{"id":1651,"date":"2014-06-05T23:43:04","date_gmt":"2014-06-06T02:43:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1651"},"modified":"2017-11-02T14:08:12","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:12","slug":"porque-nao-escrevo-uma-trilogia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/06\/porque-nao-escrevo-uma-trilogia\/","title":{"rendered":"Porque N\u00e3o Escrevo uma Trilogia"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 recorrente o aparecimento de jovens que dizem escrever seu primeiro \u00ablivro\u00bb, muitos at\u00e9 prometendo continua\u00e7\u00f5es ou declarando que a obra \u00e9 (ou ser\u00e1) uma trilogia. N\u00e3o conhe\u00e7o a qualidade destas obras e nem destes escritores, embora suponha, com razoabilidade, que as primeiras s\u00e3o compat\u00edveis com a idade, a experi\u00eancia de vida e o n\u00edvel cultural dos segundos. E quando digo isso, devo acrescentar, com algum eufemismo, que n\u00e3o \u00e9 com muita frequ\u00eancia que nasce um Rimbaud ou um Radiguet.<\/p>\n<p>Este desfile de obras de grande f\u00f4lego, inspirado nos best-sellers de sucesso, me faz pensar que alguns destes autores est\u00e3o queimando etapas que n\u00e3o podem ser queimadas, est\u00e3o ignorando li\u00e7\u00f5es do come\u00e7o do curso e partindo para o final. Este sentimento me faz escrever esta breve apologia.<\/p>\n<p>Escrever n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Se fosse f\u00e1cil, todo mundo escreveria. Escrever n\u00e3o \u00e9 nem \u00abrelativamente f\u00e1cil\u00bb. Se fosse, a maioria dos que escrevem produziria textos de qualidade. H\u00e1 dificuldades por todos os lados. \u00c9 dif\u00edcil por raz\u00f5es intr\u00ednsecas: dominar as palavras, usar os recursos da l\u00edngua, produzir a beleza, contar bem hist\u00f3rias, etc. \u00c9 dif\u00edcil por raz\u00f5es extr\u00ednsecas tamb\u00e9m, a principal delas \u00e9 que s\u00f3 se destacam os melhores, ent\u00e3o, \u00e0 medida que aumenta a quantidade de bons autores, vai subindo a linha de corte. Para se destacar numa literatura pobre basta mostrar alguma qualidade. Mas para se destacar em uma literatura forte, \u00e9 preciso algo maior. Entre as raz\u00f5es pelas quais o Brasil ainda n\u00e3o ganhou um Nobel de literatura est\u00e1 o fato de que nossa literatura n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o densa.<\/p>\n<p>Entre as dificuldades de escrever est\u00e1 o aprendizado. Que, para come\u00e7ar, muita gente diz que precisa partir de algo inato, o \u00abtalento\u00bb. Mesmo supondo que o talento n\u00e3o exista, o aprendizado \u00e9 algo t\u00e3o complexo e indefin\u00edvel que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel determinar o que \u00e9 que faz um autor ser genial. Afinal, todos os autores relevantes tiveram colegas de classe, vizinhos, amigos, pessoas que tiveram mais ou menos as mesmas experi\u00eancias e condi\u00e7\u00f5es, que estudaram coisas parecidas. Mas ficaram para tr\u00e1s na poeira do tempo.<\/p>\n<p>Em um aspecto, por\u00e9m, todos os autores, exceto os g\u00eanios, os excepcionais, os milagres da natureza, est\u00e3o de acordo: este aprendizado leva tempo e passar por certas etapas, que s\u00e3o muito claras na carreira da maioria dos autores: E\u00e7a de Queir\u00f3s come\u00e7ou escrevendo contos para revistas. A primeira obra publicada de James Joyce foi a colet\u00e2nea de contos \u00abDublinenses\u00bb, por exemplo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m parece existir no Brasil um certo preconceito contra a fic\u00e7\u00e3o curta que vai al\u00e9m do fasc\u00ednio dos jovens pelas trilogias da moda: em meus contatos com editoras muitas vezes eu ouvi que havia mais possibilidade de publicar romances do que contos. Ali\u00e1s, eu s\u00f3 comecei a escrever romances porque editores me convenceram que eu jamais publicaria nada se ficasse \u00ablimitado ao conto\u00bb, como se ele fosse um g\u00eanero menor em import\u00e2ncia, al\u00e9m do tamanho. N\u00e3o me arrependo de ter come\u00e7ado a fazer romances, mas me incomoda que t\u00e3o pouco valor se d\u00ea ao conto, a ponto de o movimento blogueiro estar \u00e0 morte porque ningu\u00e9m mais se interessa em l\u00ea-los.<\/p>\n<p>O conto precisa ser revalorizado.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar porque, acompanhado da cr\u00f4nica, ele \u00e9 a principal escola de escritores. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os grandes autores come\u00e7aram fazendo cr\u00f4nicas e contos: a fic\u00e7\u00e3o curta permite maior controle sobre a trama e os personagens, al\u00e9m de permitir um sentimento de realiza\u00e7\u00e3o mais imediata \u2014 o que serve de est\u00edmulo para continuar.<\/p>\n<p>Digo isto porque n\u00e3o sei quantos desses jovens efetivamente realizar\u00e3o a trilogia sonhada. Talvez se escrevessem contos eles mantivessem o est\u00edmulo at\u00e9 o fim. Al\u00e9m disso, a adolesc\u00eancia e a juventude s\u00e3o momentos na vida em que mudamos muito, de valores, de estilo, de filosofias, de tudo. O longo tempo gasto na escrita de uma obra de v\u00e1rias centenas de p\u00e1ginas pode fazer com que, ao chegar no fim do trabalho, o autor descubra que l\u00e1 no come\u00e7o o seu estilo ainda era cru, e tenha de reescrever. Ou pode descobrir, durante a escrita, que mudou de ideia sobre o sentido do enredo, e ent\u00e3o ter\u00e1 que reescrever centenas de p\u00e1ginas. Tudo isto somado conspira contra a possibilidade pr\u00e1tica de um adolescente efetivamente produzir uma trilogia, ou mesmo um romance longo ou, alternativamente, conspira contra tal trabalho possuir alguma qualidade, a menos que o adolescente em quest\u00e3o seja um de tais fen\u00f4menos raros da natureza.<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto de recomendar o meu caminho, porque ele s\u00f3 me trouxe at\u00e9 onde estou, e n\u00e3o \u00e9 um lugar onde muitos gostariam de estar (o lugar cobi\u00e7ado \u00e9 o dos autores de best-sellers). Mas quem se interessar saiba que eu comecei fazendo poemas, passei \u00e0 cr\u00f4nica e logo ao conto, onde permaneci por muito tempo, at\u00e9 que em 2007 eu comecei um romance, que foi publicado em 2010. Quinze anos de minha vida eu passei sem escrever romances, apenas pensando que um dia tentaria escrever um. Minhas realiza\u00e7\u00f5es podem n\u00e3o recomendar o meu caminho, mas eu segui os passos de gente que se deu melhor do que eu.<\/p>\n<p>Acho que alguns jovens se beneficiariam da ideia de escrever contos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 recorrente o aparecimento de jovens que dizem escrever seu primeiro \u00ablivro\u00bb, muitos at\u00e9 prometendo continua\u00e7\u00f5es ou declarando que a obra \u00e9 (ou ser\u00e1) uma trilogia. N\u00e3o conhe\u00e7o a qualidade destas obras e nem destes escritores, embora suponha, com razoabilidade, que as primeiras s\u00e3o compat\u00edveis com a idade, a experi\u00eancia de vida e o n\u00edvel cultural dos segundos. E quando digo isso, devo acrescentar, com algum eufemismo, que n\u00e3o \u00e9 com muita frequ\u00eancia que nasce um Rimbaud ou um Radiguet. 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