{"id":153,"date":"2012-05-01T10:39:00","date_gmt":"2012-05-01T13:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=153"},"modified":"2017-11-02T14:08:59","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:59","slug":"bloqueio-criativo-vs-desafio-inatingivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/05\/bloqueio-criativo-vs-desafio-inatingivel\/","title":{"rendered":"Bloqueio Criativo vs Desafio Inating\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>O bloqueio criativo \u00e9 um dos fantasmas que assombram os que se pretendem escritores. Amadores ou profissionais, todos j\u00e1 se viram algum dia cheios de vontade \u2014 ou de necessidade \u2014 de escrever e n\u00e3o podiam porque a coisa simplesmente \u00abn\u00e3o flu\u00eda\u00bb. Alguns culpam a falta da \u00abinspira\u00e7\u00e3o\u00bb, outros a falta de talento, outros a falta de assunto. O que \u00e9 certo \u00e9 que ningu\u00e9m pode se gabar de \u00absentar para escrever\u00bb quando quer \u2014 n\u00e3o entre os que escrevem coisas que prestam para ler.<\/p>\n<p>Como todo autor eu atravesso essas fases tamb\u00e9m, mas o que mais me d\u00f3i n\u00e3o \u00e9 atravessar dias ou semanas sem ter nenhuma ideia interessante para transformar em conto, cr\u00f4nica, romance ou poesia: \u00e9 no meio desta seca ter uma ideia genial, por\u00e9m irrealiz\u00e1vel diante de minhas limita\u00e7\u00f5es. Foi o que me ocorreu ontem.<a name=\"more\"><\/a><\/p>\n<p>Voc\u00eas que acompanham o blogue devem ter percebido que 2012 tem sido um ano de relativa seca criativa para mim. N\u00e3o apenas tenho postado pouco, mas n\u00e3o tenho postado nova fic\u00e7\u00e3o \u2014 e fic\u00e7\u00e3o era o carro-chefe desse blogue at\u00e9 fins de novembro passado. Numa fase dessas a gente fica sens\u00edvel a qualquer coisa que se ou\u00e7a, qualquer sonho que se sonhe, qualquer letra de can\u00e7\u00e3o. Em algum lugar pode estar enterrada uma ideia que, devidamente ordenhada, resultar\u00e1 em uma nova e interessante obra. Qual a decep\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, de encontrar esta ideia e n\u00e3o estar a altura de desenvolv\u00ea-la?<\/p>\n<p>Refiro-me ao meu sonho de ontem. Como andei conversando recentemente com o Gianpaolo Celli, que \u00e9 um editor que tem feito colet\u00e2neas de fantasia \u00absteampunk\u00bb (n\u00e3o considero o g\u00eanero como fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nem se apontarem um rev\u00f3lver para a minha cabe\u00e7a), acabei tendo uma ideia ligeiramente relacionada. Uma ideia \u00f3tima, diga-se de passagem \u2014 e muito adequada para a pr\u00f3xima colet\u00e2nea que ser\u00e1 publicada pelo Gian, mas\u2026 oh, merda! Uma ideia que est\u00e1 al\u00e9m de minha capacidade.<\/p>\n<p>Sonhei com um Brasil atual descendente de um Brasil \u00absteampunk\u00bb, conservando dele ainda boa parte de sua tecnologia retrofuturista atrasada em rela\u00e7\u00e3o aos grandes centros. Um pa\u00eds arcaico, governado por uma esp\u00e9cie de ditador caricato, habitado por uma popula\u00e7\u00e3o ignara, mergulhada em supersti\u00e7\u00f5es e em mau gosto musical e art\u00edstico. Um pa\u00eds em que os monumentos p\u00fablicos s\u00e3o de gesso pintado, as festas s\u00e3o regadas a caminh\u00f5es de cacha\u00e7a barata doada pelo governo e a elite vive em pal\u00e1cios isolados por muros e canh\u00f5es, comunicando-se por cartas e telefones e viajando em dirig\u00edveis pesados e lentos. O meu her\u00f3i, um vendedor de salgadinhos, que vive amasiado com um poeta louco e uma m\u00e3e de santo baiana, sonha em fugir para a R\u00fassia, por alguma raz\u00e3o, e constr\u00f3i para si um aparelho esquisito, em forma de roda d&#8217;\u00e1gua, movido por uma motocicleta, com o qual acredita que atravessar\u00e1 o mar. Preso durante sua tentativa de fuga, por atrapalhar a divers\u00e3o dos turistas gringos, \u00e9 levado at\u00e9 uma fortaleza tosca, onde o torturam a tapas e xingamentos e onde aguarda ser executado ou n\u00e3o. Seus amantes entram na fortaleza durante a madrugada, subornam os guardas e ajudam-no a sair, mas acabam na ca\u00e7amba de um caminh\u00e3o que levava mercadorias importadas para uma dep\u00f3sito do pal\u00e1cio e subitamente se veem no meio da festa de elei\u00e7\u00e3o do novo monarca. Confundido com um pr\u00edncipe europeu, o poeta louco \u00e9 eleito e inicia um governo ainda mais louco, e meu sonho termina com galeras at\u00f4micas russas apontando no litoral para exigir que ele se retrate de algumas atitudes e pronunciamentos.<\/p>\n<p>Eis um resumo das imagens e sons ca\u00f3ticos e supercoloridos que atravessaram a minha mente durante esta noite. Alguns detalhes eu tive de suprir porque o original estava confuso demais, mas creio que 80% do que a\u00ed est\u00e1 descreve o que realmente sonhei, embora, como sempre, o sonho tenha sido em sua maior parte esquecido.<\/p>\n<p>Com um material desses na m\u00e3o um autor dotado de bom humor e de razo\u00e1vel capacidade de s\u00edntese produziria uma obra genial, satirizando alguns aspectos de nossa cultura, aproveitando o mote do \u00absteampunk\u00bb ou do \u00abdieselpunk\u00bb e resultando em um livro certamente aprovado pelas editoras que publicam esses g\u00eaneros no Brasil. Existem, por\u00e9m, dois problemas que me impedem de realizar isto.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 que eu n\u00e3o quero entrar nesses g\u00eaneros \u00ab*punk\u00bb porque acredito que esse tipo de cruzamento entre fantasia e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica acaba sendo trabalhoso demais, diante da minha forma\u00e7\u00e3o e de minhas refer\u00eancias. O segundo \u00e9 que eu n\u00e3o me sinto capacitado a dar a esta obra o tratamento de farsa que ela precisa ter, devidamente dosado com viol\u00eancia e promiscuidade. Sem essa mistura a obra n\u00e3o \u00e9 cr\u00edvel. E retornando ao primeiro motivo: esta mistura n\u00e3o me interessa.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, como sou um cara do tipo \u00abgente boa\u00bb, resolvi compartilhar o meu sonho com os meus leitores. Aqueles que desejarem pegar a ideia e desenvolver, sintam-se \u00e0 vontade para isso. Apenas gostaria que tivessem o bom car\u00e1ter de me recompensar com um agradecimento na edi\u00e7\u00e3o e\/ou um link em seu blogue. Claro, bom car\u00e1ter n\u00e3o \u00e9 todo mundo que tem e no Brasil \u00e9 quase irreal exigir isso, mas vamos ver no que d\u00e1. Eu n\u00e3o vou fazer nada com a ideia mesmo, quem sabe n\u00e3o consigo ajudar outro que esteja com bloqueio criativo e ainda fa\u00e7o um novo amigo virtual?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O bloqueio criativo \u00e9 um dos fantasmas que assombram os que se pretendem escritores. Amadores ou profissionais, todos j\u00e1 se viram algum dia cheios de vontade \u2014 ou de necessidade \u2014 de escrever e n\u00e3o podiam porque a coisa simplesmente \u00abn\u00e3o flu\u00eda\u00bb. Alguns culpam a falta da \u00abinspira\u00e7\u00e3o\u00bb, outros a falta de talento, outros a falta de assunto. O que \u00e9 certo \u00e9 que ningu\u00e9m pode se gabar de \u00absentar para escrever\u00bb quando quer \u2014 n\u00e3o entre os que escrevem coisas que prestam para ler. 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