{"id":1594,"date":"2014-05-18T13:16:32","date_gmt":"2014-05-18T16:16:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1594"},"modified":"2017-08-13T00:40:54","modified_gmt":"2017-08-13T03:40:54","slug":"os-novos-autores-nao-servem-para-nada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/05\/os-novos-autores-nao-servem-para-nada\/","title":{"rendered":"Os Novos Autores N\u00e3o Servem para Nada"},"content":{"rendered":"<p>Pelo menos \u00e9 isso que pensam os que se prop\u00f5em a publicar vers\u00f5es &#8220;facilitadas&#8221; da obra de Machado de Assis para atingir a um p\u00fablico que n\u00e3o o leria por causa da dificuldade do vocabul\u00e1rio, supostamente. Evidentemente, a ningu\u00e9m ocorreu que, para aqueles que n\u00e3o alcan\u00e7am prateleira onde olimpicamente repousam os cl\u00e1ssicos, existem outros autores, que n\u00e3o s\u00e3o cl\u00e1ssicos e apresentam um vocabul\u00e1rio mais acess\u00edvel aos leitores de hoje. Estou falando, claro, dos novos autores da literatura nacional, que, aparentemente, n\u00e3o servem para nada, nem para iniciar os jovens de hoje na leitura para que um dia alcancem Machado de Assis e outros ainda mais cascudos, como Guimar\u00e3es Rosa, Bocage ou Olavo Bilac.<\/p>\n<p>Pode parecer chocante o t\u00edtulo, mas n\u00e3o encontro outra forma de compreender o motivo pelo qual uma editora, em vez de publicar novos livros, escritos por autores contempor\u00e2neos, selecionando-os segundo bons crit\u00e9rios de qualidade Algo que, digamos, \u00e9 o que &#8220;editoras&#8221; costumavam fazer no tempo do Machado de Assis, e talvez explique porque os cl\u00e1ssicos s\u00e3o t\u00e3o bons, e a maioria da literatura de hoje **n\u00e3o \u00e9**.<\/p>\n<p>Obviamente nosso pa\u00eds deve estar vivendo uma grande crise criativa. Deve haver muito poucos autores capazes de escrever hist\u00f3rias leg\u00edveis. A maioria n\u00e3o deve nem saber estruturar uma hist\u00f3ria direito, ou talvez pense que a gram\u00e1tica morde. J\u00e1 que, na opini\u00e3o de nossas editoras, a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria atual se confunde em um grande lix\u00e3o, a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 publicar nomes famosos do passado que, al\u00e9m de terem escrito obras de qualidade aprovada pelo tempo, ainda t\u00eam a conveni\u00eancia de estarem mortos e bem mortos, incapazes de cobrar direitos autorais ou reclamar da abordagem de a\u00e7ougueiro a que suas obras s\u00e3o por vezes submetidas.<\/p>\n<p>Isso explica com sobras porque \u00e9 preciso fazer uma vers\u00e3o &#8220;f\u00e1cil&#8221; de um antigo autor que se considere dif\u00edcil, em vez de fazer uma vers\u00e3o normal de um autor moderno. Nas horas de crise, \u00e9 natural que o ser humano se volte para a tradi\u00e7\u00e3o, mas sempre reinterpretada. Queremos a qualidade que o cl\u00e1ssicos proporcionam, sem a sua dificuldade, mas n\u00e3o estamos dispostos a produzir hoje nada que se iguale em qualidade. Existe uma palavra muito adequada para expressar esta atitude: **decad\u00eancia**. <\/p>\n<p>No auge da decad\u00eancia tecnol\u00f3gica e cultural da Alta Idade M\u00e9dia, os saudosos tempos romanos eram t\u00e3o idealizados que qualquer coisa que parecesse antiga era vener\u00e1vel. E, esquecidos das fun\u00e7\u00f5es de uma tecnologia que n\u00e3o mais compreendiam, os italianos pegaram uma &#8220;privada&#8221; romana e a enfeitaram de ouro e joias, transformando-a na c\u00e1tedra papal. Na decad\u00eancia, o lugar onde os imperadores cagavam foi usado como trono por homens que haviam esquecido a civiliza\u00e7\u00e3o e tinham voltado a cagar no mato.<\/p>\n<p>Na nossa decad\u00eancia de hoje n\u00f3s tamb\u00e9m pegamos os destro\u00e7os honrados de nosso passado cultural, aquele \u00e9poca antes do funk e do Paulo Coelho, e os reapropriamos, como poss\u00edvel, para engalanar o deserto da exist\u00eancia. Incapazes de produzir um novo Machado de Assis, ou pelo menos, no caso das editoras, sem paci\u00eancia para ach\u00e1-lo e\/ou coragem para public\u00e1-lo, contentamo-nos em abastardar o passado excelso.<\/p>\n<p>Este \u00e9 mais um dos sinais de que, se depender do mercado editorial nacional, os novos autores v\u00e3o ficar a ver navios. Afinal, esse neg\u00f3cio de publicar obras desconhecidas envolve risco, e os donos de editoras n\u00e3o v\u00e3o empenhar seu rico dinheirinho em uma gera\u00e7\u00e3o de escritores que eles acham que n\u00e3o servem para nada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo menos \u00e9 isso que pensam os que se prop\u00f5em a publicar vers\u00f5es &#8220;facilitadas&#8221; da obra de Machado de Assis para atingir a um p\u00fablico que n\u00e3o o leria por causa da dificuldade do vocabul\u00e1rio, supostamente. Evidentemente, a ningu\u00e9m ocorreu que, para aqueles que n\u00e3o alcan\u00e7am prateleira onde olimpicamente repousam os cl\u00e1ssicos, existem outros autores, que n\u00e3o s\u00e3o cl\u00e1ssicos e apresentam um vocabul\u00e1rio mais acess\u00edvel aos leitores de hoje. 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