{"id":1495,"date":"2014-03-28T20:10:57","date_gmt":"2014-03-28T23:10:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1495"},"modified":"2017-08-13T00:50:49","modified_gmt":"2017-08-13T03:50:49","slug":"vinda-do-verme-branco-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/03\/vinda-do-verme-branco-2\/","title":{"rendered":"Tradu\u00e7\u00e3o: A Vinda do Verme Branco, 2  (C. A. Smith)"},"content":{"rendered":"<p>De volta \u00e0 sua casa antes da noite, queimou junto a cada porta e janela as resinas que s\u00e3o mais ofensivas aos dem\u00f4nios do norte, e em cada \u00e2ngulo por onde um esp\u00edrito pudesse entrar ele situou um de seus familiares para guardar contra a intrus\u00e3o. Depois, enquanto Ratha e Ahilidis dormiam, ele pesquisou com cuidado diligente nos escritos de Pnom, nos quais est\u00e3o coletados muitos exorcismos poderosos. Mas o tempo todo, enquanto lia para seu conforto os velhos aut\u00f3grafos, ele se lembrava melancolicamente dos ditos do profeta Lith, que nenhum homem entendera: <\/p>\n<p>> H\u00e1 Um que habita no lugar do frio extremo, e Um que respira onde ningu\u00e9m mais conseguiria ter ar. Em dias que vir\u00e3o Ele aparecer\u00e1 entre as ilhas e cidades dos homens, trazendo consigo a maldi\u00e7\u00e3o branca do vento que sopra em sua resid\u00eancia.<\/p>\n<p>Embora um fogo ardesse em sua c\u00e2mara, revestida de grossos pinheiros e tere\u00adbintos, um calafrio mortal pareceu tomar o ar com o anoitecer. Ent\u00e3o, quando Evagh, preocupado, retirou dos pergaminhos a sua aten\u00e7\u00e3o e viu que as chamas eram altas como se n\u00e3o precisassem de mais lenha, ele ouviu o agito s\u00fabito de um grande vento cheio dos gritos assustadores de aves mari\u00adnhas e de aves terrestres que se arrastavam com asas in\u00fateis, e acima de tudo uma risada estrondosa de vozes diab\u00f3licas. O vento do norte bateu louca\u00admente contra suas torres quadradas e p\u00e1ssaros foram atirados como folhas mor\u00adtas de outono contra suas janelas de madeira s\u00f3lida, dem\u00f4nios pareciam fen\u00adder e empurrar as paredes de granito. Embora as portas estivessem fecha\u00addas e as janelas, firmemente trancadas, uma lufada g\u00e9lida circulou a mesa onde Evagh se sentara, arrancando de seus dedos os largos pergaminhos de Pnom e fazendo a chama da l\u00e2mpada bruxulear.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o ele lutou para lembrar, com os pensamentos amortecidos, aquele con\u00adtrafeiti\u00e7o que \u00e9 o mais eficaz contra os esp\u00edritos do quarto boreal. Ent\u00e3o, estra\u00adnhamente, pareceu que o vento diminuiu, deixando pela casa uma quie\u00adtude imensa. O sopro gelado desapareceu, a l\u00e2mpada e a lareira queimavam com firmeza e algum calor lentamente retornou aos ossos enregelados de Evagh.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele percebeu que uma luz brilhava al\u00e9m das janelas de sua c\u00e2mara, como se uma lua tardia tivesse nascido al\u00e9m dos rochedos. Mas Evagh sabia que a lua estava no in\u00edcio do quarto crescente, e se punha com a mar\u00e9. Parecia, tamb\u00e9m, que a luz brilhava do norte, p\u00e1lida e fr\u00edgida como um fogo gelado, e chegando \u00e0 janela ele viu um grande raio que atravessava todo o mar, pare\u00adcendo vir do polo oculto. \u00c0quela luz, as rochas eram mais p\u00e1lidas que o m\u00e1r\u00admore, a areia era mais branca que o sal e as cabanas dos pescadores eram mais como t\u00famulos caiados. O jardim murado de Evagh estava ocupado pelo raio de luz e todo o verde tinha sumido de sua folhagem, todas as flores tinham se tornado como flocos de neve. E o raio incidia penetrantemente sobre as pare\u00addes inferiores de sua casa, mas deixava ainda na escurid\u00e3o a parede da c\u00e2mara superior de onde ele o observava.<\/p>\n<p>Ele pensou que o raio sa\u00eda de uma nuvem p\u00e1lida que surgira sobre a linha do mar, ou talvez de um pico nevado que se erguera em dire\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u durante a noite, mas n\u00e3o teve certeza. Observando, viu que a luz se erguia mais alto at\u00e9 os c\u00e9us, mas n\u00e3o sobre sua parede. Tentando em v\u00e3o entender o significado de tal mist\u00e9rio, ele teve a impress\u00e3o de ouvir no ar ao redor uma voz doce e m\u00e1gica. Falando em uma l\u00edngua que ele n\u00e3o conhecia, a voz pronunciou um encantamento de sono. E Evagh n\u00e3o pode resistir ao encantamento, sobre ele caiu uma dorm\u00eancia como o sono a que sucumbe o sentinela cansado em um lugar gelado.<\/p>\n<p>Acordando assustado ao amanhecer, ele se levantou do ch\u00e3o duro onde esti\u00advera deitado e contemplou uma estranha maravilha. Pois eis que na ba\u00eda estava um iceberg mais alto que qualquer outro que os navios haviam avistado em todas as suas navega\u00e7\u00f5es do norte, e mais alto que os citados pelas lendas das obs\u00adcuras ilhas da Hiperb\u00f3rea. Ele preenchia o porto de lado a lado, e subia a alturas incomensur\u00e1veis, com escarpas empilhadas e precip\u00edcios em degraus, e seus pin\u00e1culos eram como torres, mais altos que as da casa de Evagh, que ficava sobre uma montanha. Era mais alto que o temido monte Achoravomas, que vomita rios de chamas e pedras l\u00edquidas que fluem incessantemente pela Terra de Tscho Vulpanomi rumo ao continente austral. Era mais \u00edngreme do que a montanha Yarak, que marca o lugar do polo boreal e dele reca\u00eda uma l\u00e2n\u00adguida cintila\u00e7\u00e3o sobre o mar e a terra. Mort\u00edfera e terr\u00edvel era a cintila\u00e7\u00e3o e Evagh soube que esta era a luz que vira na escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele mal podia inspirar por causa do frio que estava no ar e a luz do imenso ice\u00adberg feria seus olhos com uma intensidade excessiva. Mesmo assim ele perce\u00adbeu uma coisa estranha: os raios daquela cintila\u00e7\u00e3o reca\u00edam indireta\u00admente em ambos os lados de sua casa, e que as c\u00e2maras inferiores, onde Ratha e Ahilidis dormiam, n\u00e3o eram mais tocadas pelo raio como durante a noite, e que sobre sua pr\u00f3pria csa n\u00e3o havia mais nada a n\u00e3o ser o sol matinal e as sombras do alvorecer.<\/p>\n<p>No litoral abaixo ele via os carv\u00f5es da galera encalhada, e entre eles os brancos cad\u00e1veres inconsum\u00edveis pelo fogo. E pelas areias e rochas os pescadores esta\u00advam deitados ou de p\u00e9 em posturas r\u00edgidas e im\u00f3veis, como se tivessem sa\u00eddo de seus esconderijos para contemplar o raio p\u00e1lido e tivessem sido abatidos por um sono m\u00e1gico. E toda a margem da ba\u00eda, at\u00e9 o jardim de Evagh, at\u00e9 mesmo at\u00e9 a soleira de sua porta, era como um lugar totalmente coberto por uma geada espessa.<\/p>\n<p>Outra vez ele se lembrou do dito de Lith, e foi com muito receio que desceu ao t\u00e9rreo. L\u00e1 estavam o garoto Ratha e o velho Ahilidis, inclinados junto \u00e0 janela norte, com as faces voltadas para a luz. R\u00edgidos eles permaneciam, com olhos muito abertos e um p\u00e1lido terror em suas faces, sobre eles estava a morte branca da tripula\u00e7\u00e3o da galera. E ao se aproximar deles o feiticeiro foi detido pela terr\u00edvel frieza que o atingiu, proveniente de seus corpos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De volta \u00e0 sua casa antes da noite, queimou junto a cada porta e janela as resinas que s\u00e3o mais ofensivas aos dem\u00f4nios do norte, e em cada \u00e2ngulo por onde um esp\u00edrito pudesse entrar ele situou um de seus familiares para guardar contra a intrus\u00e3o. Depois, enquanto Ratha e Ahilidis dormiam, ele pesquisou com cuidado diligente nos escritos de Pnom, nos quais est\u00e3o coletados muitos exorcismos poderosos. 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