{"id":1539,"date":"2014-04-16T00:05:30","date_gmt":"2014-04-16T03:05:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1539"},"modified":"2017-11-02T14:08:13","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:13","slug":"por-causa-do-mau-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/04\/por-causa-do-mau-tempo\/","title":{"rendered":"Por Causa do Mau Tempo"},"content":{"rendered":"<p>Fechou-se o c\u00e9u e eu me sentei para lembrar, ouvindo a \u00e1gua calma pipocando impulsos grossos no papel surdo que esqueci debaixo da goteira. Em algum lugar Jacinto se despede, ins\u00edpido como consegue, e Fabiana est\u00e1 em casa retocando unhas e atormentando  os pelos. Todos esperam que esteja um dia lindo quando o sol cantar nos galhos e as asas dos anjinhos ruflarem pela igreja, assustadas com o arrastar arr\u00edtimico do zelo apressado. Amanh\u00e3 se casar\u00e3o depois de dar-se as m\u00e3os por tanto tempo que a gente at\u00e9 se acostumou.<\/p>\n<p>Foi com certa covardia que Jacinto me aceitou como padrinho, imposi\u00e7\u00e3o somente dela. Sei que se ele soubesse me expulsava da igreja a socos e rasteiras, e ningu\u00e9m na pra\u00e7a, conhecendo o caso, se compadeceria. Mas ela me queria, se n\u00e3o mais sobre uma cama, ao lado do altar, testemunhando, teso em um terno preto, sua participa\u00e7\u00e3o no rito dele.<\/p>\n<div id=\"attachment_1542\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/noiva.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1542\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/noiva-300x156.png\" alt=\"inspira\u00e7\u00e3o\" width=\"300\" height=\"156\" class=\"size-medium wp-image-1542\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1542\" class=\"wp-caption-text\">Uma express\u00e3o que algu\u00e9m procurou no meu blog me inspirou a escrever este miniconto.<\/p><\/div>\n<p>O que esta acontecendo com a pobre noiva? \u00c9 por causa do mau tempo, que faz a saudade atacar os ossos assim? Espero que n\u00e3o chova, pelo menos n\u00e3o tanto que nos lembrei a noite de reis de seis anos atr\u00e1s, quando atravess\u00e1vamos a cidade sob um guarda chuva s\u00f3 e de repente o chuvisco se fez despejo e nos for\u00e7ou a entrar num canto de muro, sob uma quina de telhado. Ali ficamos, na penumbra, com os p\u00e9s imersos na enxurrada e os peitos quentes apertados juntos, contemplando os passos de gatos e c\u00e3es, enquanto os carros arrastavam po\u00e7as e erguiam ondas.<\/p>\n<p>Ah, como me lembro de todos aqueles preconceitos, ideias de av\u00f3, antigos sentimentos. N\u00f3s dois ali tomando chuva, resfriando o peito, respirando junto, dividindo um guarda chuva, envoltos em um casaco \u00fanico, com duas batidas em un\u00edssono, e ningu\u00e9m ouvia.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o podemos, n\u00e3o podemos.&#8221;<\/p>\n<p>Mas no dia seguinte faltamos \u00e0 aula diante de um convite nascido de um del\u00edrio febril: Vamos sarar juntos?<\/p>\n<p>Busquei-a em casa e nos cuidamos sozinhos no apartamento. Fazendo canjas, compartilhando meias, tossindo na mesma pia, revezando no term\u00f4metro, e aproveitando o calor anormal da febre como afrodis\u00edaco. De manh\u00e3 ela se erguia da cama vestindo a minha camisa em vez da sua, e havia tanta sensualidade nisso, mais at\u00e9 do que no corpo dela nua!<\/p>\n<p>Mas a gripe passou, nossos corpos normais j\u00e1 n\u00e3o se incendiavam com o toque. Eu j\u00e1 n\u00e3o estava dentro dela com a mesma intensidade, nem ela ao redor de mim. Mas quando ela finalmente foi embora eu lhe dei uma camisa branca e disse: &#8220;n\u00e3o posso guardar isso, seria como reter uma perna sua em meu roupeiro.&#8221;<\/p>\n<p>Ela levou a camisa e ficamos bons amigos, pelo menos at\u00e9 o dia em que toquei a sua perna, dizendo que fora acidente. Ela estava fria, t\u00e3o diferente. Deu-me um tapa cenogr\u00e1fico e apenas disse que n\u00e3o ficava bem. Eu morri naquele dia, sa\u00ed com uma garrafa de mart\u00edni e amanheci deitado no tapete fofo diante da televis\u00e3o, ouvindo not\u00edcias de crises e guerras, nenhuma mais cruel que a minha.<\/p>\n<p>Fazia tempo, eu nem lembrava. At\u00e9 que o convite veio. At\u00e9 que tocou esse raio de telefone, ou ser\u00e1 a campainha? Agora eu me lembro que nunca a esqueci, est\u00e1 chovendo a essa hora, ela n\u00e3o est\u00e1 casa pintando unhas, est\u00e1 no interfone, como uma assombra\u00e7\u00e3o em uma casa, falando comigo, querendo subir at\u00e9 a varanda, ou at\u00e9 dentro de meu peito.<\/p>\n<p>O que ser\u00e1 que a chuva causou nela? Essa estranha chuva de hoje. E por que calhei de, por acaso, alugar esta casinha pequena que fica em um canto de rua, \u00e0 sombra de um pr\u00e9dio grande?<\/p>\n<p>Pobre Jacinto, n\u00e3o te conhe\u00e7o. Pobre de mim, que sucumbo pela segunda vez a essa febre, que desta vez me salva ou me mata, mas n\u00e3o posso permitir que simplesmente escorra como uma coriza e me deixe s\u00e3o e triste nesta quina inc\u00f4moda da vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fechou-se o c\u00e9u e eu me sentei para lembrar, ouvindo a \u00e1gua calma pipocando impulsos grossos no papel surdo que esqueci debaixo da goteira. 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