{"id":152,"date":"2012-05-09T22:30:00","date_gmt":"2012-05-10T01:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=152"},"modified":"2017-11-02T14:08:59","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:59","slug":"nao-formataras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/05\/nao-formataras\/","title":{"rendered":"N\u00e3o Formatar\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p>Uma verdade sobre a qual pouco se reflete \u00e9 que existe, de fato, uma diferen\u00e7a abismal entre ter a capacidade de fazer alguma coisa e saber faz\u00ea-la bem. Em geral as pessoas est\u00e3o mais preocupadas em conseguir fazer do que em passar al\u00e9m disso e fazer bem. \u00c9 um tipo de &#8220;est\u00e9tica punk&#8221; que valoriza mais a &#8220;atitude&#8221; do que a habilidade. Os punks, como se sabe, eram m\u00fasicos que tinham inveja do dinheiro que ganhavam bandas como o Led Zeppelin e o Yes mas, n\u00e3o sabendo tocar nem a d\u00e9cima parte do que o Steve Howe fazia com o p\u00e9 esquerdo enquanto via televis\u00e3o, fizeram um ataque calhorda a esses grupos acusando-os justamente de terem se afastado da juventude por tocarem uma m\u00fasica &#8220;elitista&#8221; e ganharem rios de grana com ela. No fundo o que eles chamavam de &#8220;elitismo&#8221; era a capacidade de tocar bem os seus instrumentos.<\/p>\n<p>Os punks n\u00e3o foram os inventores do despeito \u2014 apenas os seus mais conhecidos e bem sucedidos praticantes nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u2014 mas uma ideia, quando solta no  mundo, ganha asas e cresce at\u00e9 chegar a lugares onde o seu criador original nem sonhava. Imagino que alguns m\u00fasicos dos prim\u00f3rdios do movimento punk tenham aprendido a tocar melhor desde ent\u00e3o e passaram a respeitar sujeitos como o Jimmy Page; ao mesmo tempo em que devem sentir arrelia nos dentes ao ouvir boa parte da m\u00fasica de hoje \u2014 e que s\u00f3 existe porque muita gente entrou pelo buraco que os punks arrombaram no muro que separa a mediocridade do sucesso. Exemplos dessa evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o faltam l\u00e1 fora: Robert Smith, do The Cure, n\u00e3o suporta ouvir o primeiro disco de sua banda, e David Byrne, do Talking Heads, largou a m\u00fasica e virou produtor (sendo respons\u00e1vel pela divulga\u00e7\u00e3o nos EUA do trabalho de gente como o nosso Tom Z\u00e9).<\/p>\n<p>Estes dois par\u00e1grafos iniciais, que certamente s\u00f3 far\u00e3o pleno sentido para quem entende algo de m\u00fasica, servem de introdu\u00e7\u00e3o para uma constata\u00e7\u00e3o que me sobreveio hoje ao receber mais uma &#8220;revista eletr\u00f4nica&#8221; (recebo umas seis ou sete por semana, algumas anexadas ao e-mail, outras com uma educada hiperliga\u00e7\u00e3o me convidando a baix\u00e1-la de um servidor na internet).<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o de que, no ramo das publica\u00e7\u00f5es amadoras, ningu\u00e9m mais se importa em fazer bem feito. Pode-se fazer feio, que \u00e9 falta de educa\u00e7\u00e3o dizer isso. S\u00f3 que eu sou mesmo mal educado e n\u00e3o me acanho de dizer: a maioria das publica\u00e7\u00f5es independentes padece de uma feiura que d\u00f3i nos olhos.<\/p>\n<p>Claro que eu n\u00e3o espero que algu\u00e9m que faz uma revista amadora tenha capacidade de dar-lhe um acabamento do n\u00edvel de uma revista semanal publicada por uma grande editora. N\u00e3o h\u00e1 tempo para isso e certamente os editores amadores n\u00e3o t\u00eam grana para comprar os programas profissionais necess\u00e1rios para tanto (e mesmo que os obtenham pela via da pirataria, n\u00e3o ter\u00e3o tempo para aprend\u00ea-los at\u00e9 chegarem ao mesmo n\u00edvel de um profissional gr\u00e1fico). Mas existem certos erros b\u00e1sicos, que poderiam ser evitados com sensibilidade (para observar como s\u00e3o feitas as revistas profissionais), alguma pesquisa sobre o tema (para conhecer o b\u00ea-a-b\u00e1 da formata\u00e7\u00e3o de documentos) e uma certa dose de talento (que nem todo mundo tem). Sem sensibilidade, talento e conhecimento; o resultado \u00e9 que as revistas eletr\u00f4nicas amadoras s\u00e3o frequentemente feias, e feias de doer, e ficam mais feias ainda se o leitor resolver imprimir para ler em papel ou distribuir (o que algumas delas chegam a implorar que o leitor fa\u00e7a). Eu acho que n\u00e3o existe desculpa para isso: basta pensar no que significa &#8220;amador&#8221;. Se o amador \u00e9 algu\u00e9m que &#8220;ama&#8221; fazer aquilo que se prop\u00f5e a fazer, ent\u00e3o \u00e9 de se esperar que o amador se dedique. Quem ama se dedica. E quem se dedica procura o conhecimento, trabalha a sua sensibilidade, aprimora o talento. Com bastante conhecimento e alguma sensibilidade, compensa-se bastante a insufici\u00eancia do talento, por exemplo. Portanto, ainda que seja desculp\u00e1vel a falta de talento, nada desculpa a ignor\u00e2ncia. Nada. Principalmente nos dias de hoje, em que se pode achar informa\u00e7\u00e3o sobre quase tudo na internet.<\/p>\n<p>Eu mesmo j\u00e1 abordei em vezes anteriores (<a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/06\/formatar-paginas-com-a-medida-aurea\/\">Formatando P\u00e1ginas com a Medida \u00c1urea<\/a> e <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/06\/medida-aurea-e-paginas-confortaveis\/\">Medida \u00c1urea e P\u00e1ginas Confort\u00e1veis<\/a>) alguns temas relacionados \u00e0 formata\u00e7\u00e3o, sempre ressaltando que as &#8220;regras&#8221; de formata\u00e7\u00e3o de documentos n\u00e3o s\u00e3o arbitr\u00e1rias, mas baseadas em boas pr\u00e1ticas que resultam em textos mais agrad\u00e1veis de ler. Por exemplo: existe uma ci\u00eancia na quantidade m\u00e1xima de letras por linha e de linhas por p\u00e1gina, uma ci\u00eancia que, inclusive, se baseia na fisiologia, que explica o funcionamento do olho humano. Mas o amador dir\u00e1 que essas &#8220;firulas&#8221; n\u00e3o s\u00e3o importantes, que o importante \u00e9 ter realizado algo. \u00c9 um racioc\u00ednio que seria respeit\u00e1vel em um mundo onde poucos fizessem alguma coisa. Com tantas facilidades oferecidas hoje pelos computadores, realmente parece haver muita gente fazendo e-zines amadores. Diante desta realidade este racioc\u00ednio \u00e9 uma condena\u00e7\u00e3o \u00e0 mediocridade. Por favor n\u00e3o incluam textos meus neste tipo de publica\u00e7\u00e3o. Nos fanzines de antigamente, penosamente xerocados, muitas vezes escritos \u00e0 m\u00e3o por falta at\u00e9 de m\u00e1quina de escrever, havia lugar para a feiura e eu n\u00e3o me importava de ser publicado ali. Mas nesses de hoje, produzidos aos montes usando qualquer editor de textos, a feiura \u00e9 apenas falta de vontade de evoluir. E me importa aparecer em um trabalho feito por algu\u00e9m que n\u00e3o se importa com a qualidade.<\/p>\n<p>A est\u00e9tica do &#8220;fa\u00e7a voc\u00ea mesmo&#8221; impede que o amador evolua. O simples ato de fazer parece bastar. N\u00e3o h\u00e1 um objetivo ulterior, de superar, de melhorar, de fazer algo que simplesmente fa\u00e7a a diferen\u00e7a em um mundo tosco, onde cada vez mais as pessoas pensam menos em realizar e mais em &#8220;fazer&#8221;. Um mundo no qual os amadores n\u00e3o amam o que fazem, pois n\u00e3o est\u00e3o ganhando nada com isso. Um mundo, em suma, no qual o amor verdadeiro s\u00f3 \u00e9 oferecido por aqueles que cobram por isso. Triste mundo esse, em ques\u00f3 as prostitutas fazem amor direito. Esta frase final eu dedico ao meu amigo Ronaldo Roque, que a inspirou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma verdade sobre a qual pouco se reflete \u00e9 que existe, de fato, uma diferen\u00e7a abismal entre ter a capacidade de fazer alguma coisa e saber faz\u00ea-la bem. Em geral as pessoas est\u00e3o mais preocupadas em conseguir fazer do que em passar al\u00e9m disso e fazer bem. \u00c9 um tipo de &#8220;est\u00e9tica punk&#8221; que valoriza mais a &#8220;atitude&#8221; do que a habilidade. 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