{"id":1555,"date":"2014-04-25T11:36:40","date_gmt":"2014-04-25T14:36:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1555"},"modified":"2017-11-16T14:43:33","modified_gmt":"2017-11-16T17:43:33","slug":"facamos-a-literatura-feia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/04\/facamos-a-literatura-feia\/","title":{"rendered":"Fa\u00e7amos a Literatura Feia"},"content":{"rendered":"<p>Em um mundo liter\u00e1rio no qual o meu modo de pensar \u00e9 visto como um desvio, uma falta de educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 reconfortante, de quando em vez, ler algu\u00e9m que tamb\u00e9m n\u00e3o se conforma com as nuvens r\u00f3seas que pretendem predominar na literatura. Gustavo Czekster lavou a minha alma esta semana ao publicar no LiteraTortura [um artigo devastadoramente bom]) que expressa, melhor do que eu pr\u00f3prio o faria, aquilo que penso sobre literatura. E havia tanto tempo que n\u00e3o lia nada assim, que n\u00e3o me deparava com um espelho de minhas pr\u00f3prias ideias, que eu j\u00e1 quase n\u00e3o me lembrava mais como penso.<\/p>\n<p>E o que penso \u00e9: estamos ouvindo demais aqueles que pensam uma literatura conformista, e atacando demais aqueles que propoem uma literatura com ideias (a tal literatura &#8220;feia&#8221; a que Gustavo se referiu).<\/p>\n<blockquote><p>\n  Sinto saudade quase f\u00edsica de ler uma obra que n\u00e3o esteja submetida \u00e0s normas das pol\u00edticas editoriais e do lucro f\u00e1cil. Vontade de ler literatura, e n\u00e3o livros.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Eu j\u00e1 come\u00e7o a acreditar que o autor n\u00e3o vale a leitura quando ele diz que escreveu um &#8220;livro&#8221;. Livro \u00e9 o objeto f\u00edsico que contem a obra, n\u00e3o \u00e9 a obra em si. Sonhar em escrever livros \u00e9 uma compreens\u00e3o fetichista, infantilizada, do fazer liter\u00e1rio. Durante mil\u00eanios os livros n\u00e3o existiram, existiram papiros, pergaminhos, manuscritos iluminados, tabuinhas de argila, mas a obra liter\u00e1ria j\u00e1 existia. Futuramente o &#8220;livro&#8221; deixar\u00e1 de existir, ainda que eu lamente isso, mas a obra persistir\u00e1. Autores que tem alguma remota ideia do que est\u00e3o falando pensam em escrever contos, romances, novelas, f\u00e1bulas, poemas, n\u00e3o &#8220;livros&#8221;.<\/p>\n<blockquote><p>\n  E se existe algo tr\u00e1gico que aprendi \u00e9 que, quanto mais bonito o livro, mais fr\u00e1gil e inconstante \u00e9 a sua trama.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Quando o livro se torna um fetiche &mdash; e \u00e9 disso que estamos falando &mdash; \u00e9 natural que se concentre muito esfor\u00e7o em torn\u00e1-lo um produto bonito. Mais de uma vez recebi ofertas de editores para publicar obras minhas, mediante m\u00f3dicos pagamentos, utilizando papel &#8220;de primeir\u00edssima qualidade&#8221;, capa dura ou com acabamento fosco, projeto gr\u00e1fico feito por designers premiados etc.<\/p>\n<p>Certa vez, em uma comunidade de literatura no Orkut, eu afirmei que gostaria de ver milh\u00f5es de exemplares de minhas obras, mesmo que impressas em papel higi\u00eanico sujo e com capa de papel de p\u00e3o com manchas de manteiga. Eu n\u00e3o penso em meu livro como um objeto de luxo para eu enfeitar minha estante e para exibir \u00e0s visitas &#8220;olha que livro bonito eu fiz&#8221; &mdash; mesmo porque o &#8220;bonito&#8221; de tal livro n\u00e3o foi feito por mim, mas pela editora.<\/p>\n<p>A resposta que me deram foi que tal livro, publicando segundo meu des\u00edgnio, seria um &#8220;desrespeito ao leitor&#8221;. Com a devida v\u00eania aos que gostam de ter exemplares bonitos dos seus livros favoritos, eu digo que n\u00e3o pode haver maior desrespeito ao &#8220;leitor&#8221; do que o livro ser ruim. Ele ser feio pode at\u00e9 desrespeitar a est\u00e9tica da casa, o padr\u00e3o de decora\u00e7\u00e3o da estante, a necessidade de impressionar visitas que n\u00e3o v\u00e3o ler o que est\u00e1 escrito. Mas n\u00e3o desrespeita o leitor.<\/p>\n<p>Alguns dos meus autores favoritos come\u00e7aram escrevendo em revistas que eram impressas em papel de baixa qualidade. Lovecraft, Asimov, Bradbury, Heinlein, Ashton-Smith. Outros come\u00e7aram publicando em jornais. Dostoi\u00e9vski, Machado de Assis, Manuel Ant\u00f4nio de Almeida. N\u00e3o acho que qualquer desses autores desrespeite ou tenha desrespeitado o seu p\u00fablico. E se voc\u00ea se sente ofendido com uma edi\u00e7\u00e3o barata dos Irm\u00e3os Karam\u00e1zovi, sinto muito dizer que voc\u00ea n\u00e3o entende o que \u00e9 literatura.<\/p>\n<blockquote><p>\n  Quem sabe t\u00e9cnica liter\u00e1ria ou teoria consegue ver com clareza as escolhas narrativas do autor, o motivo da personagem principal ser uma crian\u00e7a ou um rapaz da classe m\u00e9dia, a raz\u00e3o do tempo da narrativa ser no presente ou no futuro, a escolha do cen\u00e1rio urbano ou rural.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Isso, claro, na literatura best-seller, que \u00e9 produzida segundo par\u00e2metros devidamente estudados. Em algum lugar algu\u00e9m acha que decodificou os fatores de sucesso dos grandes cl\u00e1ssicos, e todos os jovens autores s\u00e3o aconselhados a seguir estas instru\u00e7\u00f5es de sucesso. \u00c9 s\u00e9rio, mas um editor me aconselhou a utilizar a &#8220;Jornada do Her\u00f3i&#8221;, de Joseph Campbell, como padr\u00e3o para definir os meus protagonistas. A obra deste autor \u00e9 vista, por certos editores, como uma b\u00edblia para quem pretende escrever \u00e9picos. N\u00e3o importa que os mitologistas tor\u00e7am o nariz para a interpreta\u00e7\u00e3o de Campbell, considerando-a simplificada, faloc\u00eantrica e limitadora de interpreta\u00e7\u00f5es alternativas.<\/p>\n<blockquote><p>\n  Ler tamb\u00e9m \u00e9 ser desafiado pelo autor e pela vis\u00e3o do mundo que ele descreve, e os livros atuais evitam confrontar o leitor, como se ele fosse feito de cristal.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa \u00e9 a diferen\u00e7a profunda entre os livros publicados como neg\u00f3cio e os livros publicados como arte. Os livros publicados como neg\u00f3cio d\u00e3o lucro, mesmo quando n\u00e3o s\u00e3o um sucesso internacional. Este sucesso \u00e9 para poucos, e necessariamente para gringos. Mas os jovens nacionais podem fazer fanfic ou imita\u00e7\u00f5es palat\u00e1veis destas f\u00f3rmulas que ca\u00edram no gosto p\u00fablico e assim vender alguns milhares de exemplares, que dar\u00e3o lucro \u00e0 editora.<\/p>\n<p>A mediocridade que vende \u00e9 a maldi\u00e7\u00e3o de nosso mercado editorial colonizado, que vive permanentemente de costas para as novidades nacionais, para Portugal, para a \u00c1frica lus\u00f3fona, para outros pa\u00edses onde n\u00e3o se fale ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Esta mediocridade se cria com as &#8220;antologias&#8221;, que d\u00e3o muito lucro \u00e0s editoras e vampirizam os autores ing\u00eanuos. Publicar numa antologia \u00e9 um trote que alguma editora imp\u00f5e ao autor que deseja tentar uma publica\u00e7\u00e3o solo. Isso n\u00e3o \u00e9 inven\u00e7\u00e3o. Isso me foi dito por um editor: &#8220;N\u00f3s nos comprometemos mais com os autores que primeiro se comprometeram conosco. Participe de nossas antologias primeiro, para abrir seu espa\u00e7o na Casa.&#8221;<\/p>\n<p>Para publicar na antologia o autor precisa ser aprovado, o que significa que o seu texto tem que se conformar com os objetivos comerciais da editora, traduzidos em um arco tem\u00e1tico ou at\u00e9 mesmo em regras de escrita mais determinadas. Normalmente o autor pagar\u00e1 para publicar-se em tais arapucas liter\u00e1rias, com a desculpa de que est\u00e1 &#8220;adquirindo exemplares&#8221; (o n\u00famero varia de acordo com a quantidade de autores) para fazer seu lan\u00e7amento, ou ent\u00e3o &#8220;indenizando&#8221; despesas que a editora teve para a publica\u00e7\u00e3o. O autor que fizer tal evento de lan\u00e7amento estar\u00e1, de fato, lan\u00e7ando o produto da editora, cujo nome fica na capa, e n\u00e3o a pr\u00f3pria obra. Fazer tal lan\u00e7amento \u00e9 passar um atestado de burrice t\u00e3o extrema que at\u00e9 comove. \u00c9 gastar dinheiro para anunciar o trabalho de quem se cria explorando o seu trabalho.<\/p>\n<p>E, n\u00e3o custa repetir, a publica\u00e7\u00e3o em tais antologias condiciona o autor a seguir as normas.<\/p>\n<blockquote><p>\n  A arte necessita do feio, do desagrad\u00e1vel, do grotesco, do repugnante, do malfeito. A beleza eleva o esp\u00edrito, mas a feiura nos fala a verdade.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>E exatamente por isso a literatura sempre recebe a acusa\u00e7\u00e3o de ser uma arte decadente entre decadentes artes. E por causa disso a arte sempre \u00e9 vista como algo perigoso pelos controladores do status quo, a ponto de todos os regimes opressores inclu\u00edrem alguma forma de opress\u00e3o da arte. Sem querer recuar no tempo, pois n\u00e3o temos elementos suficientemente detalhados para explicar os processos de s\u00e9culos passados, ou pelo menos eu n\u00e3o tenho, \u00e9 sintom\u00e1tico que o totalitarismo sovi\u00e9tico tenha produzido o realismo socialista, que o macarthismo tenha criado o &#8220;Comics Code Authority&#8221; e o nazismo tenha proposto uma &#8220;arte alem\u00e3&#8221;. Sempre que uma botina se assenta no trono, os artistas pagam o pato.<\/p>\n<blockquote><p>\n  [&#8230;] alguns autores buscam o feio da forma mais prim\u00e1ria poss\u00edvel, qual seja, tratar de temas revoltantes e de f\u00e1cil apelo popular, encher as obras de palavr\u00f5es e descri\u00e7\u00f5es chulas de sexo ou distorcer a linguagem com a utiliza\u00e7\u00e3o de termos usados no dia a dia.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Existe em alguns autores uma obsess\u00e3o pela viol\u00eancia que \u00e9 quase pornogr\u00e1fica. Mas esta viol\u00eancia agressiva e revoltante n\u00e3o \u00e9 &#8220;feia&#8221; no sentido empregado por Gustavo,  como ele esclarece (&#8220;A simples ideia de usar imagens ou itens feios para fazer uma \u201carte feia\u201d envolve uma estiliza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio conceito de beleza.&#8221;). Esta viol\u00eancia excessiva \u00e9 uma est\u00e9tica, \u00e9 calculada, \u00e9 vista como um padr\u00e3o de beleza em negativo. Existe tanto formalismo nessa profus\u00e3o de dentes quebrados, tiros e torturas quanto no delicado acariciar de uma flor pelos dedos macios de uma elfa no cio. Tudo \u00e9 est\u00e9tica. E portanto \u00e9 tudo vazio: <q> [&#8230;] ao tentar transformar o feio em arte, ele se torna esteticamente apreci\u00e1vel e, por conseguinte, falso como uma nota de tr\u00eas reais.<\/q><\/p>\n<blockquote><p>\n  Os escritores (e o mercado) superestimam o leitor, dando-lhe mais import\u00e2ncia e carinho do que ele merece. O leitor n\u00e3o sabe o que quer; prova disto \u00e9 que boa parte das maiores obras de arte s\u00f3 foram reconhecidas depois da morte do seu criador.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Irretoc\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arte, mas n\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao <em>best-seller<\/em>. \u00c9 evidente que, para muitos autores e quase todos os editores,  esse neg\u00f3cio de reconhecimento \u00e9 s\u00f3 uma palavra bonita. O importante \u00e9 ganhar dinheiro. A editora quer fechar o balan\u00e7o no azul e continuar existindo, n\u00e3o quer falir cedo mas  passar a hist\u00f3ria como a publicadora original de uma obra genial. N\u00e3o censuro quem pensa assim, focado no feij\u00e3o a ponto de esquecer o sonho, mas \u00e9 uma trag\u00e9dia que em um mundo t\u00e3o grande n\u00e3o exista espa\u00e7o para quem pensa o diferente, para quem trabalha o &#8220;feio.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um mundo liter\u00e1rio no qual o meu modo de pensar \u00e9 visto como um desvio, uma falta de educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 reconfortante, de quando em vez, ler algu\u00e9m que tamb\u00e9m n\u00e3o se conforma com as nuvens r\u00f3seas que pretendem predominar na literatura. Gustavo Czekster lavou a minha alma esta semana ao publicar no LiteraTortura [um artigo devastadoramente bom]) que expressa, melhor do que eu pr\u00f3prio o faria, aquilo que penso sobre literatura. 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