{"id":167,"date":"2012-02-27T08:10:00","date_gmt":"2012-02-27T11:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=167"},"modified":"2017-11-02T14:09:01","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:01","slug":"nao-quero-aprender","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/02\/nao-quero-aprender\/","title":{"rendered":"N\u00e3o Quero Aprender"},"content":{"rendered":"<p>Recebo ocasionalmente mensagens n\u00e3o solicitadas que me oferecem cursos de \u00abescrita criativa\u00bb. \u00c0 parte o estranhamento de imaginar como podem ensinar criatividade, estas ofertas n\u00e3o me interessam, nem remotamente. Se me fossem feitas pessoalmente eu responderia, educadamente, que \u00abmuito obrigado\u00bb e, no caso de uma insist\u00eancia equivalente \u00e0 da frequ\u00eancia com que tenho recebido tais mensagens, removeria o \u00abeducadamente\u00bb e o \u00abmuito obrigado\u00bb de minha resposta e diria apenas que \u00abn\u00e3o me interessa aprender o que voc\u00eas pretendem ensinar\u00bb.<\/p>\n<p>V\u00e1rias s\u00e3o as raz\u00f5es que me levam a desinteressar-me definitivamente destas propostas. Algumas destas raz\u00f5es s\u00e3o impublic\u00e1veis, pelo menos em seu palavreado original, outras podem ser relevantes somente para mim, outras s\u00e3o \u00f3bvias; mas o \u00f3bvio \u00e9 o mais dif\u00edcil de ser visto pela maioria das pessoas, existem povos inteiros no mundo que n\u00e3o sabem que o c\u00e9u \u00e9 azul, segundo certo antrop\u00f3logo que um dia deu uma palestra que assisti, enquanto, para outros, todas as esp\u00e9cies de plantas rasteiras que crescem nas plan\u00edcies podem ser resumidas na palavra \u00abpasto\u00bb. Lutando contra estas dificuldades, sem\u00e2nticas e outras, pretendo explicar porque, em minha opini\u00e3o, n\u00e3o apenas tais cursos n\u00e3o me interessam como n\u00e3o deveriam interessar a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, gostaria de observar que nenhum div\u00f3rcio \u00e9 mais amig\u00e1vel que o do tolo e de seu dinheiro. Existem pessoas que, simplesmente, est\u00e3o dispostas a pagar por ar engarrafado, sentem-se mais ricas por possu\u00edrem tais garrafas, sentem-se superiores. Estas pessoas facilmente se ofendem diante da sugest\u00e3o de que o conte\u00fado de suas garrafas \u00e9 apenas ar ou, pior ainda, que elas poderiam ter de gra\u00e7a aquilo porque pagaram. N\u00e3o \u00e9 para estas pessoas que eu estou escrevendo, mas elas provavelmente constituir\u00e3o a maior parte dos que comentar\u00e3o este texto, se ele, ao contr\u00e1rio dos demais do blogue, tornar-se comentado.<\/p>\n<p>O que tais cursos pretendem com a ideia de ensinar \u00abescrita criativa\u00bb? O que \u00e9, de fato, \u00abescrita criativa\u00bb ou, como alguns pretendem, \u00abescrita para o mercado\u00bb ou \u00abescrita comercial\u00bb. Com todo respeito aos proponentes de tais ideias, os conceitos s\u00e3o incompat\u00edveis. Escrita criativa n\u00e3o \u00e9 \u2014 e nunca poder\u00e1 ser\u00a0\u2014 \u00abpara o mercado\u00bb. Livro n\u00e3o \u00e9 peixe e nem \u00e9 sabonete para ter um des\u00edgnio focado no \u00abmercado\u00bb. Livro que se foca no mercado se rebaixa a ele. Escrita para o mercado, com um pouco menos de respeito, mas ainda dentro da civilidade, \u00e9 lista de compras. Escrita comercial \u00e9 contabilidade.<\/p>\n<p>Come\u00e7a-se, portanto, com um conceito vago, baseado na palavra m\u00e1gica que a todos seduz: mercado, esse deus (ou monstro) de muitas m\u00e3os e cabe\u00e7as que, supostamente, regula o valor das coisas e das pessoas (e efetivamente iguala ambas as categorias em uma s\u00f3, embora as segundas sempre fiquem num patamar ligeiramente secund\u00e1rio, por n\u00e3o serem t\u00e3o male\u00e1veis e nem t\u00e3o adaptadas). Acima de tudo, o curso se baseia na ideia de que a escrita tem que ser <i>para o mercado.<\/i><\/p>\n<p>Quando se parte de uma quimera como essa, fica dif\u00edcil chegar a algum lugar.\u00a0Mas esta d\u00favida se dissipa quando vemos o que \u00e9 que se ensina. A simples leitura do curr\u00edculo de certos cursos deveria ruborizar quem os fez, mais ainda quem compra. Se o r\u00f3tulo de um rem\u00e9dio tivesse a inscri\u00e7\u00e3o \u00abplacebo ineficaz e amargo que n\u00e3o vai curar seu f\u00edgado\u00bb e as pessoas ainda insistissem em consumi-lo, isso seria vergonhoso. As mat\u00e9rias inclu\u00eddas em tais curr\u00edculos partem de coisas como \u00abg\u00eaneros de escrita\u00bb, \u00abestruturas de enredo\u00bb, \u00abescrita descritiva\u00bb, \u00abprotagonista e antagonista\u00bb, \u00abprojetos de publica\u00e7\u00e3o\u00bb, \u00aboutlining\u00bb etc. Obviamente os cursos de \u00abescrita criativa\u00bb n\u00e3o incluem a criatividade no plano de curso, apenas t\u00e9cnicas, \u00abmacetes\u00bb, \u00abdicas\u00bb, \u00abtoques\u00bb. Como dizia Raul: \u00abEnquanto Freud explica as coisas, o diabo fica dando uns toques\u2026\u00bb<\/p>\n<p>N\u00e3o vou aqui fazer afirmativas perempt\u00f3rias de que \u00abtalento n\u00e3o se ensina\u00bb. N\u00e3o tenho tanta certeza disso, apenas de que \u00e9 imposs\u00edvel ensinar talento com o curr\u00edculo destes cursos de escritores. Uma certeza limitada \u00e9 sempre mais segura que uma negativa plana e abrangente. N\u00e3o pretendo terraplenar o mundo de acordo com os meus conceitos. Apenas acredito que nada tenho a aprender e que, para as pessoas que acham que aprender\u00e3o alguma coisa, provavelmente j\u00e1 \u00e9 tarde demais para aprender.<\/p>\n<p>Tarde demais porque j\u00e1 adquiriram muitos v\u00edcios, tarde demais porque n\u00e3o tiveram boa forma\u00e7\u00e3o de leitura durante a inf\u00e2ncia, tarde demais porque acreditam que a f\u00f3rmula do sucesso reside na ingest\u00e3o de uma f\u00f3rmula. S\u00e3o pessoas com mente de apertador de bot\u00f5es, que acham que seu c\u00e9rebro possui os bot\u00f5es certos para serem apertados e produzirem um livro genial.\u00a0Cada um de n\u00f3s \u00e9 o produto da gradual transforma\u00e7\u00e3o, piora ou aperfei\u00e7oamento daquilo que aprendeu, sentiu e viveu quando era ainda crian\u00e7a. Mas as t\u00e9cnicas pseudocient\u00edficas da auto-ajuda sempre insistir\u00e3o que \u00abnunca \u00e9 tarde\u00bb, que se pode \u00abrecuperar o tempo perdido\u00bb pagando um supletivo, etc. N\u00e3o se recupera tempo perdido. Tempo passado \u00e9 tempo esgotado. Tempo \u00e9 irremedi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Imagino, por\u00e9m, que tais cursos n\u00e3o se destinam aos despossu\u00eddos das letras, mas a pessoas que j\u00e1 sabem escrever alguma coisa, que apenas querem evoluir. Nesse caso fico mais inseguro. Obviamente, se o curso for frequentado apenas por pessoas que escrevem desde a inf\u00e2ncia, existe uma tend\u00eancia a que os formados exibam qualidades liter\u00e1rias evidentes. O fato de terem aprendido a pontuar melhor as frases, dar uma organizada no conte\u00fado ou apresentarem sua obra devidamente empacotada e pesada (em n\u00famero de p\u00e1ginas, palavras e cap\u00edtulos) faz com que tenham a ilus\u00e3o de que se tornaram escritores melhores. Mas seria justo atribuir m\u00e9rito ao curso pelo talento que os autores j\u00e1 tinham antes?<\/p>\n<p>N\u00e3o creio, por\u00e9m, que haja em suficiente n\u00famero pessoas que sabem escrever. Um curso dirigido apenas a tais pessoas teria poucos alunos, t\u00e3o poucos que n\u00e3o se sustentaria. Maior \u00e9 o n\u00famero das pessoas que apenas acham que sabem escrever alguma coisa. Parece-me mais prov\u00e1vel que este seja o p\u00fablico alvo. Amestrar tais pessoas na arte de construir frases mais claras, distribuir seus conceito em cap\u00edtulos e organizar suas ideias em sinopses apenas refinar\u00e1 aquilo que elas n\u00e3o possuem: conte\u00fado. Da destila\u00e7\u00e3o deste vazio poder\u00e3o apenas sair obras vazias, que ajudar\u00e3o a submergir na massa de sua insignific\u00e2ncia a literatura do mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero, de maneira alguma, parecer arrogante, mas um outro ponto que me preocupa em tais cursos, mais at\u00e9 do que o curr\u00edculo, \u00e9 o mestre. Todos sabemos que um professor capacitado pode dar uma grande aula, mesmo com um curr\u00edculo produzido por um inepto. Portanto, a salva\u00e7\u00e3o do curso pode estar no nome de quem seja escolhido para dar as aulas. N\u00e3o vejo tal nome apregoado como o grande <i>plus<\/i> desse curso. Certamente o mestre n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m significativo, porque se fosse pelo menos algu\u00e9m dotado de notoriedade, ou de um curr\u00edculo respeit\u00e1vel, estariam imprimindo seu nome em letras vermelhas, negrito, tamanho 48. Que tenho eu para aprender da boca de um an\u00f4nimo como eu, utilizando um curr\u00edculo que n\u00e3o me inspira confian\u00e7a alguma?<\/p>\n<p>Se o professor, mais que algu\u00e9m com renome, fosse de reconhecido talento, eu nem ligaria para o curr\u00edculo. Ouvir um autor competente falar sobre ab\u00f3boras durante vinte minutos ensina mais do que um ano de curso com um professor de portugu\u00eas preocupado com a coloca\u00e7\u00e3o pronominal e que acha que o brasileiro n\u00e3o sabe falar (para estes curiosos esp\u00e9cimes, o povo seria uma criatura simiesca, que precisa ir \u00e0 escola aprender uma l\u00edngua de gente). Um diploma sobre ab\u00f3boras assinado por Carlos Drummond de Andrade \u00e9 muito mais curr\u00edculo, para mim, do que uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Letras Anglo-Sax\u00f4nicas por uma dessas faculdades <i>fast-food<\/i> que pulularam por esse pa\u00eds de trinta anos para c\u00e1. Tenho muito a aprender, mesmo que seja s\u00f3 sobre ab\u00f3boras, com muitos autores que ainda est\u00e3o vivos. N\u00e3o tenho nada a aprender sobre \u00abescrita comercial\u00bb com um professor de literatura. Escrita comercial eu aprendi no curso noturno de T\u00e9cnico em Contabilidade, no Col\u00e9gio Cataguases, turma de 1990.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recebo ocasionalmente mensagens n\u00e3o solicitadas que me oferecem cursos de \u00abescrita criativa\u00bb. \u00c0 parte o estranhamento de imaginar como podem ensinar criatividade, estas ofertas n\u00e3o me interessam, nem remotamente. 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