{"id":151,"date":"2012-05-24T01:18:00","date_gmt":"2012-05-24T04:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=151"},"modified":"2017-11-02T14:08:59","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:59","slug":"nunca-sera-demais-ler-fernando-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/05\/nunca-sera-demais-ler-fernando-pessoa\/","title":{"rendered":"Nunca Ser\u00e1 Demais Ler Fernando Pessoa"},"content":{"rendered":"<p>Eu tinha meros vinte e dois anos quando adquiri de um vendedor ambulante, em visita \u00e0 faculdade onde cursava Hist\u00f3ria, um exemplar da \u00abObra Po\u00e9tica\u00bb de Fernando Pessoa, publicada pela Aguilar. Na \u00e9poca achei caro, demorei a compreender que havia comprado um dos tesouros mais valiosos que possuo. A edi\u00e7\u00e3o \u00e9 cuidadosa, acompanhada de biografia com fotos e de extensos coment\u00e1rios. Tudo muito dispens\u00e1vel, claro, quando voc\u00ea entra no que interessa, que \u00e9 a poesia. Sempre que ou\u00e7o um babaca falar alguma coisa contra a poesia eu respiro fundo, rememoro algumas das tiradas fant\u00e1sticas do poeta portugu\u00eas e me asseguro da constata\u00e7\u00e3o inicial: \u00ab\u00e9 um babaca mesmo\u00bb. Ainda que haja muitos p\u00e9ssimos poetas pelo mundo, a manchar o bom nome da poesia, alguns, como Pessoa, parecem produzir com seus versos um efeito sanit\u00e1rio que arranca o limo de mediocridade que afeta o resto. S\u00f3 depois dos trinta anos fui entender Fernando Pessoa. S\u00f3 quando doeu.<a name=\"more\"><\/a><\/p>\n<p>O poema que me convenceu da absoluta e inquestion\u00e1vel genialidade do autor n\u00e3o \u00e9 nenhum dos famosos. N\u00e3o me identifico no nacionalismo m\u00edstico de \u00abMensagem\u00bb, detesto boa parte dos heter\u00f4nimos (ainda que alguns poemas de \u00c1lvaro de Campos me agradem muito) e compreendo que muito do que est\u00e1 na Obra Po\u00e9tica s\u00e3o rascunhos que o autor dificilmente teria escolhido publicar. Mas este poema, \u00abHora Absurda\u00bb, escrito em 1913, quando Pessoa tinha meros vinte e cinco anos e ainda tinha certo flerte com o simbolismo, foi como o murro na cara que nos acorda para a realidade da luta. Muitos de seus versos s\u00e3o fracos, mas a for\u00e7a da maioria deles \u00e9 tanta que quase rasga o papel. Em um poema de apenas vinte e cinco quadras de versos b\u00e1rbaros podem ser achadas pelo menos oito trechos que nenhum poeta brasileiro vivo seria capaz de igualar. O poeta nos atinge com simplicidade: \u00abN\u00e3o \u00e9 alegria nem dor esta dor com que me alegro\u00bb ou complexidade: \u00abA doida partiu todos os candelabros glabros,\/ sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas\u2026\/ E a minha alma \u00e9 aquela luz que n\u00e3o mais haver\u00e1 nos candelabros\u2026 E que querem ao lago aziago minhas \u00e2nsias, brisas fortuitas?\u2026\u00bb  Como n\u00e3o ser aceso pela sugest\u00e3o de que \u00abMinha alma \u00e9 uma l\u00e2mpada que se apagou e ainda est\u00e1 quente\u00bb?,  Esta sensa\u00e7\u00e3o de aus\u00eancia chega \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o absoluta quando o poeta diz: \u00abAh, deixa que eu te ignore\u2026 O teu sil\u00eancio \u00e9 um leque \u2014 \/ Um leque fechado, um leque que aberto seria t\u00e3o belo, t\u00e3o belo,\/ Mas mais belo \u00e9 n\u00e3o o abrir, para que a Hora n\u00e3o peque.\u00bb Como qualificar a beleza maior que existe no leque fechado, potencial, face \u00e0 decep\u00e7\u00e3o de o leque aberto n\u00e3o ser \u00e0 altura da expectativa constru\u00edda?  Existe camadas e camadas de sentido que escapam nas primeiras leituras. Precisei ler o poema mais de seis vezes ao longo da vida para entender que a singela frase \u00ab\u00c9 preciso destruir o prop\u00f3sito de todas as pontes\u00bb possui mais sentido do que parece: se pontes existem para unir o que est\u00e1 separado, destruir o prop\u00f3sito delas consiste em acabar com todas as separa\u00e7\u00f5es. Em um mundo onde ningu\u00e9m estivesse separado n\u00e3o haveria necessidade de pontes. A mais bela das utopias \u00e9 que as pontes fossem desnecess\u00e1rias. N\u00e3o somente as materiais, mas principalmente as metaf\u00f3ricas. Tal como o poeta eu lamento: \u00abH\u00e1 t\u00e3o pouca gente que ame as paisagens que n\u00e3o existem!\u2026\u00bb Sim, confesso: amo paisagens e pessoas que n\u00e3o existem, amo as que j\u00e1 existiram, mas n\u00e3o as diferencio das que s\u00e3o somente cria\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as de minha mente insatisfeita com as paisagens que existem, essas que todos veem e que tantos amam.  Esses que, como Pessoa e eu, amam as paisagens que n\u00e3o existem, acabam confessando-se: \u00abEu sou um doido que estranha a pr\u00f3pria alma\u00bb (e como, \u00e0s vezes, ela e eu nos estranhamos). A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que, ao contr\u00e1rio de Pessoa que, c\u00f4nscio de sua pr\u00f3pria genialidade, previa num futuro pret\u00e9rito que teria o reconhecimento que a vida lhe negava, eu jamais poderia dizer que \u00abfui amado em ef\u00edgie num pa\u00eds para al\u00e9m dos sonhos\u00bb. Ou ser\u00e1, melhor, que Pessoa ao dizer isto sugeria que somente em um lugar ainda mais profundo e longe que o pr\u00f3prio sonho haveria de encontrar o reconhecimento?<\/p>\n<p>Somente a leitura de \u00abHora Absurda\u00bb me gastou quatro horas nestes dias. Este \u00e9 um daqueles textos que n\u00e3o vale a pena ler com pressa. Quem vive com pressa, e depressa, n\u00e3o pode seguir o conselho m\u00e1gico: \u00abVive o momento com saudade dele j\u00e1 ao viv\u00ea-lo\u2026\u00bb  Mesmo o poeta, por\u00e9m, em outro momento, reconheceu que esta contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 perigosa. Ao aproximar-se da famosa ribeira do rio, musicado por Danilo Caymmi e gravado por Maria Bet\u00e2nia, o poeta percebe que a vida, o rio, tem por maior prop\u00f3sito justamente engambelar-nos: \u00abPorque o bem dele \u00e9 que fa\u00e7a \/ Eu n\u00e3o ver que vai passando.\u00bb Passei anos de minha vida sem perceber que o rio estava realmente passando. Por isso s\u00f3 entendi este poema aos trinta e nove anos.<\/p>\n<p>Cada dia acho um tesouro diferente. Para al\u00e9m dos famosos poemas que todo mundo conhece. Tardei quase vinte anos para saber o que seriam as \u00abcalhas de roda\u00bb nas quais o cora\u00e7\u00e3o, esse \u00abcomboio de corda\u00bb chamado cora\u00e7\u00e3o gira a entreter a raz\u00e3o. Aos poucos percebo as sutilezas do vocabul\u00e1rio tipicamente portugu\u00eas (muitas vezes mais belo que o nosso, t\u00e3o afrancesado e anglicizado). As calhas de roda (trilhos) por onde gira sem destino o comboio (trenzinho) de corda chamado cora\u00e7\u00e3o s\u00e3o semelhantes ao rio, que passa a tentar nos fazer ignorar sua passagem.<\/p>\n<p>E assim, enquanto leio o poeta, enquanto amo lugares que n\u00e3o existem, enquanto lembro tempo em que comemoravam o dia dos meus anos etc., tal como ele me perguntei em certa \u00e9poca \u00abporque fiz eu dos sonhos  a minha \u00fanica vida. \u00bb Depois eu achei que tinha sa\u00eddo dos sonhos e suas brumas e constru\u00eddo uma vida real onde habitar. Terminada esta tarefa, descobri que andara atr\u00e1s do alvo errado:  nem eu nem pessoa viv\u00edamos de sonho pela falta de uma vida de carne onde habitar. Segue verdade, na vida e no verso, que por mais vida que tenhamos, resta-nos um \u00abRosebud\u00bb que ningu\u00e9m conhece, habitando no fundo de um sonho, que \u00e9 o \u00fanico lugar onde nunca erramos, onde realizamos todos os nossos planos importantes, e onde podemos passar a limpo todos os maus passos. Quando compreendi isso, compreendi junto que os sonhos eram a \u00fanica vida do poeta simplesmente porque os sonhos s\u00e3o o \u00fanico lugar onde o ser humano realmente vivo: fora deles cada um de n\u00f3s \u00e9 um animal a reproduzir-se e comer. Ou, como famosamente disse o poeta: \u00abcad\u00e1ver adiado que procria\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tinha meros vinte e dois anos quando adquiri de um vendedor ambulante, em visita \u00e0 faculdade onde cursava Hist\u00f3ria, um exemplar da \u00abObra Po\u00e9tica\u00bb de Fernando Pessoa, publicada pela Aguilar. 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