{"id":1576,"date":"2014-05-12T12:43:39","date_gmt":"2014-05-12T15:43:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1576"},"modified":"2018-01-28T08:42:45","modified_gmt":"2018-01-28T11:42:45","slug":"a-fila-nao-incomoda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/05\/a-fila-nao-incomoda\/","title":{"rendered":"A Fila N\u00e3o Incomoda"},"content":{"rendered":"<p><em><b>\u201cA Fila N\u00e3o Incomoda\u201d<\/b>: Um Manifesto Contra a Jornada do Her\u00f3i e em Favor do Direito de Fazer Tudo Errado<\/em> foi uma s\u00e9rie de artigos que escrevi entre maio e junho de 2014, baseada em minhas leituras de alguns artigos cr\u00edticos do conceito do monomito de Joseph Campbell. Estes artigos foram consolidados neste texto \u00fanico, divido em partes usando a ferramenta do WordPress que eu s\u00f3 descobri hoje. Originalmente foram oito partes, mas eu acrescentei uma nona, e tamb\u00e9m uma conclus\u00e3o e uma bibliografia. Os artigos originais foram removidos do blog e seus coment\u00e1rios ser\u00e3o, se poss\u00edvel, transferidos para esta p\u00e1gina.<\/p>\n<ul>\n<li>Parte I    &#8211; Voc\u00ea precisa seguir o evangelho de Campbell;<\/li>\n<li>Parte II   &#8211; Campbell recebeu a luz e Vogler a traz at\u00e9 voc\u00ea;<\/li>\n<li>Parte III  &#8211; Uma hist\u00f3ria para dominar todas as hist\u00f3rias;<\/li>\n<li>Parte IV   &#8211; A Jornada do Her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 parte do problema;<\/li>\n<li>Parte V    &#8211; Precisamos retornar \u00e0 rebeldia;<\/li>\n<li>Parte VI   &#8211; Her\u00f3is de verdade n\u00e3o s\u00e3o assim;<\/li>\n<li>Parte VII  &#8211; A Jornada falha onde n\u00e3o devia falhar;<\/li>\n<li>Parte VIII &#8211; Existem outras formas de entender os mitos;<\/li>\n<\/ul>\n<p><!--next--><\/p>\n<h2 id=\"parteum.\">Voc\u00ea Precisa Seguir o Evangelho de Campbell.<\/h2>\n<p>Come\u00e7ou toda torta, a minha tentativa de contato com um certo editor, cujo nome preservarei. Um dia recebi um coment\u00e1rio, em um chat, a respeito de um trabalho meu que eu lhe submetera \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>\nSe voc\u00ea deseja publicar conosco, deve come\u00e7ar por aprender a construir suas hist\u00f3rias segundo a Jornada do Her\u00f3i, de Campbell.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Em outras oportunidades eu j\u00e1 o vira defender este conceito em debates de redes sociais, mas n\u00e3o imaginei que ele levasse o <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Monomyth\">monomito<\/a> de Campbell t\u00e3o a s\u00e9rio que o fizesse de b\u00edblia em seu trabalho e que se recusaria a considerar originais que n\u00e3o tivessem sido desenvolvidos &#8220;ab initio&#8221; segundo o risco determinado pela Jornada do Her\u00f3i.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, embora eu me mantenha salutarmente afastado de qualquer deliberada obedi\u00eancia a este ou a qualquer outro princ\u00edpio &#8220;can\u00f4nico&#8221; da literatura, eu venho percebendo que a ideia do monomito ganha seguidores, sem nunca ser seriamente criticada. Pois bem, acostumado a queimar pontes, e o meu filme, resolvi chutar esta porta e apresentar meus questionamentos, mesmo sem ter credenciais para tanto.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar eu vou dizer que meu conhecimento da Jornada do Her\u00f3i \u00e9 superficial porque eu n\u00e3o li toda a obra original de Campbell. Conhe\u00e7o dela o que os seus seguidores dizem que ela \u00e9. Mas esta relativa ignor\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 um problema para os prop\u00f3sitos deste artigo, pois eu n\u00e3o pretendo atacar o pr\u00f3prio autor, fil\u00f3logo e mitologista; mas a vers\u00e3o rasa de seus conceitos que \u00e9 divulgada por pessoas que nem sempre o leram. Ali\u00e1s, o pouco que li dele e sobre ele me permitiu formar duas opini\u00f5es bastante s\u00f3lidas:<\/p>\n<ol>\n<li>Parece ter sido um acad\u00eamico s\u00e9rio e respeitado, apesar de seu trabalho sofrer v\u00e1rias cr\u00edticas e n\u00e3o ser considerado v\u00e1lido justamente por aqueles que estudam as mitologias.<\/li>\n<li>Nunca pretendeu que seu trabalho fosse usado como &#8220;receita de bolo&#8221; para escrever fic\u00e7\u00e3o, embora possivelmente tenha se sentido lisonjeado quando come\u00e7aram a fazer isso (a lisonja afaga o orgulho, este human\u00edssimo defeito).<\/li>\n<\/ol>\n<p>Campbell \u00e9 um dos que propuseram a ideia de que o estudo das religi\u00f5es e mitos comparados<sup id=\"fnref-1576-1\"><a href=\"#fn-1576-1\" class=\"jetpack-footnote\">1<\/a><\/sup> poderia revelar padr\u00f5es culturais profundos, subjacentes a todas as sociedades humanas. A ideia parece ter se originado em James Frazier, na obra <em>O Ramo Dourado<\/em><sup id=\"fnref-1576-2\"><a href=\"#fn-1576-2\" class=\"jetpack-footnote\">2<\/a><\/sup>, mas ganhara corpo com o trabalho de Jung em <em>O Homem e Seus S\u00edmbolos<\/em><sup id=\"fnref-1576-3\"><a href=\"#fn-1576-3\" class=\"jetpack-footnote\">3<\/a><\/sup> e Richard FitzRoy Somerset, Lord Raglan, autor do famoso &#8220;perfil do her\u00f3i&#8221;<sup id=\"fnref-1576-4\"><a href=\"#fn-1576-4\" class=\"jetpack-footnote\">4<\/a><\/sup>.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas autores citados como precursores tiveram o cuidado de usar uma abordagem &#8220;descritiva&#8221; da realidade. Campbell tamb\u00e9m parece ter ido por esse lado, o seu radicalismo estaria em afirmar que os her\u00f3is seriam originalmente um \u00fanico tipo de personagem, o que \u00e9 o contr\u00e1rio do que afirmava Raglan, para quem os personagens heroicos s\u00e3o associados a certos elementos como parte do processo de constru\u00e7\u00e3o de sua lenda, e se parece bastante com o conceito dos arqu\u00e9tipos de Jung. A transforma\u00e7\u00e3o da Jornada do Her\u00f3i em uma abordagem normativa para a fic\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo que ocorre fora da obra acad\u00eamica de Joseph Campbell.<sup id=\"fnref-1576-5\"><a href=\"#fn-1576-5\" class=\"jetpack-footnote\">5<\/a><\/sup><\/p>\n<p>Coube, ent\u00e3o, aos f\u00e3s de Campbell a afirmativa de que, se todos os mitos prov\u00e9m de uma \u00fanica fonte, dever\u00edamos criar nossas hist\u00f3rias de acordo com as caracter\u00edsticas desses mitos para esperar obter com isso o acesso f\u00e1cil ao cora\u00e7\u00e3o do leitor. Trata-se de uma ideia arriscada, pois, se as hist\u00f3rias de sucesso t\u00eam v\u00e1rias caracter\u00edsticas em comum, n\u00e3o sucede que fazer hist\u00f3rias com tais caracter\u00edsticas resulte em sucesso. Trata-se de uma fal\u00e1cia l\u00f3gica chamada <em>cum hoc ergo propter hoc<\/em> (frase latina que pode ser traduzida muito bastardamente por &#8220;se acompanhado disso, ent\u00e3o \u00e9 por causa disso&#8221;).<\/p>\n<p>Isso \u00e9 muito diferente do que Lord Raglan prop\u00f4s. Para ele, se queremos dar a um personagem um ar her\u00f3ico, ent\u00e3o devemos fazer com que ele tenha certas caracter\u00edsticas. Mas Raglan n\u00e3o afirmou que todo personagem deva ser her\u00f3i e o objeto de sua pesquisa era bem claro: Tradi\u00e7\u00e3o, Mitologia e Drama. Ele abordou personagens hist\u00f3ricos mitificados ou exaltados por raz\u00f5es pol\u00edticas, personagens mitol\u00f3gicos e personagens de dramas tr\u00e1gicos. O recorte mais estrito do trabalho de Lord Raglan o protege da controv\u00e9rsia que Campbell causa ao propor a ideia do monomito.<\/p>\n<p>Mas isto n\u00e3o quer dizer, de forma alguma, que o trabalho de Campbell n\u00e3o seja respeit\u00e1vel. Minha cr\u00edtica \u00e0 Jornada do Her\u00f3i n\u00e3o se aplica ao seu conceito enquanto ferramenta para entender as mitologias do mundo &mdash; ainda que existam muitas cr\u00edticas ponderosas \u00e0s suas ideias &mdash; mas sim \u00e0 sua aplica\u00e7\u00e3o dilu\u00edda e convencional como uma &#8220;receita de bolo&#8221; para escrever fic\u00e7\u00e3o com apelo comercial.<\/p>\n<p>O trabalho de Campbell come\u00e7ou a se popularizar com o grande p\u00fablico quando George Lucas e Richard Adams, respectivamente, confessaram ter empregado a Jornada do Her\u00f3i como guia para a escrita, respectivamente, do roteiro original de &#8220;Guerra nas Estrelas&#8221; e do romance infantojuvenil <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Watership_Down\">Watership Down<\/a>. O grande sucesso que ambos alcan\u00e7aram com estas obras foi atribu\u00eddo ao poder sugestivo que o emprego da Jornada do Her\u00f3i lhes teria dado, disso resultou que v\u00e1rios outros autores resolveram seguir o mesmo padr\u00e3o deliberadamente, o que explica, em parte, porque os <em>best-sellers<\/em> e os <em>blockbusters<\/em> est\u00e3o cada vez mais parecidos.<\/p>\n<p>No meio editorial, particularmente, a ideia do monomito cai como uma luva entre os editores voltados para fil\u00f5es mais comerciais, pois supostamente as hist\u00f3rias constru\u00eddas segundo o padr\u00e3o da Jornada do Her\u00f3i tocariam nos arqu\u00e9tipos mais profundos da humanidade, o que significaria que teriam apelo de p\u00fablico e venderiam mais. Estruturar uma hist\u00f3ria desta forma seria mais &#8220;seguro&#8221; enquanto empreendimento comercial do que criar uma hist\u00f3ria aleatoriamente e confiar em fatores igualmente aleat\u00f3rios para chegar ao sucesso. Hist\u00f3rias escritas segundo a Jornada do Her\u00f3i n\u00e3o apenas agradariam mais ao p\u00fablico leitor como teriam o potencial de criar f\u00e3s e obter publicidade espont\u00e2nea.<br \/>\n<!--next--><\/p>\n<h2 id=\"partedois\">Campbell Teve a Luz e Vogler a Traz At\u00e9 Voc\u00ea.<\/h2>\n<p>Em ess\u00eancia, a Jornada do Her\u00f3i prop\u00f5e uma estrutura prefabricada para a fic\u00e7\u00e3o. Um esqueleto b\u00e1sico, com alguns elementos opcionais, que deveria ser guarnecido de &#8220;carne&#8221; verbal pelos autores. As obras feitas por tal esquema seriam bem-sucedidas <em>porque<\/em> o que o ser humano deseja \u00e9 seguir a jornada m\u00edstica de um her\u00f3i, ainda que vivamos em uma \u00e9poca t\u00e3o secularizada e distanciada em rela\u00e7\u00e3o aos rituais da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estruturas prefabricadas substituem o trabalho de planejar, inventar e descobrir. Se voc\u00ea tem esquema pronto, n\u00e3o precisar\u00e1 testar solu\u00e7\u00f5es a esmo at\u00e9 achar uma que resulte em uma obra aceit\u00e1vel. Seguir solu\u00e7\u00f5es prontas serve para produzir coisas em s\u00e9rie, desprovidas de individualidade e calor. Coisas como parafusos precisam ser iguais, por exemplo, mas por que dever\u00edamos padronizar tudo? O que seria do mundo se todas as pessoas constru\u00edssem casas parecidas? \u00c9 verdade que &#8220;casas&#8221; s\u00e3o compostas de elementos b\u00e1sicos, como paredes, teto, janelas, portas, corredores, ch\u00e3o, laje etc.; mas isso n\u00e3o quer dizer que todas as vezes que empregarmos esses elementos teremos de produzir casas em que necessariamente a varanda fique na frente, a garagem do lado, os quartos nos fundos e o banheiro dando para um corredor.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a aplica\u00e7\u00e3o deliberada da Jornada do Her\u00f3i tem um efeito atrofiante sobre a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. A ideia de que todas as hist\u00f3rias s\u00e3o uma mesma hist\u00f3ria desestimula a cria\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias variantes. Se as hist\u00f3rias de mais sucesso s\u00e3o as que seguem o padr\u00e3o, fugir do padr\u00e3o \u00e9 garantia de fracasso. O resultado disso \u00e9 o equivalente liter\u00e1rio a um conjunto habitacional. \u00c9 exatamente isso que pensam alguns editores, como o que me mandou voltar \u00e0 estaca zero e aprender a escrever minhas hist\u00f3rias seguindo a Jornada do Her\u00f3i. Autores que n\u00e3o o fazem conscientemente n\u00e3o seriam sequer public\u00e1veis, segundo pensa tal gente. Autores que o fazem inconscientemente deveriam faz\u00ea-lo de prop\u00f3sito para n\u00e3o correrem riscos.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da sensa\u00e7\u00e3o de superioridade que isto d\u00e1 ao editor, que pode ensinar ao escritor como ele deveria escrever e ainda usando a autoridade de um acad\u00eamico de renome (e ainda por cima gringo, o que \u00e9 um selo de qualidade na vis\u00e3o de certa gente!), precisamos nos perguntar se realmente isto tem os resultados que se diz ter.<\/p>\n<p>Se for verdade a interpreta\u00e7\u00e3o recente do trabalho de Campbell, as hist\u00f3rias de maior sucesso no cinema e na literatura seriam quase todas baseadas na Jornada do Her\u00f3i e apenas por exce\u00e7\u00e3o uma obra chegaria ao sucesso sem seguir este caminho. Mais do que isso, as obras tidas como &#8220;exce\u00e7\u00f5es&#8221; teriam uma aplica\u00e7\u00e3o incompleta, mas n\u00e3o inexistente, da Jornada do Her\u00f3i.<\/p>\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o facilmente test\u00e1vel.<\/p>\n<p>Podemos levantar estatisticamente os filmes e livros de maior sucesso e verificar quais se baseiam na Jornada do Her\u00f3i e quais n\u00e3o. Infelizmente n\u00e3o ser\u00e1 um levantamento isento. Antes da populariza\u00e7\u00e3o das ideias de Campbell, as obras liter\u00e1rias e cinematogr\u00e1ficas apresentavam padr\u00f5es muito variantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Jornada do Her\u00f3i. Algumas obras de evidente sucesso aparentemente a seguiam, mas outras n\u00e3o. E \u00e9 dif\u00edcil saber se as obras apontadas como exemplos desta poderiam ser realmente classificadas assim ou se esta classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma categoriza\u00e7\u00e3o <em>a posteriori<\/em>. At\u00e9 que ponto a ades\u00e3o \u00e0 Jornada do Her\u00f3i \u00e9 um exerc\u00edcio de pareidolia?<\/p>\n<p>Posteriormente \u00e0 populariza\u00e7\u00e3o das ideias de Campbell, ocorrida nos anos 1990, a maioria dos filmes de sucesso passou a segui-la. Mas isto quer dizer que ela \u00e9 eficiente para produzir filmes de sucesso ou que hoje \u00e9 mais dif\u00edcil obter grande financiamento para obras que n\u00e3o sigam a Jornada do Her\u00f3i? Se considerarmos que <a href=\"ttp:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Christopher_Vogler\">Christopher Vogler<\/a>, o maior divulgador da aplica\u00e7\u00e3o do trabalho de Campbell no desenvolvimento de narrativas de fic\u00e7\u00e3o, \u00e9 um executivo da ind\u00fastria americana do cinema, devemos nos perguntar at\u00e9 que ponto a &#8220;populariza\u00e7\u00e3o&#8221; da Jornada \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria americana de &#8220;enlatados&#8221; culturais, que, como se sabe, emprega as mais variadas t\u00e9cnicas de propaganda ideol\u00f3gica. E o her\u00f3i \u00e9 um conceito claramente ideol\u00f3gico. Perigosamente ideol\u00f3gico, como veremos.<\/p>\n<p>Infelizmente, algumas das obras de maior sucesso na hist\u00f3ria, por exemplo, n\u00e3o seguem a Jornada do Her\u00f3i. Excluindo as obras protagonizadas por mulheres (que n\u00e3o podem ser acomodadas no mito do her\u00f3i de Campbell \u2014 e isso \u00e9 um problema significativo, como tamb\u00e9m veremos), podemos citar filmes epicamente famosos como <em>Chinatown<\/em> (Roman Polanski), <em>Jornada nas Estrelas<\/em> (a s\u00e9rie original e os primeiros cinco filmes) e <em>A Bela e a Fera<\/em> (desenho da Disney) como exemplos que desafiam a interpreta\u00e7\u00e3o segundo a Jornada do Her\u00f3i. Outros exemplos, que analisaremos mais em detalhe nos pr\u00f3ximos cap\u00edtulos, s\u00e3o a <em>Odisseia<\/em> e a <em>Divina Com\u00e9dia<\/em>. Se a Jornada do Her\u00f3i fosse t\u00e3o importante quanto dizem os seus defensores, n\u00e3o deveria ser poss\u00edvel fazer t\u00e3o grande sucesso ignorando-a t\u00e3o solenemente.<\/p>\n<p>Ocorre que ningu\u00e9m parou para questionar fatos que deveriam ser \u00f3bvios:<\/p>\n<ol>\n<li>Campbell n\u00e3o era escritor de fic\u00e7\u00e3o, ou mesmo cr\u00edtico liter\u00e1rio, mas estudioso de mitos e<\/li>\n<li>A ess\u00eancia da arte \u00e9 questionar os modelos preestabelecidos, portanto, a partir do momento em que a Jornada do Her\u00f3i \u00e9 proposta ela se torna um \u00eddolo a ser derrubado por novas gera\u00e7\u00f5es de escritores.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A populariza\u00e7\u00e3o do trabalho de Campbell, feita por Vogler, \u00e9 tamb\u00e9m um po\u00e7o de inadequa\u00e7\u00f5es, pois se trata de dilui\u00e7\u00e3o &#8220;pop&#8221; de um estudo acad\u00eamico s\u00e9rio, pretendo aplicar os conhecimentos produzidos por Campbell em uma \u00e1rea totalmente diferente da sua inten\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 uma caracter\u00edstica recorrente da autoajuda, que recorre a elementos cient\u00edficos, preferencialmente os controversos, para propor abordagens explicativas para quest\u00f5es pr\u00e1ticas. Neste sentido, a ideia de que uma boa hist\u00f3ria precisaria seguir o modelo de Campbell tem forte cheiro de pseudoci\u00eancia.<\/p>\n<p>Por fim, n\u00e3o custa lembrar que, como Joseph Campbell era um antrop\u00f3logo, e n\u00e3o um escritor de fic\u00e7\u00e3o, a sua interpreta\u00e7\u00e3o <em>pode<\/em> ser v\u00e1lida no campo da antropologia, mas a sua aplicabilidade em outros campos, como a estrutura\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias de fic\u00e7\u00e3o, precisa ser provada. Considerar que as credenciais acad\u00eamicas de Campbell validam a Jornada do Her\u00f3i como modelo para a literatura de fic\u00e7\u00e3o \u00e9 um apelo falacioso \u00e0 autoridade, t\u00e3o evidente quanto achar que Jos\u00e9 Lu\u00eds Datena entende de seguran\u00e7a de motociclistas.<br \/>\n<!--next--><\/p>\n<h2 id=\"partetres\">Uma Hist\u00f3ria Para Dominar Todas as Hist\u00f3rias.<\/h2>\n<p>A Jornada do Her\u00f3i segundo popularizada nos atualmente se baseia na interpreta\u00e7\u00e3o dada ao trabalho de Campbell por Christopher Vogler, um executivo dos est\u00fadios de Hollywood, que escreveu uma obra cujo t\u00edtulo traduzido \u00e9 <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/The_Writer%27s_Journey:_Mythic_Structure_For_Writers\">A Jornada do Autor: Estrutura M\u00edtica para Escritores<\/a>.  Antes disso, as teses de Vogler haviam sido difundidas como &#8220;orienta\u00e7\u00f5es&#8221; internas aos roteiristas dos principais est\u00fadios de cinema.<\/p>\n<p>Vogler resumiu a Jornada em tr\u00eas &#8220;atos&#8221;, compostos de doze &#8220;cenas&#8221;:<\/p>\n<figure>\n<img style=\"aligncenter full-size\" src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/thumb\/1\/1b\/Heroesjourney.svg\/2000px-Heroesjourney.svg.png\" alt=\"Diagrama da Jornada do Her\u00f3i\" \/><br \/>\n<\/figure>\n<h3 id=\"partetres-1\">Ato 1 \u2013 em que o cen\u00e1rio \u00e9 estabelecido e o her\u00f3i come\u00e7a sua jornada.<\/h3>\n<ol>\n<li>\nMundo normal. A hist\u00f3ria come\u00e7a com o her\u00f3i em sua exist\u00eancia normal, sem saber do que lhe acontecer\u00e1. Isto ancora o her\u00f3i como um ser humano, para que possamos nos identificar com ele.<\/li>\n<li>Chamado \u00e0 aventura. O her\u00f3i presencia um malfeito, um problema ou desafio que deve enfrentar. Seja o rei procurando quem salve o reino de um inimigo, um detetive recebendo uma cliente com um caso ou o encontro de um estranho em um bar. <\/li>\n<li>Recusa do chamado. O her\u00f3i se acovarda diante da tarefa ou hesita em receb\u00ea-la. O problema parece muito grande ou o conforto do lar parece mais atraente do que o &#8220;l\u00e1 fora&#8221;. Esta \u00e9 a resposta que dar\u00edamos, ent\u00e3o isto nos ajuda a ter ainda mais envolvimento emocional com o her\u00f3i. Serve tamb\u00e9m para evidenciar que o her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que busca aventuras levianamente.<\/li>\n<li>Encontro do mentor. O mentor aparece para ajudar o her\u00f3i a se preparar para o que enfrentar\u00e1. Assim Gandalf, Obi-Wan Kenobi e uma mir\u00edade de outros mais velhos e mais experientes aparecem para ensinar ao her\u00f3i as habilidades que precisa ter e dar-lhe o discernimento que precisar\u00e1 usar para sobreviver.<\/li>\n<li> Ultrapassagem do limiar. O her\u00f3i ent\u00e3o est\u00e1 pronto e ultrapassa os limites do seu cen\u00e1rio inicial, entrando em sua jornada pelo desconhecido.<\/li>\n<\/ol>\n<h3 id=\"partetres-2\">Ato 2 \u2014 em que ocorre a parte central da a\u00e7\u00e3o, enquanto o her\u00f3i sobrevive \u00e0 estrada e atinge seus objetivos iniciais.<\/h3>\n<ol start=\"6\">\n<li>Testes, aliados e inimigos. Uma vez solto no grande e selvagem mundo, o her\u00f3i se confronta com uma s\u00e9rie de desafios cada vez mais dif\u00edceis, de pequenas escaramu\u00e7as at\u00e9 obst\u00e1culos geogr\u00e1ficas e fen\u00f4menos da natureza, passando por enigmas, contratempos e trai\u00e7\u00f5es que derrotariam uma pessoa comum. Assim o car\u00e1ter do her\u00f3i \u00e9 desenvolvido e ressaltado. Uma vez que estamos identificados com o her\u00f3i, sentimos prazer em suas vit\u00f3rias.<\/li>\n<li>Aproxima\u00e7\u00e3o da caverna mais profunda. Acercando-se de seu destino final, o her\u00f3i, ferido por\u00e9m mais s\u00e1bio com o que aprendeu durante a jornada, deve se preparar para o mais grave teste. Nas lendas antigas, a &#8220;caverna mais profunda&#8221; era a terra dos mortos ou um labirinto. \u00c9 o covil de um inimigo terr\u00edvel, onde n\u00e3o haver\u00e1 ajuda poss\u00edvel e onde apenas a coragem salvar\u00e1. Possivelmente haver\u00e1 outro limiar a se cruzar nesse ponto, marcando a entrada da toca do drag\u00e3o ou a boca da caverna mais profunda. Engolimos em seco, junto com o her\u00f3i, ao pensarmos que tudo pode dar errado. Aproximar-se da caverna \u00e9 contemplar a morte e ainda seguir em frente. Esta pausa serve para mostrar que o her\u00f3i ainda \u00e9 humano e serve para criar a tens\u00e3o antes do cl\u00edmax.<\/li>\n<li>Crise\/Teste supremo. Enfrentando seus medos mais profundos, tipicamente em batalha contra um vil\u00e3o terr\u00edvel, o her\u00f3i testa pela \u00faltima vez suas habilidades. Aqui \u00e9 onde a hist\u00f3ria realmente se realiza. Superando seus dem\u00f4nios e enfrentando seu inimigo predestinado. N\u00f3s tememos pelo her\u00f3i e podemos sofrer com a ideia de que ele pode falhar ou morrer. N\u00f3s tamb\u00e9m enfrentamos e vencemos, em menor escala, nosso medo.<\/li>\n<li>Obten\u00e7\u00e3o da recompensa. Derrotando o inimigo, o her\u00f3i se transforma em outra coisa, seus medos s\u00e3o derrotados e ele se torna a pessoa mais destemida do mundo. A recompensa aparente pode ser o conhecimento, um tesouro, a m\u00e3o de uma princesa ou um trono, mas a maior das recompensas \u00e9 o ganho interior da experi\u00eancia e da sabedoria.<\/li>\n<\/ol>\n<h3 id=\"partetres-3\">Ato 3 \u2014 em que o her\u00f3i transcende a humanidade.**<\/h3>\n<ol start=\"10\">\n<li>O caminho de volta. Depois que a hist\u00f3ria ultrapassa o cl\u00edmax, o her\u00f3i transformado volta para casa. Tendo obtido o tesouro, ele n\u00e3o precisa e n\u00e3o quer mais aventuras, n\u00e3o tem mais nada a provar. Voltar para casa \u00e9 o contr\u00e1rio de cruzar o limiar no come\u00e7o da aventura. Em vez de esperar perigos, esperamos aplausos e descanso.<\/li>\n<li>Cl\u00edmax\/ressurrei\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria tem um \u00faltimo truque agora. Tendo nos confortado com a ideia de que o heroi est\u00e1 em seguran\u00e7a, um \u00faltimo desafio aparece. Talvez o vil\u00e3o n\u00e3o foi vencido realmente, ou talvez outros inimigos no caminho de volta, ou talvez o her\u00f3i se comove com algu\u00e9m em necessidade. Assim, novamente somos expostos a um cl\u00edmax quando j\u00e1 ach\u00e1vamos que a hist\u00f3ria estava resolvida. Em antigas hist\u00f3rias, o her\u00f3i deveria ser purificado antes da volta. Depois das lutas na jornada e todo o sofrimento, depois especialmente de ter matado ele precisaria limpar-se destas culpas, o que poderia acontecer atrav\u00e9s de um renascimento em nova e bela forma.<\/li>\n<li> A volta com o tesouro. Finalmente o her\u00f3i retorna \u00e0 sua casa, d\u00e1 o tesouro ao seu dono devido e recebe sua justa recompensa, seja ela a m\u00e3o de uma princesa, o reconhecimento do povo ou apenas o descanso merecido. Nesta parte final todas as tens\u00f5es s\u00e3o resolvidas e todas as quest\u00f5es n\u00e3o respondidas s\u00e3o esclarecidas, deixando o leitor satisfeito.<\/li>\n<\/ol>\n<p>O problema com este esquema \u00e9 que ele ignora as diferen\u00e7as e se concentra nas semelhan\u00e7as entre os grandes mitos e, de certa forma, exagera a import\u00e2ncia destas semelhan\u00e7as, mesmo quando n\u00e3o passam de detalhes secund\u00e1rios. Certamente uma hist\u00f3ria constru\u00edda sob tais preceitos \u00e9 eficiente, embora n\u00e3o seja a \u00fanica forma eficiente de se contar uma hist\u00f3ria. E embora v\u00e1rios arqu\u00e9tipos sejam explorados a\u00ed, v\u00e1rias hist\u00f3rias conhecidas e antigas fogem ao diagrama proposto por Campbell. Ent\u00e3o a Jornada, tal como delineada acima, falha como uma explica\u00e7\u00e3o universal das mitologias. H\u00e1 toda uma s\u00e9rie de hist\u00f3rias muito conhecidos que violam praticamente cada preceito da Jornada: Gilgamesh, Ulisses, Sans\u00e3o, Davi, Ratatouille, Tropas Estelares, Amor Sem Limites (ambos de Robert A. Heinlein) e a maioria dos contos de Ray Bradbury.<\/p>\n<p>Segundo Jim Hull<sup id=\"fnref-1576-6\"><a href=\"#fn-1576-6\" class=\"jetpack-footnote\">6<\/a><\/sup>, a fuga mais f\u00e1cil para essa dificuldade de explicar o sucesso de obras fora do padr\u00e3o \u00e9 argumentar que existem duas jornadas simult\u00e2neas narradas na hist\u00f3ria, ambas incompletamente. Isto \u00e9 falacioso, pois viola o princ\u00edpio da razoabilidade (&#8220;navalha de Occam&#8221;), segundo o qual n\u00e3o se deve aumentar a complexidade de uma teoria se for poss\u00edvel encontrar uma explica\u00e7\u00e3o mais simples que satisfa\u00e7a os dados existentes. Este elegante princ\u00edpio l\u00f3gico foi formulado atrav\u00e9s da frase latina <em>entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem<\/em> (n\u00e3o se deve multiplicar os elementos sem necessidade).<\/p>\n<p>Se eu n\u00e3o consigo explicar uma obra empregando a Jornada do Her\u00f3i, supor a exist\u00eancia de duas jornadas simult\u00e2neas e entrela\u00e7adas n\u00e3o \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o melhor do que dizer que simplesmente n\u00e3o h\u00e1 jornada alguma narrada ali. A exist\u00eancia de duas jornadas invalida a excepcionalidade do her\u00f3i e, por conseguinte, derruba toda a estrutura que se pretendia construir, uma vez que a jornada do her\u00f3i se ancora justamente na excepcionalidade do protagonista.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de grandes sucessos liter\u00e1rios e cinematogr\u00e1ficos que desafiam o padr\u00e3o deveria ser um alerta de que o padr\u00e3o talvez n\u00e3o exista ou que n\u00e3o se aplique fora do escopo original da obra de Campbell (mitologia comparada). Esta segunda interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 coerente com o esp\u00edrito das ci\u00eancias humanas, que dificilmente se aventuram a fazer predi\u00e7\u00f5es com base em dados hist\u00f3ricos e, quando o fazem, geralmente incluem ressalvas. Predi\u00e7\u00f5es sem ressalvas, no campo das ci\u00eancias humanas, s\u00e3o essencialmente falaciosas porque fatos passados n\u00e3o s\u00e3o repet\u00edveis segundo um padr\u00e3o \u00f3bvio. Campbell n\u00e3o foi falacioso, mas h\u00e1 aplica\u00e7\u00f5es falaciosas de sua obra. Uma delas \u00e9 <a href=\"http:\/\/www.spitefulcritic.com\/2009\/06\/hold-on-ive-seen-this-before-how-star-wars-star-trek-the-matrix-and-harry-potter-are-actually-the-same-movie\">este artigo<\/a>,<sup id=\"fnref-1576-7\"><a href=\"#fn-1576-7\" class=\"jetpack-footnote\">7<\/a><\/sup> que afirma que Jornada nas Estrelas, Guerra nas Estrelas, Matrix e Harry Potter s\u00e3o a mesma coisa <em>porque<\/em> possuem elementos em comum.<br \/>\n<!--next--><\/p>\n<h2 id=\"partequatro\">As Cr\u00edticas Cl\u00e1ssicas \u00e0 Jornada do Her\u00f3i.<\/h2>\n<p>Em geral s\u00f3 ouvimos falar da obra de Joseph Campbell pela boca de seus seguidores, nunca de seus detratores. Isto decorre de m\u00faltiplos fatores, entre os quais a hegemonia com que o discurso do monomito se imp\u00f5e entre os editores e tamb\u00e9m o fato de que o tema, em si, \u00e9 de pouqu\u00edssimo interesse para o p\u00fablico em geral. Temos ent\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o curiosa:<\/p>\n<ul>\n<li>H\u00e1 um grupo de autores e editores que divulga o conceito do monomito porque ele se harmoniza com certa vis\u00e3o de mundo e da literatura que lhes interessa. Esses s\u00e3o os pros\u00e9litos naturais: a Jornada do Her\u00f3i lhes serve.<\/li>\n<li>Quem n\u00e3o \u00e9 pros\u00e9lito em geral n\u00e3o se interessa pelo estudo da mitologia comparada. Quanta gente l\u00ea obras de antropologia afinal?<\/li>\n<li>Autores e editores costumam ter mais acesso \u00e0 m\u00eddia do que antrop\u00f3logos, linguistas e etn\u00f3logos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Desses tr\u00eas fatores resulta que o proselitismo da Jornada atinge um p\u00fablico maior do que a cr\u00edtica. Mas a cr\u00edtica pelo menos existe?<\/p>\n<p>Sim. Existe.<\/p>\n<p>Podemos sumarizar estas cr\u00edticas nas seguintes provoca\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>Film Critic Hulk: Why We Must Stop it With the Hero Journey Shit<sup id=\"fnref-1576-8\"><a href=\"#fn-1576-8\" class=\"jetpack-footnote\">8<\/a><\/sup>,<\/li>\n<li>Charlie Jane: Cinco Raz\u00f5es Pelas Quais a Jornada do Her\u00f3i \u00e9 uma Merda<sup id=\"fnref-1576-9\"><a href=\"#fn-1576-9\" class=\"jetpack-footnote\">9<\/a><\/sup> e<\/li>\n<li>Andr\u00e9 Solo: Porque N\u00e3o Gosto de Joseph Campbell<sup id=\"fnref-1576-10\"><a href=\"#fn-1576-10\" class=\"jetpack-footnote\">10<\/a><\/sup>.<\/li>\n<\/ul>\n<dl>\n<dt>Nem todo mito conta uma hist\u00f3ria s\u00f3.<\/dt>\n<dd>H\u00e1 padr\u00f5es que s\u00e3o comuns a muitos mitos, mas isto ainda n\u00e3o significa que esses padr\u00f5es est\u00e3o a servi\u00e7o de uma mesma hist\u00f3ria ou trazem a mesma li\u00e7\u00e3o. *Quando voc\u00ea escolhe um padr\u00e3o que acredita ser o correto, \u00e9 f\u00e1cil ignorar os elementos que n\u00e3o se encaixam nele ou reinterpretar aqueles que s\u00f3 encaixam mal.* Muitas identifica\u00e7\u00f5es da Jornada do Her\u00f3i em obras de literatura s\u00e3o feitas \u00e0 base de marretadas.<\/dd>\n<dt>A ideia do monomito solapa o que a mitologia tem de grandioso<\/dt>\n<dd>Os mitos trazem uma carga cultural tremenda. Toda a vis\u00e3o de mundo de uma sociedade, seus valores e suas mais altas aspira\u00e7\u00f5es est\u00e3o codificadas em seus mitos. O valor-conte\u00fado \u00e9 \u00fanico \u00e0 mitologia de cada cultura, e \u00e9 isso que faz os mitos serem m\u00e1gicos. Ao *focar nos elementos que se repetem entre diferentes culturas implica em ignorar o que cada uma tem de especial.*<\/dd>\n<dt>Quando voc\u00ea universaliza um mito, voc\u00ea n\u00e3o o faz.<\/dt>\n<dd>Qualquer tentativa de definir um padr\u00e3o universal entre coisas diferentes acaba definindo o vi\u00e9s do observador, especialmente nas ci\u00eancias humanas, onde o problema da neutralidade \u00e9 mais premente, e ainda mais especialmente nas pesquisas do tipo qualitativo, que n\u00e3o se baseiam em grandezas mensur\u00e1veis. No caso de Campbell, ele focou primariamente em figuras m\u00edticas masculinas e hist\u00f3rias que concordavam com as suas pr\u00f3prias vis\u00f5es teos\u00f3ficas. <em>O monomito \u00e9 popular junto ao p\u00fablico ocidental porque foi escrito por um ocidental.<\/em> Mais do isso, conforme o pr\u00f3prio Campbell declarou, n\u00e3o lhe interessava estudar as diferen\u00e7as entre os mitos, mas as suas semelhan\u00e7as. Isso equivale a dizer que voc\u00ea n\u00e3o encara as pessoas pelas suas caracter\u00edsticas pessoais, mas pelo que t\u00eam de igual &#8212; e no fim de contas voc\u00ea reduz os indiv\u00edduos a uma contagem de narizes, dentes, membros, olhos e dedos.<\/dd>\n<dt>Os passos da Jornada do Her\u00f3i n\u00e3o s\u00e3o significativos porque s\u00e3o simplesmente inevit\u00e1veis.<\/dt>\n<dd>Por exemplo, o momento em que o her\u00f3i deixa a seguran\u00e7a de seu lar: \u00e9 meio \u00f3bvio que se o her\u00f3i n\u00e3o deixar o seu lar ele n\u00e3o encontrar\u00e1 aventuras, ent\u00e3o \u00e9 praticamente natural que uma hist\u00f3ria de aventuras envolva esse movimento. O movimento em si n\u00e3o pode, ent\u00e3o, ser visto como algo significativo porque n\u00e3o se pode contar uma hist\u00f3ria sem ele. Afirmar que existe algo significativo na &#8220;sa\u00edda do lar&#8221; \u00e9 como dizer que todas as hist\u00f3rias se parecem porque todas t\u00eam come\u00e7o, meio e fim e tem personagens, ou que dois indiv\u00edduos se parecem porque tem a mesma quantidade de pernas.<\/dd>\n<dt>Algu\u00e9m tem que ser o protagonista.<\/dt>\n<dd>N\u00e3o h\u00e1 hist\u00f3ria se n\u00e3o houver um protagonista e \u00e9 natural que este seja um personagem que provoca a empatia do leitor. Uma das maneiras mais f\u00e1ceis de criar esta empatia \u00e9 dar qualidades ao protagonista. Uma vez mais, o her\u00f3i surge como um personagem inevit\u00e1vel de acordo com o tipo de hist\u00f3ria que se conta, e n\u00e3o porque o her\u00f3i em si seja um modelo universal. Outra vez, n\u00e3o \u00e9 o rabo que abana o cachorro.<\/dd>\n<dt>Consagra\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Deus_ex_machina\">*Deus Ex Machina*<\/a><\/dt>\n<dd>O Elixir atrav\u00e9s do qual o her\u00f3i \u00e9 salvo milagrosamente nunca foi um elemento de qualidade das velhas hist\u00f3rias, mas uma maneira f\u00e1cil e apressada de resolver um conflito intranspon\u00edvel. Esses filtros e objetos m\u00e1gicos que resolvem milagrosamente as encrencas mais cabulosas sempre foram uma maneira pregui\u00e7osa e ignorante de resolver uma narrativa mal planejada. Atrav\u00e9s da Jornada do Her\u00f3i podemos justificar essas solu\u00e7\u00f5es mal ajambradas.<\/dd>\n<dt>Difunde a ideia de que a guerra \u00e9 uma forma de terapia<\/dt>\n<dd>A Jornada do Her\u00f3i se baseia no preconceito de que os problemas s\u00e3o sempre desafios morais e s\u00f3 podem ser vencidos atrav\u00e9s de uma ilumina\u00e7\u00e3o interior. Assim, o her\u00f3i triunfa sobre o gigante por ter evolu\u00eddo espiritualmente, n\u00e3o por ter matado o gigante. Esta confus\u00e3o entre solu\u00e7\u00e3o de problemas (muitas vezes de forma violenta) e crescimento espiritual n\u00e3o \u00e9 realista e pode ser perigosa quando chega aos ouvidos das pessoas erradas.<\/dd>\n<dt>Campbell \u00e9 um po\u00e7o de pieguice<\/dt>\n<dd>Entre outros motivos, porque ele n\u00e3o era um escritor dotado de qualidades liter\u00e1rias, mas um acad\u00eamico. Seguir os conselhos de um acad\u00eamico na hora de escrever equivale a seguir os conselhos de sa\u00fade dados por um mec\u00e2nico s\u00f3 porque supostamente o seu corpo \u00e9 uma &#8220;m\u00e1quina&#8221;. V\u00e1rios de seus defensores citam frases suas que parecem sa\u00eddas de um livro de autoajuda, como &#8220;o seu lugar sagrado \u00e9 aquele onde voc\u00ea se encontra e se reencontra v\u00e1rias vezes&#8221; ou &#8220;siga seu prazer&#8221;. \u00c9 o tipo de discurso &#8220;positivo&#8221; que se difundiu por conta do movimento <em>hippie<\/em> e da cultura <em>new age<\/em>, mas que dificilmente seria levado a s\u00e9rio por um p\u00fablico menos virginal. Talvez por isso Vogler tenha reescrito seus conceitos de uma maneira mais comercial, para evitar que essa pieguice afastasse aqueles que n\u00e3o fossem leitores do &#8220;Senhor dos Aneis&#8221; e de &#8220;Fern\u00e3o Capelo Gaivota&#8221;.<\/dd>\n<dt>A universalidade do monomito \u00e9 aumentada com interpreta\u00e7\u00f5es for\u00e7adas<\/dt>\n<dd>Muitas das hist\u00f3rias que se diz serem baseadas no monomito apresentam uma estrutura muito diferente, mas os pros\u00e9litos ignoram a cronologia interna dos fatos narrados (assim ignorando a rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito das a\u00e7\u00f5es dos personagens) para enxergarem um padr\u00e3o at\u00e9 mesmo onde n\u00e3o existe.<\/dd>\n<\/dl>\n<p><!--next--><\/p>\n<h2 id=\"partecinco\">A Jornada Como Parte do Problema: Treze Evid\u00eancias.<\/h2>\n<p>Os problemas com o conceito da Jornada do Her\u00f3i s\u00e3o muitos, pelo que andei lendo. As cr\u00edticas vem dos mais variados lados, mas eu as reduzi a somente dez principais, baseando-me nas citadas pelos provocadores citados na se\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<h3 id=\"1.receitadebolo\">1. \u00c9 uma receita de bolo.<\/h3>\n<p>Em literatura, f\u00f3rmulas tendem a ser limites. Claramente Campbell n\u00e3o estava pensando em dar receitas de bolo para ningu\u00e9m. Ele pensava que estava descrevendo padr\u00f5es inerentes aos grandes mitos da humanidade. Mas com o tempo, autores mais ou menos pregui\u00e7osos passaram a usar seu trabalho como uma esp\u00e9cie de receita. Especialmente depois do sucesso de Guerra nas Estrelas, que George Lucas disse ter sido inteiramente escrito com base no trabalho de Campbell. A aplica\u00e7\u00e3o de uma f\u00f3rmula tende a tornar todas as obras parecidas, e t\u00e3o chatas quanto videogame, que tem fases sequenciais, chef\u00f5es de fase, pontos de salvamento, etc.<\/p>\n<h3 id=\"2.desencorajacriar\">2. Desencoraja a criatividade.<\/h3>\n<p>O ser humano \u00e9 pregui\u00e7oso por natureza e busca o caminho do menor esfor\u00e7o. Ent\u00e3o se voc\u00ea disser que toda hist\u00f3ria \u00e9 a mesma hist\u00f3ria, divergindo apenas em detalhes, voc\u00ea est\u00e1 encorajando os novos autores a plagiarem at\u00e9 o osso as hist\u00f3rias antigas e j\u00e1 em dom\u00ednio p\u00fablico. Ningu\u00e9m nunca mais inventar\u00e1 um g\u00eanero liter\u00e1rio, um recurso estil\u00edstico ou um novo tipo de trama, todos estar\u00e3o ocupados copiando o que j\u00e1 deu certo. Em vez de valorizar hist\u00f3rias que s\u00e3o diferentes, ou tentam ser, voc\u00ea fica tentado a achar que um chiclete como &#8220;Guerra nas Estrelas&#8221; \u00e9 &#8220;m\u00edtico&#8221; porque \u00e9 sobre um her\u00f3i.<\/p>\n<h3 id=\"3.pseudocientifica\">3. Sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e9 pseudocient\u00edfica.<\/h3>\n<p>Campbell trabalhou com o passado. Sua obra pode ser muito bem-sucedida como explica\u00e7\u00e3o dos antigos mitos (e n\u00e3o digo que sim ou n\u00e3o), mas da\u00ed n\u00e3o se pode inferir que ela seja um modelo eficiente para o desenvolvimento de novos mitos. Um ditado comum entre os estrategistas militares \u00e9 que os generais n\u00e3o devem se preparar para lutar a \u00faltima guerra, mas a pr\u00f3xima. Este ditado exemplifica o erro do historicismo: s\u00f3 porque o conhecimento do passado \u00e9 \u00fatil para entender o presente, disso n\u00e3o decorre que se possa prever o futuro a partir do passado.<\/p>\n<p>Os her\u00f3is descritos por Joseph Campbell, parte de culturas milenares, foram criados em um contexto hist\u00f3rico diferente. Os her\u00f3is que nossos tempos criam s\u00e3o diferentes deles. Uma literatura baseada na Jornada do Her\u00f3i \u00e9 uma literatura que nascer\u00e1 anacr\u00f4nica, pois em vez de captar o esp\u00edrito de nossa \u00e9poca, se ancora no esp\u00edrito de tempos idos.<\/p>\n<h3 id=\"4.valoresdatados\">4. Seus valores s\u00e3o datados.<\/h3>\n<p>Como dito acima, existem cr\u00edticos que atacam o conservadorismo da Jornada como um grave problema. Para estes cr\u00edticos, usar a Jornada como paradigma para escrever novas hist\u00f3rias \u00e9 cometer o erro dos franceses em ambas as guerras mundiais: preparar-se para lutar a guerra anterior.<\/p>\n<p>Priester<sup id=\"fnref-1576-11\"><a href=\"#fn-1576-11\" class=\"jetpack-footnote\">11<\/a><\/sup> ataca justamente o conservadorismo expresso pela Jornada (e pelo pr\u00f3prio conceito original de her\u00f3i). Mesmo na cultura popular contempor\u00e2nea, diz o autor, \u00e9 poss\u00edvel encontrar exemplos de mudan\u00e7as significativas de paradigma. Os filmes de faroeste dos anos 40 a 60, por exemplo, apresentam uma vis\u00e3o dos ind\u00edgenas que hoje \u00e9 inaceit\u00e1vel diante do conhecimento hist\u00f3rico e dos direitos civis conquistados por seus descendentes. Da mesma forma, obras ic\u00f4nicas, como &#8220;E o Vento Levou&#8221; expressam paradigmas racistas que hoje em dia s\u00e3o simplesmente criminosos; sendo esta uma das muitas raz\u00f5es pelas quais os filmes antigos raramente passam na televis\u00e3o, mesmo fechada.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise do cinema americano que inclu\u00edsse obras de todas as suas \u00e9pocas fatalmente incluiria estes elementos como parte inerente ao seu car\u00e1ter. Se tal obra servisse de refer\u00eancia para criar o paradigma de filme com potencial de sucesso, os filmes do futuro poderiam nascer presos a conven\u00e7\u00f5es que deveriam ter sido abandonadas por causa das mudan\u00e7as sofridas pela sociedade. Assim, a pesquisa de Campbell, ao ser aplicada como modelo para a produ\u00e7\u00e3o de novos elementos culturais, <em>preserva preconceitos e ignor\u00e2ncias<\/em> de \u00e9pocas passadas da humanidade <em>que devemos superar em nossas pr\u00f3ximas fases de desenvolvimento cultural e social.<\/em><\/p>\n<h3 id=\"5.heroireaca\">5. O her\u00f3i \u00e9 politicamente reacion\u00e1rio.<\/h3>\n<p>A literatura n\u00e3o se limita a her\u00f3is. E o her\u00f3i se tornou, afinal, um personagem anacr\u00f4nico, e at\u00e9 reacion\u00e1rio. O her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 um cara que resolve fazer o que qualquer um poderia fazer se tivesse a iniciativa. Ele n\u00e3o \u00e9 feito pela ocasi\u00e3o: recebe seu chamado por ser, essencialmente, algu\u00e9m especial. Ele \u00e9 um aristocrata, os demais s\u00e3o plebeus e pe\u00f5es. O her\u00f3i \u00e9 um conceito que propaga a ilus\u00e3o de que voc\u00ea pode ser secretamente algu\u00e9m especial (veja o caso do Harry Potter e da legi\u00e3o de imitadores da ideia do adolescente sofrido que \u00e9 na verdade um pr\u00edncipe ou mago famoso, bl\u00e9argh!). Ao mesmo tempo \u00e9 um conceito que propaga a ideia de que voc\u00ea <strong>nasce<\/strong> especial e que ningu\u00e9m pode <em>tornar-se<\/em> especial.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o tipo de ideia que vigorava no mundo durante a Idade M\u00e9dia, e deveria ter sido abolido gradualmente desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. O her\u00f3i \u00e9 um instrumento de propaganda da nobreza contra a plebe. Em &#8220;Guerra nas Estrelas&#8221;, por exemplo, vemos claramente como o her\u00f3i propagandeia a monarquia (ou, se prefere, um poder autocr\u00e1tico) como solu\u00e7\u00e3o para os enganos de um regime representativo. Este \u00e9 o mesmo tipo de propaganda, ali\u00e1s, que se fez de J\u00falio C\u00e9sar para justificar a aboli\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Romana.<\/p>\n<h3 id=\"6.heroihomem\">6. O her\u00f3i \u00e9 um homem.<\/h3>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso ser feminista para entender que um conceito que s\u00f3 \u00e9 aplic\u00e1vel a personagens masculinos \u00e9, no m\u00ednimo, incompleto. Ou estamos querendo dizer que as grandes hist\u00f3rias precisam ter protagonistas homens (o que \u00e9 simplesmente um machismo tosco) ou o paradigma s\u00f3 explica as hist\u00f3rias envolvendo homens. Mas o que h\u00e1 de errado nisso?<\/p>\n<p>Se a Jornada s\u00f3 funciona para her\u00f3is masculinos, ent\u00e3o ela vai falhar para explicar as hist\u00f3rias com personagens femininos, ou talvez isto explique porque tantos protagonistas femininos com atitudes masculinizadas apareceram em filmes e romances <em>best-sellers<\/em>. Mais do que propagandear a ideia de que o homem \u00e9 heroico, a Jornada prop\u00f5e que o hero\u00edsmo \u00e9 uma atitude tipicamente masculina e a mulher \u00e9 meramente um elemento acess\u00f3rio.<sup id=\"fnref-1576-12\"><a href=\"#fn-1576-12\" class=\"jetpack-footnote\">12<\/a><\/sup><\/p>\n<h3 id=\"7.heroimane.\">7. O her\u00f3i \u00e9 um ing\u00eanuo.<\/h3>\n<p>Como ele \u00e9 uma ferramenta ideol\u00f3gica, ele \u00e9 esquem\u00e1tico, simplista e moral\u00admente inocente. N\u00e3o existem her\u00f3is na vida real. Os her\u00f3is que existem n\u00e3o se comportam como os her\u00f3is arquet\u00edpicos. As escolhas heroicas que acontecem na vida real nunca s\u00e3o precedidas das fases citadas no mito do her\u00f3i.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 por acaso: o her\u00f3i m\u00edtico n\u00e3o \u00e9 um her\u00f3i &#8220;de verdade&#8221;, ele \u00e9 um per\u00adso\u00adnagem mitol\u00f3gico. Sua vida n\u00e3o \u00e9 uma biografia, \u00e9 a proposi\u00e7\u00e3o de uma expli\u00adca\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica\/m\u00edtica da vida. Suas atitudes s\u00e3o partes de um ritual. O her\u00f3i passa por fases que supostamente simbolizam as diferentes fases da vida. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio que o her\u00f3i encontre um mentor, que deixe a casa paterna, que enfrente o mundo e que morra no fim. Pois assim \u00e9 a vida: sa\u00ed\u00admos da seguran\u00e7a de nossos lares para, orientados por nossos mestres e ami\u00adgos, enfrentar a dura realidade, que nos ensina e consome, at\u00e9 finalmente ser\u00admos derrotados por ela no fim e supostamente &#8220;renascermos&#8221; espiritualmente.<\/p>\n<p>A Jornada do Her\u00f3i, ent\u00e3o, n\u00e3o descreve o hero\u00edsmo real, mas fases de um processo inici\u00e1tico.<\/p>\n<h3 id=\"8.comparacoesforcadas\">8. O conceito surge de compara\u00e7\u00f5es for\u00e7adas.<\/h3>\n<p>Campbell s\u00f3 se interessava pelas semelhan\u00e7as entre os mitos, n\u00e3o pelas diferen\u00e7as. Esta \u00e9 uma atitude acad\u00eamica controversa, que j\u00e1 fora denunciada por Plat\u00e3o, usando a personagem S\u00f3crates, h\u00e1 mais de 2500 anos, em Atenas. Ao atacar os sofistas, S\u00f3crates declarou que eles s\u00f3 se interessavam por dados que concordavam com suas ideias, o que significava que suas ideias n\u00e3o podiam ser destronadas pela realidade. Na pr\u00e1tica, o sofismo produz um conhecimento idealizado e elegante, mas de pouca utilidade pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Os mitos existem para expressar valores que s\u00e3o caros aos seus criadores. Mesmo quando esses mitos possuem caracter\u00edsticas em comum, estas semelhan\u00e7as podem ser recursos empregados para expressar tais valores. Focar nas semelhan\u00e7as em vez das diferen\u00e7as silencia a mensagem espec\u00edfica de cada mito. Assim, a Jornada do Her\u00f3i, ao representar o que muitos mitos t\u00eam em comum, se esquece do que cada um deles tem de especial.<\/p>\n<h3 id=\"9.espiritualidadepraticidade\">9. Confus\u00e3o entre espiritualidade e praticidade.<\/h3>\n<p>Como o her\u00f3i era originalmente um personagem mitol\u00f3gico (ou seja, religioso, pois segundo o pr\u00f3prio Campbell disse, &#8220;mitologia \u00e9 o nome que damos \u00e0 religi\u00e3o dos outros&#8221;), a sua hist\u00f3ria de vida n\u00e3o era sen\u00e3o uma justificativa teol\u00f3gica dos fatos que abordava. Isto quer dizer que o her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 um homem de a\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 um homem de religi\u00e3o. A sua a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais do que um ritual.<\/p>\n<p>Claro que, \u00e0s vezes, para derrotar um grande mal voc\u00ea precisa aprender li\u00e7\u00f5es importantes e crescer como pessoa. Mas nem sempre. Normalmente, para derrotar um grande mal voc\u00ea s\u00f3 precisa bater nele com toda for\u00e7a, quantas vezes for necess\u00e1rio at\u00e9 que ele pare de respirar. Basicamente foi o que se fez com Hitler, por exemplo, enquanto certos pacifistas acreditavam que era poss\u00edvel despertar a empatia dos nazistas. N\u00e3o h\u00e1 tempo e nem clima para encontro com a deusa ou para um retiro espiritual de crescimento pessoal enquanto se luta contra um inimigo real. Quando voc\u00ea voltar de sua egotrip, o mundo j\u00e1 poder\u00e1 estar destru\u00eddo.<\/p>\n<p>A ideia do monomito \u00e9 irrealista porque confunde guerra com uma esp\u00e9cie de ioga e o inimigo real com uma esp\u00e9cie de oponente no xadrez, que espera seu pr\u00f3ximo movimento. Por mais que o conceito seja belo, isto n\u00e3o se aplica \u00e0 realidade.<\/p>\n<h3 id=\"10.eurocentrismo.\">10. O trabalho de Campbell \u00e9 euroc\u00eantrico.<\/h3>\n<p>Vamos colocar isso de forma bem rude: Nos anos 40 um americano branco escreveu sobre os mitos de outras culturas e decidiu que entendia o seu significado melhor do que essas pr\u00f3prias culturas.<sup id=\"fnref2:1576-10\"><a href=\"#fn-1576-10\" class=\"jetpack-footnote\">10<\/a><\/sup><\/p>\n<h3 id=\"11.seguirajornada\">11. Seguir a Jornada N\u00e3o Leva a uma Boa Hist\u00f3ria e n\u00e3o Garante o Sucesso.<\/h3>\n<p>Isto deveria ser meio evidente, mas \u00e9 preciso que algu\u00e9m diga.<sup id=\"fnref2:1576-12\"><a href=\"#fn-1576-12\" class=\"jetpack-footnote\">12<\/a><\/sup> H\u00e1 muitas hist\u00f3rias que seguem religiosamente a Jornada do Her\u00f3i e que n\u00e3o s\u00e3o nem de longe boas e muito menos comercialmente bem-sucedidas. Se fossem bem-sucedidas comercialmente, ainda que ruins, ainda haveria argumentos para defender a ades\u00e3o \u00e0 Jornada, mas o que se pode dizer em defesa de filmes como &#8220;Marte Precisa de M\u00e3es&#8221;, &#8220;Van Helsing&#8221; e &#8220;Battlefield Earth&#8221;?<\/p>\n<h3 id=\"12.niilismo.\">12. A Jornada \u00e9, no fundo, niilista.<\/h3>\n<p>Isso quer dizer, basicamente, que algu\u00e9m que realmente creia que a Jornada do Her\u00f3i \u00e9 a \u00fanica (ou mesmo a mais sensacional) forma de se narrar uma hist\u00f3ria fatalmente acabar\u00e1 por crer que n\u00e3o vale a pena narrar novas hist\u00f3rias, pois todas s\u00e3o a mesma coisa. Ainda que eu concorde que o mundo se beneficiaria se pelo menos dois ter\u00e7os dos escritores se dedicassem a outro of\u00edcio, como, por exemplo, pintar paredes ou cuidar de vacas; tamb\u00e9m creio que a castra\u00e7\u00e3o mental a que estes coitados foram submetidos \u00e9 o que explica que sua produ\u00e7\u00e3o seja t\u00e3o sem sabor.<\/p>\n<h3 id=\"13.cliche.\">13. \u00c9 um clich\u00ea j\u00e1 exaurido.<\/h3>\n<p>Nem \u00e9 preciso dizer que eu, por exemplo, s\u00f3 estou escrevendo esta parede de texto aqui porque sou um entre muitos que j\u00e1 se cansou de ler hist\u00f3rias que n\u00e3o s\u00f3 <em>parecem iguais<\/em>, mas cujos autores <em>acreditam que s\u00e3o iguais<\/em>.<br \/>\n<!--next--><\/p>\n<h2 id=\"retornarrebeldia.\">Precisamos Retornar \u00e0 Rebeldia.<\/h2>\n<p>Vimos, portanto, que a Jornada do Her\u00f3i n\u00e3o foi pensada originalmente como um modelo para a constru\u00e7\u00e3o de narrativas ficcionais, mas como uma tentativa, um tanto controversa em seu pr\u00f3prio campo, mas erudita e embasada, para encontrar padr\u00f5es comuns a diferentes mitologias, inserindo-se no contexto da busca antropol\u00f3gica pelo arqu\u00e9tipo, busca esta que inclu\u00eda outros autores como Frazier, Jung e Raglan.<\/p>\n<p>Por que, ent\u00e3o, esta obra acabou sendo empregada de uma forma que o pr\u00f3prio autor n\u00e3o imaginava?<\/p>\n<p>Talvez porque seja \u00fatil ao modelo de neg\u00f3cios e \u00e0 ideologia que permeiam a ind\u00fastria do entretenimento. Por mais que seja poss\u00edvel construir narrativas de sucesso completamente alheias ao modelo da Jornada, acredita-se que as narrativas constru\u00eddas segundo ela teriam mais impacto sobre o inconsciente coletivo, por manipularem aspectos profundos da psique humana, os tais arqu\u00e9tipos de que Jung falava. At\u00e9 que ponto isto \u00e9 verdade ou apenas <em>wishful thinking<\/em> \u00e9 algo que n\u00e3o pretendo discutir. O que pretendo discutir \u00e9 porque devemos nos rebelar contra isso.<\/p>\n<p>A Jornada do Her\u00f3i \u00e9 parte de uma nova onda de academicismo. Houve uma \u00e9poca em que as artes se baseavam em conven\u00e7\u00f5es e modelos prontos. Esta \u00e9poca foi chamada de &#8220;classicismo&#8221; ou &#8220;academicismo&#8221; e durou do fim da Idade M\u00e9dia at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, compreendendo fases como o Renascimento, o Barroco e o Neoclassicismo. Foi preciso o concurso de muitos homens e mulheres de g\u00eanio para conseguir derrubar a for\u00e7a conservadora da Academia e libertar o artista para criar livremente. Mas em outro momento falaremos sobre a obsolesc\u00eancia do modernismo.<\/p>\n<p>A Jornada do Her\u00f3i empobrece o discurso liter\u00e1rio. Quando a maioria dos autores segue um mesmo padr\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o, torna-se cada vez mais dif\u00edcil imaginar a possibilidade de um padr\u00e3o desviante. Assim, o discurso liter\u00e1rio tende a se estreitar. Quando o empobrecimento foi imposto pelo Estado, como no caso do Realismo Socialista ou da Arte Genuinamente Alem\u00e3, artistas de qualidade gritaram. Por que devemos nos conformar quando isto \u00e9 imposto pelos donos das estruturas econ\u00f4micas de poder?<\/p>\n<p>A Jornada do Her\u00f3i reflete um programa pol\u00edtico. Trata-se do neoconservadorismo e suas implica\u00e7\u00f5es nazifascistas, que incluem a no\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos superiores, pessoas predestinadas ao poder e grandes conflitos aos quais os &#8220;comuns&#8221; n\u00e3o tem acesso sen\u00e3o como expectadores ou v\u00edtimas. O discurso elitista \u00e9 evidente em &#8220;Guerra nas Estrelas&#8221;, por exemplo.<\/p>\n<p>A Jornada do Her\u00f3i \u00e9 uma forma de colocar os jovens autores sob o estrito controle da autoridade. O pr\u00f3prio conceito de &#8220;mentor&#8221; parece talhado para que os jovens se conformem em fazer tudo o que seus editores lhes mandam fazer. Esse autoritarismo justificado pela suposta &#8220;ci\u00eancia&#8221; de Campbell acaba impedindo que os jovens testem seus caminhos espontaneamente. Em vez disso eles se educam repetindo padr\u00f5es predeterminados, o que diminui as oportunidades para novas descobertas. N\u00e3o \u00e9 de espantar que, nos \u00faltimos anos, a maioria das obras da cultura pop, como os filmes <em>blockbusters<\/em> se tornaram cheias de clich\u00eas a ponto de os cr\u00edticos dizerem que o p\u00fablico se infantilizou.<\/p>\n<p>A Jornada do Her\u00f3i infantiliza o leitor. Porque emprega o mesmo tipo de apelo m\u00edstico e religioso dos mitos milenares. Apela ao irracional, ao arqu\u00e9tipo em vez do discurso. \u00c0 tradi\u00e7\u00e3o em vez da descoberta. O tipo de conhecimento que preconiza n\u00e3o \u00e9 o conhecimento da descoberta, mas o conhecimento revelado, que \u00e9 transmitido pelo status quo espiritual. O her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que se faz, mas algu\u00e9m que \u00e9 moldado. Ele n\u00e3o \u00e9 sujeito da a\u00e7\u00e3o, mas sujeito \u00e0 a\u00e7\u00e3o. O chamado \u00e9 irresist\u00edvel. O her\u00f3i n\u00e3o quer, mas \u00e9 obrigado a cumprir o seu papel. Este, ali\u00e1s, \u00e9 um tema recorrente na trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>A Jornada do Her\u00f3i \u00e9 fatalista. Ao negar a possibilidade da constru\u00e7\u00e3o de discursos v\u00e1lidos que n\u00e3o sigam o protocolo, ela se coaduna com uma vis\u00e3o determinista da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Esta vis\u00e3o, ali\u00e1s, tem muitos pontos de contato com a teologia calvinista da &#8220;predestina\u00e7\u00e3o&#8221; que, por sinal, \u00e9 muito popular nos Estados Unidos. Podemos dizer, ent\u00e3o, que o conceito do monomito reflete a forma\u00e7\u00e3o cultural de seu autor.<\/p>\n<p>O artista n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m preocupado com receitas e projetos b\u00e1sicos. Autores, por exemplo, devem aprender a estruturas e depois esquec\u00ea-las, tal como os grandes cozinheiros n\u00e3o precisam consultar o caderno de receitas da vov\u00f3 antes de baterem cada ovo ou flambarem cada crepe. Embora n\u00e3o seja absurdo sugerir a um iniciante que conhe\u00e7a a estrutura, propor a Jornada do Her\u00f3i como paradigma para as obras acabadas \u00e9 como exigir que o chefe de um restaurante consulte um caderno de receitas para fazer cada prato.<\/p>\n<p>Sabedores da import\u00e2ncia de resistir, cabe-nos perguntar se \u00e9 vi\u00e1vel resistir. Afinal, o escritor, tal como o her\u00f3i, tamb\u00e9m enfrenta um chamado \u00e0 a\u00e7\u00e3o, no caso, o chamado a fazer a sua pr\u00f3pria obra, em um mundo determinado a calar sua voz, a impor-lhe paradigmas limitadores, a derrubar sua iniciativa. Ideologias niilistas existem em v\u00e1rias formas, e todas negam essencialmente a validade do conhecimento. A obsess\u00e3o pelo monomito me parece uma destas formas de nega\u00e7\u00e3o. Desta forma, o monomito tal como expresso nesta vers\u00e3o simplificada do trabalho de Campbell \u00e9 uma abordagem anti-intelectual da cultura. Algo que fala muito forte aos cora\u00e7\u00f5es daqueles que temem o poder dos intelectuais. Ergo: \u00e9 uma ideologia reacion\u00e1ria com forte elemento de controle social.<br \/>\n<!--next--><\/p>\n<h2 id=\"heroisreais.\">Her\u00f3is de Verdade N\u00e3o S\u00e3o Assim.<\/h2>\n<p>Como j\u00e1 foi bem dito, a Jornada do Her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 sobre her\u00f3is, mas sobre personagens de mitos. O her\u00f3i m\u00edtico n\u00e3o \u00e9 aquilo que popularmente se chama de &#8220;her\u00f3i&#8221;, mas uma esp\u00e9cie de sacerdote que se auto-imola na busca do conhecimento ou da salva\u00e7\u00e3o de seu povo. A morte do her\u00f3i \u00e9 importante justamente porque o mito heroico \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o de religi\u00e3o.<sup id=\"fnref3:1576-10\"><a href=\"#fn-1576-10\" class=\"jetpack-footnote\">10<\/a><\/sup><\/p>\n<p>Mas se voc\u00ea claramente disser ao seu leitor estas coisas, ele se sentir\u00e1 escandalizado, especialmente pelo car\u00e1ter pag\u00e3o da Jornada. E o preconceito religioso nem ser\u00e1 o item mais causador de rejei\u00e7\u00e3o: n\u00f3s aprendemos a separar a religi\u00e3o de nossa vida cotidiana e a maioria das pessoas n\u00e3o procura deliberadamente uma atividade religiosa como lazer.<\/p>\n<p>Her\u00f3is de verdade s\u00e3o diferentes dos her\u00f3is m\u00edticos porque n\u00e3o veem no sacrif\u00edcio um fim em si. Diferente do her\u00f3i m\u00edtico, que se imola com um objetivo, o her\u00f3i comum encara o autossacrif\u00edcio como um efeito colateral de seu objetivo. A ideia n\u00e3o \u00e9 morrer, mas arriscar a vida para realizar um feito. A realiza\u00e7\u00e3o do feito \u00e9 o que mais importa. A morte \u00e9 algo a se evitar, na medida do poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas o trabalho de Campbell n\u00e3o tem nada a ver com hero\u00edsmo de verdade, mas com personagens liter\u00e1rios que, mesmo quando inspirados em her\u00f3is reais, receberam grande dose de mitifica\u00e7\u00e3o, a ponto de em muitos casos ser dif\u00edcil discernir o homem debaixo da lenda. E o que faz Campbell? Ele estuda a lenda, como se ela fosse mais importante do que o homem. Se voc\u00ea quer entender o hero\u00edsmo, deveria estudar o her\u00f3i, n\u00e3o os simulacros ideol\u00f3gicos constru\u00eddos em torno dele e que, muitas vezes, existem para colocar o hero\u00edsmo original a servi\u00e7o de projetos pol\u00edticos ou religiosos posteriores. Veja o caso de Joana d\u2019Arc, por exemplo, que foi queimada pela Igreja mas hoje \u00e9 santificada pela mesma Igreja que a queimou. Seria certo estudar Joana d\u2019Arc a partir das hagiografias escritas pela Igreja que hoje a cultua?<\/p>\n<p>Her\u00f3is hist\u00f3ricos s\u00e3o muito diferentes dos her\u00f3is m\u00edtico-liter\u00e1rios estudados por Campbell. Raramente o chamado \u00e0 a\u00e7\u00e3o vem encontrar o her\u00f3i sossegado em seu canto. Normalmente o her\u00f3i j\u00e1 \u00e9 um sujeito de natureza irrequieta, que est\u00e1 percorrendo o mundo em busca de aventuras, como Che Guevara, T. E. Lawrence ou Tadeusz Kosciusko. Por fim, n\u00e3o existe nenhuma insist\u00eancia em transformar o candidato a her\u00f3i naquilo que ele acaba por ser. O her\u00f3i \u00e9 realmente dono de seu tempo e caso se recuse a lutar, como a maioria recusa, n\u00e3o ter\u00e1 segundo convite. O hero\u00edsmo \u00e9 uma escolha que, na maioria das vezes, deve ser feita no passar de um segundo.<\/p>\n<p>Quase todos os elementos da Jornada do Her\u00f3i se apresentam como contraproducentes em situa\u00e7\u00f5es reais, e \u00e9 por isso que raramente as vidas fascinantes de indiv\u00edduos reais custam a chegar aos cinemas. Em geral s\u00f3 chegam quando, ap\u00f3s sua morte, os roteiristas podem fazer deturpa\u00e7\u00f5es suficientes para mitificar o personagem e enfi\u00e1-lo a marteladas no esquema pr\u00e9-fabricado.<\/p>\n<p>Mas no fim de contas: &#8220;um padr\u00e3o liter\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 um her\u00f3i&#8221; e um contador que compara seu sofrimento no segundo grau ao est\u00e1gio da &#8220;barriga da baleia&#8221; ainda \u00e9 apenas um contador.<br \/>\n<!--next--><\/p>\n<h2 id=\"jornadafalha.\">A Jornada Falha Onde N\u00e3o Devia Falhar.<\/h2>\n<p>Se, como prop\u00f5em os defensores da Jornada, o arco narrativo proposto por Campbell explicasse eficientemente a narrativa de cunho mitol\u00f3gico e heroico, as obras deliberadamente desviantes deste padr\u00e3o deveriam ser de import\u00e2ncia secund\u00e1ria ou mesmo irrelevantes. A descoberta de uma \u00fanica obra relevante para a literatura mundial e n\u00e3o baseada na Jornada do Her\u00f3i j\u00e1 seria uma amea\u00e7a significativa ao conceito. Sei muito bem que h\u00e1 bem mais do que uma hist\u00f3ria que desafia o paradigma, mas seria pleon\u00e1stico estudar mais de uma, especialmente se analisarmos uma de grande repercuss\u00e3o e import\u00e2ncia. Analisaremos ent\u00e3o a &#8220;Odisseia&#8221;. Embora a obra dispense apresenta\u00e7\u00f5es, farei uma, bem breve, para benef\u00edcio dos jovens leitores que acaso n\u00e3o a conhe\u00e7am.<\/p>\n<p>Trata-se de um poema narrativo (\u00e9pico) escrito originalmente em grego arcaico, datado de antes do s\u00e9culo VII a.C., por\u00e9m mais recente que a &#8220;Il\u00edada&#8221;, de que \u00e9 uma sequ\u00eancia. Ambos s\u00e3o atribu\u00eddos a Homero, o lend\u00e1rio bardo cego de Atenas. Mais do que uma epopeia antiga, trata-se de uma obra liter\u00e1ria de qualidade mai\u00fascula, fundadora de uma grande quantidade de tradi\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, que at\u00e9 hoje ainda inspira nossa cultura.<\/p>\n<p>Narra a hist\u00f3ria de Ulisses (Odysseous, em grego) em sua jornada de volta para casa logo ap\u00f3s a queda de Troia (\u00cdlion) e sua destrui\u00e7\u00e3o pelos aqueus e argivos, que se haviam unido para vingar o rapto de Helena. A viagem de volta seria relativamente simples, pois \u00cdtaca, o reino natal de Ulisses, localizado no mar J\u00f4nico, poderia ser atingida ap\u00f3s uma viagem de poucas semanas, com escalas nas ilhas do Egeu e fazendo o p\u00e9riplo do Peloponeso. No entanto, Ulisses levar\u00e1 dez anos para concluir a viagem, por expiar os muitos pecados que cometeu durante a conquista de Tr\u00f3ia.<\/p>\n<p>O primeiro destes pecados foi a guerra em si, pois Troia era uma cidade protegida por Poseidon, o deus dos mares, o mesmo a quem os gregos adoravam. Atena, protetora de Ulisses, tamb\u00e9m se volta contra ele pois, para conquistar a cidade, ele empregou um ardil desonesto (o cavalo de Troia), ofendendo a deusa da Sabedoria e da Verdade. O derramamento de sangue de irm\u00e3os helenos, que falavam a mesma l\u00edngua e cultuavam os mesmos deuses, tamb\u00e9m irou a Zeus, que pretendia unir os gregos em uma grande na\u00e7\u00e3o (e desse desejo surgiram o culto ol\u00edmpico e as olimp\u00edadas).<\/p>\n<p>Os deuses, inicialmente sem que o saibamos, decidem que Ulisses dever\u00e1 purgar seus pegados e sobreviver para servir de exemplo \u00e0 humanidade. Mas os seus soldados, que tinham o sangue troiano diretamente em suas m\u00e3os, todos pereceriam.<\/p>\n<p>Ao tempo em que acompanha as desventuras de Ulisses, Homero tamb\u00e9m narra os sofrimentos de sua esposa, Pen\u00e9lope, e de seu filho, Tel\u00eamaco, que convivem com a insol\u00eancia de homens determinados a desposar a rainha e assumir o reino.<\/p>\n<p>Contada de forma n\u00e3o linear, alternando entre cen\u00e1rios, e focando exclusivamente nas palavras e atos dos personagens, sem jamais analisar psicologicamente seus motivos, a Odisseia \u00e9 um texto antiqu\u00edssimo, mas que rompe revolucionariamente com todos os c\u00e2nones liter\u00e1rios criados depois, INCLUSIVE, E PRINCIPALMENTE, A JORNADA DO HER\u00d3I.<\/p>\n<p>Na Odisseia n\u00e3o existe um &#8220;chamado \u00e0 aventura&#8221;. A hist\u00f3ria j\u00e1 come\u00e7a no meio da a\u00e7\u00e3o, com Ulisses vagando pelo mar. Mesmo quando ele narra em retrospectiva os fatos que o levaram a tal situa\u00e7\u00e3o, nota-se que ele n\u00e3o &#8220;foi chamado&#8221;, ele fora, de fato, um dos iniciadores do movimento que produzira a Guerra de Troia e a sua jornada presente \u00e9 uma viagem de volta. Estar perdido no mar era parte do castigo purificador que os deuses lhe infligiam por ter sido desencadeador da grande hecatombe da guerra por um motivo f\u00fatil, o rapto de Helena. Em momento algum Ulisses se recusou a ir, e os deuses o punem, mantendo-o afastado do lar e do leito conjugal, por ele ter se disposto a t\u00e3o facilmente ter se afastado deles.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 cruzamento do limiar (a travessia da H\u00e9lade para Troia sequer \u00e9 narrada), n\u00e3o h\u00e1 guardi\u00e3o do limiar a ultrapassar. Sim, h\u00e1 Poseidon, mas a hist\u00f3ria inteira se trava <strong>sobre<\/strong> o limiar que ele guarda (o mar) e travessia n\u00e3o tem car\u00e1ter m\u00edstico, mas meramente pr\u00e1tico. As prova\u00e7\u00f5es de Ulisses n\u00e3o o preparam para uma esp\u00e9cie de santidade, mas o punem por seus atos contr\u00e1rios \u00e0s conven\u00e7\u00f5es da guerra justa.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve inicia\u00e7\u00e3o alguma e h\u00e1 m\u00faltiplos encontros, com m\u00faltiplas deusas, em alguns casos \u00e9 dif\u00edcil discernir qual mulher \u00e9 deusa e qual \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o para que Ulisses nunca retorne. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 &#8220;encontro com a deusa&#8221;. Bem, n\u00e3o de forma individualizada. Os gregos aprendem muita coisa, inclusive com deuses, e encontram v\u00e1rias deusas v\u00e1rias vezes ao longo da guerra. Mas nenhum desses encontros tem a simbologia potente e individualizada que a Jornada do Her\u00f3i sup\u00f5e. Em alguns momentos Ulisses \u00e9 de fato tentado: por Circe, que o enfeiti\u00e7a para t\u00ea-lo como marido e quase o leva a cometer canibalismo, pela princesa dos fe\u00e1cios, que quase o convence a se tornar rei, pelas Hesp\u00e9rides\u2026 Enfim, Ulisses se encontra com v\u00e1rias mulheres, em v\u00e1rios lugares, e embora uma ou duas tenham apresentado inten\u00e7\u00f5es malignas, de tenta\u00e7\u00e3o deliberada, a maior tenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 dentro do pr\u00f3prio Ulisses em alguns casos.<\/p>\n<p>Se supusermos que o mar seria a trilha de l\u00e1grimas de Ulisses, posto que os diferentes epis\u00f3dios se sucedem em perigo at\u00e9 finalmente todos os tripulantes de sua embarca\u00e7\u00e3o terem sido mortos, notamos que n\u00e3o existe nenhum inimigo a ser derrotado, a n\u00e3o ser a natureza, personificada em Poseidon, e considerar esse deus como um &#8220;guardi\u00e3o do limiar&#8221; \u00e9 for\u00e7ar a barra, porque no esquema original da Jornada o limiar n\u00e3o poderia ser o mar inteiro. A vit\u00f3ria de Ulisses \u00e9 simplesmente conseguir voltar para casa, e isto ocorre meio que por acaso, ap\u00f3s ele ter conseguido, meio sem saber como, aplacar a ira dos deuses. Mas a esta altura os leitores sabem: os deuses saciaram sua vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Ulisses n\u00e3o traz nenhuma recompensa de sua viagem. De fato a Odisseia inteira narra a sua volta para casa, e ele retorna com a roupa do corpo, envelhecido e esquecido. Tampouco podemos dizer que ele adquiriu &#8220;sabedoria&#8221; com o tempo: a forma como trata os pretendentes ao trono, e como posteriormente trata sua mulher Pen\u00e9lope, evidenciam que ele continua o mesmo bruto machista que causou uma guerra genocida por causa do rapto de uma mulher.<\/p>\n<p>Assim, ao t\u00e9rmino da leitura da Odisseia, vemos que o nosso her\u00f3i \u00e9 um personagem muito mais complexo e multifacetado do que o modelo unidimensional da Jornada do Her\u00f3i nos faz crer.<\/p>\n<p>Outro exemplo de obra liter\u00e1ria muito relevante que ignora totalmente o modelo da Jornada \u00e9 a Divina Com\u00e9dia, de Dante Aligheri. \u00c9 verdade que aqui temos um chamado \u00e0 a\u00e7\u00e3o e temos um protagonista que tenta resistir ao chamado. Mas o chamado ocorre quando o personagem j\u00e1 est\u00e1 h\u00e1 muito afastado da seguran\u00e7a do lar. Existe, sim, um mentor (a sombra de Virg\u00edlio), e temos alguns limiares a serem cruzados, mas isto \u00e9 apenas algo \u00f3bvio, visto que a hist\u00f3ria em si busca descrever o inferno, o purgat\u00f3rio e o para\u00edso. Seria imposs\u00edvel que n\u00e3o houvesse limiares, subterr\u00e2neos e seus guardi\u00f5es. T\u00e3o imposs\u00edvel que a sua presen\u00e7a se torna irrelevante para dizermos que s\u00e3o elementos da Jornada do Her\u00f3i.<\/p>\n<p>N\u00e3o existem testes, aliados ou inimigos. Em momento algum o her\u00f3i est\u00e1 sujeito a qualquer perigo. A sua aventura n\u00e3o \u00e9 para arriscar a pr\u00f3pria vida, mas para contemplar os frutos das vidas alheias at\u00e9 compreender a justi\u00e7a de deus e poder se reunir com a sua amada Beatriz no para\u00edso.<\/p>\n<p>Este aprendizado \u00e9 a sua recompensa e o seu elixir. Mas ele s\u00f3 o obt\u00e9m ap\u00f3s percorrer os dez c\u00edrculos do inferno, os sete degraus do purgat\u00f3rio e as nove esferas celestiais.<\/p>\n<p>Este breve exemplo nos mostra como a Jornada do Her\u00f3i falha para explicar o mito de Ulysses, como falha para diversos outros. Desta forma, n\u00e3o podemos consider\u00e1-la um modelo comum a todas as hist\u00f3rias, a n\u00e3o ser que resolvamos desconsiderar, definitivamente, o que as hist\u00f3rias tenham de espec\u00edfico e comparar \u00e0 for\u00e7a o que parecer semelhante.<br \/>\n<!--next--><\/p>\n<h2 id=\"outrasformas.\">Existem Outras Formas de Compreender os Mitos.<\/h2>\n<p>Antes de Joseph Campbell, FitzRoy Richard Somerset, o quarto Lord Raglan, escreveu &#8220;O Her\u00f3i: Um Estudo na Tradi\u00e7\u00e3o, no Mito e no Drama&#8221;, uma obra que certamente esteve entre as leituras de Campbell antes e durante os seus estudos de mitologia comparada. Raglan foi bastante mais comedido que o autor americano, pois em vez de enxergar que todos os mitos se resumiam a um s\u00f3, uma afirmativa por si s\u00f3 pol\u00eamica, ele preferiu dizer que existem certos elementos que costumam estar presentes nas biografias dos her\u00f3is m\u00edticos, sejam estes elementos originais ou adi\u00e7\u00f5es posteriores com o objetivo de dar mais &#8220;hero\u00edsmo&#8221; ao personagem.<\/p>\n<p>Raglan tamb\u00e9m chegara a um retrato muito diferente do her\u00f3i. Enquanto Campbell est\u00e1 mais interessado no ciclo de suas a\u00e7\u00f5es, Raglan contempla o personagem em si, procurando responder a uma pergunta muito mais delimitada: o que torna um personagem &#8220;heroico&#8221;? A resposta estaria em um conjunto de vinte e dois elementos que, quando presentes na biografia (verdadeira ou mitificada) de um personagem, tenderiam a lhe dar um status de her\u00f3i:<\/p>\n<ol>\n<li>A m\u00e3e do her\u00f3i \u00e9 uma jovem de sangue real (\u00e0s vezes virgem);<\/li>\n<li>Seu pai \u00e9 um rei;<\/li>\n<li>Possivelmente um parente pr\u00f3ximo de sua m\u00e3e (\u00e0s vezes a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 at\u00e9 incestuosa, criando uma &#8220;maldi\u00e7\u00e3o&#8221; para o her\u00f3i);<\/li>\n<li>As circunst\u00e2ncias de sua concep\u00e7\u00e3o s\u00e3o incomuns;<\/li>\n<li>Por isso ele \u00e9 tido como sendo, na verdade, o filho de um deus;<\/li>\n<li>Ao nascer, sofre um atentado, perpetrado por seu pai, av\u00f4 ou outro parente pr\u00f3ximo;<\/li>\n<li>Mas sobrevive miraculosamente e \u00e9 levado de seu local de nascimento;<\/li>\n<li>Ent\u00e3o ele \u00e9 criado por pais adotivos em uma prov\u00edncia distante ou em um pa\u00eds estrangeiro;<\/li>\n<li>Pouco ou nada sabemos de sua inf\u00e2ncia;<\/li>\n<li>Mas ao chegar \u00e0 idade adulta ele retorna ao seu futuro reino, \u00e0s vezes contra a vontade de sua fam\u00edlia adotiva;<\/li>\n<li>Ao vencer uma batalha contra um rei, gigante, drag\u00e3o ou fera;<\/li>\n<li>Ele noiva e se casa com uma princesa, que pode ser filha de seu predecessor (\u00e0s vezes sua irm\u00e3);<\/li>\n<li>E se torna rei;<\/li>\n<li>Por um tempo ele reina sem grandes problemas;<\/li>\n<li>Cria leis;<\/li>\n<li>Mas perde o favor dos deuses ou do povo;<\/li>\n<li>E \u00e9 expulso do seu trono e da cidade;<\/li>\n<li>Ap\u00f3s o que ele morre misteriosamente;<\/li>\n<li>O que quase sempre ocorre no topo de uma colina;<\/li>\n<li>Seus filhos, se os teve, n\u00e3o o sucedem;<\/li>\n<li>Seu corpo n\u00e3o \u00e9 enterrado;<\/li>\n<li>Mas mesmo assim ele tem v\u00e1rios t\u00famulos sagrados.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Raglan faz quest\u00e3o de dizer que a presen\u00e7a destes elementos na biografia de um personagem, mesmo a presen\u00e7a de todos eles, n\u00e3o \u00e9 ind\u00edcio de que o personagem seja realmente mitol\u00f3gico, mas estes elementos conferem ao biografado um status espont\u00e2neo de hero\u00edsmo. Em alguns casos, quando a biografia de um personagem \u00e9 manipulada por raz\u00f5es pol\u00edticas (&#8220;endeusamento&#8221;), isto inclui a adi\u00e7\u00e3o de alguns dos elementos da lista de Raglan. Segundo os estudiosos da obra de Raglan, os seguintes personagens hist\u00f3ricos e mitol\u00f3gicos teriam as seguintes pontua\u00e7\u00f5es na escala heroica:<\/p>\n<ul>\n<li>Mitridates VI do Ponto, \u00c9dipo (22);<\/li>\n<li>Krishna (21);<\/li>\n<li>Mois\u00e9s, Teseu (20);<\/li>\n<li>Artur e Jesus (19);<\/li>\n<li>H\u00e9rcules, R\u00f4mulo, Maom\u00e9 (17);<\/li>\n<li>Perseu (16);<\/li>\n<li>Beowulf, Jas\u00e3o e Buda (15);<\/li>\n<li>Nicolau II, D. Pedro I e Zeus (14);<\/li>\n<li>Sans\u00e3o, Robin Hood (13);<\/li>\n<li>Itamar Franco, Juscelino Kubitschek (12);<\/li>\n<li>Apolo (11);<\/li>\n<li>Aquiles, Get\u00falio Vargas (10);<\/li>\n<li>Ulisses, Harry Potter (8).<\/li>\n<\/ul>\n<p>O trabalho de Lord Raglan tem algumas vantagens sobre o de Campbell, uma das principais sendo que, ao contr\u00e1rio da Jornada do Her\u00f3i, as caracter\u00edsticas do her\u00f3i padr\u00e3o podem ser associadas facilmente a personagens femininas. V\u00e1rios estudos de feministas conseguiram criar padr\u00f5es equivalentes, que utilizam as mesmas categorias de Raglan, acrescentando ou retirando no m\u00e1ximo um ou dois elementos. Mesmo as categorias de Raglan n\u00e3o modificadas podem encontrar eco em v\u00e1rios personagens mitol\u00f3gicos e hist\u00f3ricos do sexo feminino, tais como Pen\u00e9lope, Helena de Troia, Genebra, Nefertiti, Sem\u00edramis, Joana d\u2019Arc, Cle\u00f3patra e a Princesa Diana.<\/p>\n<p>Mas o motivo de citar o trabalho de Raglan na conclus\u00e3o deste artigo n\u00e3o \u00e9 o de argumentar que o nobre brit\u00e2nico foi mais inteligente, s\u00e1bio ou letrado que o mitologista americano, mas sim exemplificar que, mesmo para quem pretende estruturar sua literatura moderna sobre bases conservadoras e trabalhar com os arqu\u00e9tipos da humanidade, existem outros modelos al\u00e9m da Jornada do Her\u00f3i e que n\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de se impor esta estrutura narrativa como se fosse o modelo perfeito e acabado para a constru\u00e7\u00e3o de roteiros de fic\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<!--next--><\/p>\n<h2 id=\"conclusoes\">Conclus\u00f5es<\/h2>\n<p>Em primeiro lugar, todas estas cr\u00edticas aqui elencadas j\u00e1 foram rebatidas por pros\u00e9litos do monomito. Mas em geral as refuta\u00e7\u00f5es precedem as cr\u00edticas, <em>preventivamente<\/em>, o que significa que aqueles que chegam a conhecer a Jornada do Her\u00f3i j\u00e1 ficam prevenidos contra as cr\u00edticas que ainda nem leram. Isto, claro, porque o proselitismo do monomito \u00e9 muito mais prevalente que a sua cr\u00edtica. Este artigo pretende ser uma gotinha diferente a mais nesse oceano.<\/p>\n<p>Mas quando chegamos \u00e0s conclus\u00f5es de um artigo o que geralmente queremos \u00e9 uma resposta do tipo &#8220;que fazer?&#8221;<\/p>\n<p>Como este n\u00e3o \u00e9 um artigo normal, escrito por um autor normal (neste blog eu fa\u00e7o quest\u00e3o de escrever com liberdade), eu farei a minha conclus\u00e3o elencando &#8220;o que n\u00e3o fazer&#8221;.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>N\u00e3o acredite que seja poss\u00edvel resumir toda forma de narrativa a uma estrutura \u00fanica<\/strong>. Continue tentando aquilo que voc\u00ea quer fazer, mesmo que algu\u00e9m diga que, no fim, ficou parecido com a tal estrutura que lhe dizem existir. Lembre-se que algumas hist\u00f3rias escritas antes de Campbell j\u00e1 se encaixavam no padr\u00e3o sem que seus autores tivessem lido Campbell e elas nem s\u00e3o melhores e nem piores do que as escritas depois (eu tendo a crer que s\u00e3o melhores, mas concedo o benef\u00edcio da d\u00favida).<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o d\u00ea protagonismo ao que \u00e9 secund\u00e1rio<\/strong> s\u00f3 porque algu\u00e9m lhe disse que isso \u00e9 importante. N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de ser mais enf\u00e1tico ao descrever o momento em que o seu personagem sai de casa a fim de enquadrar melhor no monomito. D\u00ea import\u00e2ncia ao que realmente \u00e9 importante para a sua hist\u00f3ria. Lembre-se que em muitas hist\u00f3rias reivindicadas pelos pros\u00e9litos do monomito h\u00e1 elementos faltando ou narrados brevemente.<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o avalie a qualidade de uma obra pela sua ader\u00eancia ao padr\u00e3o do monomito<\/strong>. Isso \u00e9 algo que um fan\u00e1tico religioso faria, ou um imbecil (mais ou menos a mesma coisa). Campbell n\u00e3o \u00e9 um profeta, Vogler n\u00e3o \u00e9 um sacerdote e o monomito n\u00e3o \u00e9 uma religi\u00e3o. Tanto h\u00e1 obras boas e ruins entre as que seguem e as que n\u00e3o seguem o monomito.<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o use *Deus Ex Machina*<\/strong>. Solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas e arbitr\u00e1rias impressionavam ao p\u00fablico greco-romano de dois mil anos atr\u00e1s. Se voc\u00ea escreve para esse p\u00fablico, n\u00e3o se importe com esse conselho, por\u00e9m. Ou, claro, use esse recurso conscientemente e de prop\u00f3sito, em geral com o objetivo de fazer raiva no leitor ou faz\u00ea-lo rir, sabendo que muitos n\u00e3o diferenciar\u00e3o a inten\u00e7\u00e3o e v\u00e3o achar sua obra simplesmente mal escrita.<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o seja piegas<\/strong>.<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o estruture sua hist\u00f3ria conscientemente seguindo a Jornada do Her\u00f3i<\/strong>. Mesmo nas hist\u00f3rias citadas pelos pros\u00e9litos do monomito h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es de padr\u00f5es t\u00e3o grandes que os cr\u00edticos do conceito, como eu, se sentem \u00e0 vontade de dizer que foram encaixadas a marteladas no padr\u00e3o. Ent\u00e3o, mesmo que queira usar a Jornada, use-a mais como refer\u00eancia ocasional do que como planta baixa para erguer as paredes de sua narrativa.<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o se renda ao conservadorismo pol\u00edtico<\/strong>. Um dos efeitos colaterais da Jornada do Her\u00f3i est\u00e1 na regurgita\u00e7\u00e3o de ideologias antiquadas, como monarquismo, direito divino, profetismo etc. Coisas que eram comuns na cren\u00e7a popular de s\u00e9culos e mil\u00eanios passados, mas que soam datadas nos dias de hoje.<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o crie um her\u00f3i bob\u00e3o<\/strong>. A \u00faltima vez na hist\u00f3ria da literatura em que um her\u00f3i de cora\u00e7\u00e3o puro n\u00e3o soou piegas e antiquado foi na &#8220;Demanda do Santo Graal&#8221;.<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o se limite aos mitos indo-europeus e sem\u00edticos<\/strong>. Fora dessas fronteiras mentais talvez existam \u00f3timas hist\u00f3rias prontas para serem contadas. Por isso voc\u00ea n\u00e3o precisa escrever a milion\u00e9sima quinta fantasia medieval derivada de &#8220;Beowulf&#8221; e da citada &#8220;Demanda do Santo Graal&#8221;.<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o seja um crente no monomito<\/strong>. Mesmo que voc\u00ea enxergue valor no trabalho de Campbell e Vogler (eu mesmo enxergo), n\u00e3o v\u00e1 bater \u00e0 porta dos outros para perguntar se t\u00eam tempo para ouvir a Palavra. Principalmente, n\u00e3o force outros a seguirem aquilo.<\/li>\n<\/ol>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn-1576-1\">\nConclave Rosa dos Ventos: <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/www.conclaverosadosventos.com.br\/cultura\/o-estudo-da-mitologia-comparada-as-crencas-e-conviccoes-pessoais\">O Estudo da Mitologia Comparada, as Cren\u00e7as e Convic\u00e7\u00f5es Pessoais<\/span>.&#160;<a href=\"#fnref-1576-1\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-1576-2\">\nJames Frazier: <a href=\"http:\/\/www.bartleby.com\/196\">O Ramo Dourado<\/a>.&#160;<a href=\"#fnref-1576-2\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-1576-3\">\nC. G. Jung, &#8220;O Homem e Seus S\u00edmbolos&#8221;.&#160;<a href=\"#fnref-1576-3\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-1576-4\">\nFitzRoy Somerset, Lord Raglan. <a href=\"http:\/\/atheism.wikia.com\/wiki\/Lord_Raglan%27s_hero_profile\">O Her\u00f3i: Um Estudo na Tradi\u00e7\u00e3o, na Mitologia e no Drama<\/a>.&#160;<a href=\"#fnref-1576-4\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-1576-5\">\nCristopher Vogler: <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/The_Writer%27s_Journey:_Mythic_Structure_For_Writers\">A Jornada do Autor, Estrutura M\u00edtica Para Escritores<\/a>.&#160;<a href=\"#fnref-1576-5\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-1576-6\">\nJim Hull: <a href=\"http:\/\/narrativefirst.com\/articles\/not-everything-is-a-heros-journey\">Narrative First: Not Everything Is a Hero&#8217;s Journey<\/a>.&#160;<a href=\"#fnref-1576-6\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-1576-7\">\nSpiteful Critic: <a href=\"http:\/\/www.spitefulcritic.com\/2009\/06\/hold-on-ive-seen-this-before-how-star-wars-star-trek-the-matrix-and-harry-potter-are-actually-the-same-movie\">Peral\u00e1, Eu J\u00e1 Vi Isso Antes: Como &#8220;Guerra nas Estrelas&#8221;, &#8220;Matrix&#8221; e &#8220;Harry Potter&#8221; s\u00e3o, na verdade, o mesmo filme<\/a>.&#160;<a href=\"#fnref-1576-7\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-1576-8\">\nFilm Critic Hulk: <a href=\"https:\/\/filmcrithulk.wordpress.com\/2011\/10\/06\/hulk-explains-why-we-should-stop-it-with-the-hero-journey-shit\">Porque Dever\u00edamos Parar com Essa Merda de Jornada do Her\u00f3i<\/a>.&#160;<a href=\"#fnref-1576-8\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-1576-9\">\nCharlie Jane: <a href=\"http:\/\/io9.gizmodo.com\/345313\/eight-reasons-why-the-heros-journey-sucks\">Oito Raz\u00f5es Pelas Quais a Jornada do Her\u00f3i N\u00e3o Presta<\/a>.&#160;<a href=\"#fnref-1576-9\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-1576-10\">\nAndr\u00e9 Solo <a href=\"https:\/\/roguepriest.net\/2011\/07\/04\/why-i-dont-like-joseph-campbell\/\">Porque N\u00e3o Gosto de Joseph Campbell<\/a>.&#160;<a href=\"#fnref-1576-10\">&#8617;<\/a> <a href=\"#fnref2:1576-10\">&#8617;<\/a> <a href=\"#fnref3:1576-10\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-1576-11\">\nFanGirl Blog: <a href=\"http:\/\/fangirlblog.com\/2012\/04\/the-heroines-journey-how-campbells-model-doesnt-fit\/\">A Jornada da Hero\u00edna: Como o Modelo de Campbell N\u00e3o Serve<\/a>.&#160;<a href=\"#fnref-1576-11\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-1576-12\">\nWrite If You Dare: <a href=\"http:\/\/writeifyoudare-blog.tumblr.com\/post\/48802043748\/the-heros-journey-or-monomyth-is-mythologist\">A Jornada do Her\u00f3i, ou &#8220;Monomito&#8221;<\/a>&#160;<a href=\"#fnref-1576-12\">&#8617;<\/a> <a href=\"#fnref2:1576-12\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA Fila N\u00e3o Incomoda\u201d: Um Manifesto Contra a Jornada do Her\u00f3i e em Favor do Direito de Fazer Tudo Errado foi uma s\u00e9rie de artigos que escrevi entre maio e junho de 2014, baseada em minhas leituras de alguns artigos cr\u00edticos do conceito do monomito de Joseph Campbell. Estes artigos foram consolidados neste texto \u00fanico, divido em partes usando a ferramenta do WordPress que eu s\u00f3 descobri hoje. Originalmente foram oito partes, mas eu acrescentei uma nona, e tamb\u00e9m uma conclus\u00e3o e uma bibliografia. 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