{"id":1530,"date":"2014-04-07T21:00:53","date_gmt":"2014-04-08T00:00:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1530"},"modified":"2018-02-26T20:15:04","modified_gmt":"2018-02-26T23:15:04","slug":"o-barco-de-milhoes-de-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/04\/o-barco-de-milhoes-de-anos\/","title":{"rendered":"O Barco de Milh\u00f5es de Anos"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o vamos \u00e0s estrelas, baby&#8221; \u2014 assim come\u00e7ou o discurso do capit\u00e3o. &#8220;Em vez disso, vamos impedir que o inimigo v\u00e1.&#8221; Os soldados, irrequietos, nada perguntaram. Era bom saber que os capit\u00e3es e coron\u00e9is sabiam o que fazer. Pena que n\u00e3o soubessem. &#8220;Ordin\u00e1rio, marche!&#8221; E a tropa adentrou o deserto em busca do inimigo imposs\u00edvel, marchando deze\u00adnas de l\u00e9guas sob o sol cada vez mais forte, at\u00e9 cada um deles cair, de fome e sede ou trucidado em conflitos previs\u00edveis diante do desespero. Na verdade a marcha era em v\u00e3o. Nos desertos radiativos sob sol, apenas redemoinhos de poeira se erguiam contra as armas e nas florestas contaminadas apenas as plantas mais fortes se tran\u00e7avam entre os tanques. N\u00e3o havia mais inimigos: sob a apar\u00eancia de permanente guerra, todos os governos do mundo cooperavam na constru\u00e7\u00e3o do barco de milh\u00f5es de anos. Mas havia gente demais na terra.<\/p>\n<blockquote><p>\n  &#8220;Ele derrama as suas l\u00e1grimas vendo o barco de milh\u00f5es de anos.&#8221;<br \/>\n  <cite>Peter Hammill &#8211; &#8220;The Boat of Millions of Years.<\/cite>\n<\/p><\/blockquote>\n<p>&#8220;A arma \u00e9 uma coisa boa. Ela asperge balas que podam vidas e limpam a terra. O p\u00eanis \u00e9 ruim. Ele esparge esperma que fecunda vidas e semeia a maldi\u00e7\u00e3o.&#8221; Outra seita fan\u00e1tica, esta n\u00e3o pregava suic\u00eddio. A pol\u00edcia, ocupada demais sal\u00advando os ricos e a si mesma. Somente quando as balas chegaram a lugares altos foi que algo se tentou fazer, mas j\u00e1 havia rifles demais do lado de Deus. Em breve descobriram que rifles s\u00e3o insuficientes, embora sirvam para vencer sentinelas. Bombas explodem coisas e h\u00e1 coisas que n\u00e3o se pode abrir no ar.<\/p>\n<p>Estas e outras guerras duraram poucos anos. Guerras assim produzem deser\u00adtos, e desertos n\u00e3o lutam. &#8220;O deserto \u00e9 liberdade. Onde o homem n\u00e3o pisa, a vida retorna. Aprendam o exemplo de Chernobyl.&#8221; Deser\u00adtos que dura\u00adriam in\u00fameros anos antes da volta do homem, anos em que a vida estaria exposta e o barco de milh\u00f5es de anos singraria os c\u00e9us levando as sementes do passado.<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>O barco de milh\u00f5es de anos permaneceu em torno da terra, brilhando sobre os desertos e a morte. H\u00f3rus contemplava a terra f\u00e9rtil, ansioso pela pos\u00adsi\u00adbi\u00adli\u00addade de voltar. Mas Set continuava no deserto, pertencia-lhe a terra devastada, senhor de todas as mortes, duque sobre todas as ru\u00ednas. E Set segurava suas l\u00e1grimas ao ver o barco de milh\u00f5es de anos singrar o c\u00e9u, belo como um planeta, infal\u00edvel como uma lua.<\/p>\n<p>Em seu cora\u00e7\u00e3o Set invejava aquela luz do passado, citada em lendas que o tempo esquecera. A inveja resultava em desejo, era preciso ser forte, para matar o falc\u00e3o quando pousasse, pois a flecha mais veloz n\u00e3o alcan\u00e7a a altura excelsa do voo de tal deus. Matar o falc\u00e3o quando pousasse, derrotar a beleza e o passado. Em Set repousa o mal e a escurid\u00e3o, repousa a corrup\u00e7\u00e3o e a morte. Mas H\u00f3rus sorve a alegria do sol e singra o c\u00e9u, puro e alheio a todo mal.<\/p>\n<p>Os filhos de Set compreendiam. A beleza os abandonara, em um passado de milhares de anos. Deixados para tr\u00e1s no apocalipse, eles, os degenerados, os que herdaram a Terra. Eles derramavam suas l\u00e1grimas impotentes ao ver o barco de milh\u00f5es de anos singrando os c\u00e9us, al\u00e9m de toda flecha, depois al\u00e9m de toda bala. Figuras solit\u00e1rias contemplando, sombras nas sombras dos morros. No fundo dos vales, onde ainda havia paz. E a morte espreitando, a peste percorrendo o mundo com seu dedo irresist\u00edvel.<\/p>\n<p>Na cent\u00e9sima quinta lua nova de sua vida, ele foi iniciado no \u00f3dio, como todos os ancestrais. Apontaram-lhe o c\u00e9u: somos os descendentes de todos os deserdados, mas eles n\u00e3o s\u00e3o sen\u00e3o os mesmos que uma vez mataram o mundo. E eles retornar\u00e3o um dia, t\u00e3o vazios quanto partiram. Devemos viver sem medo, ansiar por sua volta, e quando pousar o barco de milh\u00f5es de anos, matar cada um que des\u00e7a, purificar a terra do pecado do passado que ainda vampiriza o sol e nos desafia, sorridente, sobre os ossos de nossos antepassados. N\u00e3o h\u00e1 deuses de nenhum lado, mas os que quiserem marchar conosco, que venham, n\u00e3o \u00e9 uma peregrina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma boa obra. Vamos matar, matar e matar. O sangue regar\u00e1 a terra, manchar\u00e1 a lisura deste barco que flutuou acima da lama, inerte. E os que morrermos, seremos como nossos pais, parte desta terra que nos concebe e devora.<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>O foguete subiu pela d\u00e9cima quinta vez naquele ano, levando mais gente e mais sementes para H\u00f3rus. Em breve o barco ficou cheio, pronto para navegar as \u00f3rbitas da eternidade. Mas n\u00e3o partiu num jorro de mort\u00edfera luz para sangrar o espa\u00e7o \u00e0 cata de estrelas distantes. Em vez disso permaneceu a flutuar, lugubremente, em uma \u00f3rbita polar. Mecanismos autom\u00e1ticos, movidos a energia solar, estavam programados para corrigir o seu rumo cada vez que se desviasse nas varia\u00e7\u00f5es gravitacionais da Terra.<\/p>\n<p>Isto foi tudo que os governos de todo o mundo puderam fazer. N\u00e3o havia or\u00e7amento, n\u00e3o havia energia, n\u00e3o havia conhecimento. Presos \u00e0 po\u00e7a natal, agora envenenada, os terr\u00e1queos tinham de se conformar com a posteridade. Raul era um deles, e o sono de milh\u00f5es de anos era o seu destino. &#8220;N\u00e3o vamos \u00e0s estrelas, esperaremos que o mundo se recupere, e voltaremos. Enquanto isso, H\u00f3rus cuidar\u00e1 de n\u00f3s, em nossos leitos de anima\u00e7\u00e3o suspensa.&#8221;<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>Safeth amanheceu tranquila naquela manh\u00e3, como quase em todas as outras. Havia dezenas milhares de anos que a \u00faltima guerra terminara. For\u00e7ados a sobreviver na adversidade, os humanos sobreviventes tinham perdido a \u00e2nsia de matar-se. A n\u00e1usea da morte presente aniquilara todo impulso, o resto se completara, espertamente, no culto do \u00f3dio ao barco de milh\u00f5es de anos. Era f\u00e1cil, vis\u00edvel, um alvo distante demais para ser atingido, portanto adequado para receber o \u00f3dio de milh\u00f5es de almas. Amaldi\u00e7o\u00e1-lo fazia parte de toda sauda\u00e7\u00e3o, mais como uma f\u00f3rmula do que como inten\u00e7\u00e3o. Mas milhares de anos de \u00f3dio cultivado em cultos e ritos, de prepara\u00e7\u00f5es mentais incessantes\u2026 isso n\u00e3o se perderia facilmente. Safeth estava em paz, \u00e0 espera do pouso do falc\u00e3o, e nos \u00faltimos anos havia alguns de seus habitantes que temiam o dia em que tal acontecesse. &#8220;Como reagiremos se os homens do passado retor\u00adna\u00adrem mesmo, como dizem as lendas?&#8221;<\/p>\n<p>Safeth amanheceu tranquila, e assim teria continuado, se o jornal da tarde n\u00e3o tivesse sa\u00eddo com uma nota enigm\u00e1tica na se\u00e7\u00e3o de ci\u00eancias: &#8220;observou-se uma altera\u00e7\u00e3o do curso do barco de milh\u00f5es de anos&#8221;.<\/p>\n<p>Como era poss\u00edvel? Ainda n\u00e3o haviam se passado os necess\u00e1rios milh\u00f5es de anos! N\u00e3o, nin\u00adgu\u00e9m poderia precisar quantos anos: a civiliza\u00e7\u00e3o era muito recente, pouco mais que cinco ou seis mil anos de registros, mas os vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos n\u00e3o davam ideia de mais do que uns dez mil anos para os eventos catacl\u00edsmi\u00adcos que haviam destru\u00eddo o homem e para a estrutura que lan\u00e7ara a famosa cria\u00e7\u00e3o da antiga humanidade.<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>H\u00f3rus consultou os sensores e ajustou novamente o curso. A terra estava quase toda livre de quase toda radia\u00e7\u00e3o, a camada de oz\u00f4nio protegia eficazmente dos raios sola\u00adres inadequados, a camada de nuvens era l\u00edmpida, o ciclo da \u00e1gua estava restabelecido, at\u00e9 mesmo sinais incipientes de geleiras apareciam nos polos. N\u00e3o seria preciso esperar os milh\u00f5es de anos que os humanos, num exagero ret\u00f3rico, haviam atribu\u00eddo ao seu ex\u00edlio. Era a hora de pousar o barco em um local tranquilo e semear de volta a vida preservada.<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>O aeroplanador chegou a Safeth no cair da tarde, l\u00e1 pela sexag\u00e9sima hora. Sua pintura amarela e branca indicava neutralidade. Cientistas? Diplomatas? Quem have\u00adria de ser o passageiro? O presidente Harran reuniu o minist\u00e9rio para receber o visitan\u00adte t\u00e3o logo a bandeira quadriculada de Kalahar foi hasteada pelos tripu\u00adlantes em seu estacionamento designado no aeroporto. Kalahar era um pa\u00eds importante demais. Seus diplomatas deveriam ser recebidos com o status de um chefe de estado.<\/p>\n<p>Harlan Eng era baixo e esguio, com pouco cabelo na carapinha e uma irritante forma de falar substituindo ocasionalmente alguma consoante pelos cliques equi\u00advalentes. Mas os pr\u00f3prios governantes de Safeth haviam se acostumado ao sotaque de Kalahar e conseguiam ocultar o inc\u00f4modo auditivo na presen\u00e7a dos visitantes.<\/p>\n<p>&#8220;Senhores, recebemos em nossa Academia a informa\u00e7\u00e3o telegrafada de seu obser\u00advat\u00f3rio e pude\u00admos verificar, para nosso espanto, que coincide com os registros feitos em nossos pr\u00f3prios observat\u00f3rios e por outras, anteriores, feitas nos pa\u00edses mais a leste. Tudo parece indicar que estamos diante da possibilidade real de que o falc\u00e3o pouse, o que significar\u00e1 um evento trans\u00adformador de nossa hist\u00f3ria. E a rep\u00fablica de Safeth, herdeira dos ideais e da religi\u00e3o dos mais antigos, precisa estar preparada para esse momento, ou as massas sair\u00e3o de controle e as conquistas da civiliza\u00e7\u00e3o podem ser destru\u00eddas.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Vossa Excel\u00eancia saiba que n\u00f3s e toda a nossa classe dirigente nos pre\u00adparamos por todos esses s\u00e9culos, mesmo quando os outros pa\u00edses aban\u00addo\u00adnaram a velha religi\u00e3o e retornaram \u00e0 f\u00fatil e destrutiva busca de civiliza\u00e7\u00e3o. Aqui estamos, como sempre estivemos. Perdemos a preemin\u00eancia no mundo, per\u00addemos a maior parte de nosso territ\u00f3rio original para senhores da guerra que s\u00f3 enxer\u00adgam em curto prazo, mas n\u00e3o perdemos nosso comprometimento com nosso objetivo supremo, de guardar os ideais da civi\u00adliza\u00e7\u00e3o. Embaixador Eng, saiba que j\u00e1 come\u00e7amos os pre\u00adpa\u00adrativos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E Kalahar estar\u00e1 com voc\u00eas, conforme a promessa de nossos ancestrais.&#8221;<\/p>\n<p>Eng voou de volta a Kalahar ainda naquela noite, apesar do medo que todos os habitantes do continente de Afar ainda tinham das trevas. Voaram baixo sobre o mar, de luzes apagadas para n\u00e3o despertar nenhum monstro marinho. No dia seguinte o ditador perp\u00e9tuo de Kalahar seria comunicado da boa disposi\u00ad\u00e7\u00e3o de Safeth e todos come\u00e7ariam a se preparar para o pouso.<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>As torres de r\u00e1dio experimentais de Kaap come\u00e7aram a emitir sinais em dire\u00ad\u00e7\u00e3o ao barco de milh\u00f5es de anos. Tais sinais seriam, de alguma forma com\u00adpre\u00aden\u00addidos pelos seres que navegavam: as lendas lembravam que o homem ante\u00adrior costumara comunicar sua voz atrav\u00e9s do r\u00e1dio. Mas os sinais nunca eram respondidos, revelando toda a hostilidade do barco e seus tripulantes. Ele con\u00adtinuou a singrar o c\u00e9u sem emitir nenhum r\u00e1dio em retorno.<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>Trig\u00e9sima terceira hora de um dia l\u00edmpido, seguinte a uma noite de pesadas chuvas sobre as plan\u00edcies alagadi\u00e7as de Misp\u00ed. Os selvagens dourados viram a estranha nuvem caudalosa cruzar o c\u00e9u de norte para sul. Eles n\u00e3o conheciam as lendas sobre o barco de milh\u00f5es de anos, para eles era apenas uma maravi\u00adlha a mais em um mundo misterioso. Mas entre eles havia um que se deteve de suas tarefas brutais, entrou em uma cabana, lavou as m\u00e3os em uma grande bacia de terracota, pressionou um bot\u00e3o em uma caixa de metal pintada de negro e come\u00e7ou a martelar ritmicamente. Sua mensagem foi recebida pelas for\u00e7as a\u00e9reas de Kalahar e Fermott, que j\u00e1 manobravam sobre o Oceano do Norte em grandes dirig\u00edveis. Mais uma vez as antigas lendas estavam cer\u00adtas: H\u00f3rus pousaria entre as charnecas e brejos do norte selvagem, no lugar onde, mil\u00eanios antes, teria existido o porto de onde partiram. Mas como pou\u00adsa\u00adriam, sem o porto, consumido pelas florestas e pelo verme do tempo?<\/p>\n<p>O Almirante Kung consultou suas instru\u00e7\u00f5es e ordenou \u00e0 frota que se apro\u00adxi\u00admasse da costa o mais poss\u00edvel, para que o apoio naval fosse eficaz, mas longe o bas\u00adtante para evitar que os navios encalhassem nos trai\u00e7oeiros mangues e ala\u00adga\u00addi\u00ad\u00e7os costeiros. Quarenta belonaves de a\u00e7o e madeira de lei, constru\u00eddas exclu\u00adsi\u00adva\u00admente para este dia apareceram como um portento diante dos sel\u00adva\u00adgens. Amedrontados, eles cobriram de lama suas cabeleiras douradas, tal como lendariamente teriam feito seus antepassados para se proteger do calor incle\u00admente de um sol que se tornara mau. E desde ent\u00e3o sempre faziam isso diante dos destemperos da natureza, diante da guerra, diante de qualque tristeza par\u00adticular.<\/p>\n<p>&#8220;Almirante&#8221; \u2014 indagou o comandante Yalp, do coura\u00e7ado Karoo \u2014 &#8220;nunca imaginamos que estas coisas tivessem uso real em combate. Estaremos real\u00admente preparados para isto que pretendemos fazer?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Comandante, eu nunca me perguntei se estar\u00edamos prontos, mas sempre tive a certeza de que cada homem cumpriria com o seu dever quando chegasse a hora de agir.&#8221;<\/p>\n<p>Do outro lado do r\u00e1dio de intercomunica\u00e7\u00e3o se ouviu apenas o sil\u00eancio cons\u00adtrangedor de Yalp entre seus imediatos. Sim, todos haviam crescido supondo o dia em que teriam de cumprir seu dever. Entre todos os povos do mundo, Safeth e Kalahar eram os que portavam com mais luz a tocha da civiliza\u00e7\u00e3o. Eles deviam cumprir este dever, mesmo que nos desertos e florestas do planeta o resto da humanidade n\u00e3o se lembrasse mais. Por\u00e9m todo o preparo ritual ent\u00e3o parecia vazio e ineficaz. Os s\u00e9culos e mil\u00eanios haviam transfor\u00admado a sanha guerreira em um \u00f3dio metaf\u00f3rico, que se exercitava em festivais anuais e peregrina\u00e7\u00f5es, mas sem vontade de lutar. A n\u00e3o ser nos mais fan\u00e1\u00adticos, que estavam dispostos a morrer em nome das lendas. Por fim, Yalp rom\u00adpeu o sil\u00eancio para se justificar:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o foi o que quis dizer, Almirante Kung. O Sr. sabe, t\u00e3o bem quanto qual\u00adquer de n\u00f3s, que Fermott manter\u00e1 sua palavra. Nosso receio \u00e9 de ordem t\u00e9c\u00adnica apenas.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Receio anotado, Yalp. E que n\u00e3o seja compartilhado com outros oficiais, para que a covardia de alguns n\u00e3o produza mais receios t\u00e9cnicos.&#8221;<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>O barco de milh\u00f5es de anos repousou sobre uma colina baixa, no centro da \u00fanica plan\u00edcie de terra firme num raio de milhares de quil\u00f4metros. Dizia-se que no passado o lugar fora uma cidade. O antigo homem terraplenara os brejos, trouxera pedras, cimento e outros materiais. Com eles compactara o solo a ponto de restar aquele c\u00edrculo s\u00f3lido mesmo quando o mar derretera o ch\u00e3o ao redor. E no centro, ap\u00f3s mil\u00eanios de ru\u00edna, os pr\u00e9dios amontoados restaram como uma colina de detritos imprest\u00e1veis. Dizia-se que os antigos fizeram pr\u00e9dios t\u00e3o altos que amea\u00e7avam os p\u00e1ssaros e os dirig\u00edveis. Pr\u00e9dios t\u00e3o altos que ao cair comprimiram tudo dentro de si at\u00e9 nada restar de ind\u00edcio para os arque\u00f3logos.<\/p>\n<p>T\u00e3o rapidamente quanto poss\u00edvel a esquadrilha de dirig\u00edveis se aproximou e estacionou ao redor do barco de milh\u00f5es de anos. Todos os canh\u00f5es prepara\u00addos para disparar ao m\u00ednimo sinal de vida. Mas n\u00e3o sem cumprir o ritual imaginado pelo lend\u00e1rio Abdallah Romanov.<\/p>\n<p>Do dirig\u00edvel principal desceu um aeroplanador pequeno, movido a energia solar. Tinha as cores da paz: amarelo e branco. Voejou em torno da plan\u00edcie circular, perdendo altitude lentamente, e por fim pousou a menos de cem metros do barco de milh\u00f5es de anos, ali ainda deitado como um paquiderme aban\u00addo\u00adnado em terra firme, zumbindo discretamente.<\/p>\n<p>Terry Eng desceu, ostentando o uniforme adequado, com todas as ins\u00edgnias civis e religiosas devidas. Era um terr\u00edvel papel o que tinha de desempenhar o primog\u00eanito de Kalahar quando o barco pousasse, mas ele nunca duvidara que poderia conseguir. Logo atr\u00e1s desceu o presidente Sorez, tamb\u00e9m paramen\u00adtado. Sobre sua cabe\u00e7a um imenso chap\u00e9u dourado com s\u00edmbolo verde que lembrava uma serpente retorcida em torno de um poste. Este seria o sinal reconhecido pelos antigos. S\u00edmbolo, talvez, da religi\u00e3o esquecida. Eles pre\u00adcisavam saber em nome do que morreriam.<\/p>\n<p>Ian Sorez foi o primeiro a tomar alguma iniciativa. Desceu do aeroplanador e se aproximou do barco de milh\u00f5es de anos com o b\u00e1culo erguido e fez a sau\u00adda\u00ad\u00e7\u00e3o ritual: &#8220;C\u00e2mbio&#8221;.<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>&#8220;Sr. Eng?&#8221; cumprimentou uma voz discreta. Harlan Eng se distraiu dos relat\u00f3\u00adrios e voltou sua aten\u00e7\u00e3o ao rec\u00e9m-chegado.<\/p>\n<p>&#8220;Pois n\u00e3o, Ministro&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Tenho me preocupado com a possibilidade desta guerra. Sei que o barco de milh\u00f5es de anos \u00e9 bastante pequeno e n\u00e3o poderia conter mais do que umas poucas centenas de sobreviventes mas\u2026 eles podem ter alguma t\u00e9cnica que n\u00e3o dominamos. Existe alguma chance de que sejamos destru\u00eddos por alguma coisa que nos fa\u00e7am?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Certamente que h\u00e1. Se n\u00e3o houvesse nenhuma chance, os nossos ancestrais n\u00e3o nos teriam pre\u00advenido sobre o que chamaram de \u2018guerra do fim do mundo\u2019 e n\u00e3o nos teriam aconselhado a conservar nosso poderio militar. Mas n\u00e3o con\u00adsigno compreender a raz\u00e3o de sua preocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 isso o que todos n\u00f3s esperamos durante mil\u00eanios?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o exatamente, Sr. Eng. Sabemos, n\u00f3s dois, que h\u00e1 v\u00e1rios s\u00e9culos que nin\u00adgu\u00e9m mais acreditava na realidade desta guerra.&#8221;<\/p>\n<p>Eng se levantou, empregando um pouco da for\u00e7a de homem que a idade ainda n\u00e3o lhe roubara e estendeu a bengala na dire\u00e7\u00e3o do infiel:<\/p>\n<p>&#8220;Pessoas como voc\u00ea, Ministro Dorf, causaram a ru\u00edna da antiga humanidade.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 o que dizem. Eu n\u00e3o creio muito nos registros daquela \u00e9poca. Sabemos, ambos, que durante o cataclismo a humanidade produziu relatos contradit\u00f3\u00adrios de suas causas. Tendo a acreditar que as coisas, talvez, n\u00e3o sejam como foram contadas. Que os antigos n\u00e3o eram t\u00e3o poderosos nem t\u00e3o demon\u00edacos quanto a religi\u00e3o nos diz.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o sei se eram poderosos ou maus. Sei que eu cresci vendo o Barco de Milh\u00f5es de Anos singrando o c\u00e9u, como um olho de demon\u00edaco, ansiando pelo dia em que os malditos o fariam pousar, e enfrentariam o julgamento dos deserdados.&#8221;<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>As horas foram se passando e nenhuma luz se acendeu, nenhuma outra porta se abriu. Os dois dignat\u00e1rios, indignados, se retiraram no aeroplanador para novo concili\u00e1bulo a bordo do dirig\u00edvel principal. O restante do dia se passou sem que sinal algum fosse emitido do barco de milh\u00f5es de anos. Mas quando o dia novamente amanheceu os receptores de r\u00e1dio come\u00e7aram a zunir com raiva, em um louco ritmo alterando de estalos e sil\u00eancios. Ap\u00f3s minutos sem sucesso em acabar com a irrita\u00e7\u00e3o, os operadores os desligaram.<\/p>\n<p>Por fim, l\u00e1 pela trig\u00e9sima hora, quando o sol come\u00e7ava a aquecer a terra com mais firmeza, uma portinhola se abriu no barco de milh\u00f5es de anos. Mas dela ningu\u00e9m saiu. O interior estava escuro, exceto por raras luzes que oscilavam com uma vagareza melanc\u00f3lica. Exaustos da contempla\u00e7\u00e3o, os dois dignat\u00e1rios decidiram descer at\u00e9 l\u00e1 e contatar os insolentes Antigos que, afinal, deveriam morrer em breve, t\u00e3o logo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A sauda\u00e7\u00e3o foi repetida. Ningu\u00e9m respondeu. O interior continuava escuro, exceto pelas r\u00fatilas luzes que zombavam da paci\u00eancia dos dignat\u00e1rios. Por fim, Eng n\u00e3o suportou mais e, desembainhando sua espada cerimonial, que segurou com a destra, e uma pistola de ar comprimido, que manteve \u00e0 m\u00e3o esquerda, entrou no corredor escuro, resoluto a morrer com a dignidade que conv\u00e9m a um grande ditador. Sorez, enver\u00adgonhado, seguiu atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Ao fim do corredor, que era bem mais curto do que parecia visto de fora, havia outra porta, com uma janela de vidro. Ambas resistiram \u00e0s balas e \u00e0 espada de Eng. Por fim, convencido de sua impot\u00eancia, ele berrou: &#8220;Eu sou Terry Eng, primog\u00eanito do grande ditador de Kalahar, venho em nome de meu povo e de toda a humanidade, cumprir o papel que as Tradi\u00e7\u00f5es e a Religi\u00e3o me deter\u00admi\u00adnaram. E quem sois v\u00f3s que insolentemente retornam a este mundo que abandonaram?&#8221;<\/p>\n<p>O sil\u00eancio sepulcral continuou. Mas foi brevemente interrompido pelo estalo met\u00e1\u00adlico do que pareceu ser uma dezena de fechaduras dentro de um por\u00e3o. Ent\u00e3o a porta cedeu, deixando passar uma r\u00e9stia de luz. Eng chutou a porta e uma lufada de ar empestado lhe soprou no rosto, o ar de uma tumba fechada por mil\u00eanios. Suor, putrefa\u00e7\u00f5es, acidez. O ar limpo e saud\u00e1vel das plan\u00edcies salinas invadiu aquele ambiente mef\u00edtico, logo formando got\u00edculas de con\u00adden\u00adsa\u00e7\u00e3o nas paredes, que pareciam estar bem mais frias do que a saud\u00e1vel tem\u00adperatura exterior.<\/p>\n<p>Sorez e Eng tossiram vigorosamente quando receberam aquela lufada pesti\u00adlenta. Mas o jorro de ar limpo os aliviou, e logo puderam respirar normal\u00admente, apesar de persistir um forte cheiro de podrid\u00e3o guardada.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m, Sorez.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Isto realmente \u00e9 uma pena. O que ter\u00e1 acontecido?&#8221;<\/p>\n<p>Os dois entraram. A porta dava para uma sala octogonal. Cada lado terminava em outra porta, todas abertas. Ao centro havia uma mesa de material indefin\u00ed\u00advel, branco opaco e ligeiramente male\u00e1vel, fixa ao ch\u00e3o por parafusos. Sobre tal mesa havia um objeto met\u00e1lico, preso pelo que pareciam ser fitas de tecido adesivas. Em sua ansiedade kamikaze, o primog\u00eanito Eng tocou o objeto, que produziu um ligeiro estalo, iluminou-se e projetou no ar uma imagem tridi\u00admensional de um jovem de fei\u00e7\u00f5es impossivelmente lisas e regulares, de uma ra\u00e7a que Eng e Sorez n\u00e3o conheciam.<\/p>\n<p>O jovem come\u00e7ou a falar, muito devagar, com um sotaque que o tornava quase inintelig\u00edvel, na l\u00edngua antiga de Safeth, a l\u00edngua sagrada do passado.<\/p>\n<p>&#8220;Sauda\u00e7\u00f5es, visitantes do futuro. Meu nome \u00e9 H\u00f3rus. N\u00e3o sei quem s\u00e3o voc\u00eas, mas voc\u00eas ouviram falar de mim. Eu sou quem navega no barco de milh\u00f5es de anos e eu o aportei novamente entre v\u00f3s. Eu lhes apare\u00e7o nesta forma porque n\u00e3o poderia lhes aparecer sob nenhuma outra, uma vez que estou morto h\u00e1 mais tempo do que as suas lendas imaginam que a civiliza\u00e7\u00e3o existe. E mortos est\u00e3o todos os que habitariam o barco de milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>&#8220;Eu sei que voc\u00eas, provavelmente, desenvolveram lendas cheias de \u00f3dio contra n\u00f3s, mas agora voc\u00eas sabem que este \u00f3dio \u00e9 infrut\u00edfero, pois n\u00e3o se pode mais matar os mortos. Em vez disso, saibam que n\u00f3s, os que morremos, lhes trou\u00adxe\u00admos de volta a vida que existiu no mundo antes das contamina\u00e7\u00f5es: semen\u00adtes de vegetais nutritivos, embri\u00f5es de animais que repovoar\u00e3o a terra de criaturas \u00fateis. Todos esses presentes s\u00e3o seus, pois voc\u00eas s\u00e3o os nossos filhos que n\u00f3s nunca veremos.&#8221;<\/p>\n<p>Sorez e Eng deixaram o recinto do barco de milh\u00f5es de anos e viram um cen\u00e1rio impressionante. Os dirig\u00edveis disparavam suas armas, mas os proj\u00e9teis n\u00e3o alcan\u00e7avam alvos, como se fossem disparados contra fuma\u00e7a e afundas\u00adsem em areias movedi\u00e7as. Em torno do barco de milh\u00f5es de anos havia uma dezena ou mais de pequenos aeroplanadores de modelos desconhecidos, que pare\u00adciam ter sa\u00eddo de dentro dele. Cada um deles era carregado de caixotes met\u00e1\u00adlicos que eram trazidos por coisas parecidas com homens, mas feitas de metal, e por coisas parecidas com insetos, idem.<\/p>\n<p>Quando o carregamento terminou, cada um dos aeroplanadores decolou em uma dire\u00e7\u00e3o e desapareceram no horizonte, a uma velocidade al\u00e9m da imagi\u00adn\u00e1vel, produzindo um grande estrondo no ar. Sorez e Eng entraram em seu pr\u00f3prio aeroplanador e retornaram ao aer\u00f3stato militar, de onde comunica\u00adram a seus pa\u00edses a descoberta feita e pediram instru\u00e7\u00f5es para agir, diante da inefic\u00e1cia de toda arma conhecida.<\/p>\n<p>Do outro lado da linha, no discreto pal\u00e1cio de inverno de Safeth, ocupado temporariamente por tropas de Kalahar, o ditador perp\u00e9tuo apertou o queixo estreito com a sua m\u00e3o magra de pai do povo. Nos olhos ba\u00e7os brilhou uma l\u00e1grima pelos mil\u00eanios perdidos no preparo de tal falha. De repente sentiu-se in\u00fatil e nem conseguiu se erguer do trono m\u00f3vel que Sorez lhe cedera, trono que um dia pertencera ao grande Imperador do Sul, cujos pal\u00e1cios arruinados nas colinas ocidentais testemunhavam o grande esfor\u00e7o dos povos da \u00c1rica na aurora dos segundos tempos. Sentara-se em tal trono sentindo-se um grande homem, um sucessor de dominadores de continentes. Mas dele se levantava como somente um velho cruel e impotente, cujo poder logo escorreria para as m\u00e3os de um garoto est\u00fapido. Por fim, com uma voz exausta, ordenou o retorno das tropas.<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>Houve grande j\u00fabilo em Safeth e tamb\u00e9m em Kalahar quando as novidades foram anunciadas. Todos se sentiram vingados por saberem que os Antigos n\u00e3o tinham, de fato, fugido da terra, mas morrido com o velho mundo cuja destrui\u00e7\u00e3o fora, afinal, sua culpa. Em vez de preservados para uma parusia futura, os antigos haviam apenas deixado em \u00f3rbita uma heran\u00e7a para a nova humanidade, os sobreviventes de uma terra moribunda.<\/p>\n<p>Por algumas semanas os pa\u00ed\u00adses trocaram congratula\u00e7\u00f5es, enquanto as equipes de cientistas de Kalahar, Safeth, Bonaar, Rus, Daruslam, Sind, Fermott e todo o ori\u00adente monitoravam o com\u00adpor\u00adta\u00admento dos estranhos aeroplanadores sa\u00eddos do barco de milh\u00f5es de anos, e do pr\u00f3prio barco, que permaneceu no norte sel\u00advagem. Nas primeiras semanas estes pousaram diversas vezes em cada um dos con\u00adti\u00adnen\u00adtes, liberando sementes no solo e soltando mais daqueles mis\u00adte\u00adri\u00ado\u00adsos ser\u00advi\u00ad\u00e7ais de metal, que derrubaram \u00e1rvores, arrancaram pedras e cons\u00adtru\u00ad\u00edram labo\u00adrat\u00f3rios, dos quais sa\u00edram, ao fim de semanas ou meses, animais estra\u00adnhos, alguns parecidos com aqueles conhecidos pelos habitantes do mundo, outros nem tanto. Tamb\u00e9m cresceram plantas desco\u00adnh\u00ade\u00adcidas, que mais tarde produ\u00adziriam fruto, outras se espalharam como ervas, mudando a paisagem. Todas essas coisas, ocorridas no espa\u00e7o de uns poucos meses, soa\u00adram como promessas de um novo mundo, a recupe\u00adra\u00ad\u00e7\u00e3o da lend\u00e1ria ferti\u00adli\u00addade do mundo anterior, possibilitando a volta de uma fartura que nenhuma civiliza\u00e7\u00e3o nova conhecia. Poucos continuavam c\u00e9ticos. Era como se a antiga cren\u00e7a na batalha do fim do mundo tivesse sido substitu\u00edda pela cren\u00e7a na sal\u00adva\u00e7\u00e3o final trazida dos c\u00e9us.<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>No alto da montanha mais elevada de Safeth, respirando o ar impossivel\u00admente ralo, Ian Sorez colecionava relat\u00f3rios sobre uma mesa, tentando expli\u00adcar o mist\u00e9rio que acontecia no mundo, quando tossiu e sentiu um gosto estra\u00adnho na garganta, com algo gosmento em sua boca. Foi ao banheiro e cus\u00adpiu na pia uma massa malcheirosa e esverdeada. Calafrios percorreram a sua espinha, e uma lassid\u00e3o acometeu seus membros e nublou sua mente. Mas antes de se sentar para descansar da longa noite de vig\u00edlia sobre mapas e manuscritos, telegrafou \u00e0 capital: &#8220;Algo imprevisto no presente deixado pelos antigos.&#8221;<\/p>\n<p>Esta foi a \u00faltima mensagem enviada por Sorez. Mesmo que tivesse enviado outras, ela n\u00e3o teria chegado a ningu\u00e9m. Na orgulhosa cidade, a duzentos qui\u00adl\u00f4metros da montanha, instalou-se o caos quando as mortes se tornaram por demais numerosas para serem escondidas.<\/p>\n<p>Em Kalahar, a primeira v\u00edtima foi, por\u00e9m, o ditador Eng, encanecido e fr\u00e1gil pelos anos. Terry o sucedeu no governo por tr\u00eas dias, e ent\u00e3o uma linhagem bissecular de ditadores se extinguiu, mergulhando novamente a metade sul de Afar em uma grande guerra civil, que s\u00f3 n\u00e3o causou mais mortes que o mal misterioso, que n\u00e3o se conhecia, que n\u00e3o se explicava, que n\u00e3o se curava.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, dentro do Barco de Milh\u00f5es de Anos, os relatos estalaram nos moni\u00adtores e H\u00f3rus, computando tudo em seus circuitos, registrou no Di\u00e1rio de Bordo que ningu\u00e9m talvez lesse jamais: &#8220;Aparente falha na esteriliza\u00e7\u00e3o do ambiente originalmente ocupado pelos pseudotripulantes. V\u00edrus influenza sobreviveu e infectou visitantes.&#8221;<\/p>\n<hr noshade \/>\n<p>Inspira\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>&#8220;Zardoz&#8221;. John Boorman (1973).<\/li>\n<li>&#8220;The Boat of Millions of Years&#8221; (H to He, who am the only one). Van der Graaf Generator (1970).<\/li>\n<li>&#8220;Electric Funderal&#8221; (Paranoid). Black Sabbath (1970).<\/li>\n<li>&#8220;Who\u2019s Gonna Win the War&#8221; (Levitation). Hawkwind (1980).<\/li>\n<li>&#8220;A Dan\u00e7a da Morte&#8221;. Stephen King (1985).<\/li>\n<li>&#8220;Apogeu de Novo&#8221;, de Bryan Aldiss.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o vamos \u00e0s estrelas, baby&#8221; \u2014 assim come\u00e7ou o discurso do capit\u00e3o. &#8220;Em vez disso, vamos impedir que o inimigo v\u00e1.&#8221; Os soldados, irrequietos, nada perguntaram. Era bom saber que os capit\u00e3es e coron\u00e9is sabiam o que fazer. Pena que n\u00e3o soubessem. &#8220;Ordin\u00e1rio, marche!&#8221; E a tropa adentrou o deserto em busca do inimigo imposs\u00edvel, marchando deze\u00adnas de l\u00e9guas sob o sol cada vez mais forte, at\u00e9 cada um deles cair, de fome e sede ou trucidado em conflitos previs\u00edveis diante do desespero. 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