{"id":1536,"date":"2014-04-12T20:25:59","date_gmt":"2014-04-12T23:25:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1536"},"modified":"2017-08-13T00:49:26","modified_gmt":"2017-08-13T03:49:26","slug":"phantasmagoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/04\/phantasmagoria\/","title":{"rendered":"Phantasmagoria"},"content":{"rendered":"<p>> Um conto baseado em fatos reais. Ou pelo menos virtuais, sei l\u00e1. O texto cont\u00e9m a chave de sua pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o est\u00e1 em latim.<\/p>\n<p>Guilherme constru\u00edra a sua casa sobre as ru\u00ednas desconhecidas que<br \/>\nocupavam um excelente terreno urbano. Doze trabalhadores com suas<br \/>\nm\u00e1quinas removeram os restos, arrancaram os arbustos e aplainaram<br \/>\ncada metro de ch\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o teve percal\u00e7os porque havia quem<br \/>\nachasse certa import\u00e2ncia hist\u00f3rica no lugar, mas n\u00e3o foi longe a<br \/>\nquest\u00e3o: a casa estava esquecida, parecia imposs\u00edvel de recuperar<br \/>\ne tinha uma fama de assombrada.<\/p>\n<p>A obra transcorrera sem sustos, claro. Os infi\u00e9is engenheiros n\u00e3o<br \/>\nteriam visto nada de anormal. Os \u00fanicos inc\u00f4modos materiais foram<br \/>\nos mendigos que haviam habitado as ru\u00ednas e insistiam em aparecer<br \/>\nao entardecer, ca\u00e7ando abrigo no belo pr\u00e9dio que subia. No come\u00e7o<br \/>\na presen\u00e7a deles incomodou, Guilherme quisera expuls\u00e1\u00ad-los, limpar<br \/>\no terreno das ervas e dos homens, mas preferiu n\u00e3o causar uma t\u00e3o<br \/>\nruim impress\u00e3o na vizinhan\u00e7a e resolveu permitir que passassem as<br \/>\nnoites em troca de arrancar a grama, marretar paredes ou qualquer<br \/>\noutra tarefa pequena.<\/p>\n<p>Logo os mendigos eram oper\u00e1rios na obra, mas n\u00e3o oper\u00e1rios iguais<br \/>\naos outros. Os engenheiros compraram os apartamentos superiores e<br \/>\nos oper\u00e1rios, antigos mendigos, no m\u00e1ximo puderam contemplar como<br \/>\ncidad\u00e3os a constru\u00e7\u00e3o ereta. Quando muito, poderiam entrar no bar<br \/>\ndo t\u00e9rreo para um lanche r\u00e1pido ou passar pela galeria acelerado,<br \/>\npara n\u00e3o dar na vista e atrair a seguran\u00e7a. Assim que o pr\u00e9dio se<br \/>\ndeu por terminado, a velha divis\u00e3o pronunciou\u00ad-se, e Guilherme, j\u00e1<br \/>\nmudado para a cobertura, montado em um patrim\u00f4nio crescente, p\u00f4s\u00ad<br \/>\nse a atrair os melhores moradores para o condom\u00ednio.<\/p>\n<p>Entre eles artistas, como Guilherme fora na juventude, e n\u00e3o eram<br \/>\npoucos. A raz\u00e3o de sua vinda era meio indefinida, cada um tinha a<br \/>\nsua hist\u00f3ria, mas v\u00e1rios se disseram atra\u00eddos pela ideia de morar<br \/>\nem um pr\u00e9dio constru\u00eddo sobre ru\u00ednas mal-assombradas. O estabele\u00adcimento<br \/>\ndo Edif\u00edcio Esperan\u00e7a como um solar das artes n\u00e3o foi nem<br \/>\nrepentino e nem demorado. Foi apenas impreciso: entre dois e tr\u00eas<br \/>\nanos depois de ter sido inaugurado, Guilherme se viu ilhado entre<br \/>\nartistas e at\u00e9 redescobriu o gosto pela pintura.<\/p>\n<p>Mesmo assim, parecia que n\u00e3o haveria nada digno de ser narrado na<br \/>\nhist\u00f3ria do Edif\u00edcio at\u00e9 que o Fantasma dos Bilhetinhos deixou na<br \/>\nsoleira da porta de Guilherme a sua primeira missiva, em elegante<br \/>\nestilo min\u00fasculo carol\u00edngio, t\u00e3o cheio de abrevia\u00e7\u00f5es que ningu\u00e9m<br \/>\np\u00f4de entender. Mas a simples apari\u00e7\u00e3o daquele curto bilhete j\u00e1 se<br \/>\nmostrara um portento, embora escrito em papel\u00ad-of\u00edcio comum, com o<br \/>\nemprego de uma hidrocor vagabunda: quanta gente conhece latim<br \/>\nneste mundo perdido de Deus? <\/p>\n<p>O texto estava dobrado e muito  bem dobrado, dentro do bolso da<br \/>\ncamisa que Guilherme poria para o  trabalho naquele dia.<br \/>\nFoi ent\u00e3o se p\u00f4de perceber a preval\u00eancia de escritores no<br \/>\nEdif\u00edcio. Na investiga\u00e7\u00e3o sobre bilhete, Guilherme e seu namorado<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 se surpreenderam por serem reconhecidos, como artistas que<br \/>\neram, mas acharam muitas teorias do significado da algaravia:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMeo primo trato\u201d pode significar \u201co meu primeiro trabalho\u201d, em<br \/>\nalgum tipo de latim b\u00e1rbaro. Acho que o autor disso \u00e9 simultanea\u00admente<br \/>\num escritor e um adepto de enigmas \u2014 teorizou uma mo\u00e7a cujo<br \/>\nolhar era permanentemente protegido por grossas lentes de vidro.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cErgo abuterit illae reglae meae\u201d \u00e9 totalmente est\u00fapido, parece<br \/>\numa adolescente de quinze anos com um dicion\u00e1rio de latim e muita<br \/>\nmerda na cabe\u00e7a tentando confessar que desobedeceu a mam\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Por\u00e9m \u2014 observou um outro \u2014 \u201cQuia est locus meus\u201d \u00e9 intelig\u00edvel<br \/>\ne transparente, apesar de ser um latim pior que o de um padre dos<br \/>\npiores anos de decad\u00eancia da Idade M\u00e9dia. Certamente quem escreve<br \/>\nestes bilhetes est\u00e1 reivindicando a posse do lugar onde os deixa.<\/p>\n<p>\u2014 Ou algo assim.<\/p>\n<p>Mas os bilhetes continuaram aparecendo, cada vez num lugar, muito<br \/>\nsutilmente ocultos, cada vez com um conte\u00fado ligeiramente diverso<br \/>\ndo outro. \u201cEgo fac. quo ego voluo in hoc situs. Delero pag. cum reg.<br \/>\nabsurdus et nulla obstat.\u201d<\/p>\n<p>Com o tempo os bilhetes perderam o car\u00e1ter de novidade, Guilherme<br \/>\nse acostumou a ocasionalmente ach\u00e1-\u00adlos e sempre jogar fora. Todos<br \/>\nos conhecimentos travados, por\u00e9m, acabaram tendo um efeito claro:<br \/>\ntodo morador com uma veia art\u00edstica e morador do Esperan\u00e7a passou<br \/>\na encontrar\u00ad-se regularmente com os outros, para falar de qualquer<br \/>\ncoisa, de nada ou at\u00e9 de literatura. E nesses encontros raramente<br \/>\nse falava em fantasma ou bilhetes em pseudo latim.<\/p>\n<p>Os bilhetes pararam. Ou pelo menos ningu\u00e9m mais os percebia. Tudo<br \/>\nparecia ter retornado \u00e0 normalidade no Edif\u00edcio Esperan\u00e7a. Mas as<br \/>\nm\u00e3os do morto ainda pregariam outra nos moradores durante uma das<br \/>\nmais promissoras discuss\u00f5es do ano, sobre os benef\u00edcios de viajar<br \/>\nno tempo e seus perigos envolvidos. Na sa\u00edda e passando pelo hall<br \/>\nde entrada, viram m\u00e3os invis\u00edveis acabando de escrever a tinta na<br \/>\nparede branca, como os dedos de Jav\u00e9 na festa de Baltazar:<\/p>\n<p><center>NULLA OBLITERAT NULLAM.<\/center><\/p>\n<p>Este evento foi bem mais portentoso que os bilhetes, n\u00e3o apenas s\u00f3<br \/>\nporque n\u00e3o se pode jogar fora uma parede mas tamb\u00e9m porque ningu\u00e9m<br \/>\npoderia negar que o sentido da picha\u00e7\u00e3o ectopl\u00e1smica era claro. <\/p>\n<p>\u2014 Que raio de texto \u00e9 esse? \u2014 perguntou a mais jovem do sarau, toda<br \/>\ninocente como s\u00f3 se pode ser aos quinze anos.<\/p>\n<p>\u2014 Um tipo de baixo\u00ad latim. O fantasma, al\u00e9m de porcalh\u00e3o, tamb\u00e9m se<br \/>\nd\u00e1 ao trabalho de nos propor enigmas.<\/p>\n<p>Mas mesmo esta intromiss\u00e3o n\u00e3o interrompeu os planos do grupo, que<br \/>\nresolveu apresentar conjuntamente seus mais recentes trabalhos, em<br \/>\numa exposi\u00e7\u00e3o nos corredores do edif\u00edcio. A inaugura\u00e7\u00e3o envolveria<br \/>\nat\u00e9 um econ\u00f4mico coquetel, e o sorteio de uma obra de algum<br \/>\nautor estrangeiro, devidamente certificada.<\/p>\n<p>Estavam todos prestes ao in\u00edcio da envernizagem quando ele surgiu<br \/>\nem pessoa, o misterioso fantasma escritor de bilhetes em latim. A<br \/>\nsua presen\u00e7a n\u00e3o foi detectada de imediato, porque ele se materi\u00adalizara<br \/>\nna figura de um antigo morador do terreno, um dos paup\u00e9r\u00adrimos<br \/>\npopulares que muitas vezes dormiam sob as ru\u00ednas, sendo at\u00e9<br \/>\nconfundidos com mendigos. Mas o simples fato de ele estar ali n\u00e3o<br \/>\ntinha explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, n\u00e3o naquele pr\u00e9dio t\u00e3o exclusivo.<\/p>\n<p>Bem vestido, o fantasma distribu\u00eda sorrisos e cart\u00f5es. Os primei\u00adros<br \/>\nn\u00e3o tinham nada de especial, mas os segundos eram diferentes,<br \/>\nbem diferentes do que se espera:  em vez de detalhes do indiv\u00edduo<br \/>\nque os distribu\u00eda,  tinham na frente apenas um \u201cinterrobang\u201d e no<br \/>\nverso, um curto texto em baixo latim renascentista:<\/p>\n<p>> Attemptus primus meum non bonum receptus erat, ergo abutero<br \/>\nregulatii cum secund\u00e6 histori\u00e6. Sum proprietor hoc situs, ergo<br \/>\npuo facere cum credo. Delero pagina cum regulationes<br \/>\ncontestii pr\u00e6 revelationem solui.  In loco positionam dispudero,<br \/>\ncum texto malum, eram secundus. Quis ego sum?<\/p>\n<p>Depois de distribuir uma d\u00fazia ou mais destes curiosos cart\u00f5es de<br \/>\nvisita, o fantasma foi identificado por Guilherme,  e iniciou-se um<br \/>\ndebate entre os propriet\u00e1rios para decidir sobre o que fazer. Por fim,<br \/>\ndevidamente decididos, cinco residentes se acercaram do fantasma<br \/>\ne lhe pronunciaram palavras de exorcismo:<\/p>\n<p>\u2014 Reprobus estis.<\/p>\n<p>O fantasma n\u00e3o ficou surpreso.  Apenas retrucou:<\/p>\n<p>\u2014 Temporibus mutatis. Nova ordo incipita consumata est.  Ibo.<\/p>\n<p>O fantasma saiu pacificamente, levando seus cart\u00f5es. N\u00e3o olhou para<br \/>\ntr\u00e1s. Em vez disso, abriu a porta de um carro prateado e voou para o<br \/>\noutro lado do c\u00e9u, deixando uma trilha de bolhas de sab\u00e3o pelo ar.<\/p>\n<p>\u2014 Dev\u00edamos t\u00ea-lo deixado ficar \u2014 sugeriram.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o para criar problemas. Se pagasse o aluguel como todos,<br \/>\npoderia ficar. Temos 56 apartamentos. Mas se ele n\u00e3o concorda<br \/>\nem ser apenas um visitante comportado, que se v\u00e1. <\/p>\n<p>E assim seguiu a vida no estranho Edif\u00edcio Esperan\u00e7a, onde logo<br \/>\nningu\u00e9m mais se lembrava do fantasma, e nem dos antigos moradores<br \/>\ndo terreno abandonado. Apenas ocorria de, quando em vez, passar<br \/>\npela janela a voar uma m\u00e1quina prateada deixando um rastro de bolhas<br \/>\nde sab\u00e3o. E os que viam passar, sem saber o que era, sentiam o impulso<br \/>\nestranho de conhecer o que havia fora das confort\u00e1veis portas e do<br \/>\nseguro ar condicionado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme constru\u00edra a sua casa sobre as ru\u00ednas desconhecidas que ocupavam um excelente terreno urbano. Doze  trabalhadores com suas m\u00e1quinas removeram os restos, arrancaram os arbustos e aplainaram cada metro de ch\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o teve percal\u00e7os porque havia quem achasse certa import\u00e2ncia hist\u00f3rica no lugar, mas n\u00e3o foi longe a quest\u00e3o: a casa estava esquecida, parecia imposs\u00edvel de recuperar e tinha uma fama de assombrada.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[13,81,24,27,29,57,95],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1536"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1536"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1536\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4720,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1536\/revisions\/4720"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1536"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1536"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1536"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}