{"id":1664,"date":"2014-06-25T18:26:16","date_gmt":"2014-06-25T21:26:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1664"},"modified":"2017-11-02T14:08:11","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:11","slug":"gol-de-placa-gol-de-pato-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/06\/gol-de-placa-gol-de-pato-parte-2\/","title":{"rendered":"Gol de Placa, Gol de Pato &mdash; Parte 2"},"content":{"rendered":"<p>Haviam deixado para mim a camisa 2, embora eu fosse piv\u00f4, e eu secretamente gostara disso, porque achava que era o meu n\u00famero de sorte. Comecei o aquecimento enquanto Leleco tomava analg\u00e9sicos e derramava l\u00e1grimas surdas. Meus companheiros de time pareciam n\u00e3o acreditar.<\/p>\n<p>&mdash; Geraldo, v\u00ea se n\u00e3o estraga.<\/p>\n<p>&mdash; Gente, confiem em mim, quando meu time precisou de mim no torneio, lembrem, eu entrei e marquei tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p>&mdash; Marcou sim, lembrou o Xand\u00e3o. Entrou num jogo que ganharam de 26 a zero, quando j\u00e1 estava 18 a zero. Entrou e marcou num jogo em que todo o time se revezou e todo mundo marcou no m\u00ednimo duas vezes. Ali\u00e1s, naquele jogo at\u00e9 a mascote marcou\u2026<\/p>\n<p>&mdash; Porra, veado! Deixa de dizer besteira! A bola bateu naquele raio de cachorro vadio que entrou na quadra e entroou. Ele n\u00e3o era mascote e ele n\u00e3o marcou nenhum gol.<\/p>\n<p>&mdash; Dois dos seus gols a bola bateu em voc\u00ea e entrou, o terceiro foi um p\u00eanalti que te deixaram cobrar.<\/p>\n<p>&mdash; Vamos, garotos. Vai come\u00e7ar ao segundo tempo.<\/p>\n<p>Entrei em campo vermelho de raiva, quase com mais raiva de meus colegas de time do que dos fixos do Col\u00e9gio Cataguases, que encostavam suas virilhas na minha bunda quando eu tentava me posicionar no piv\u00f4 e falavam gracinhas.<\/p>\n<p>Sete minutos e meio de jogo e eu n\u00e3o recebera nenhuma bola. Olhava para as arquibancadas cheio de vergonha de passar aquele papel\u00e3o na frente de Marcelina. E l\u00e1 estava ela, radiante apesar do suor, sentada do lado do \u00c2nderson.<\/p>\n<p>Lembrando hoje tudo isso eu tenho saudades daqueles tempos, apesar de tudo. E ainda n\u00e3o entendo como tudo p\u00f4de acontecer daquela forma. Sou um tipo de predestinado, creio.<\/p>\n<p>Mas o destino me sorriu pela primeira aos oito minutos de jogo, quando o Gl\u00e1ucio, que n\u00e3o tinha muita habilidade nas pernas finas, foi desarmado pelo fixo do Cataguases e a bola espirrou na minha dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&mdash; Vem, nen\u00e9m &mdash; eu sussurrei e abri as pernas e os bra\u00e7os para cercar o fixo que me marcava.<\/p>\n<p>Dominei a bola com meu p\u00e9 direito e olhei sutilmente para a esquerda, sem girar o pesco\u00e7o. Quando vi o Alessandro no apoio pela ala, fiz um movimento estranho que me desequilibrou e bati na bola com o calcanhar. Ela passou por entre as pernas do fixo, sem que eu visse o que estava fazendo, e o Alessandro encheu o p\u00e9, finalmente empatando o jogo.<\/p>\n<p>Enquanto corr\u00edamos de volta para o campo de defesa, comemorando o gol, a Professora M\u00e1rcia se descabelava: \u00abCedo demais, cedo demais!\u00bb<\/p>\n<p>O piv\u00f4 do Cataguases, um negro alto e muito mais forte do que eu, apontou-me o dedo como quem aponta um fuzil. Tremi nas bases e olhei para o banco, mas n\u00e3o havia quem pudesse me substituir.<\/p>\n<p>Ele p\u00f4s a bola em jogo e correu para o comando do ataque, enquanto eu corria na dire\u00e7\u00e3o oposta. N\u00e3o nos cruzamos naquele lance, por\u00e9m.<\/p>\n<p>Alessandro reclamou que a chuteira estava machucando e foi substitu\u00eddo por Ant\u00f4nio Cl\u00e1udio, que era mi\u00fado e fraquinho. N\u00e3o adiantava passar a bola para ele, coitadinho.<\/p>\n<p>O piv\u00f4 girou sobre a risca da \u00e1rea. Ant\u00f4nio Cl\u00e1udio tentou desarm\u00e1-lo por baixo. O atacante chutou com for\u00e7a e a perna do Ant\u00f4nio quase voou junto com a bola. Mas foi falta da defesa. Sobre a linha da \u00e1rea. Logo, p\u00eanalti.<\/p>\n<p>Beto pediu substitui\u00e7\u00e3o, apavorado diante da perspectiva de receber o petardo que seria cobrado sobre seu peito. A professora M\u00e1rcia voltou com o Alessandro, enquanto o Ant\u00f4nio Cl\u00e1udio chorava. Beto sentou no banco enquanto o Giovanni, segundo goleiro menos vazado do torneio interno, assumiu a meta.<\/p>\n<p>Alto, um pouco acima do peso, feio e cabeludo, Giovanni parecia um goleiro muito mais adequado que o mi\u00fado Beto. Entrou tirando as luvas e pendurando na trave:<\/p>\n<p>&mdash; Chuta aqui, neg\u00e3o, que esse seu p\u00eanalti de merda eu pego de m\u00e3o nua.<\/p>\n<p>O neg\u00e3o, que j\u00e1 estava puto por empatar com um time de \u00abfrangos\u00bb, deu-lhe uma encarada que teria feito o Beto borrar as cal\u00e7as. Mas o Giovanni s\u00f3 alongou os ombros e se postou.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Carlos, acho que era esse o nome do piv\u00f4 do Cataguases, recuou tr\u00eas passos e mandou um tiramba\u00e7o t\u00e3o potente que eu nem vi a bola. Ouvi um estalo de metal, o grito da arquibancada e quando olhei eu vi a cara do Giovanni sangrando e a bola dormindo na rede. Z\u00e9 Carlos ria enquanto punha de novo o cal\u00e7ado.<\/p>\n<p>O \u00e1rbitro deu-lhe um cart\u00e3o vermelho, para del\u00edrio da nossa torcida, e para pavor generalizado de nosso time. O chute fora t\u00e3o forte que a bola batera na trave, justo onde Giovanni pusera as luvas, depois no ch\u00e3o e depois entrou. A trave recuou dois cent\u00edmetros sobre o ch\u00e3o de cimento. Mas no chute o t\u00eanis de Z\u00e9 Carlos se soltara do p\u00e9 e atingira em cheio o rosto de Giovanni, que saiu xingando e ame\u00e7ando pegar o piv\u00f4 advers\u00e1rio na sa\u00edda. Para nosso desespero, Beto voltou ao gol, e o portentoso goleiro \u00edtalo-brasileiro saiu do torneio sem p\u00f4r a m\u00e3o na bola uma s\u00f3 vez.<\/p>\n<p>Cobran\u00e7a lateral. Ad\u00edlson n\u00e3o sabe o que fazer com a bola. Inclusive eu, s\u00f3 que eu achava que era isso o que um piv\u00f4 deveria fazer. De repente, num instante de ilumina\u00e7\u00e3o, come\u00e7o a correr de costas em dire\u00e7\u00e3o ao campo advers\u00e1rio e o Ad\u00edlson, talvez por falta de op\u00e7\u00e3o, chutou para mim.<\/p>\n<p>A bola veio quicando como um porquinho pelo ch\u00e3o de cimento por causa do efeito torto que ele pusera no chute. N\u00e3o dominei. Virei o corpo enquanto ela vinha, j\u00e1 armando para o chute, mas &mdash; que raio! &mdash; caiu-me na esquerda, que s\u00f3 serve para subir em \u00f4nibus.<\/p>\n<p>O fixo advers\u00e1rio, que n\u00e3o sabia disso, esticou a perna para me desarmar e me derrubou como quem sopra um bonequinho de papel\u00e3o. Sa\u00ed catando cavaco e s\u00f3 n\u00e3o dei com a fu\u00e7a no ch\u00e3o porque acertei a cabe\u00e7a na boca do est\u00f4mago do goleiro advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Falta!<\/p>\n<p>Xand\u00e3o, nosso melhor cobrador, digo, nosso cobrador, estava no banco, ainda pondo gelo no p\u00e9.<\/p>\n<p>Peguei a bola como se eu fosse um craque e mandei todos se afastarem.<\/p>\n<p>&mdash; Esta bola \u00e9 minha!<\/p>\n<p>&mdash; Mas nem fodendo! &mdash; e o Alessandro tomou a bola da minha m\u00e3o e entregou para o Gl\u00e1ucio.<\/p>\n<p>A barreira tinha os dois fixos, protegendo as bolas com uma m\u00e3o e a cara com a outra. Eu me afastei, de novo envergonhado na frente de Marcelina, e fui para a direita. Gl\u00e1ucio chutou com for\u00e7a, mas a bola s\u00f3 bateu na barreira e saiu rodopiando em minha dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&mdash; Esta bola \u00e9 minha!<\/p>\n<p>Ajeitei o corpo, que continuou desajeitado mesmo assim, e chutei na dire\u00e7\u00e3o do gol com toda for\u00e7a. A bola pegou uma curva esquisita ao ter o seu rodopio interrompido subitamente pelo meu p\u00e9, e mudou de dire\u00e7\u00e3o quando quicou no ch\u00e3o, enganando o goleiro.<\/p>\n<p>Gol! Gol! Gol? Mas foi gol?<\/p>\n<p>As meninas vibravam na arquibancada. Marcelina me deu um beijo. Tr\u00eas a tr\u00eas. A vaga era nossa, novamente. Meus companheiros se aproximaram, incr\u00e9dulos:<\/p>\n<p>&mdash; Mas, Geraldo, que raio de chute foi esse? Onde voc\u00ea aprendeu a chutar desse jeito, moleque!!?<\/p>\n<p>&mdash; Parem de brincar com a sorte &mdash; gritou a Professora M\u00e1rcia &mdash; vamos segurar esse resultado antes que eu tenha um tro\u00e7o!<\/p>\n<p>Recuamos todos para a defesa, aproveitando a vantagem num\u00e9rica, apesar das vaias da torcida advers\u00e1ria:<\/p>\n<p>&mdash; Frangos medrosos!<\/p>\n<p>&mdash; T\u00eam um a mais e n\u00e3o t\u00eam coragem de atacar!<\/p>\n<p>Nossa pr\u00f3pria torcida n\u00e3o entendia.<\/p>\n<p>&mdash; Vai, Geraldo! &mdash; gritou uma menina que n\u00e3o identifiquei.<\/p>\n<p>Enchi o peito de orgulho e fui saindo para o comando do ataque assim que a bola rolou de novo. Alessandro, mancando com o p\u00e9 cheio de calos, conseguiu desarmar o ala do Cataguases e a bola sobrou para mim.<\/p>\n<p>De repente eu vejo dois fixos correndo em minha dire\u00e7\u00e3o com caras feias &mdash; e do meu lado esquerdo, a voz do Ad\u00edlson me aconselhava: \u00abcai fora que \u00e9 fria!<\/p>\n<p>Girei o corpo e recuei decididamente para o Beto, pensando em sair da frente daqueles dois.<\/p>\n<p>Mas quando levantei a cabe\u00e7a eu n\u00e3o pude crer no que via: Beto estava enxugando as luvas, encostado no poste esquerdo, com o jogo seguindo. A bola rolava em c\u00e2mera lenta na dire\u00e7\u00e3o da linha fatal e todos corr\u00edamos para ela como aqueles casais de namorados na praia, gritando \u00abn\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o!\u00bb sem esperan\u00e7a. Beto largou a toalha e fez men\u00e7\u00e3o de saltar sobre ela, eu j\u00e1 estava perto de mais. Trombamos, a bola passou por baixo dele e foi morrer na rede. A cabe\u00e7a dura do Beto bateu no meu est\u00f4mago e me fez ver estrelas instant\u00e2neas. O juiz apontou o centro. Enquanto eu ca\u00eda, meio desorientado pela dor, tive a impress\u00e3o de ver o massagista abanando a pobre Professora M\u00e1rcia. A arquibancada oposta, cheia de camisas listradas de vermelho e branco, era um mar de gargalhadas e vaias.<\/p>\n<p>Despertei sentado no banco de reservas, faltando um minuto para acabar o tempo regulamentar. Est\u00e1vamos com o Gl\u00e1ucio de goleiro, com Beto e Giovanni fora de combate. Perd\u00edamos por tr\u00eas a dois, inapelavelmente. A Professora M\u00e1rcia tivera de ser levada ao posto de sa\u00fade e a nossa torcida nos vaiava e atirava chicletes mascados sobre n\u00f3s.<\/p>\n<p>&mdash; Tremenda falta de companheirismo, Geraldo! &mdash; repreendeu o massagista.<\/p>\n<p>&mdash; Do que voc\u00ea est\u00e1 falando? &mdash; perguntei, enquanto segurava a bolsa de gelo na barriga.<\/p>\n<p>&mdash; A \u00faltima coisa que voc\u00ea disse, antes de desmaiar.<\/p>\n<p>&mdash; O que eu disse?<\/p>\n<p>O Beto tirou a bolsa de gelo dos l\u00e1bios inchados e sangrentos e me disse, numa voz fl\u00e1cida de nocauteado:<\/p>\n<p>&mdash; Me chamou de filho da puta e me perguntou por que eu n\u00e3o estava no gol.<\/p>\n<p>Lembrei de tudo. O juiz deu o apito final. Os camisas azuis do Professor Quaresma come\u00e7aram a bater pandeiros na arquibancada. Est\u00e1vamos eliminados pelo saldo de gols.<\/p>\n<p>&mdash; Beto, voc\u00ea \u00e9 mesmo um filho da puta e eu nunca vou esquecer disso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Haviam deixado para mim a camisa 2, embora eu fosse piv\u00f4, e eu secretamente gostara disso, porque achava que era o meu n\u00famero de sorte. Comecei o aquecimento enquanto Leleco tomava analg\u00e9sicos e derramava l\u00e1grimas surdas. Meus companheiros de time pareciam n\u00e3o acreditar. &mdash; Geraldo, v\u00ea se n\u00e3o estraga. &mdash; Gente, confiem em mim, quando meu time precisou de mim no torneio, lembrem, eu entrei e marquei tr\u00eas vezes. &mdash; Marcou sim, lembrou o Xand\u00e3o. Entrou num jogo que ganharam de 26 a zero, quando [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[45,102,94],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1664"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1664"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1664\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4701,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1664\/revisions\/4701"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1664"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1664"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1664"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}