{"id":169,"date":"2012-02-21T23:45:00","date_gmt":"2012-02-22T02:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=169"},"modified":"2017-11-02T14:09:01","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:01","slug":"quando-o-cansaco-e-a-estafa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/02\/quando-o-cansaco-e-a-estafa\/","title":{"rendered":"Quando o Cansa\u00e7o e a Estafa\u2026"},"content":{"rendered":"<p>Sub\u00edamos a muito custo, por falta de costume, de equipamento. Mas sub\u00edamos<br \/>\ncom muita vontade, com m\u00e1quina fotogr\u00e1fica e a esperan\u00e7a de ver na face do vale<br \/>\na pegada da civiliza\u00e7\u00e3o. A montanha estava \u00e0 nossa espera ali, onde sempre<br \/>\nestivera, sua face sul vincada como um punho erguido, desafio aos nossos p\u00e9s<br \/>\nacostumados a plan\u00edcies. <\/p>\n<p>A trilha ondeava como uma veia rosada a romper o<br \/>\nverde grosso da floresta original, que se estendia sobre n\u00f3s a ponto de, \u00e0s<br \/>\nvezes, n\u00e3o termos a cor do c\u00e9u para medir as horas. Chovera um pouco durante a<br \/>\nsubida, essa chuvinha fina que mal molha o ch\u00e3o. Normalmente um grupo como o<br \/>\nnosso pararia, mas enquanto as pernas n\u00e3o do\u00edam nem as botas machucavam, nossas<br \/>\nalmas imploravam pelo fim da sufocante trilha.<\/p>\n<p>\u2014 Nove<br \/>\nhoras.<\/p>\n<p>\u2014 Caramba, parece uma eternidade. Meus pulm\u00f5es est\u00e3o<br \/>\ncome\u00e7ando a queimar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenham medo, gente \u2014 esclareceu o<br \/>\nguia, quando n\u00e3o der mais para subir a gente para e descansa meia<br \/>\nhora.<\/p>\n<p>\u2014 Se eu parar por meia hora tenho que voltar<br \/>\nrolando.<\/p>\n<p>Todos riram. Todos voltariam rolando se parassem meia hora. Mas<br \/>\nenquanto ainda t\u00ednhamos f\u00f4lego e tempo, seguimos subindo a passos cada vez mais<br \/>\nespa\u00e7ados, pela trilha enforcada de tanta \u00e1rvore, como formigas escalando um<br \/>\nmuro.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos parar, pessoal \u2014 pedi, depois que o ar quase<br \/>\nfaltou quando meu peito o pediu. O cora\u00e7\u00e3o bombeava com uma for\u00e7a de tambor em<br \/>\nmeus ouvidos e eu s\u00f3 n\u00e3o suava porque estava ainda fresco da manh\u00e3 recente,<br \/>\nnaquela mata onde raramente o sol pousava.<\/p>\n<p>O guia se aproximou, me deu a<br \/>\nm\u00e3o, ajudou-me a terminar de subir mais um barranco e descortinamos um<br \/>\ndescampado um pouco mais tranquilo no altiplano.<\/p>\n<p>\u2014 Podemos parar<br \/>\nagora, s\u00e3o nove e dez. Sa\u00edmos de novo \u00e0s nove e meia.<\/p>\n<p>De um grupo de doze<br \/>\npessoas ouviu-se uma voz ou outra resmungando. O sil\u00eancio aliviado de outras dez<br \/>\nou onze sufocou qualquer reclama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Peguei minha garrafa de \u00e1gua e sorvi<br \/>\num gole longo, \u00abcamel\u00eddeo\u00bb, como costumava dizer Estef\u00e2nia, que o diabo a tenha.<br \/>\nBebi mais meia garrafa, desejando que fosse rum, mas era s\u00f3 \u00e1gua mineral<br \/>\ngasosa.<\/p>\n<p>O guia aproveitou a parada para rever os planos:<\/p>\n<p>\u2014<br \/>\nTemos j\u00e1 cinquenta e quatro minutos de caminhada. J\u00e1 percorremos quatro<br \/>\nquil\u00f4metros e setecentos e vinte metros e subimos cento e noventa metros acima<br \/>\ndo n\u00edvel do vale.<\/p>\n<p>Eram n\u00fameros impressionantes, mas abstratos. Eu n\u00e3o<br \/>\ntinha \u00e2nimo para questionar o que ele dissesse. Fossem quatro quil\u00f4metros ou<br \/>\ndoze eu n\u00e3o conseguia mais distinguir se estava certo. S\u00f3 tinha a impress\u00e3o de<br \/>\nque cento e noventa metros parecia muito pouco: era como se tiv\u00e9ssemos subido<br \/>\nat\u00e9 as grimpas das montanhas da serra, mas est\u00e1vamos ainda arranhando o sop\u00e9 de<br \/>\numa delas, nem sequer a maior, apenas a mais pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, vamos<br \/>\n\u2014 interrompi meus doloridos pensamentos por causa das palmas batidas pelo<br \/>\nguia.<\/p>\n<p>Sacudindo a parca mochila nos ombros, pus-me \u00e0 vontade para caminhar<br \/>\nde novo.<\/p>\n<p>Continuamos subindo, agora bem mais devagar. No novo passo que<br \/>\nadotamos ter\u00edamos andado os mesmos quatro quil\u00f4metros em um tempo quase duas<br \/>\nvezes maior. Mas a montanha ficava cada vez mais a pique diante de n\u00f3s, eu j\u00e1<br \/>\ntemia pelo momento em que teria que usar uma corda. Montanhas s\u00e3o cru\u00e9is,<br \/>\nguardam seus trechos mais dif\u00edceis para quando os ossos j\u00e1 est\u00e3o falhando. E as<br \/>\nescaladas s\u00e3o como dizia o cantor: \u00abquando o cansa\u00e7o e a estafa bater, o sol do<br \/>\nmeio-dia espera voc\u00ea\u00bb.<a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/#1\">*<\/a><\/p>\n<p>Eram dez e quarenta quando o primeiro de n\u00f3s<br \/>\ncome\u00e7ou a passar mal, um turista gringo de cabelo cor de cenoura que falava um<br \/>\nportugu\u00eas quase bom, mas puxava um esse carioca que soava sempre engra\u00e7ado.<br \/>\nQuando ele desmaiou e o guia correu para acudir eu me lembrei do quanto fora<br \/>\nrelapso no <em>briefing<\/em> antes da subida. F\u00f4ramos apresentados, um a um, por<br \/>\nnome e profiss\u00e3o. Cada um confessara quantas vezes antes escalara, e que tipo de<br \/>\nmontanhas. Calhara de ser o primeiro e, depois de me abrir o m\u00ednimo poss\u00edvel,<br \/>\ngastara o resto do tempo contemplando as copas verde-negras das \u00e1rvores<br \/>\ncenten\u00e1rias, de troncos grossos e nomes arcanos que eu ainda n\u00e3o consegui<br \/>\ndecorar. Ent\u00e3o o gringo desmaiou e eu, que fui o primeiro a ver, n\u00e3o pude sequer<br \/>\nlembrar seu nome e apenas gritei:<\/p>\n<p>\u2014 Tem algu\u00e9m passando mal<br \/>\naqui.<\/p>\n<p>Senti-me culpado por isso. Imaginei que, do al\u00e9m, ficaria bastante<br \/>\nchateado se no meu vel\u00f3rio os meus colegas de trabalho apenas comentassem \u00abtem<br \/>\num morto ali\u00bb. Quando ele come\u00e7ou a voltar a si, resolvi compensar minha falta<br \/>\nde tato com um gesto de considera\u00e7\u00e3o. Aproximei-me do cabeleira de cenoura,<br \/>\nperguntei se estava bem e pedi-lhe que me confirmasse seu nome. <\/p>\n<p>N\u00e3o sei o<br \/>\nque ele me respondeu. Seja qual for o nome pelo qual seus pais o chamaram quando<br \/>\no registraram em algum cart\u00f3rio da Holanda ou da B\u00e9lgica, n\u00e3o foi um nome<br \/>\nreconhec\u00edvel pelos meus ouvidos interioranos. <\/p>\n<p>\u2014 Bem, voc\u00ea tem algum<br \/>\napelido mais f\u00e1cil de pronunciar? Posso, por exemplo, cham\u00e1-lo de Hans?<\/p>\n<p>O<br \/>\ncabeleira de cenoura sorriu timidamente, esse sorriso curto e envergonhado que<br \/>\nos gringos t\u00eam quando est\u00e3o tentando enturmar-se:<\/p>\n<p>\u2014 Hansh n\u00e3o \u00e9 meu<br \/>\napelido de verdade, mash acho que voc\u00ea tamb\u00e9m terria dificuldadesh com meu<br \/>\napelido.<\/p>\n<p>Tive mesmo. A pron\u00fancia parecia f\u00e1cil, mas n\u00e3o consegui repetir<br \/>\nnenhuma vez sequer direito. Diante da amea\u00e7a de ser chamado de \u00abCenoura\u00bb o<br \/>\ngringo preferiu ser chamado de Hans.<\/p>\n<p>Ajudei Hans a se manter de p\u00e9 depois<br \/>\nque o guia o largou para organizar mais um pouco da subida. Ele reclamava de<br \/>\ndores nas pernas, certamente c\u00e2imbras como as minhas. Mas ainda tinha vontade de<br \/>\nsubir mais.<\/p>\n<p>\u2014 Dez e quarenta e cinco, dez e quarenta e cinco \u2014<br \/>\nalertou-nos o guia \u2014 descontando uma parada de vinte minutos e mais dez<br \/>\nminutos desta, pelo meu rel\u00f3gio, temos uma hora e quinze de caminhada total.<br \/>\nNesse tempo n\u00f3s percorremos seis quil\u00f4metros e meio, e subimos duzentos e<br \/>\nsessenta e sete metros, pelo meus c\u00e1lculos.<\/p>\n<p>\u2014 Quantos metros tem<br \/>\nmesmo essa montanha da peste? \u2014 perguntou uma voz com vago sotaque<br \/>\nnortista ou nordestino.<\/p>\n<p>\u2014 Quinhentos e setenta e quatro \u2014<br \/>\ninformou-nos o guia.<\/p>\n<p>Uma vaga de des\u00e2nimos se manifestou em suspiros,<br \/>\nresmungos e bocejos.<\/p>\n<p>\u2014 Sem drama, gente \u2014 provocou o guia<br \/>\n\u2014 porque se fosse f\u00e1cil, todo mundo vinha.<\/p>\n<p>Tentei calcular<br \/>\nmentalmente quantos grupos de turistas n\u00e3o tentavam aquela mesma escalada todo<br \/>\nm\u00eas. A trilha era t\u00e3o larga e limpa que parecia que um ex\u00e9rcito espartano subia<br \/>\ne descia por ela todos os dias \u2014 mas n\u00e3o encontr\u00e1ramos ningu\u00e9m mais,<br \/>\ntalvez fosse a \u00e9poca do ano.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos fazer outra<br \/>\nparada?<\/p>\n<p>Resmungos e murm\u00farios de assentimento apoiaram a sugest\u00e3o. O guia,<br \/>\nent\u00e3o, consultou o seu bom-senso e recomendou que sim. <\/p>\n<p>\u2014 Todo mundo<br \/>\nrepondo l\u00edquido e comendo <em>uma barra de cereal, <\/em>somente uma.<\/p>\n<p>O<br \/>\nestalar de doze inv\u00f3lucros de barras alimentares xexelentas perturbou o<br \/>\nsil\u00eancio, sufocando o pio dos p\u00e1ssaros. Quinze minutos depois, com os m\u00fasculos<br \/>\nalongados e os \u00e2nimos melhorados um pouquinho, a subida recome\u00e7ou.<\/p>\n<p>Era<br \/>\ndif\u00edcil conversar, tendo que fornecer alento a um corpo t\u00e3o prec\u00e1rio em uma<br \/>\njornada t\u00e3o dif\u00edcil. Hans pareceu entender o meu sil\u00eancio lendo a careta em meu<br \/>\nrosto. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o parecia nada bonito com as suas sobrancelhas amarelas<br \/>\npingando gotas grossas e cada ruga precoce de sua pele de pergaminho preenchida<br \/>\nde sal e suor. Pobre Hans, vindo de um pa\u00eds onde n\u00e3o h\u00e1 montanhas, o que faz<br \/>\naqui nessa terra onde as plan\u00edcies se esgueiram com tanto medo por entre os<br \/>\nmorros?<\/p>\n<p>Ating\u00edramos um trecho quase horizontal do caminho, que parecia<br \/>\ncircular em torno do pico como uma linha enrolada no carretel.  N\u00e3o poderia ser<br \/>\nde outra forma: \u00e0 nossa direita a rocha se erguia como uma parede. And\u00e1vamos com<br \/>\nas pernas soltas, ousadas, mas j\u00e1 sabendo que ter\u00edamos \u00e0 frente outra subida<br \/>\nmalvada. Mesmo andando assim os nossos pulm\u00f5es andavam carregados de fogo e Hans<br \/>\nsuava muito mais do que antes.<\/p>\n<p>Isso porque sa\u00edramos do mato e est\u00e1vamos ao<br \/>\nsol, seguindo por uma estrada que riscava em torno do morro e nos expunha \u00e0<br \/>\nclaridade impiedosa. A pedra esquentava e um morma\u00e7o desconfort\u00e1vel nos fazia<br \/>\nquerer ficar longe dela, mas a trilha era estreita e o parapeito, inconfi\u00e1vel.\n<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a ventar. Um vento fresco de outono, mas mesmo assim um vento que<br \/>\nn\u00e3o nos confortava muito. Vinha em guaspadas decididas, s\u00fabitas, surpreendentes.<br \/>\nAssobiava nas folhas e nas gretas como uma gaita dos infernos.  O vento vinha do<br \/>\nsul-sudoeste, um sinal sempre p\u00e9ssimo. Vinha chuva. Chuva longa, chuva fria.<br \/>\nChuva para dias. A descida prometia ser pior que a subida, a menos que chovesse<br \/>\nlogo, e a subida ficasse t\u00e3o ruim quanto poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m olhou a<br \/>\nprevis\u00e3o do tempo, gente? \u2014 questionei em voz alta.<\/p>\n<p>O guia gargalhou<br \/>\ne perguntou, querendo fazer gra\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 E por causa de uma chuvinha<br \/>\nbesta a gente deixava de subir essa montanha linda?<\/p>\n<p>Disse isso arrancando<br \/>\numa flor de capim e tentando parecer leve na subida, mas n\u00e3o teria conseguido<br \/>\nimitar nenhum passo de bailarino. <\/p>\n<p>\u2014 Vamos voltar!? <\/p>\n<p>\u2014<br \/>\nPor que, Ant\u00f4nio? Sei que l\u00e1 no Cear\u00e1 n\u00e3o chove muito, mas n\u00e3o precisa ter medo,<br \/>\nque n\u00e3o faz mal! \u2014 o guia come\u00e7ava a parecer impertinente, querendo que<br \/>\nsub\u00edssemos de qualquer jeito.<\/p>\n<p>\u2014 Ele tem raz\u00e3o \u2014 interrompeu o<br \/>\nHans \u2014 em qualquer lugar morro abaixo estarremos sem prrote\u00e7\u00e3o contrra a<br \/>\nchuva. Deve haver um abrrigo mais adiante.<\/p>\n<p>Hans estava certo, claro.<br \/>\nDescer s\u00f3 parecia melhor porque a alma da plan\u00edcie sempre pensa que uma desgra\u00e7a<br \/>\nem baixa altitude \u00e9 melhor do que num p\u00edncaro. Andamos ent\u00e3o com o passo mais<br \/>\njusto, tentando vencer logo aquele trecho maldito e exposto em que a trilha<br \/>\nbordejava a pedra nua. Mas foi em v\u00e3o.<\/p>\n<p>A chuva se formou com uma rapidez<br \/>\nque deu at\u00e9 medo. Logo nuvens pesadas se formaram no horizonte, e o vento as<br \/>\ntrouxe para abra\u00e7ar a montanha. O dia foi ficando escuro, os passarinhos calaram<br \/>\nseus bicos no fundo dos ninhos, o vento foi ficando forte, arrancando<br \/>\npedregulhos, arrastando folhas pelo ch\u00e3o, arrepiando nossas nucas.<\/p>\n<p>\u2014<br \/>\nValha-me Santa B\u00e1rbara! <\/p>\n<p>A vis\u00e3o do vale se dissolveu na n\u00e9voa. De repente<br \/>\ntrov\u00f5es se ouviram perto, muito perto. O ar coriscou subitamente e o assobio<br \/>\ngorgorejante do vento nas locas e gretas do rochedo pareceu ainda mais<br \/>\nmefistof\u00e9lico que antes. Desgra\u00e7ou a chover assim como se tivessem aberto uma<br \/>\ntorneira. Chuva gelada, misturada com granizo fino e com um vento que batia<br \/>\ncordas de chuva contra a pedra, nos empurrando e empapando. <\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o<br \/>\ntem para onde ir aqui \u2014 berrou o guia, no meio da borrasca \u2014 temos<br \/>\nque continuar subindo porque mais a frente tem um acampamen&#8230;.<\/p>\n<p>Outro<br \/>\ntrov\u00e3o, dessa vez mais violento ainda. Meus ouvidos do\u00edam, minha pele estava t\u00e3o<br \/>\ngelada que minhas roupas pareciam quentes, mesmo molhadas da mesma \u00e1gua. Cada<br \/>\npelo de meu corpo de eri\u00e7ara, eletrificado, pavoroso. Trov\u00f5es, trov\u00f5es, e a<br \/>\nchuva ficando quase t\u00e3o densa que era dif\u00edcil respirar sem por a m\u00e3o diante das<br \/>\nnarinas.<\/p>\n<p>\u2014 Todo mundo dando as m\u00e3os, e vamos devagar.<\/p>\n<p>Todos<br \/>\naconchegados na proximidade segura da pedra. Todos andando com as botas repletas<br \/>\nde \u00e1gua, rangendo como queijo verde no dente.<\/p>\n<p>Nenhuma onomatopeia descreve<br \/>\naqueles trov\u00f5es, nenhum adjetivo serve para tanto rel\u00e2mpago. Al\u00e9m de nossos<br \/>\npr\u00f3prios medos, s\u00f3 consegu\u00edamos escutar a tempestade, e enxergar dois ou tr\u00eas<br \/>\nmetros diante do nariz. Est\u00e1vamos dentro de uma nuvem de chuva, enfrentando os<br \/>\nraios de bem perto.<\/p>\n<p>Por fim chegamos a um lugar escuro, que depois<br \/>\nsoubemos ser a sombra de um pau-brasil secular. Ali os <i>hippies<\/i> costumavam<br \/>\nacampar. Era o \u00faltimo lugar da montanha aonde se podia chegar em um ve\u00edculo:<br \/>\nquem fosse bastante louco poderia subir at\u00e9 ali em uma moto ou triciclo. Ali<br \/>\nhaviam constru\u00eddo banheiros, captavam \u00e1gua de uma nascente e serviam-na num<br \/>\ntanque. Ali havia um galp\u00e3o permanente, onde os guias de escalada mantinham<br \/>\nalgum equipamento.<\/p>\n<p>Debaixo do galp\u00e3o, no seco e ao abrigo dos rel\u00e2mpagos,<br \/>\ncome\u00e7amos a pensar em secar os nossos corpos. Apareceu um fogareiro e outro,<br \/>\nacenderam logo uma fogueira. Logo o lugar estava mais aconchegante, mas ainda<br \/>\nficamos mais de meia hora tiritando, alguns espirrando, outros tossindo, todos<br \/>\ncertamente resfriados at\u00e9 o \u00faltimo poro.<\/p>\n<p>O aguaceiro despejou ainda<br \/>\ndurante uns dez minutos, depois se reduziu a uma chuva dessas que fazem a gente<br \/>\ndormir na ro\u00e7a, depois uma neblina fina que apenas enodoava o horizonte. At\u00e9 que<br \/>\npassou a \u00e1gua e ficou a umidade, ficou o frio. Eram mais de uma da tarde quando<br \/>\nfinalmente o sol reapareceu.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos do galp\u00e3o ainda sacudindo \u00e1gua dos<br \/>\ncabelos, como cachorros rec\u00e9m lavados. O sol era melhor do que qualquer<br \/>\nfogueira, mesmo um sol ainda atenuado por tanta nuvem. <\/p>\n<p>A chuva dera um<br \/>\nbanho de cores em tudo quanto era mato ou flor. O vermelho das p\u00e9talas parecia<br \/>\nmais aceso, mais l\u00edquido, mais feito. Cada folha gotejava, cada l\u00e2mina de capim.<br \/>\nTanta beleza justificava as c\u00e2imbras todas. Hans sacou de sua m\u00e1quina, ainda com<br \/>\nos dedos molhados e as sobrancelhas parecendo tufos de flores. Mirava e<br \/>\ndisparava sem pensar direito, como se achasse tudo belo, at\u00e9 a lagartixa que<br \/>\nbotou a cabe\u00e7a para fora de sua loca.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o nos demos conta da fome.<br \/>\nAquecemos nossas pequenas refei\u00e7\u00f5es nos fogos que t\u00ednhamos e comemos em sil\u00eancio<br \/>\nrespeitoso diante da natureza. Quando o tapete de neblina de dissolveu,<br \/>\nfinalmente, pudemos ver as cicatrizes da infesta\u00e7\u00e3o humana nas montanhas mais<br \/>\ndistantes. Mas isso n\u00e3o diminuiu a beleza de nenhuma flor sequer, somente nos<br \/>\nfez temer melancolicamente por cada uma delas.<\/p>\n<div>\n<p><a name=\"1\">*<\/a> O verso \u00e9 de uma can\u00e7\u00e3o do<br \/>\nmineiro (como eu) Z\u00e9 Geraldo.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sub\u00edamos a muito custo, por falta de costume, de equipamento. Mas sub\u00edamos com muita vontade, com m\u00e1quina fotogr\u00e1fica e a esperan\u00e7a de ver na face do vale a pegada da civiliza\u00e7\u00e3o. A montanha estava \u00e0 nossa espera ali, onde sempre estivera, sua face sul vincada como um punho erguido, desafio aos nossos p\u00e9s acostumados a plan\u00edcies. 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