{"id":1702,"date":"2014-07-18T23:04:21","date_gmt":"2014-07-19T02:04:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1702"},"modified":"2017-08-13T00:37:28","modified_gmt":"2017-08-13T03:37:28","slug":"a-janela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/07\/a-janela\/","title":{"rendered":"\u00c0 Janela"},"content":{"rendered":"<p>> Um dos primeiros textos de fic\u00e7\u00e3o que escrevi, datado, provavelmente, de 2002.<\/p>\n<p>De minha janela vejo, numa rua do morro em frente, uma mo\u00e7a que desce pela cal\u00e7ada. A dist\u00e2ncia n\u00e3o me permite conhec\u00ea-la, apenas vejo que n\u00e3o \u00e9 nem muito magra e nem muito alta, que seus cabelos  caem pelas costas e que \u00e9 dessa cor mesti\u00e7a indefinida e bela. Trajando uma blusa branca do tipo mais usado pelas mo\u00e7as comuns e uma blusa preta de mangas curtas decotada nas costas e \u2013 suponho \u2013 presa \u00e0 frente por um lacinho de cord\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto isso o \u00f4nibus vai subindo a rua maltratada, levantando poeira do ch\u00e3o. Seu ru\u00eddo \u00e9 amortecido pela dist\u00e2ncia. Uma m\u00e3e gorda, com cabelos negros em coque e usando uma enorme saia de brim, o espera no ponto, com \u2013 talvez \u2013 um rec\u00e9m-nascido nos bra\u00e7os, ou algo que est\u00e1 embrulhado em um tecido branco que pende do bra\u00e7o que o segura. Um cachorro sobe correndo o aclive, como que fugindo da amea\u00e7a mec\u00e2nica que lhe vai atr\u00e1s. <\/p>\n<p>Perto do fim da rua, a copa farta de uma mangueira impede-me de ver aonde ela vai, a mo\u00e7a que ainda desce o morro em passo firme. Um pouco mais abaixo da mangueira, a rua se dobra num rigoroso cotovelo, mas a descida em linha reta continua por um desses escad\u00f5es de concreto que h\u00e1 nos morros da cidade, substituindo a rua onde nenhum carro subiria. Ao lado direito da mangueira que interrompe o cen\u00e1rio h\u00e1 um botequim de morro, desses que mo\u00e7as n\u00e3o deviam frequentar. Mas ao lado dele est\u00e1 uma padaria, e em frente h\u00e1 um telefone p\u00fablico, males necess\u00e1rios no mundo em que vivermos. E \u00e9 ali que deve estar a mo\u00e7a que eu vi h\u00e1 pouco descendo o morro, certamente ligando para o namorado ou aguardando que toque o telefone comunit\u00e1rio na hora combinada, esta forma suburbana de encontro amoroso. <\/p>\n<p>O pr\u00e9dio cujo t\u00e9rreo \u00e9 ocupado pela padaria e pelo botequim est\u00e1 em mau estado, decadente e descascado a ponto de eu perceb\u00ea-lo desde aqui, e os andares de cima me parecem suspeitos. No que chamei de &#8220;padaria&#8221; na verdade deve haver o p\u00e3o j\u00e1 murcho da primeira fornada matinal de seu fornecedor e ainda refrigerantes em garraf\u00f5es de pl\u00e1stico, cigarros a varejo, doces embalados, balas baratas, biscoitos e baratas. No botequim, al\u00e9m de um pouco disso deve haver cacha\u00e7a, salgadinhos ran\u00e7osos, uma mesa de sinuca, mofo e um calend\u00e1rio de borracharia com a foto de alguma diva ocasional em trajes de Eva. E certamente sobrevive de sofistica\u00e7\u00f5es que talvez o escr\u00fapulo do dono da padaria o impe\u00e7a de aproveitar: contraven\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o. Quem tem olhos para ler, leia.<\/p>\n<p>Enquanto a primeira mo\u00e7a permanece oculta pela mangueira, fumando algum cigarro paraguaio enquanto aguarda o telefonema do distante amado, ou j\u00e1 dizendo-lhe emo\u00e7\u00f5es baratas extra\u00eddas de revistas ou das can\u00e7\u00f5es medonhas que se ouve no r\u00e1dio, um b\u00eabado maltrapilho de pernas sujas e unhas monstruosas sai do botequim \u2013 ou estarei fantasiando o que n\u00e3o posso ver?<\/p>\n<p>Uma segunda mo\u00e7a, mais alta e de pernas magn\u00edficas, com ancas do tipo que chama a aten\u00e7\u00e3o do povo, vem descendo a mesma rua em passos deselegantes como se o comprido das pernas a incomodasse: os p\u00e9s tocando o ch\u00e3o sem ritmo e desencontrando-se, os bra\u00e7os jogando a esmo para frente e para tr\u00e1s, com a cabe\u00e7a quicando sobre o pesco\u00e7o comprido, descontra\u00edda e desnecess\u00e1ria. Usa um short preto e blusa azul brilhante, larga e esvoa\u00e7ante. Tamb\u00e9m vai ocultar-se atr\u00e1s da mangueira que est\u00e1 na rua que se dobra ao meio em um cotovelo r\u00edspido. <\/p>\n<p>Dois meninos em uniforme de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica sobem em zigue-zague, olhando para tr\u00e1s, gesticulando freneticamente e gritando de ouvir-se daqui. Descem duas meninas, tamb\u00e9m de shorts escandalosos debaixo das barras das imensas camisetas. Encontram os meninos e trocam gloriosas r\u00e1pidas palavras que eu nunca saberei quais foram, olham em redor e gesticulam em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mangueira. <\/p>\n<p>Um homem gordo, sem camisa, barrig\u00e3o de fora, chinelos de dedo nos p\u00e9s, est\u00e1 sendo na cal\u00e7ada em frente de sua casa afagando a cabe\u00e7a de um cachorro grande de p\u00ealo escuro e observando a cena com o desinteresse de quem est\u00e1 acostumado a ver isso todo dia, seja o que for&#8230; Um vira-latas se aproxima e \u00e9 afugentado pelo c\u00e3o enorme que estava recebendo o carinho do gordo. Perto do cotovelo em que se dobra a rua j\u00e1 se aglomeram pessoas variadas: homens descal\u00e7os com roupas imundas, mulheres de barrigas molhadas de tanque e peitos esvaziados pela suc\u00e7\u00e3o febril de bocas famintas.<\/p>\n<p>As duas mo\u00e7as est\u00e3o ainda ocultas atr\u00e1s da folhagem s\u00f3lida da mangueira e uma janela se abre num dos suspeitos apartamentos que ocupam os andares superiores do pr\u00e9dio onde est\u00e3o a padaria e o botequim. Um homem diferente desce a rua pisando a poeira amarela com cuidado elegante. Usa cal\u00e7as pretas de talhe largo que se amontoam sobre os sapatos e uma camisa de tecido bem passada, de cor tamb\u00e9m escura, talvez listrada ou xadrez. Vem se apressando nitidamente e algo reluz em sua m\u00e3o direita. O vento vem, o tempo passa lento e o homem vai se escondendo atr\u00e1s da copa da mangueira enorme que me oculta a vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma mulher negra, de avental \u00e0 frente e len\u00e7o na cabe\u00e7a, desce a escada sem prestar maior apre\u00e7o \u00e0 cena que eu n\u00e3o vejo. Crian\u00e7as correm pela rua acima em um pique-pega sem descanso. Uma mulher loura falsa se debru\u00e7a sobre o parapeito desgastado da janela do apartamento decadente que est\u00e1 defronte a cena.<\/p>\n<p>A primeira mo\u00e7a desce a rua a correr sem modos, j\u00e1 n\u00e3o usa a mesma blusa preta de antes, mas uma camiseta comum. A chuva vem em gotas grossas e espa\u00e7adas que estalam nas telhas como granizo. A segunda mo\u00e7a permanece oculta e as pessoas que estavam em torno v\u00e3o se espalhando. O homem de roupa escura desce atr\u00e1s da primeira mo\u00e7a, talvez apenas fugindo do bando que o persegue agora. Minutos depois a rua \u00e9 temporariamente ocupada por policiais que chegam numa viatura anunciada por sirenes desafinadas. A segunda mo\u00e7a sobe a rua cobrindo com as m\u00e3os o rosto enquanto um embrulho grande em tecido branco \u00e9 posto dentro de um carro para ser levado. A chuva cai definitivamente, \u00e9 noite agora, o sil\u00eancio est\u00e1 imposto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De minha janela vejo, numa rua do morro em frente, uma mo\u00e7a que desce pela cal\u00e7ada. A dist\u00e2ncia n\u00e3o me permite conhec\u00ea-la, apenas vejo que n\u00e3o \u00e9 nem muito magra e nem muito alta, que seus cabelos  caem pelas costas e que \u00e9 dessa cor mesti\u00e7a indefinida e bela. Trajando uma blusa branca do tipo mais usado pelas mo\u00e7as comuns e uma blusa preta de mangas curtas decotada nas costas e \u2013 suponho \u2013 presa \u00e0 frente por um lacinho de cord\u00e3o.[&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[110],"tags":[67,121,119],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1702"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1702"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1702\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4696,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1702\/revisions\/4696"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}