u00e3o no mar, sobre todas as coisas e pessoas que o per\u00adcorriam. Mas Evagh, achado que os corpos apodreceriam ao sol e trariam pes\u00adtil\u00eancia, os comandou a erguer uma pilha de destro\u00e7os em torno da galera, e quando a pilha se erguera acima da amurada, escondendo da vis\u00e3o os rema\u00addo\u00adres mortos, ateou-lhe fogo com suas pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p>A pilha queimou muito alto, a fuma\u00e7a subiu escura como uma nuvem de tem\u00adpestade e foi soprada pelo vento para al\u00e9m das torres de Evagh, por entre os rochedos. Mas depois, quando o fogo se apagou, os corpos dos remadores foram vistos sentados entre as brasas e os seus bra\u00e7os ainda estavam estendi\u00addos na posi\u00e7\u00e3o de remar e seus dedos estavam ainda cerrados, embora os remos tivessem se desfeito em carv\u00f5es e cinzas. E o capit\u00e3o da galera ainda estava de p\u00e9 em seu lugar, embora o leme queimado estivesse ca\u00eddo a seus p\u00e9s. Nada fora consumido sen\u00e3o as vestes dos corpos marm\u00f3reos e eles brilhavam como est\u00e1tuas ao luar por entre os peda\u00e7os de madeira enegrecidos pelas cha\u00admas, sem qualquer mancha que lhes tivesse sido causada pelo fogo.<\/p>\n<p>Os pescadores viram nisso um portento maligno e ficaram apavorados, e todos fugiram logo para os rochedos mais altos. Somente ficaram com Evagh dois de seus servos, o garoto Ratha e o velho mordomo Ahilidis, que haviam, ambos, testemunhado muitas de suas conjura\u00e7\u00f5es e estavam, portanto, acostumados aos sinais da magia. Com estes dois ao seu lado, o feiticeiro esperou que os carv\u00f5es esfriassem.<\/p>\n<p>As brasas logo escureceram rapidamente, mas ainda subiu fuma\u00e7a por toda a tarde e o anoitecer, e ainda estavam quentes demais para que um humano as pisasse quando amanheceu. Ent\u00e3o Evagh chamou os seus servos para que bus\u00adcassem \u00e1gua do mar em potes e a despejassem sobre as cinzas e os carv\u00f5es. Depois que a fuma\u00e7a e o chiado terminaram ele subiu a bordo e se aproximou dos cad\u00e1veres p\u00e1lidos. Perto deles ele sentia um grande frio, tal como emana\u00adria de um gelo \u00e1rtico, e o frio come\u00e7ou a doer em suas m\u00e3os e orelhas e a atingir-lhe agudamente atrav\u00e9s do manto de pele. Chegando ainda mais perto ele tocou um dos corpos com a ponta de seu dedo e este, embora apenas ligei\u00adramente pressionado e logo afastado, ficou queimado como por uma chama.<\/p>\n<p>Evagh ficou muito assustado, pois a condi\u00e7\u00e3o dos cad\u00e1veres era algo que lhe era at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido e em toda a sua ci\u00eancia de magia n\u00e3o havia nada que lhe pudesse esclarecer. Ele sup\u00f4s que um feiti\u00e7o fora lan\u00e7ado sobre os mortos, um sortil\u00e9gio do tipo que os p\u00e1lidos dem\u00f4nios polares talvez conhe\u00ad\u00e7am, ou as bruxas geladas da lua podem criar em suas cavernas de neve. E ele logo concluiu que era melhor se afastar, para o caso de o feiti\u00e7o ter efeito sobre outros que n\u00e3o os mortos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por residir junto ao mar boreal, o feiticeiro Evagh costumava ver muitos por\u00adten\u00adtos inesperados no ver\u00e3o. O sol ardia g\u00e9lido sobre Mhu Thulan, pendente de um firmamento l\u00edmpido e desbotado como gelo. Ao entardecer a aurora se esten\u00addia do horizonte ao z\u00eanite, como uma cortina de um pal\u00e1cio dos deuses. 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