{"id":172,"date":"2012-02-19T10:53:00","date_gmt":"2012-02-19T13:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=172"},"modified":"2017-11-02T14:09:01","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:01","slug":"guardai-nos-do-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/02\/guardai-nos-do-mal\/","title":{"rendered":"Guardai-nos do Mal"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Pr\u00f3logo para um romance de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica iniciado em 1999, que eu nunca procurei terminar porque descobri que J.G. Ballard j\u00e1 havia escrito uma hist\u00f3ria parecida demais.<\/div>\n<p>As ruas s\u00e3o perigosas. Sair de casa envolve sempre riscos. Por isso procuramos fortalezas, compartimentos isolados para nossos sonhos estanques. Moro em um edif\u00edcio preparado para isso. Nele moram comigo cerca de mil pessoas, mais ou menos, todas em apartamentos parecidos, de duas ou tr\u00eas pe\u00e7as. Moramos aqui h\u00e1 mais de quinze anos e mesmo depois aqui ainda est\u00e3o os que n\u00e3o moram mais: em uma necr\u00f3pole subterr\u00e2nea geometricamente organizada. Moramos aqui e mal sa\u00edmos. Trabalho e lazer podem ser achados aqui mesmo: escrit\u00f3rios, gin\u00e1stica, locadora de filmes, parque aqu\u00e1tico coberto, sal\u00e3o de jogos, restaurante, lanchonete, bar dan\u00e7ante, caf\u00e9, sal\u00e3o de beleza, parquinho infantil, lojas de conveni\u00eancia. S\u00e3o v\u00e1rios os tipos de empregos que podemos ter, gra\u00e7as \u00e0 internet, trabalhando na seguran\u00e7a de nossos cub\u00edculos pessoais. As antenas que nos conectam ao mundo ficam num \u00faltimo andar t\u00e3o fortificado que \u00e9 mais f\u00e1cil chegar nele de helic\u00f3ptero do que por elevador ou pela escada. Obviamente nem todos t\u00eam a sorte de trabalhar dentro de casa: os que se dedicam a atividades bra\u00e7ais precisam sair, outros saem porque j\u00e1 n\u00e3o confiamos que os de fora entrem trazendo-nos entregas de comida, rem\u00e9dios ou outras coisas. Faz quinze anos que este pr\u00e9dio existe, investi nele economias de duas vidas: a minha e a de minha mulher. Tenho quarenta e seis anos, nenhum filho, um emprego p\u00e9ssimo.<\/p>\n<p>Sou guarda de seguran\u00e7a. Agora sou guarda de seguran\u00e7a. Escolhi este emprego, talvez na espera de que o risco de morrer me fa\u00e7a querer viver melhor. Melhor, n\u00e3o mais. Saio de casa diariamente, quando o sol j\u00e1 est\u00e1 descendo pelo horizonte como uma bolha de ar em uma janela manchada de sangue, do sangue de Joana, do sangue que espirrou de seu peito. Joana, meu mais precioso tesouro, guardado devidamente numa urna de prata, selada com cera, no fundo de uma gaveta, no fundo de meu cora\u00e7\u00e3o. Sou guarda de seguran\u00e7a, desde que n\u00e3o consegui proteger Joana.<\/p>\n<p>Digo que \u00absaio\u00bb, mas n\u00e3o exatamente assim. Um t\u00fanel me conduz do t\u00e9rreo a uma esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4. V\u00e1rios t\u00faneis, vindos de outros grandes pr\u00e9dios, que se erguem como uma floresta de \u00e1rvores sem galhos no planalto. Edif\u00edcios para assalariados, como o meu, n\u00e3o s\u00e3o mais constru\u00eddos a torto e a direito, mas apenas onde chega a linha subterr\u00e2nea, cada vez mais dif\u00edcil de expandir. A esta\u00e7\u00e3o quase nunca est\u00e1 cheia, raramente est\u00e1 deserta. Sei que todos os que nela aparecem s\u00e3o controlados e escolhidos, observados e medidos. Mas quando ela est\u00e1 vazia eu tenho medo de olhar no rosto de quem esteja l\u00e1 comigo. Tenho medo porque o mal pode ser tanto um mendigo quanto um vizinho. Mendigos tem olhares perdidos e mentes amargas. Vizinhos t\u00eam armas.<\/p>\n<p>O trem sai da esta\u00e7\u00e3o e passa por um p\u00e1tio ferrovi\u00e1rio imenso, onde se encontram trilhos que v\u00eam de outros lugares, levando gente como eu, e gente diferente. Os trilhos eletrificados com milhares de volts impedem que os fantasmas que perambulam pelos p\u00e1tios, sob a luz cancer\u00edgena do sol, tentem entrar. Os trens t\u00eam anteparos de metal, desenhados para erguer e atirar para o lado os obst\u00e1culos que podem ficar sobre os trilhos. S\u00f3 raramente vejo algum, quase sempre tenho pena.<\/p>\n<p>Mendigos, prostitutas e marginais se aglomeram por ali, agitando bugigangas, bra\u00e7os e armas na esperan\u00e7a de fregueses, clientes, v\u00edtimas. Meu trem n\u00e3o para nestas esta\u00e7\u00f5es externas, suas janelas \u00e0 prova de bala est\u00e3o sempre cerradas. Mas h\u00e1 os outros trens, vindos dos bairros pobres, com janelas quebradas, com a obriga\u00e7\u00e3o de parar em cada esta\u00e7\u00e3o. Eles fornecem a raz\u00e3o de ser destas pessoas que se derretem sob o sol.<\/p>\n<p>A cidade hoje \u00e9 muito diferente do que era no s\u00e9culo em que nasci. As largas avenidas n\u00e3o existem mais. O tr\u00e2nsito n\u00e3o funciona mais. O louco que tentasse utilizar um ve\u00edculo de superf\u00edcie pelas ruas n\u00e3o chegaria longe: ou seria v\u00edtima de uma colis\u00e3o, pois j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 sinais nem regras, ou ser\u00e1 atacado por fac\u00ednoras. N\u00e3o h\u00e1 mais um mercado para carros roubados, mas o motorista pode ter uma moeda no bolso, para justificar a bala que o bandido atira, e o metal da m\u00e1quina vale algo para a reciclagem. Nem se comente o que pode acontecer a tal incauto se esbarrar em um dos milhares de pedestres que vagueiam por todo lado sem seguir a mais simples regra de bom senso: estranhos frutos pendem, \u00e0s vezes, das raras \u00e1rvores, frutos que frequentemente d\u00e3o tamb\u00e9m em postes. Mesmo sobrevivente a todos esses contratempos, o infeliz que tente brincar de motorista n\u00e3o chegar\u00e1 ao fim da viagem na posse de todos os seus bens, qui\u00e7\u00e1 nem de suas roupas. Ent\u00e3o, trag\u00e9dia maior, sem seus trajes cidad\u00e3os, seus documentos, seu cart\u00e3o, seu crach\u00e1\u2026 Como poder\u00e1 provar que pode entrar nas zonas reservadas, retornar \u00e0 pr\u00f3pria casa?<\/p>\n<p>Os \u00fanicos ve\u00edculos que andam pelas ruas pertencem \u00e0 pr\u00f3pria gente que nela ainda vive. O tr\u00e1fego \u00e9 irracional e os acidentes acontecem o tempo todo. Discuss\u00f5es e d\u00favidas se resolvem a bala ou a faca. Ve\u00edculos inutilizados s\u00e3o abandonados pelas cal\u00e7adas, depenados at\u00e9 os ossos de metal ficarem sob o sol, depois serrados aos peda\u00e7os, como a carca\u00e7a de um animal grande atacado por formigas carn\u00edvoras.<\/p>\n<p>No passado a pol\u00edcia ainda vinha buscar os raros e ousados criminosos que rompiam os sistemas de seguran\u00e7a. Mas isto foi ficando cada vez mais dif\u00edcil, a ponto de cada agente ter que vir debaixo de uma armadura. Mesmo em grupos e portando armamento pesado era frequente que voltassem carregando um cad\u00e1ver. Essa dificuldade de abordar o habitat dos bandidos levou \u00e0 solu\u00e7\u00e3o natural: cercas melhores e a ordem de matar quem n\u00e3o esteja autorizado a estar onde esteja. A ordem \u00e9 que o bandido n\u00e3o chegue e voltar, assim n\u00e3o \u00e9 preciso ir buscar.<\/p>\n<p>Eu me lembro vagamente, quando ainda era uma crian\u00e7a, de uma \u00e9poca em que as casas tinham portas para as ruas e era poss\u00edvel chegar em todos os lugares. As pessoas costumavam usar bicicletas m\u00f3veis como transporte: eu mesmo tinha uma prometida para quando meu pai ganhasse um aumento. Mas o agravamento da situa\u00e7\u00e3o levou o governo a isolar certas \u00e1reas das outras, criando fortalezas cada vez mais densas. Compartimentos cada vez mais estanques. A \u00fanica \u00e1rea livre onde se pode ainda ter a sensa\u00e7\u00e3o de andar pelas ruas \u00e9 o centro. Ele foi cercado por um muro alto de pedra, envolto por um campo minado, com guaritas de seguran\u00e7a e luzes fortes. No centro ainda se pode andar por ruas, mas n\u00e3o em bicicletas m\u00f3veis: h\u00e1 muita gente que precisa andar, muito transporte. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para isso, seria estranho perder pedalando um tempo que poderia ser cortado ao meio ao pegar a esteira certa e o elevador direto. Ningu\u00e9m por l\u00e1 anda a esmo: todos t\u00eam uma dire\u00e7\u00e3o e cada um conhece o seu caminho, o seu restaurante. Mesmo no centro \u00e9 relativamente perigoso andar \u00e0 toa.<\/p>\n<p>Mas se voc\u00ea for rico o bastante, poder\u00e1 alugar um carro el\u00e9trico, com uma carro\u00e7aria que imita os antigos sed\u00e3s de luxo, e fazer um passeio, rom\u00e2ntico ou familiar, pelos parques e pra\u00e7as. Alguns ao lado do centro, outros um pouco mais longe, mas unidos a ele por estreitas passagens por onde se pode ter a antiga sensa\u00e7\u00e3o de dirigir em uma rodovia sob o sol. No parque ainda se pode tomar sorvete, pedalar no lago um barquinho em forma de cisne, sentar \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore e desfrutar de minutos relativos de sil\u00eancio. Anualmente fa\u00e7o isso. No sil\u00eancio entre as \u00e1rvores escuto a voz de Joana, lembro de quando nos conhecemos num parque desses, numa \u00e9poca em que ainda era aberto.<\/p>\n<p>Pouca gente vive no centro. Somente alguns saudosos do passado, que querem ter a sensa\u00e7\u00e3o de um jardim privado, de uma varanda para a rua ou da contempla\u00e7\u00e3o do tr\u00e2nsito. Custa caro, o conforto \u00e9 menor que em qualquer apartamento, mas os que ainda insistem dizem que vale a pena. Eu pagaria o aluguel de uma dessas casas antigas se pudesse, para ter meu pr\u00f3prio carro el\u00e9trico na garagem, um canteiro de rosas na frente e uma churrasqueira no fundo para passar domingos em fam\u00edlia. Pagaria se tivesse uma fam\u00edlia. Nenhum aluguel seria caro para isso.<\/p>\n<p>Em vez disso eu vivo nas entranhas de um edif\u00edcio sem alma. Para onde volto cada noite em busca do fantasma de Joana. Volto, deito-me na cama sem fechar a janela e tento sentir o frio, deixo a luz acesa para dissipar a treva. N\u00e3o sei aonde pode estar Joana, certamente n\u00e3o em meus sonhos. Trabalho com estranhos, minha tarefa atirar nos que tentam entrar. Tenho vergonha deles, tenho vergonha disso. Guardo meu uniforme num arm\u00e1rio no servi\u00e7o para que ningu\u00e9m veja o que sou. O monstro que sou. N\u00e3o salvei Joana, mas mato os sonhos de outras pessoas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto tempo ainda vou aguentar. A alegria \u00e9 uma bolha de ar que j\u00e1 chegou no parapeito da janela. O sangue de Joana escorre lentamente, me lembrando que em breve eu vou tamb\u00e9m, e n\u00e3o haver\u00e1 nenhum Para\u00edso para mim, monstro que sou. Arrasto minha carca\u00e7a pelo mundo, por entre cora\u00e7\u00f5es vazios e olhares gelados. Solit\u00e1rio. Essas pessoas me olham como quadros nas paredes. Mas seus olhares me seguem, \u00e0s vezes, fazendo-me sentir que estou nos corredores de uma mans\u00e3o mal assombrada. Um cora\u00e7\u00e3o sem resposta, um homem sem filho, sozinho com suas lembran\u00e7as. Talvez essas pessoas me reconhe\u00e7am. E nenhuma sequer me odeia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pr\u00f3logo para um romance de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica iniciado em 1999, que eu nunca procurei terminar porque descobri que J.G. Ballard j\u00e1 havia escrito uma hist\u00f3ria parecida demais. As ruas s\u00e3o perigosas. Sair de casa envolve sempre riscos. Por isso procuramos fortalezas, compartimentos isolados para nossos sonhos estanques. Moro em um edif\u00edcio preparado para isso. Nele moram comigo cerca de mil pessoas, mais ou menos, todas em apartamentos parecidos, de duas ou tr\u00eas pe\u00e7as. 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