{"id":150,"date":"2012-05-25T00:23:00","date_gmt":"2012-05-25T03:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=150"},"modified":"2018-11-26T23:09:21","modified_gmt":"2018-11-27T02:09:21","slug":"tivemos-futuros-promissores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/05\/tivemos-futuros-promissores\/","title":{"rendered":"Tivemos Futuros Promissores"},"content":{"rendered":"\n<p>Am\u00e9rico dizia-se amargo de prop\u00f3sito: queria treinar rabugice para quando fosse famoso. Ent\u00e3o poderia esnobar entrevistas e desfilar namoradas bonitas em carros do ano. N\u00e3o conseguia nem ficar famoso e nem realmente ser amargo: era apenas triste e apagadi\u00e7o. Sentava-se na primeira das carteiras para fingir ser estudioso, mas andava sempre com notas ruins e sapatos rigorosamente engraxados. Meticuloso em suas escolhas, enquanto n\u00e3o ficava famoso e amante de modelos perfeitas deixou-se namorar por Jaqueline, que era vesga, magra, sardenta, desconjuntada e fanha. Casou com ela inclusive, pensando em abandon\u00e1-la quando finalmente um est\u00fadio de cinema comprasse os direitos de suas hist\u00f3rias ou quando ganhasse na loteria esportiva. N\u00e3o entendia de futebol nem de cinema: suas hist\u00f3rias n\u00e3o tinham p\u00e9 nem cabe\u00e7a e seus palpites eram desastrosamente azarados. Em um famoso teste caracterizado por oito incr\u00edveis zebras, acertou os oito resultados, mas falhou em adivinhar que o Flamengo ganharia do Olaria e que o Atl\u00e9tico venceria o Democrata de Sete Lagoas. Nunca abandonaria Jaqueline, nem sequer a traiu, embora jurasse que n\u00e3o a amava muito.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o conheci, no segundo ano do secund\u00e1rio, ele j\u00e1 tinha uma cara de velho, velh\u00edssimo. Talvez tivesse repetido umas tr\u00eas s\u00e9ries. Estava impaciente: tinha que formar-se logo, pois tinha um futuro promissor no com\u00e9rcio.Precisava aprender muito, antes que o tio Jacinto batesse as botas. Tio Jacinto era velhinho e vi\u00favo. Tivera dois filhos, ambos mortos: um de c\u00e2ncer antes dos trinta, outro de desgosto na curva dos quarenta. N\u00e3o tinha netos. N\u00e3o tinha ningu\u00e9m, somente a amizade da irm\u00e3 e o carinho de Am\u00e9rico, que se dizia interessado na heran\u00e7a, mas chorou profundamente no enterro. Tio Jacinto morreu antes que Am\u00e9rico tivesse aprendido o suficiente. Ningu\u00e9m teve a ideia de deixar-lhe a loja. Em vez disso, venderam o estoque, dilapidaram o pr\u00e9dio, teriam demolido at\u00e9 o terreno. As aves de rapina que voejam em torno dos cad\u00e1veres dos pobres velhos ricos que morrem solit\u00e1rios. N\u00e3o sobrou o suficiente. A m\u00e3e de Am\u00e9rico usou seu quinh\u00e3o para comprar uma linha telef\u00f4nica, necessidade da fam\u00edlia. Isso foi em 1994. Poucos anos depois o governo privatizou a telefonia e at\u00e9 o cachorro que quisesse podia instalar um aparelho em seu canil. A \u00fanica heran\u00e7a que Am\u00e9rico jamais recebeu foi a de Jaqueline. Morta cedo: ele sempre fora fraquinha, tortinha, esquisita. Uma pneumonia galopante. Am\u00e9rico ficou prostrado no cemit\u00e9rio at\u00e9 muito depois que o pen\u00faltimo parente fosse embora. Talvez tenha sido s\u00f3 ent\u00e3o que ele percebeu que seu afeto pela esposa tinha sido sincero. Tarde demais para demonstrar isso, para t\u00ea-la feito realmente feliz, para ter sido realmente entregue.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse dia que o reencontrei. T\u00ednhamos estado separados por v\u00e1rios anos: ele trabalhando em ch\u00e3o de f\u00e1brica e economizando tudo, at\u00e9 unhas. Eu fugira de nossa cidadezinha em busca de algo mais. Passava f\u00e9rias em casa quando me contaram do acontecido. Fui ao enterro em considera\u00e7\u00e3o a ambos: tinha sido tamb\u00e9m um namorado de Jaqueline, antes dele. Nunca lhe contei, \u00e9 claro. Ainda tenho vergonha disso. N\u00e3o de n\u00e3o ter contado: de ter sido ela quem me deixou. Depois de um beijo: ainda n\u00e3o entendo o que foi, ela apenas disse que seu anjo da guarda lhe soprara, exatamente no instante de nosso beijo, que algo estava errado e que n\u00e3o dar\u00edamos certo. N\u00e3o deu. Saiu de minha vida e seguiu mancando mais uns anos pela adolesc\u00eancia afora, crescendo e se enredando em si mesma e suas ilus\u00f5es. At\u00e9 chegarmos ao segundo ano e encontrarmos l\u00e1 o Am\u00e9rico, que tinha muito que aprender para um dia herdar a loja do tio solit\u00e1rio e ganhar muito dinheiro, tornar-se dono de uma rede de armarinhos, comprar os concorrentes, ficar famoso, namorar modelos e morrer de t\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas cheguei atrasado: o cemit\u00e9rio j\u00e1 esvaziado, Am\u00e9rico sozinho l\u00e1, perto da tumba, sem coragem at\u00e9 para ajoelhar-se. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o soube o que fazer: n\u00e3o se sabe nunca o que fazer diante da dor sincera de um homem, mesmo que este homem nem seja exatamente amigo. Mas ele me ouviu, sapatos rangendo de novos na cal\u00e7ada de calhaus arrebentados a marteladas. N\u00e3o me olhou: n\u00e3o precisava saber quem era. Quem chega atrasado n\u00e3o faz mesmo nenhuma diferen\u00e7a. Mas depois de tempo suficiente para entender que algo n\u00e3o estava certo eu levei um bra\u00e7o ao seu ombro e disse-lhe: &#8220;vamos, homem, vamos que a vida segue.&#8221; Ele me viu finalmente, com os olhos calejados de tanta l\u00e1grima que at\u00e9 a pele em volta deles parecia sangrando. &#8220;N\u00e3o, Geraldo, a vida n\u00e3o segue.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele veio comigo. Para onde iria? O que faria? Esperaria fecharem o cemit\u00e9rio? Convidariam-no a sair sem muita educa\u00e7\u00e3o e ele ficaria sozinho na rua naquela tarde de s\u00e1bado, vendo os carros insolentes dos rica\u00e7os passando, tocando m\u00fasica alta, carregando mulheres bonitas e vulgares rumo a discotecas, festivais ou simplesmente bares. E ele ent\u00e3o se veria sozinho, triste, feio. Principalmente triste, \u00f3rf\u00e3o de todos os seus sonhos velhos. Velh\u00edsssimos.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 disse que n\u00e3o sei dizer coisas bonitas e nem filosofar. Se n\u00e3o disse, que tenho p\u00e9ssima a mem\u00f3ria para coisas recentes, digo agora. Se disse mais de uma vez, que se repita para guardar melhor: ser homem \u00e9 uma esp\u00e9cie de insensibilidade que se aprende na adolesc\u00eancia. Aprendi muito: por isso sei n\u00e3o ajudar um amigo em um momento de cat\u00e1strofe. N\u00e3o, n\u00e3o havia outra palavra. Am\u00e9rico parecia um rob\u00f4 desligado. Depois daquela frase curta e amarga ele n\u00e3o conseguiu, durante horas, dizer nada mais do que acenos, resmungos e uma dor corrente que mantinha fundos os seus olhos, perdidos em po\u00e7as de tristeza em seu rosto magro e sardento.<\/p>\n\n\n\n<p>Levei-o a pra\u00e7a e nos sentamos l\u00e1, como se f\u00f4ssemos conversar. Veio o sino da igreja, passaram passarinhos, a tarde tamb\u00e9m se deitou detr\u00e1s do morro da matriz e a noite foi se desenrolando devagar. Jaqueline estava l\u00e1 conosco, uma muralha que nos separava. Am\u00e9rico talvez soubesse, ou nunca. Se homem pudesse chorar eu estaria com ele naquela hora: como ele eu tamb\u00e9m tive um futuro promissor, tamb\u00e9m fiz planos de poder magoar todos os meus amigos e pisar nos meus inimigos. Por fim estava fingindo f\u00e9rias longas para disfar\u00e7ar que estava demitido, sobravam-me apenas os meus amigos e nenhuma mulher. Eu nem podia, diferente do Am\u00e9rico, ter saudades de uma morta. N\u00e3o h\u00e1 tempo para ter sido feliz quando se precisa ganhar muito dinheiro, para tentar comprar a lua que se sonhou quando menino.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, desisti de ser homem e conformei-me em ser humano. Disse a Am\u00e9rico, com rudeza de palavras, que entendia como ele estava arrasado e que, como ele, eu tinha \u00e0s vezes at\u00e9 ideias de me matar. Ele se assustou com isso: &#8220;Isso n\u00e3o, Geraldo, isso n\u00e3o.&#8221; N\u00e3o compreendi sua rejei\u00e7\u00e3o: n\u00e3o fora ele que dissera antes que a vida n\u00e3o continuava? Tudo muda, tudo muda. A vida n\u00e3o continua: ela \u00e9 um monte de folhas sacudidas pelo vento. A gente vai pulando de folha em folha esperando finalmente cair no ch\u00e3o. Todo mundo tem a ilus\u00e3o de que alguma folha voar\u00e1 para sempre, que alguma folha n\u00e3o vai nunca chegar na terra, que a tarde ser\u00e1 imensamente longa. Todo mundo tem essa sensa\u00e7\u00e3o de que a vida n\u00e3o s\u00e3o minutos. Am\u00e9rico estava ali, sentindo-se montado em outra folha, ainda n\u00e3o sabia que estava mais perto do ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Voc\u00ea que enterra a sua mulher, e eu que n\u00e3o sei para onde ir.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Am\u00e9rico sabia, ao contr\u00e1rio de mim, que o que nos torna mais perdidos n\u00e3o \u00e9 saber para onde vamos, mas n\u00e3o entender de onde, diabos, sa\u00edmos. Apesar de suas ilus\u00f5es trituradas pelos dedos duros da vida, ele sabia de onde vinha. Eu estava mais pobre do que ele, perdido at\u00e9 de minha origem, \u00f3rf\u00e3o de um passado. N\u00e3o tinha nem mesmo uma esposa morta para amar com culpa e arrependimento. N\u00e3o tinha nem remorsos para ilustrar minhas noites. Em mim cabia a frase tanto quanto nele, um futuro promissor transformado em futuro do pret\u00e9rito, mas a minha dor seria sempre maior que qualquer outra, justificando at\u00e9 eu poluir o luto arrependido de um amigo. Sim, n\u00e3o tinha mais aquele futuro, n\u00e3o tinha nem mesmo escr\u00fapulos de contar a verdade \u00e0 minha fam\u00edlia, de procurar um emprego por l\u00e1 mesmo, de procurar uma das antigas colegas de escola, talvez a Luciana, que me deixara um bilhete apaixonado dentro de um caderno na noite de formatura: um caderno que eu s\u00f3 fui abrir anos depois, em uma faxina. Ent\u00e3o naquele instante, para monstrar a crueldade imensa da sincronicidade, passou a pr\u00f3pria, de m\u00e3os dadas com um menino. \u00c9ramos velhos demais para viver amores de inf\u00e2ncia: ela tinha uma franja grisalha no rosto ainda bonito e eu escondia uma barriga com a jaqueta dobrada sobre o colo. Tive vontade de segui-la, mas n\u00e3o tive coragem. No meu futuro do pret\u00e9rito eu tinha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Am\u00e9rico dizia-se amargo de prop\u00f3sito: queria treinar rabugice para quando fosse famoso. Ent\u00e3o poderia esnobar entrevistas e desfilar namoradas bonitas em carros do ano. N\u00e3o conseguia nem ficar famoso e nem realmente ser amargo: era apenas triste e apagadi\u00e7o. Sentava-se na primeira das carteiras para fingir ser estudioso, mas andava sempre com notas ruins e sapatos rigorosamente engraxados. 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